Capítulo 106: Presentes de Natal
O teto, iluminado pela luz que atravessava a janela, já deveria ter se cansado de me encarar de volta. Eu estava deitado na cama, imóvel, ainda tentando, só tentando, acreditar no que havia acontecido no dia anterior.
A revista. Meu nome impresso. Minha história.
Disponível para qualquer um que quisesse ler.
Era… surreal.
Deslizei a mão pelo rosto, tentando limpar os resquícios de sono, fechando os olhos por um segundo.
Tudo parecia um sonho.
E uma parte de mim tinha medo de acordar e ser puxado para uma realidade diferente. Mas a lembrança de tudo era tão vívida e clara, que chegava ser impossível aquilo ser apenas um sonho.
A vitória no concurso. As reuniões com Shihei. Minha nova história. A revista.
Apenas de pensar naquilo, senti um sorriso bobo sendo formado no meu rosto. E foi nesse momento que fui interrompido por uma mensagem
— Hm? — murmurei, virando o rosto até a cabeceira.
Era uma mensagem do grupo da turma. Nos últimos dias, havíamos conversado sobre uma saída antes do Natal chegar.
“Vamos nos encontrar aqui.”
Kazuki mandou a localização de um karaokê no centro da cidade, e logo as confirmações de ida começaram a aparecer no grupo. Mesmo que alguns não poderiam ir, por conta de viagens familiares e coisas assim, a maioria da turma parecia empolgada para isso.
Meu olhar automaticamente percorreu os nomes das pessoas que enviaram confirmação, na esperança de ver o nome dela.
— Será que ela também vai…? — suspirei, enviando minha confirmação e deixando o celular de canto na cabeceira.
Suspirei.
E, novamente, encarei o teto.
O Natal se aproximava cada vez mais de nós. O inverno já estava na porta, junto daquele clima incrivelmente frio. As férias já não demorariam para acabar, apenas mais algumas semanas restantes.
E com isso, a revista já estaria disponível para todos comprarem.
Novamente, outro sorriso idiota apareceu, apenas de pensar nos rostos e reações de pessoas comprando e vendo-me na primeira página…
Mas, antes que continuasse me perdendo nesse tipo de pensamentos, meu celular começou a vibrar.
“De novo?”
Estiquei o braço até a cabeceira, pegando o celular e me deparando com o nome de Seiji vibrando na tela.
Soltei um suspiro. Provavelmente, queria jogar algum jogo como sempre. Sem muito que fazer, atendi a ligação.
— …Qual jogo dessa vez? — perguntei, claramente não muito animado.
Mas, para a minha surpresa, o tom dele veio mais agitado que o normal, me pegando de surpresa.
— Esquece isso! Preciso da sua ajuda, é urgente! — Ele começou, falando com um tom do tipo desesperado.
Levantei a sobrancelha, claramente surpreso com aquela intensidade. Normalmente, ele me cumprimentaria com uma risada típica e já escolheria o jogo.
Mas aquilo era diferente…
“O que será?”
— O que aconteceu?
— Eu realmente preciso de sua ajuda, Shin. — seu tom me deixou desconcertado, fazendo com que eu sentasse na cama.
— O que tá acontecendo, Seiji? Fala pra mim — perguntei, começando a ficar preocupado.
Seiji não era típico disso. Tinha algo realmente errado, e sentia que alguma coisa estranha começou a pairar no ar.
— Eu… Eu preciso… — Houve uma pausa dramaticamente longa demais, mas continuei atento a cada palavra. — Preciso… comprar um presente pra Yumi.
— Hã!?
Quase engasguei na hora com minha própria saliva. A preocupação acumulada começou a se desfazer lentamente.
“Era só isso…?”
Ainda assim, era estranho.
Seiji dando um presente? Para Yumi?
— Presente? Mas por quê? É aniversário dela ou algo assim? — perguntei, genuinamente curioso.
— Que? Não! — rebateu no mesmo segundo. — É que algumas pessoas vão levar presentes no encontro do karaokê, sabe? Então pensei que também… deveria levar algo pra ela.
— Ah… entendi — respondi, coçando a cabeça.
Então, algumas pessoas iriam levar presentes… e Seiji queria dar algo para Yumi.
— O problema é que… não pode ser qualquer coisa! — começou, mas seu tom logo se suavizou. — Queria entregar algo especial… mas não algo brega.
“Hmmm… talvez…”
Olhei para o lado de fora da janela, encarando o céu levemente cinzento. O som do vento batia nas janelas, e isso me fez pensar em um presente perfeito que qualquer pessoa adoraria receber no inverno.
— E que tal um aquecedor de bolso? Tá fazendo frio, então seria útil.
Achei que era um bom presente, genuinamente. Mas a resposta de Seiji acabou me deixando pra baixo…
— Hã!? E que garota iria ficar feliz ao receber isso!?
Talvez pensar em algo bom fosse mais difícil do que pensava.
Suspirei, deitando na cama e encarando o teto. Não havia muitas opções de presente. Ele queria dar algo especial, mas que não fosse brega…
“Talvez algum item do dia a dia que ela usasse toda hora?”
“Um cachecol parece simples também…”
“Ah, mas sem exageros também. São só presentes pra turma…”
Tentei pensar em Yumi, algo que combinasse com ela…
Foi então que uma lâmpada se acendeu na minha cabeça.
— Já sei! Que tal uma pulseira? Um acessório ou assim. Ela costuma usar isso — respondi, rindo meio sem graça.
Do outro lado da linha… apenas um silêncio.
“Hm? A ligação caiu?”
Olhei para o celular, mas ainda continuava na chamada. Foi então que a voz dele voltou, mas veio mais baixa e… carregada de hesitação.
— Não dá… Eu ficaria com vergonha de entregar algo assim…
“Hein!?”
Quase pulei da cama, genuinamente assustado. Até me perguntei se eu não ouvi coisas.
Vergonha? Seiji?
Não, não. Era realmente impossível associar essa palavra a ele. A pessoa que eu conhecia parecia capaz de dizer qualquer coisa sem piscar.
Mas… vergonha?
Antes que pudesse continuar nesses pensamentos, ele limpou a garganta e interrompeu:
— Mas e você? O que você vai comprar? — perguntou, o tom voltando ao normal e parecendo interessado.
No entanto, meu corpo travou.
— Eu!?
— E quem mais seria, idiota!? — Ele deu uma risada, e seu tom logo ficou mais esquisito. — Espera aí… não me diga que não pensou em nada para entregar pra Yuki…?
Senti meu rosto esquentar levemente, e engoli em seco.
— Não…?
Digo, sequer sabia que iriam entregar presentes… e então, precisava realmente entregar algo pra ela?
— Eu sabia! — riu novamente, e parecia que eu podia ver ele rindo do outro lado da tela. — A gente tá junta nessa, então!
Fiquei em silêncio por alguns instantes, a mente girando e o olhar voltando para a janela.
“Um presente pra ela…? Mas o quê?”
Não tinha a mínima ideia do que ela poderia gostar.
Talvez algo relacionado ao atletismo? Algo útil para os treinos?
Como uma garrafa de água?
Ou algo mais… pessoal?
Como uma… pulseira? Ou… um colar?
Só de imaginar a cena, Yuki sorrindo enquanto segurava uma pulseira que eu tivesse dado, meu rosto começou a esquentar.
— Que vergonha…! — murmurei, escondendo o rosto no travesseiro.
Me virei, e passei a mão pelo rosto, indo até os cabelos. Não tinha como eu dar algo assim… teria que ser algo mais simples e útil.
— Ei, tá ouvindo? — Seiji chamou, com aquela animação de sempre. — Vamos logo pro shopping, Rintarou também vai vir!
Olhei para o teto, novamente, sentindo o coração levemente acelerado.
Um presente de Natal para Yuki.
Suspirei, e me levantei da cama, decidido a fazer isso.
— Vou me arrumar — falei para Seiji, ainda vermelho mas… com uma leve determinação crescendo dentro de mim.
Eu iria comprar algo para ela.

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