Capítulo 120: Raízes de Inverno
O ar gélido me atingiu com força assim que abri a porta. O sopro frio de inverno atravessou o corredor, esfriando rapidamente o ambiente.
Eu pisquei algumas vezes, ainda tentando entender por que aquela figura estava sozinha, parada bem… na minha porta.
— Himari…? — Minha voz saiu um pouco mais alta que o habitual, carregada de um pequeno misto de confusão e surpresa. — O que… o que você tá fazendo aqui sozinha? Onde tá seu irmão, Rintarou?
Ela então, com o nariz levemente avermelhado pelo frio e um cachecol grosso enrolado até o queixo, deu um pequeno sorriso travesso.
— Feliz Natal! — ela disse meio animada, antes de completar num tom mais casual — Ele já vem… tá ajudando o papai e a mamãe a tirar umas coisas do porta-malas. Eu aproveitei e corri na frente!
Suspirei, resignado. Abri a porta mais um pouco, para ela entrar e, no mesmo instante, algo passou correndo do meu lado, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio por um segundo.
— Himari! — a voz animada de Hana surgiu do nada ao meu lado, seguido de um abraço apertado.
— Hana! — ela retribuiu o gesto sem hesitar, respondendo no mesmo tom
Em segundos, ambas já estavam falando ao mesmo tempo…
A conversa foi desde as roupas que usavam e algumas teorias sobre a rota do Papai Noel naquela noite… Elas então passaram por mim rindo e correndo para o calor da sala.
Novamente, soltei um suspiro longo, fechando a porta parcialmente para manter o calor dentro de casa.
— Fala sério… — murmurei para mim mesmo, mas não consegui evitar um pequeno sorriso.
No mesmo segundo, ouvi passos do lado de fora. Ao virar a cabeça, finalmente me deparei com eles.
Ambos atravessaram a calçada na minha direção, andando sob o céu nublado. Seiji vinha na frente, equilibrando três sacolas de compras com um entusiasmo exagerado, mas que era normal pra ele, enquanto Rintarou caminhava logo atrás, com sua postura ereta e calma de sempre, carregando uma pequena caixa com cuidado
— Feliz Natal! — Seiji gritou assim que me viu na porta, com aquela voz estupidamente alta que praticamente ecoou pela vizinhança silenciosa.
— Fala baixo. — Rintarou murmurou, embora houvesse um brilho de diversão no seu olhar quando ele me cumprimentou com um aceno de cabeça. — Feliz Natal, Shin.
— Feliz Natal, pessoal! — respondi, descendo os degraus da entrada e pegando as sacolas mais pesadas da mão de Seiji. — Deixa eu ajudar com isso.
Entramos, após os cumprimentos, carregando as coisas para dentro.
Seiji, como sempre, entrou na casa como se vivesse ali todo dia, cumprimentando meus pais com uma energia que parecia impossível para quem tinha acabado de carregar aquelas compras pesadas no frio.
— Tio! Tia! Feliz Natal! — Seiji exclamou, já indo em direção à cozinha. — O cheiro tá incrível! Eu também trouxe aquela sobremesa que vocês gostam!
Meu pai, que estava terminando de ajustar uma luz na árvore, virou-se ao ouvir a voz dele e abriu um pequeno sorriso no rosto.
— Seiji, Rintarou! — disse, aproximando-se para cumprimentá-los. — Como vocês cresceram!
— Não é!? — Seiji respondeu, sorrindo e coçando a ponta do nariz, claramente orgulhoso.
Não demorou muito para que os pais de ambos cruzassem a porta. O corredor se encheu de casacos pesados, abraços calorosos e trocas de “Feliz Natal”.
— Feliz Natal!
— Que frio, não é?
As mães se dirigiram quase instintivamente para a cozinha, onde a minha mãe estava nas panelas. Em instantes, o som de risadas femininas e o barulho de talheres se juntaram com o cheiro do que era assado no forno.
Do outro lado, os pais se acomodaram na sala, logo cumprimentaram meu pai, falando sobre a falta dele por ali.
Não demorou muito para que os três criassem um espaço no sofá e iniciassem as conversas típicas sobre como o trabalho e como o tempo estava passando rápido…
Enquanto isso, no canto da sala, Hana e Himari já tinham espalhado metade dos brinquedos pelo chão, brincando ao pé da árvore de natal e dos novos presentes colocados pela ambas famílias.
Eu me encostei na parede da sala, só observando todos juntos, rindo, conversando, brincando, enquanto Rintarou e Seiji se aproximavam de mim.
Aquele cenário tinha se tornado o meu normal. Uma rotina anual que eu só percebia quando parava para olhar de verdade
Já era uma tradição antiga, quase tão antiga quanto aquela árvore na nossa sala.
Que, por sinal, era de verdade.
A cada Natal, as três famílias se reuniam na casa de um de nós. Fazia anos que era assim, desde que nós três, Seiji, Rintarou e eu, éramos crianças.
Então, sem que eu percebesse, meus pensamentos começaram a divagar.
Se eu nunca tivesse ido naquele lugar. Naquele exato dia.
Se eu nunca tivesse ido para aquela escola.
Se eu nunca tivesse cruzado aquele caminho e ter encontrado eles…
Como seria a minha vida naquele momento?
— Ei, Shin! Vou ir pro seu quarto jogar, tá!? — A voz de Seiji me puxou pra realidade, enquanto ele praticamente corria para o quarto.
— Ei. Você veio aqui pra jogar…? — Rintarou suspirou, resignado, já esperando aquilo dele.
Eu apenas soltei uma pequena risada.
O barulho era constante, fosse na cozinha ou na sala, e o calor humano era praticamente palpável e o ambiente era a definição de acolhimento.
Então, acabei olhando para cada rosto ali presente.
O sorriso gigante de Seiji, como sempre, enquanto subia as escadas. A calma típica de Rintarou. O brilho animado nos olhos de Hana e Himari enquanto brincavam. As risadas vindas de nossos pais, misturada com as conversas.
“Ah.”
E então eu soltei um suspiro.
Pela primeira vez em dias, aquele peso invisível das minhas dúvidas sobre a minha história, e o nervosismo sobre a Yuki e o Ano Novo pareceram… simplesmente ir para longe de mim, ficando pequenos diante daquilo tudo na minha frente.
Quase insignificantes, ou assim.
Respirei fundo, deixando o calor do ambiente e o som das vozes familiares continuarem ali, bem presentes. O Natal tinha enfim começado na minha casa.
E, de alguma forma, eu sabia, com uma certeza bem tranquila, que eu estava exatamente onde deveria estar.

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