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    Eu então entrei na casa dela, ainda me sentindo… desconcertado. Assim que atravessei a porta, o calor aconchegante do interior me envolveu por completo, e o tremor no meu queixo começou a desacelerar.

    —  Pode deixar seus sapatos aqui, por favor — ela disse, enquanto descalçava os dela.

    — Ah, sim — assenti, tirando meus tênis encharcados e colocando-os ao lado dos dela. 

    Pendurei meu casaco pesado e molhado no cabideiro, ainda hesitante. Ela então agachou, puxando uma gaveta perto da entrada, e de lá retirou duas pequenas toalhas.

    Ela pegou uma, e estendeu-a para mim com um leve sorriso. 

    — Aqui. Pode usar para se secar. 

    Peguei a toalha e a passei sobre o cabelo, tentando tirar o excesso de água. Ela fez o mesmo, e logo o som abafado da chuva lá fora pareceu se distanciar um pouco.

    Logo após, andou pelo corredor, enquanto eu apenas a seguia. Yuki olhava de um lado para o outro, provavelmente vendo se tinha mais alguém ali. 

    — Mãe? Pai? — Ela chamou, com a voz ecoando suavemente pela casa. — Cheguei.

    Mas não houve nenhuma resposta. 

    Ela parou, deu uma olhada rápida na cozinha e franziu a testa.

    — Ah, entendi. — Ela se virou para mim, com um leve rubor ainda no rosto. — Kaito ainda não chegou, e meus pais… devem ainda estar presos no trabalho…

    “Hã?”

    — Entendi… — respondi, desviando o olhar, enquanto o nervosismo tomava conta de mim.

    Minha garganta começou a secar.

    Aquilo significava que realmente não havia mais ninguém em casa. 

    Apenas… eu e Yuki. 

    Estar a sós com ela, na própria casa dela, era muito mais intimidante do que em qualquer outro lugar.

    Ela então parecia ter notado minha mistura de desconforto e nervosismo.

    — Pode ir pra sala! — disse com suavidade, apontando o caminho. — Eu já levo algo quente pra você beber!

    Apenas assenti, timidamente.

    O espaço era amplo e acolhedor, e o calor que vinha do aquecedor se espalhava pelo ambiente. 

    Sentei-me na borda do sofá, ainda um pouco tenso.

    Bem, era impossível não ficar tenso naquela situação.

    Olhei em volta, vendo o ambiente aconchegante. A sala era organizada e brilhante, os móveis eram claros, e o local tinha um cheiro doce e suave. 

    “Que bom…”

    Era como imaginava que a casa dela seria.

    Ainda olhando ao redor, enquanto esperava Yuki voltar, notei pequenas fotos emolduradas em cima de um móvel. Sem pensar muito, acabei me aproximando dele.

    Nela, Yuki e Kaito mais novos. Ela segurava um pequeno troféu, provavelmente de uma competição de atletismo, e no rosto dela… um sorriso gigante, ao lado de uma garota que parecia ser uma amiga.

    Fiquei ali, observando por alguns segundos, até ouvir os passos dela voltando pelo corredor.

    Voltei imediatamente para o sofá, tentando disfarçar, como… se não estivesse invadindo a privacidade dela.

    “O que eu tô fazendo…”

    Ela então entrou na sala, trazendo duas canecas quentes, com a fumaça subindo e o aroma se instalando. Se aproximou do sofá, e me entregou uma.

    — É chá de gengibre — disse, sorrindo levemente. — Minha avó diz que é bom para o frio.

    — Ah, obrigado — respondi, pegando na caneca com as duas mãos. 

    “Que cheiro bom.”

    Ela então sentou-se no sofá… perto demais. 

    A distância entre nós era pouca, a ponto de eu quase sentir o calor dela. 

    Meu coração deu um leve salto, e tentei ignorar aquilo ao focar no vapor que subia da caneca de chá, mas era inútil.

    — Que bom! Tá bem quentinho — ela comentou, após dar um gole, sorrindo enquanto me olhava.

    — …Pois é, bom mesmo — respondi, ainda desconcertado. 

    O calor do chá me acalmava um pouco, mas não o bastante. A verdade é que a proximidade dela me deixava completamente tenso. 

    Tão tenso que sequer conseguia beber o chá direito.

    O silêncio então retornou.

    Diferentemente do silêncio da caminhada na neve, esse era… um pouco mais denso? Era apenas quebrado pelo som da chuva na janela, e de carros passando do lado de fora. 

    Mesmo sem dizer nada, ambos pareciamos estar conscientes de que… estávamos sozinhos ali.

    Sem mais ninguém por perto.

    — V-vou ligar a TV! — ela disse de repente, pousando a caneca e se inclinando para a frente.

    — Ah, sim! — respondi alto demais.

    Ela pegou o controle remoto na mesinha de centro e ligou a TV. O som repentino de uma música de Natal e risadas de um programa invadiu a sala. 

    Ela trocou os canais rapidamente, até parar num noticiário.

    — …o tempo severo deve continuar pela noite, com risco de chuva congelada. Recomenda-se cautela, e que a população evite sair de casa…

    Fiquei em silêncio por um momento, com o olhar preso na tela.

    Aquilo era ruim. Muito ruim.

    Eu deveria ir o mais rápido possível para casa, mas aquela notícia tinha acabado com qualquer possibilidade de eu sair mais cedo.

    — Hm… Kaito deve estar preso no trânsito por causa desse tempo — comentei, pousando a caneca de chá do meu lado.

    — Provavelmente, mas tá tudo bem — ela suspirou, mas tentou soar relaxada.

    Ela parecia tranquila. 

    Eu, por outro lado, não conseguia ficar nem um pouco.

    Quanto mais tempo ficava ali, tão próximo dela, mais sentia o coração apertar.

    Ela trocou de canal novamente, encontrando algum programa de variedades. Ao terminar de usar o controle, ela pousou-o no sofá, bem… ao lado dela.

    Onde minha mão estava.

    Nossas mãos tocaram

    O controle ainda preso na mão dela, e a palma encostando na minha.

    Eu senti o calor súbito da mão dela, macia, e o formato delicado de seus dedos contra os meus.

    Era como se o tempo tivesse parado. Como se tudo tivesse ficado silencioso.

    …Como se a neve tivesse ficado mais intensa e congelado meu corpo. 

    Congelado tudo, exceto minha mão.

    Foi só então que, após alguns segundos, demos conta da situação embaraçosa…

    Nossas mãos ainda estavam próximas. O calor entre elas… era impossível de ignorar.

    E, no instante seguinte, afastamo-nos ao mesmo tempo, como se um pequeno choque tivesse nos atingido no mesmo segundo.

    — D-desculpa…! — ela disse apressadamente, com o rosto vermelho. 

    — Não tem problema! — respondi, com minha cara queimando e a voz falhando. 

    O silêncio entre nós dois então retornou.

    Cada um virado para o canto oposto, evitando o outro após aquela situação… vergonhosa. Meu coração estava tão acelerado que tentei respirar mais devagar, para tentar acalmar os nervos.

    O programa de variedades ainda continuava como ruído de fundo, quebrando levemente aquele silêncio constrangedor.

    — …Acho que vou tomar um banho — ela disse, finalmente, com a voz baixa e o olhar desviado. — Minhas roupas ainda estão molhadas. Já volto…

    — Tudo bem… — assenti, quase com a voz falhando.

    Ela então se levantou, ainda meio hesitante, e desapareceu pelo corredor, e então eu expirei aliviado. Quase como se todo aquele tempo, eu estivesse prendendo a respiração.

    Eu levei minha mão ao rosto. Ainda sentia o calor de seu toque. A mão de Yuki era… tão suave, e tão pequena. 

    Tanto que a delicadeza dela me deixou completamente atordoado e queimando. 

    Como algo tão simples podia me deixar tão… desconcertado?

    — Hah… o que eu tô fazendo… — suspirei, esfregando as mãos no rosto.

    Talvez fosse a hora de ir embora.

    Eu simplesmente não conseguiria ficar ali por mais um segundo.

    Levantei o rosto, ainda meio quente, e mudei o canal para o noticiário novamente. A chuva só parecia piorar, e a neve ainda continuaria caindo.

    — Se eu correr rápido o suficiente… acho que consigo — murmurei para mim mesmo.

    Era isso.

    Então me levantei do sofá, notando que ele tinha ficado um pouco molhado. Deixei a caneca na mesinha, e me preparei para ir embora. 

    Saí da sala, indo para o corredor pegar meu casaco encharcado, mas o que eu ouvi… foi o suficiente para que meu coração desse um pequeno salto no peito. 

    Era o som… da chave girando na fechadura.

    — Eh…!?

    Seriam os pais dela? Aquilo era ruim. Como eu iria explicar o que estava fazendo ali? Encharcado, nervoso… e sozinho na casa da filha deles?

    Meu coração acelerou novamente, enquanto a mente apenas corria com perguntas. 

    O som da maçaneta girando veio logo em seguida. A porta se abriu lentamente, e o vento gélido da noite invadiu o corredor.

    Então a figura entrou, olhando para baixo enquanto sacudia a cabeça para tirar a água da chuva do cabelo.

    Quando a pessoa finalmente levantou o rosto… ela me viu. E congelou.

    — Ah…!

    — Hein!?

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