Capítulo 119: O Presente Dela
Eu não conseguia. Simplesmente não dava.
Minha mente girava sem parar com o que tinha acontecido na noite anterior.
Eu mal tinha dormido. Sempre que fechava meus olhos, as lembranças voltavam, e elas eram tão claras que eram praticamente impossíveis de ignorar.
Karaokê. Yuki. Presente. Sentimentos…
Eu resmunguei baixo, puxando o cobertor sobre a cabeça. As palavras de Kaito sobre ter coragem ecoavam sem parar, e a imagem de Yuki segurando minha camisa e me convidando timidamente não saía da minha mente.
Toda vez que eu pensava em como ela falou, do jeito… fofo que desviava o olhar, enquanto reunia coragem, eu sentia meu corpo ficar mais pesado.
E, inevitavelmente, também pensava no que eu faria assim que estivéssemos juntos no Ano Novo.
O que eu faria quando o momento certo chegasse?
Iria encarar meus sentimentos?
Ou continuaria fingindo que nada estava acontecendo entre nós dois?
— Ah… — suspirei, sentindo a frustração pesar, tirando o cobertor da cabeça.
Pensar muito não adiantaria em nada. O sol já estava alto, querendo ou não, eu precisava logo começar o dia.
Com mais um suspiro, completamente rendido, me levantei e desci as escadas. O cheiro de café e pão torrado me atingiu assim que cheguei à cozinha.
— Bom dia! — Minha mãe me recebeu, sorrindo enquanto pendurava umas luzes na parede. — Feliz Natal.
“Hm?”
Eu pisquei, olhando ao redor, ainda meio confuso com aquilo. A sala era uma completa bagunça, cheia de bolas de várias cores, decorações e cabos de luzes.
Demorou um pouco, até eu me lembrar de que dia era aquele.
— Ah, é mesmo — falei, sentindo o clima mudar. — Já é véspera de Natal.
Olhei para a sala, onde vi Hana que estava sentada no chão, ajudando meu pai a desembrulhar os enfeites da caixa. Ela falava sem parar, com seus olhos brilhando de entusiasmo.
— Papai Noel! Ele tem que vir hoje, né, papai? Eu fui boazinha!
— É claro que ele vem, Hana. — Meu pai respondeu, com a voz grave e paciente, enquanto pendurava uma estrela na ponta da árvore. — Mas ele só vai saber se você foi boazinha se você arrumar sua cama.
— Ah…! — Ela disse, desapontada e com os ombros caídos, enquanto minha mãe ria baixo na cozinha.
O ambiente era aconchegante, preenchido pelo calor confortável e vozes familiares.
Peguei uma xícara de café e sentei na mesa. Enquanto levava a xícara fumegante até os lábios, minha mente voltou quase imediatamente para o trabalho.
“…..”
Eu precisava continuar a história.
Comecei a repassar a narrativa mentalmente, enquanto bebia mais um gole.
Os diálogos principais estavam sendo construídos, as cenas pensadas. Meus personagens principais estavam sendo bem desenvolvidos, digo… pelo menos para mim.
E ainda assim, aquelas dúvidas sempre voltavam:
Os leitores conseguiriam se conectar com eles?
Eles entenderiam o que meus personagens sentiam?
Teria que realmente explicar tudo, ou eles conseguiriam perceber?
Depois de algum tempo perdido nesses pensamentos encarando o teto, terminei o café, deixando a louça na pia.
Sabia muito bem que a única forma de afastar aquelas incertezas era fazer o de sempre.
Continuar escrevendo.
Então subi para o meu quarto. A mesa estava como eu a havia deixado, com aquele pequeno caos familiar habitual. Cheia de papéis, canetas comuns, e o meu caderno de anotações.
Mas havia algo de diferente ali.
A pequena caixa de presente.
Aproximei-me e abri a caixa com cuidado. Peguei a caneta, sentindo o leve frio quando a toquei. Ela era elegante e equilibrada na minha mão, se encaixando na minha mão.
Era… perfeita.
Sentei-me, alonguei os braços sobre a cabeça.
— Vamos a isso… — murmurei, depois de me alongar
E então, a ponta dela tocou pela primeira vez no papel.
A sensação… era incrível.
A tinta preta fluía, até deslizava, sobre o papel com uma suavidade inacreditável, quase sem atrito. Instantaneamente, um sorriso se formou no meu rosto. Não era apenas uma caneta de qualidade, era tipo, como se tivesse algo a mais ali. Quase como… o toque dela.
Continuei escrevendo, perdendo totalmente a noção do tempo. As palavras fluíram perfeitamente, uma após a outra, e quando me dei conta, já haviam se passado vários e vários minutos… Eu estava completamente imerso na história
Continuou assim por um bom tempo, até que parei.
Olhei para o papel na minha frente, e suspirei baixo.
A tensão da história estava lá, e os elementos certos também, mas sentia que tinha algo faltando.
Mais uma vez, aquela sensação incômoda de estar preso tomou conta de mim por completo.
As ideias, antes tão claras e soltas por aí, corriam para longe de mim.
Soltei a caneta na mesa, frustrado, e coloquei a cabeça nos braços enquanto murmurava.
— O que eu vou fazer? Eu travei de novo…
Mas, no fundo, sabia que não podia simplesmente me forçar a escrever. Saberia que iria sair algo tão… ruim que eu apenas apagaria mais tarde.
Eu já havia aprendido isso antes.
— Talvez seja melhor parar por hoje…
No exato momento em que levantei a cabeça, completamente frustrado, o som alto da campainha ecoou pela casa.
Foi então que ouvi a voz da minha mãe me chamando, vindo da cozinha.
— Shin, abre a porta, por favor! Deve ser o Seiji e o Rintarou!
Soltei um suspiro de alívio enquanto me levantava da cadeira. Uma desculpa perfeita para parar, ainda que só por alguns instantes.
Abri a porta do quarto e desci as escadas.
Na sala, Hana e meu pai ainda finalizavam a decoração da árvore, trocando comentários enquanto o cheiro intenso de temperos vinha da cozinha, preenchendo a casa com aquele calor típico de véspera de Natal
A campainha tocou novamente, curta e insistente.
— Já vai… — murmurei, um pouco mais alto do que devia.
Acelerei o passo até a porta, segurei a maçaneta e girei-a e puxei, já preparado para encontrar o sorriso exageradamente animado de Seiji e a expressão tranquila de sempre do Rintarou
Mas o que vi do lado de fora… não eram nenhum deles dois.
Meus olhos se arregalaram levemente por um instante, antes que eu percebesse completamente quem estava ali, na minha frente.
O frio do lado de fora entrou junto com o silêncio súbito que se formou.
— Himari…?

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