Capítulo 121: Páginas e Neve
O pequeno barulho confortável ainda continuava na casa, se tornando numa mistura de conversas e risadas em cada canto do ambiente.
O som dos talheres vindo da cozinha, onde as mães preparavam as últimas coisas da ceia, se misturava com a risada dos pais no sofá e do barulho… constante, de Himari e Hana brincando no chão da sala.
Eu ainda continuava encostado na parede, apenas observando. Seiji tinha descido para ajudar a mãe dele com algo, e Rintarou estava ao meu lado, conversando comigo em um tom baixo.
Não fazíamos nada em especial… só compartilhando aquela sensação boa de estarmos ali.
Mas foi então que o som da campainha atravessou o ambiente.
“Hm?”
Eu estranhei imediatamente. Todas as famílias já estavam reunidas, não estávamos esperando mais alguém… certo? Então quem mais poderia ser?
— Eu atendo… — falei, já desencostando da parede e me dirigindo ao corredor.
Pensei que pudesse ser algum vizinho novo trazendo um presente ou assim, mas… quando girei a maçaneta e abri a porta… eu realmente vi quem eu menos esperava.
Eu congelei.
— Merry Christmas!
Era… Kaori.

— Hein? Kaori? — Minha voz saiu, carregada de surpresa e confusão. — O que você tá fazendo aqui? Aconteceu algo?
Ela estava com as bochechas e a ponta do nariz avermelhadas por causa do vento, e usando um casaco bege longo e um cachecol grosso vermelho, que escondia parcialmente seu rosto. Nas suas mãos… uma pequena sacola que parecia ter algo embrulhado lá dentro.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ouvi os passos de alguém vindo atrás de mim. Inclinei levemente o rosto, me deparando com minha mãe com um pequeno sorriso no rosto, quase como se ela estivesse esperando por ela ali na porta.
E talvez estivesse.
— Ah, que bom que você chegou, Kaori! Vem, entra. Tá frio aí fora, né? — Ela disse, já puxando ela para dentro e a ajudando com o casaco.
Eu pisquei algumas vezes, confuso, com meu olhar indo de uma para a outra.
— Os pais dela viajaram para ver os avós no interior, então convidei ela pra não passar o Natal sozinha — Minha mãe disse, olhando pra mim, sabendo que eu queria saber o motivo dela estar ali.
— Ah sim, entendi — respondi, me lembrando de Kaori ter mencionado sobre ir ver os avós no interior durante as férias. — Tudo bem então.
Minha mãe então voltou pra cozinha, deixando eu e Kaori ali na entrada da porta. Ela então se virou pra mim, ainda segurando a sacola, e me lançou um olhar rápido e um pequeno sorriso forçado.
— Eu não queria incomodar, sabe… — ela começou, coçando a bochecha. — Mas a sua mãe insistiu tanto que eu acabei me sentindo mal de recusar…
Eu dei um pequeno sorriso.
— Relaxa, Kaori. É melhor assim, quanto mais melhor. Vem — respondi, pegando a sacola dela e guardando com as outras coisas, mas no mesmo instante fui… interrompido por ela, novamente.
— Kaori!
Hana apareceu instantaneamente no corredor, com os olhos brilhando de alegria.
— Hana! — Ela se abaixou um pouco, ficando na altura dela. — Feliz Natal! Oh, você tá tão fofinha com esse laço!
Hana deu um sorriso gigante e, em segundos, já estava grudada no braço dela, rindo. Kaori então pegou e abriu a sacola que trouxe com ela, tirando um pequeno embrulho colorido, entregando pra Hana.
— Isso… é pra mim!? — Ela pegou o presente quando Kaori acenou a cabeça. — Obrigada! Vou colocar na árvore também! Vem ver!
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Hana já tinha puxado ela pela mão em direção à sala.
Seiji, que estava rindo de alguma história do meu pai perto dos adultos, parou e olhou para a visitante com a sobrancelha erguida.
— Hein!? Kaori!? — ele coçou os olhos de forma exagerada, com aquele tom brincalhão de sempre. — Feliz Natal! Ah, mas eu não comprei nada pra você… foi mal…
Ela então parou e cruzou os braços, praticamente fingindo estar ofendida com o fato de ela não ter recebido um presente.
— Hmph! — ela virou o rosto, fazendo biquinho, enquanto Seiji abaixava os ombros, completamente derrotado.
Então eu e ela rimos ao ver aquela cena.
— Feliz Natal, Kaori — Rintarou disse, se aproximando dela com um pequeno sorriso.
— Feliz Natal, Rin! Espero que você tenha comprado algo pra mim — ela disse, voltando o olhar pro Seiji e aumentando o tom levemente.
— Também não comprei nada.
Ela o encarou por um segundo, com aquela cara de quem se surpreendeu por ele ter sido tão direto.
Não consegui conter a risada que escapou quando olhei para o rosto dela.
O clima na sala logo voltou ao normal. A comida já devia estar quase pronta, e o som alto das conversas e risadas já dominava o ambiente mais uma vez.
— Vamos subir pro meu quarto — sugeri, e logo os três assentiram.
Mal abri a porta, e Seiji saiu correndo direito para o meu computador, já ligando ele para jogar algo. Rintarou ficou perto da pequena estante onde eu guardava minhas coisas, inclusive alguns livros. Kaori sentou perto da minha mesinha, olhando para alguns papéis que eu tinha deixado ali espalhados de propósito.
— Hmm… então essa é a sua nova história? — Ela murmurou, já analisando as anotações nos papéis.
— A-ah! Isso…! — comecei, tentando impedir que ela lesse algo. Eu realmente só queria mostrar para eles quando tivesse finalizado, mas então já era tarde… — Sim… são só anotações e as ideias principais…
Ela então abriu um sorriso na hora, com um misto de curiosidade e excitamento no olhar.
— Que legal! Deixa eu ver tudo! — ela respondeu, pegando outros papéis e varrendo o olhar sobre todos.
Rintarou afastou-se da estante e se aproximou, claramente interessado também.
— Então, qual o problema que você tá enfrentando? — ele disse, ajustando os óculos com aquela calma de sempre, enquanto analisava uma folha.
“….”
Eu nem havia dito que eu estava com problemas, mas Rintarou já tinha percebido. Ele era sempre assim.
Peguei a folha da mão de Kaori, e ergui, mostrando para ambos.
— Olha aqui — comecei pedindo, olhando para os dois. — Tenho esses personagens. Eles, uma hora, vão ter uma conversa… séria, importante e assim.
Ambos me encaravam, atentos e esperando o verdadeiro ponto do problema.
— Só que parece que qualquer coisa que eu escrevo, é como se eles estivessem lendo um roteiro ruim — admiti, enfim, e continuei. — Fora isso, também tenho medo que não consigam se conectar com os personagens. Sentir o que eles sentem.
Suspirei, pousando a folha na mesinha.
Já havia algum tempo que eu estava preso naqueles problemas e dúvidas. Eu sabia que precisava de alguém de fora para ver o que eu não conseguia.
Rintarou então cruzou os braços, respirou fundo e abaixou levemente o olhar, com aquela cara pensativa.
— Talvez seja porque simplesmente você esteja tentando fazer com que eles digam tudo com palavras. — ele sugeriu, e logo algo começou a fazer sentido na minha cabeça. — Você se lembra do livro A Canção das Três Luas?
Eu parei por um momento, levemente confuso, mas tentando me lembrar de algo parecido com aquele nome.
— Hm, sim. Acho que lembro… mas por quê?
— Ah, esse livro é muito bom! — Kaori disse, olhando para Rintarou.
— No último arco, ambos personagens principais conversam sob a grande árvore. — Ele começou, enquanto eu acompanhava. — Você se lembra como o autor escreveu o diálogo? O silêncio, o jeito que eles se olhavam ou hesitavam…
Eu realmente lembrava, vagamente, de algo como aquilo. Quando comecei a ler, me perguntava o motivo do autor ter escrito daquela forma.
Mas não demorou muito para eu entender.
— Deu mais peso do que qualquer frase bem montada… — eu completei a frase dele, rapidamente percebendo o que ele queria dizer. — É isso!
Ele sorriu, percebendo que eu já havia pegado a ideia.
— Exato! — Kaori se inclinou sobre a mesa. — Focar também no que eles sentem fisicamente é super importante! Porque se o leitor sentir o ambiente através deles…
— Ele vai entender o sentimento sem que você precise explicar! — eu completei, novamente, quase sem perceber.
Logo, um pequeno sorriso bobo surgiu no meu rosto. Ambos se entreolharam por um segundo, Kaori rindo alto e Rintarou sorrindo suavemente.
Eles tinham total razão.
Eu andava tão focado na técnica, tão preocupado em acertar, que tinha esquecido de deixar a história… simplesmente respirar.
Soltei um suspiro leve, ainda sorrindo, e caí no chão, apoiando as costas e encarando o teto.
Ergui a mão, que segurava a caneta, e olhei para ela.
E então olhei para os meus amigos.
Seiji imerso no jogo, com o barulho constante das teclas sendo pressionadas. Kaori ainda rindo e folheando folhas da mesa junto de Rintarou, que já estava concentrado em algo.
Ter eles ali, me ajudando e simplesmente estando presentes, era o que eu precisava para me sentir pronto para o que quer que viesse.
O Natal então tinha começado de verdade, com a chegada da Kaori, e de alguma forma, sentia que cada nova palavra que eu escreveria no papel teria um pouco mais de vida.

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