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    6º dia do mês, Grande Inverno. Grande Floresta de Arrow [Periferia Leste] – 02:37 AM.

    Após a derrota do imponente Lobo da Noite Alfa, Isabel e Lukas se encontram exaustos e drenados. A jovem de cabelos brancos está quase se apoiando nos joelhos, seu corpo tremendo sob o peso do esgotamento, enquanto respira com dificuldade, como se o ar não fosse suficiente para seus pulmões. 

    Ao seu lado, Lukas repousa no chão, sua respiração ofegante e seu corpo marcado por cortes que expelem um lento fluxo de sangue.

    Isabel, gotejando suor, relembra os momentos frenéticos da batalha. 

    As armadilhas que ela planejou inicialmente pareciam insuficientes, e ela as empregou quase todas para prender o Lobo da Noite. Lukas, por sua vez, está surpreso consigo mesmo, tendo enfrentado e derrotado um monstro de categoria Alfa, — cujo poder supera em muito o de uma besta mágica comum.

    No entanto, a vitória não é sem custo.

    — Final…mente… conseguimos… Coff…! Coff…! — Lukas começa a tossir, expelindo sangue amargo, enquanto um gosto férreo invade sua boca.

    — Professor Lukas! O senhor está bem!? — Isabel reage imediatamente, correndo para auxiliá-lo, seus olhos revelando preocupação genuína.

    — Relaxe, Isabel. Não precisa ficar assim… eu só…

    — Não, professor Lukas! Isso é tudo minha culpa! Se eu não tivesse medo no início, as coisas não ficariam assim para o senhor. Se eu tivesse agido mais cedo, se eu tivesse mais força… se eu fosse igual a minha mestra… eu poderia ter impedido que o senhor ficasse nesse estado… — Ela se culpa por não ter sido proativa na batalha, sentindo-se responsável por Lukas estar nesse estado precário.

    Revelado um semblante um pouco surpreso com a declaração de Isabel, Lukas no meio das falas da garota a interrompe, levantando fracamente a mão diante dela, seus olhos refletindo gentileza e cansaço.

    — Isabel… não precisa se culpar por nada, isso não é culpa sua. Se for para culpar alguém, esse deve ser eu.

    — Mas professor! Eu…

    — Isabel, fui eu que dei a ideia de realizar essa viagem até Nakkie, e você só está aqui junto conosco por que foi também ideia minha de levá-la. Anastácia no início foi contra a sua participação, se não fosse por mim você não estaria aqui se pondo em perigo de morte. 

    Ele garante que não a culpa por nada, assumindo a responsabilidade por não prever a situação de forma mais eficaz.

    — O único que pode ser culpado por isso sou eu. Se eu deixasse que uma garotinha se colocasse em perigo por minha causa e se ferisse gravemente, como eu iria encarar Anastácia depois de tudo? Como eu iria encarar Evangeline por ter te colocado em perigo Isabel? 

    — Professor…

    — Fico feliz que não tenha se machucado, eu nunca me perdoaria se nesse momento, fosse você na minha situação… 

    Lukas reconhece que foi ele quem prometeu protegê-la durante a jornada, uma promessa feita a Anastácia, e que se sentiria culpado se algo alarmante fosse  feito com a garota de olhos safiras em seu lugar.

    Enquanto Lukas tenta acalmar as preocupações de Isabel, a lua ilumina o cenário, revelando as marcas da batalha nos dois e a resiliência que compartilham diante dos desafios que o mundo mágico apresenta.

    Nesse momento angustiante, Lukas começa a tossir sangue novamente, fechando os olhos lentamente enquanto descansa sua cabeça na grama. 

    O desespero toma conta de Isabel, e a percepção de que Lukas está à beira da morte a atinge com força.

    — Profes…sor Lukas…? Professor Lukas, por favor não morra! Professor Lukas! — Isabel não consegue conter seu desespero, e grita o nome de Lukas em agonia, com lágrimas nos olhos. 

    Ela clama por ele, temendo que sua vida esteja prestes a se esvair. Seus gritos ressoam na noite, ecoando na escuridão da floresta, enquanto ela tenta desesperadamente mantê-lo consciente.

    No entanto, Lukas, com um olhar de indignação, abre os olhos e a repreende:

    — Qual é o problema Isabel? Eu nunca disse que eu estava morrendo. Eu só estava descansando um pouco, algo que não dá para fazer se alguém fica gritando no meu ouvido… 

    Ele assegura que não está morrendo, apenas precisava de um breve descanso, e que isso se torna impossível quando alguém está gritando ao seu lado incessantemente.

    — Eh!? e… eu… eu…. — A expressão de Isabel se transforma de desespero para constrangimento.

    — E-e-e-eu… sinto muito professor… Eu pensei que senhor fosse morrer… Eu sei que pode está cansado… mas apenas dormir não pode curar seus machucados… — Ela percebe que causou um alvoroço sem motivo real e se sente envergonhada por sua reação exagerada. Contudo, compreende que os ferimentos de Lukas não podem ser curados apenas com descanso.

    — Argh… você tem razão… Muito bem, vá até minha barraca, na minha bolsa há um frasco de poção de cura de nível inferior. Ela não poderá me curar por completo, mas, pelo menos, me fará andar de novo sem sentir muita dor. E não se preocupe muito com isso, em Nakkie há aquele haeler que tutelou Evangeline, assim que chegar na cidade tentarei visitá-lo. 

    Ouvindo isso, Isabel finalmente encontra alívio. Ela havia esquecido que o mentor de Evangeline era um especialista em cura. A sensação de culpa que a envolveria se Lukas morresse era insuportável, mas agora ela sabe que ele está a salvo, e seu semblante se acalma.

    — Certo, professor Lukas. Irei agora mesmo! Por favor, fique aqui e não se mexa.

    — Okay… okay… Também não é como se eu fosse me levantar e sair correndo também…

    — Heheh… Eu só queria garantir que não fosse te perder…

    A garota, ágil em sua reação, se ergue de perto de Lukas e se prepara para seguir em direção à barraca. No entanto, um grupo de Lobos da Noite, composto por três deles, surge no local. 

    O aparecimento dessas criaturas é marcado pelo farfalhar das moitas e arbustos, que parecem ganhar vida à medida que os lobos emergem.

    A dupla entra em estado de alerta imediato, mas ao mesmo tempo se sente impotente diante da situação. 

    Isabel não tem mana suficiente para outro embate, e Lukas está gravemente debilitado após enfrentar o Alfa. Perceber que essas feras se aproximam aumenta a apreensão em seus semblantes, pois qualquer confronto agora poderia ser fatal.

    Um leve tremor percorre as pernas de Isabel, e o medo toma conta dela.

    ”Mais Lobos da Noite? De onde eles vieram? Por que eles vieram exatamente para cá? Eles sentiram o cheiro de sangue do professor Lukas e vieram nos matar? Droga! Eu não tenho muita mana, não posso sequer tentar lutar com um deles sozinha, mesmo que eles sejam mais fracos que o de antes, não vou conseguir me manter nem por poucos minutos.” 

    Ela se dá conta de que está completamente impotente contra essa nova ameaça, especialmente porque sua reserva de mana está esgotada.

    Essa sensação de impotência causa um pavor crescente nos olhos safira de Isabel. Ela se dá conta de que, mesmo sendo esses lobos muito mais fracos do que o Alfa que enfrentaram, não podem combatê-los nas condições atuais. 

    ”E agora… o que eu vou fazer?!” Isabel sente que suas opções estão se esgotando rapidamente.

    Um tremor percorre o corpo de Lukas, que tenta se levantar, mas as dores em seu corpo são insuportáveis. Ele nunca sentiu tanta dor antes, pois durante a luta, a adrenalina o manteve focado. Agora, todos os ferimentos causados pelo Alfa parecem aflorar de uma só vez, incapacitando-o de se mover.

    ”Droga… maldição! Por que isto ta acontecendo? Será que eu trouxe a ira de algum deus para merecer tal castigo?”

    Os dois observam atentamente os movimentos dos três Lobos da Noite, que se aproximam do Alfa caído perto das árvores. Os lobos farejam o corpo da fera, emitindo pequenos choros caninos.

    ”Esses três lobos da noite… eles devem ter vindo um pouco antes de eu acertar o Alfa com a centelha… O alfa realizou um uivo bem alto que deve ter chamado eles de sua toca… Me pergunto o que aconteceria se eles chegassem um momento antes de eu efetuar o feitiço no Alfa…” 

    Lukas conclui que esses lobos chegaram após o uivo do Alfa, e seu plano teria sido frustrado se o Alfa não tivesse sido derrotado antes de sua chegada.

    De repente, o Alfa começa a se mexer e a se erguer, ignorando suas feridas. 

    Um corte em seu corpo se abre, jorrando sangue no chão, criando uma crescente poça vermelha.

    Os três Lobos da Noite ao redor dele começam a rosnar e latir, aparentemente confusos com o comportamento do líder.

    Em um movimento surpreendente, o Alfa abre a boca e devora completamente um dos lobos da Noite, — engolindo-o em segundos. Seu corpo, ferido e debilitado, se cura completamente, e sua estatura parece aumentar.

    Uma aura esbranquiçada o envolve enquanto suas feridas se fecham, e ele parece mais poderoso após a ingestão. 

    — O quê…!? — A cena de seu festim macabro deixa Isabel e Lukas perplexos, sem compreender completamente o que testemunharam.

    Os dois Lobos da Noite remanescentes tentam desesperadamente fugir do Alfa, seus olhos refletindo medo e pavor, cientes de que também poderiam ser alvos da voracidade do líder. 

    Todavia, seus esforços são em vão. 

    Em um átimo, o lobo Alfa os alcança, suas garras afiadas cortam as pernas das bestas e ele as devora impiedosamente, uma de cada vez. O sangue das criaturas se espalha pelo chão, enquanto o som sinistro de sua mastigação e digestão enche o ambiente noturno.

    Os olhos do Alfa brilham em um rubro assassino, seu corpo antes ferido começa a se curar a uma velocidade alarmante, deixando Lukas e Isabel atônitos. 

    A besta se ergue e começa a crescer exponencialmente, seus músculos e ossos se retorcendo sob a pele em uma sinistra sinfonia de sons grotescos. 

    Os ossos estalam e rangem, enquanto os músculos se expandem, dando à besta uma aparência monstruosa.

    Lukas observa perplexo, lembrando-se de que as bestas mágicas se fortalecem ao devorar outras criaturas mágicas, mas nunca imaginou que o canibalismo pudesse ser usado para uma transformação tão extrema. 

    Para ele, esse ato profano parece ser punido por uma infertilidade divina, tornando a besta que se alimenta da própria espécie a última de seu tipo.

    De repente, dois rasgos horripilantes se formam nas laterais do pescoço do Alfa, como se dois calombos se remexessem e finalmente encontrassem sua saída.

    Duas pequenas cabeças caninas emergem dali, cobertas de sangue e veias. É uma visão do inferno, como dar à luz apenas as cabeças de fetos, mas pelo pescoço de uma criatura já macabra.

    Um terror primordial se apodera de Lukas e Isabel. 

    O lobo Alfa não apenas se curou de seus ferimentos, mas também evoluiu para outra espécie de besta lobo, obtendo fortalecimento e escapando da suposta punição divina de infertilidade. 

    Agora, diante deles, está uma aberração ainda mais aterrorizante e mortífera.

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