Capítulo 723: Terminal (2/5)
O Rei do Novo Mundo era exatamente como alguém que eu conhecia.
Bem, ‘conhecia’ talvez não fosse o termo mais adequado. Eu só o havia visto uma única vez, enquanto limpava a fenda no primeiro subsolo, e mesmo assim, era apenas uma cópia dele.
— Ah, temos algumas caras novas aqui também. Vou me apresentar. Sou Ravigion Kommelby Rafdonia.
O rei fundador de Rafdonia. Conhecido como o Rei Imortal ou simplesmente o Imortal pelos cidadãos, ele era um tirano que governou a cidade por milhares de anos e incontáveis gerações.
Fiquei perplexo quando o encontrei pela primeira vez na fenda. Não podia acreditar que estava diante de uma figura histórica lendária.
“A propósito, o rei sempre usa uma máscara em Rafdonia…”
Mesmo dentro do palácio, o coração da nação, e até nos papéis de propaganda, o rei sempre aparecia mascarado. Muitas razões eram dadas para isso, como segurança ou defesa contra assassinos, mas eu nunca soube o verdadeiro motivo.
No entanto, eu tinha certeza de uma coisa.
Os reis de Rafdonia, sem exceção, compareciam a encontros oficiais com uma máscara cobrindo seus rostos, como se fosse uma tradição…
— O quê? Pareço mais jovem do que você esperava?
Saí rapidamente de meus pensamentos e escolhi uma resposta à pergunta do Rei do Novo Mundo, decidindo no calor do momento. — Sim, de certa forma.
Não era necessário contar a ele sobre o Imortal que vi na fenda. Sentia que mencionar isso só criaria tensão.
— Haha! Mas, com certeza, eu não soava como um velho enrugado, não é?
Felizmente, o Rei não insistiu no assunto após minha concordância. Ele apenas riu como um homem na casa dos quarenta que fora elogiado por parecer jovem.
— Bem… Vamos respirar um pouco de ar fresco antes de irmos àquele lugar.
— Eu os guiarei. — O cavaleiro começou a nos conduzir assim que ouviu as palavras do Rei, e eu os segui. Enquanto caminhávamos, um caminho para o jardim se abriu, e consegui ver o céu pela primeira vez em dias.
“Quanto tempo já se passou?”
Estive preso em um quarto nos últimos dias e nem sequer pude ver o céu. Ainda estava tão opaco como sempre, mas…
— Quanto tempo acha que ainda tenho de vida?
Uma pergunta inesperada em um momento inesperado.
— O que quer dizer? — perguntei, cauteloso.
— O que há para ficar confuso? É uma pergunta tão estranha assim? Nem mesmo o Imortal pôde aproveitar a eternidade.
Bem, se ele colocasse a questão dessa forma, não havia muito o que eu pudesse dizer. Embora o Imortal tenha quase alcançado a imortalidade, ele ainda era mortal e, no final, não conseguiu viver para sempre.
— Bem — comecei — você ainda parece bem saudável, ao contrário do que dizem os rumores.
— O que dizem os rumores…
Não quis dizer muito com aquilo, mas foi essa a reação que ele teve. Então, o Rei do Novo Mundo perguntou, com um tom inquisitivo — Você não está curioso? Sobre por que fiquei isolado no palácio e nunca saí?
Seria um erro concordar com um aceno aqui.
— Estou curioso… mas isso não é algo que eu precise saber.
— Por quê? Ainda sou o rei de uma nação.
— Quero dizer, isso não é da minha conta.
— O quê? — Após uma pausa, o rei riu como se tivesse ouvido algo inesperado, enquanto eu permaneci ali, sem expressar nenhuma emoção.
Senti um pouco de pena, já que ele parecia genuinamente gostar da minha resposta, mas, claro, minha resposta era uma completa e absoluta mentira. Nunca pensei, nem por um momento, que isso não fosse da minha conta.
“Deve haver um motivo para ele estar fazendo isso…”
Minha curiosidade sobre o que ele estava escondendo era enorme.
Foi então que algo aconteceu.
Flash!
O mundo inteiro brilhou com uma luz intensa.
Barum!
Só depois de ouvir o estrondo do trovão alguns segundos depois foi que percebi o que havia acontecido.
— Hã?
Um raio havia caído exatamente onde estávamos.
— Sua Majestade, está ferido?
Claro, ninguém se machucou com aquele raio. Em algum momento, uma barreira translúcida havia se formado ao redor do Rei do Novo Mundo.
— Não precisam se preocupar. Tsk, não faz nem muito tempo que saí. Já está começando de novo.
Inclinei a cabeça, confuso com o que ele disse. Algo estava errado.
“Um raio caiu de um céu limpo e azul, e ele age como se fosse algo normal…?”
Bem, a barreira nos protegeu, garantindo que ninguém se machucasse. Mas ainda assim…
— Algo assim… acontece com frequência? — perguntei com cuidado.
O rei riu e, em tom de brincadeira, disse: — Bom, parece que os céus estão desesperados para me matar. — Ele percebeu que meu silêncio escondia algumas palavras não ditas. — Não se preocupe. Vai ficar tranquilo por um tempo.
Hmm… Agora eu estava ainda mais curioso. Isso estaria relacionado ao ‘sono’ que ele mencionara antes?
— Já faz muito tempo que não venho aqui.
Depois de uma longa caminhada pelo jardim, finalmente chegamos a uma área aberta com uma mesa e cadeiras. Esfreguei os olhos, mas tudo o que vi foi um lugar perfeito para um piquenique, sem nada de especial.
— É aqui o lugar de que falou antes?
— O quê? Haha! Claro que não. Pensou nisso durante todo o caminho?
Não respondi.
— Mas, uau. Mesmo depois de tanto tempo, este lugar ainda é o mesmo. Talvez este seja o lugar onde se encontra a ‘eternidade’.
— Tem muitas memórias aqui?
— Bem… De certa forma. Muita coisa aconteceu. Vamos descansar um pouco, já que estamos aqui.
— Certo…
Sentei-me na grama. O primeiro motivo foi o receio de quebrar a cadeira que guardava memórias do rei, caso me sentasse nela. O segundo foi para que pudéssemos olhar nos olhos.
No entanto, mesmo agora sentados juntos, o Rei do Novo Mundo olhava para longe, perdido em suas memórias, e um silêncio, sem ser interrompido por conversa, caiu sobre nós.
Cinco minutos de silêncio, para ser exato.
— O primeiro-ministro causou esta guerra.
Pisquei. — O quê?
— Ele age como se se opusesse aos Noarkianos, mas trabalha com eles nos bastidores para destruir a nação. Isso é tão surpreendente?
Como não me surpreender com isso? Ele simplesmente disse isso, sem qualquer aviso. Queria que ao menos usasse uma ‘sinalização’ para conduzir a conversa.
— Hmm, você realmente não suspeitava? O Departamento de Inteligência achava que já sabia disso.
— Uh… Para ser honesto, não é uma total surpresa, mas não diria que eu ‘esperava’. É mais que não descartei a possibilidade.
— É bem estranho ver você falar de forma tão lógica com essa aparência. Que tipo de pessoa era antes?
Hesitei. — Eu era apenas um simples funcionário de empresa.
— Oh ho, alguém como você era um escravo? Parece que os senhores daquele mundo não tinham olho para pessoas.
— Bem… Não exatamente um escravo…
— Hmm? Mas essa foi a explicação que me deram.
Pelo visto, a pessoa moderna que explicou o conceito de funcionário de empresa ao Rei do Novo Mundo era bem pessimista.
Enfim.
— Então… Sabe também por que o primeiro-ministro tramou tudo isso?
— Não há nada que eu não saiba neste mundo.
Será que eu deveria aumentar o narcisismo dele para +7?
A ideia até passou pela minha cabeça, mas, honestamente, ele era mais irritante do que narcisista. Quanto mais pensava, mais parecia que ele realmente sabia de tudo.
— Bem… Então por que ele fez isso? Não é como se o primeiro-ministro tivesse simplesmente perdido a cabeça.
— Tem algum palpite?
— Realmente não. Mesmo depois de encontrar os Noarkianos escondidos na casa do primeiro-ministro, ainda não achei que ele fosse realmente o responsável por tudo.
— Por que não?
— Não consegui pensar em um motivo. Se tivesse que escolher um, seria que ele queria mais poder… Mas isso também parecia fraco. Pelo que vi, o primeiro-ministro não é alguém que cobice poder dessa forma.
— Haha! É verdade. Na minha visão também, o marquês parece uma pessoa tranquila e tímida. Mas…
De repente, o tom do rei mudou de brincalhão para sério.
— Algumas pessoas têm apenas uma coisa. Algo que jamais poderiam abandonar, mesmo que precisem deixar o mundo inteiro para trás por isso.
Por algum motivo, essas palavras atingiram algo profundo em mim.
A primeira imagem que veio à mente foi a de um espelho. Eu estava lá, do outro lado do reflexo, e quando olhei mais fundo, vi meus preciosos aliados.
Isso só aumentava minha curiosidade. O que será que o marquês via no espelho dele?
Engoli em seco, sentindo uma tensão inexplicável. — O que é essa ‘coisa’ para o marquês?
No entanto, a resposta que recebi dissipou completamente o suspense do momento.
— Quem sabe… Hehe, como já disse antes, é melhor ouvir essa história do próprio criador.
“Desgraçado de uma figa!”
Não pude evitar um palavrão mental. Ainda assim, ouvir o rei não tinha sido totalmente inútil.
— Então… Parece que eu estava certo quando disse que ‘a raposa carregando o tigre’ se referia ao marquês, não é?
Tentei obter uma confirmação sutil, mas o rei apenas confirmou minhas suspeitas sem o menor cuidado.
— Sim. E então? Você acha que há outra raposa neste reino?
— Hmm, eu não saberia dizer. Para ser honesto, ele e eu não somos tão próximos assim.
— Não tão próximos… Bahaha! Você é bem interessante, sabia?
Mesmo enquanto falava, o sorriso no rosto dele não desaparecia.
Honestamente, o que havia de tão engraçado naquela conversa? Talvez fosse o fato de que fazia muito tempo desde que ele tinha uma conversa decente com alguém.
“Bem… Pelo menos o clima ainda está leve, acho.”
Não tinha certeza absoluta, mas provavelmente bastava continuar com a conversa fiada.
— Certo, falaremos sobre o assunto principal quando chegarmos ao local.
— Eu vou conseguir ver aquela ‘coisa’ de que você mencionou antes?
— Isso mesmo.
Quando o Rei do Novo Mundo fez um sinal com os olhos para o cavaleiro, este assumiu a dianteira como nosso guia, e nós o seguimos de volta para o Palácio do Novo Mundo.
“Por que saímos, afinal, se só íamos voltar?”
Não era como se tivéssemos visitado outro lugar do palácio. Voltamos direto para o salão de audiências onde eu estava preso nos últimos dias.
Depois, usamos o elevador pelo qual havíamos subido e descemos.
Ding!
Quando as portas do elevador se abriram, vi um enorme tanque que se parecia bastante com os que vi no Centro de Pesquisa de Panthelion.
Tsk, imaginei o que ele estava prestes a me mostrar.
“Então era isso…”
Eu me perguntava qual era o ponto de manter isso em segredo se ele ia me mostrar de qualquer forma, mas me mantive em silêncio. Ele mesmo me trouxe aqui, então havia uma boa chance de que explicaria.
— Então… — comecei. — O que é isso?
— Um Dispositivo de Preservação da Vida.
— O quê?
— Mesmo alguém à beira da morte pode evitar o olhar do mundo e escapar do último suspiro se entrar aqui.
— Entendi…
— Ah, a propósito, este é o segredo que permitiu ao Imortal viver uma vida quase eterna. Ouvi dizer que no passado era possível estender a vida usando este dispositivo. Mas como ele morreu sem revelar o segredo, perdemos a capacidade de utilizá-lo.
Diante disso, permaneci calado.
— Vou ser honesto. Nunca pensei que veria o dia em que eu mesmo usaria este dispositivo. Quando me sentei naquele trono, decidi que nunca deixaria que ele tivesse um novo dono. Que eu seria diferente dele. Que eu viveria como humano e morreria como humano.
— Mas agora isso mudou.
— Não viu o que aconteceu? Um raio caiu do céu como se quisesse me punir. Minha vida deveria ter terminado há muito tempo, e este mundo está enlouquecendo tentando eliminar quem desafiou a ordem natural das coisas.
— Então é por isso que você nunca saía? Porque estava sempre se escondendo aqui?
— Pode-se dizer que sim. Por quê? Isso te incomoda?
— Hmm, nem tanto. Só achei meio clichê.
— Clichê?
— Sim. Quem não gostaria de continuar vivendo neste mundo? Até as pessoas que tiram a própria vida são aquelas que querem viver. Elas só tomam essa decisão extrema porque não conseguem viver do jeito que imaginavam.
— Interessante. Continue.
— Você diz isso, mas não há muito mais o que eu possa dizer. Só acho que alguém que tem tudo no mundo provavelmente deseja viver ainda mais.
Mesmo na Terra, as pessoas que atingiam o auge do poder acabavam buscando a vida eterna, e eu não achava que elas eram tolas ou repugnantes por isso. Eram criaturas que nasceram para viver. Por que deveriam ser ridicularizadas por lutarem para viver mais tempo?
Bem, os atos desumanos cometidos nesse processo deviam ser condenados ao inferno, mas isso é outra história.
— Na verdade, acho que esse desejo torna você mais humano.
O rei levou um momento para responder. — Interessante… Ainda mais pelo fato de que você não está dizendo isso para me bajular.
— Então você vai retirar a ordem de me manter aqui por uma semana inteira?
— Bem, isso depende da sua próxima resposta.
— Então me diga o que quiser. Somos ambos pessoas cujos dias preciosos estão contados.
O Rei do Novo Mundo apenas me olhou, aparentando estar tanto divertido quanto intrigado com meu tom mais casual. Felizmente, ele não se ofendeu com minha ousadia e, logo, um sorriso voltou a se formar em seus lábios.
— Faz muito tempo… — disse ele. — Desde que encontrei alguém com quem realmente quisesse conversar. E para essa pessoa ser ‘você’…
— Uh…
Soou como um elogio…
“…Mas por que o olhar dele é tão estranho?”
Senti um arrepio, mas o rei continuou como se nada tivesse acontecido.
— Pode deixar o palácio e agir livremente. Salve alguém que precise morrer ou mate alguém que precise viver. Faça o que quiser.
Claro, isso não seria de graça.
— O que preciso fazer em troca?
Perguntei pela condição antes de assinar o contrato, e o Rei do Novo Mundo respondeu com apenas uma frase.
— Mate o primeiro-ministro.
Dado tudo o que ele havia dito, a condição em si não era surpreendente. Apenas assenti em aceitação sombria.
“Ele poderia fazer isso sozinho, mas está me mandando fazer…”
Eu não sabia exatamente o quê, mas havia algo muito suspeito por trás disso.

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