Índice de Capítulo

    Depois de voltar ao grupo, realizamos um funeral simplificado para Carlson. Na verdade, chamar de funeral era exagero: apenas cremamos o corpo seguindo o conselho da sacerdotisa. Houve um momento em que Ainar protestou, dizendo que queria entregar o corpo intacto à família, mas…

    — A decisão é sua, Senhorita Fenelin, mas não acha melhor conceder descanso imediato à alma deste guerreiro tão exausto da luta?

    — …Entendido.

    Convencida pelas palavras da sacerdotisa, Ainar cedeu. Era mais adequado do que carregar um cadáver rígido no espaço dimensional. E, com a sacerdote presente, recitando uma oração de descanso eterno, Carlson certamente seguiu para um bom lugar.

    — …Obrigado por permitir isso.

    Enquanto eu observava Ainar guardar com cuidado as cinzas num recipiente, o vice-capitão dos Sawtooth aproximou-se para falar. Ele também segurava uma urna quente. Eu havia consentido com seu pedido para cremar o chefe junto com Carlson.

    — Compartilhar tantos anos deixa o coração pesado. Eu sabia que ele se desviara, mas não consegui corrigi-lo.

    — É mesmo?

    — Sim. Ele não era assim desde o começo. Talvez não acredite, mas antes era completamente diferente.

    — É mesmo?

    Difícil acreditar que aquele que praguejou no final já fora um homem íntegro.

    — …Sou realmente grato por nos dar esta chance.

    — Não há do que agradecer. Eu só precisava de gente para usar.

    — Mesmo assim, não tratarei isso como algo comum. Não esquecerei esta graça.

    Vai saber. Talvez esteja agindo assim agora e, quando voltarem à cidade, comecem a afiar suas lâminas de vingança. E se, como Carlson, me retribuírem inesperadamente, ficarei surpreso. Mas não contarei com isso.

    — …Faça como quiser.

    Respondi de forma indiferente, e ele fez uma reverência antes de se retirar.

    Senti a cabeça doer só de pensar mais no assunto e decidi não me preocupar. O que importa isso? Não existe resposta certa neste mundo caótico. O importante é o que eu quero fazer.

    Não faço o bem esperando gratidão. Não deixo de fazer o que precisa ser feito por medo de rancor.

    Esse princípio basta para sobreviver neste mundo duro.

    — Lorde Visconde, se não for incômodo, poderia nos dizer quais são seus planos agora?

    Quando finalmente organizei meus pensamentos, Maze Reiner, o primeiro membro temporário, veio perguntar. O que fazer agora…

    — Descanso.

    — …Perdão?

    — Descansaremos livremente até que o colapso recomece.

    Já tínhamos confirmado que não havia mais sobreviventes, mas ainda havia coisas para fazer. Este labirinto guarda recompensas interessantes. Abater um chefe e receber um Desejo Restrito já seria lucro, sem falar nos eventos especiais acessíveis apenas durante o colapso dimensional, como a cabana onde encontrei Zephyros. Mas…

    “Não sabemos quando o período de estabilidade vai acabar.”

    Só de se deslocar há risco. Além disso, desde que alcançamos a fase estável, todos estavam correndo sem parar. O mais sensato agora é dedicar-se a recuperar forças até a próxima onda.

    — Descansaaaar!!!

    — O Visconde disse que podemos descansar!!!

    — Oooooh!!!

    — Então agora podemos mesmo dormir!!

    Não esperava que ficassem tão felizes.

    “Bem, desde o Salão Eterno até aqui, não paramos uma vez sequer…”

    Mesmo com dezenas de pessoas espremidas num espaço apertado à espera do colapso, os sobreviventes deitaram-se no chão sem uma queixa sequer. E então…

    Drrrrrrr—!! Dororom, dorororom…

    Ao som da sinfonia de roncos, fechei os olhos também.

    Drrrrrrrrrrooooonnnn…!!!!!

    É, quando é hora de descansar, tem que descansar.


    Faz tempo que sonhei. No sonho apareceu Jencia. O lugar era a Caverna Glacial e Jencia implorava por minha vida. Que queria voltar para casa, que não podia morrer num lugar de merda desses, que por favor a salvasse. Sem hesitar um instante, desci a maça na cabeça de Jencia. Mas, aquilo aconteceu…

    — M-mãe…

    Jencia virou uma criança e o espaço ao redor mudou. A cidade subterrânea Noark décadas atrás. A pequena Jencia andava com uns tios maus de Noark; quando eles cruzaram olhares comigo, ela me fitou com um olhar feroz. Fixou os olhos em mim e começou a cravar a faca na garotinha ao lado.

    — Morre…!!!

    Olhei melhor e vi que a garotinha era a pequena Amélia. Corri para impedi-la, mas de algum modo meu corpo ficou paralisado. O sonho acabou aí.

    — Huff…

    Acordei arfando, revivi o sonho por um instante e concluí.

    — Que sonho de merda.

    Não precisa atribuir grande significado a esse tipo de sonho. Sonhos usam como matéria-prima as lembranças mais intensas do dia. Eu sei melhor que ninguém por que tive esse sonho. Só que não parecia que eu voltaria a dormir, então…

    Dr-rrr…!! Dororong, dorororong…

    Levantando o tronco devagar para não acordar os sobreviventes, chequei o tempo: não havia passado tanto. Uma, duas, talvez quatro horas? Mas como meu corpo é quase sobre-humano, mesmo dormindo pouco não me sentia tão cansado.

    “Ele também está acordado.”

    Enquanto eu me incorporava entre todos deitados como mortos, Armin, ao longe, percebeu e fez um gesto de saudação com os olhos. Aproximou-se com cuidado para não pisar em ninguém.

    — Acordou, não foi? Não está cansado?

    — Eu que pergunto isso.

    — Eu acordei no meio e não consegui mais pegar no sono.

    — É?

    — Enfim, quer ver?

    — …Hm?

    Armin me estendeu um caderninho de repente; peguei e li. Era uma espécie de lista de nomes. Estava ali, de forma concisa, o nome, o nível e a classe de todos os Aventureiros presentes.

    — Você fez isso pessoalmente?

    — …Tive tempo sobrando então organizei. Precisamos saber quem faz o quê para montar a formação.

    — Deu trabalho, hein.

    — Não tanto. Cutter e Kevron ajudaram bastante.

    — Kevron…?

    — Sim? O vice-capitão do Clã Sawtooth. Não sabia?

    — Ah, acho que esse era o nome, sim.

    Como era detalhe pequeno, Armin e eu seguimos para outro assunto.

    — Bom, com base na experiência de comandar uma equipe de expedição eu montei uma formação. Quer dar uma olhada?

    — Oh, parece bom.

    Ao virar a página do caderninho conforme Armin indicou, apareceu um esquema detalhado de posição. Os mais resistentes nas pontas formando uma barreira; os menos resistentes e mais importantes protegidos no centro seguro.

    — Você colocou alguns guerreiros no centro também?

    — Como sabe, durante um colapso os monstros podem aparecer até dentro da formação.

    — E separou bem os membros do Clã Sawtooth para não ficarem muito juntos.

    — Haha, achei que isso fosse preocupar o senhor…

    Era trabalho meu, mas enquanto eu dormia ele tinha feito tudo.

    — Bom trabalho. Podemos seguir assim mesmo.

    — Fico feliz se ajudou. Ah, isto são os pertences do chefe dos Sawtooth.

    Armin tirou de sua bolsa dimensional uma sacola e me entregou.

    “Ah, é mesmo, nem abri o baú de espólios…”

    O que será que o chefe tinha? Ao abrir e revirar a sacola encontrei coisas bem úteis. Além do equipamento que usava, tinha sobressalentes que valeriam um bom dinheiro. E, acima de tudo…

    “Olha só o que temos aqui.”

    Entre os pertences havia algo especial. Um cristal vermelho brilhante, claramente caro.

    — …Desejo Restrito?

    — Oh, conhece. Segundo ouvi, o Clã Sawtooth o conseguiu ao caçar um minotauro durante a exploração.

    Estava prestes a desistir e acabei recebendo isso. Meio atônito, mas animado. A curiosidade de um gamer…

    “…Será que combina com a essência sintética do andar subterrâneo?”

    Se combinar, que nível de essência sairia? Mesmo que me oferecessem uma de segundo nível eu não trocaria. Essa essência, misturada com terceiro, quarto e quinto níveis, vale mais para mim do que um segundo nível puro. …Agora, se fosse uma de primeiro nível, aí é outra história.

    — Graças a você, consegui algo bom.

    Depois disso ficamos conversando livremente. Colapso dimensional, o Lorde das Lágrimas, o testamento do chefe dos Sawtooth, nosso clã Anabada, os membros mortos da equipe de Armin… vários assuntos. Foi quando uma pessoa inesperada se aproximou.

    — Sacerdotisa?

    — Maria Shure Elloid — ela corrigiu.

    — Khm, claro, eu sabia — Só chamei assim porque, entre os sacerdotes, ela era a única mulher. Provavelmente.

    — Para mim é uma honra.

    — …Então, o que faz aqui? Também não consegue dormir? — Perguntei jogando as palavras, mas ela balançou a cabeça.

    — Não, vim para lhe perguntar algo em particular.

    — Particular…? Pode falar — Assenti de imediato, curioso, mas mesmo após minha permissão a sacerdotisa hesitou, sem abrir a boca.

    — Não disse que tinha algo para perguntar?

    — Sim, disse…

    — Então fale logo. Não enrole.

    — Pois bem… — Depois de alongar a frase, finalmente perguntou: — Ouvi dizer que participou da última missão de Jun, o ex-inquisidor da Igreja de Tovera.

    — …Jun?

    — Sim. Sob o nome de Riehen Schuitz, teria acompanhado uma missão especial da realeza.

    Um nome que eu não esperava surgiu do nada e me deixou surpreso. E fiquei curioso. O que ela queria saber afinal?

    — E então?

    — …Como foi o fim dele?

    — Estava de pé.

    — …Desculpe?

    — Protegendo os companheiros dos inimigos, morreu de pé. De tão firme que ficou, até os inimigos só perceberam depois de muito tempo. Nem a morte conseguiu derrubá-lo.

    — É mesmo…? Um homem incrível. Ouvir isso de um herói como o senhor Visconde…

    — Esse tom soa estranho, impressão minha?

    Perguntei um pouco mais duro, mas ela apenas mordeu os lábios, sem responder. Assim só eu fico mal.

    — Eu respondi, agora você responde. Por que perguntou sobre o fim de Jun?

    — …

    — Não quer responder?

    Franzi o cenho com sua recusa, e por fim ela abriu a boca.

    — …Tinha uma amiga na Igreja de Tobera.

    — E?

    — Ela morreu. Marcada como herege, perdeu toda a honra e foi executada diante da imagem do deus que tanto venerava. E quem a investigou na época foi Jun, esse homem.

    — …

    — Por isso quis saber. Que tipo de pessoa ele era. O que ele viu para levar minha amiga, tão devota, ao cadafalso.

    Ah… uh…

    Fiquei sem palavras, mudo. A sacerdotisa fez uma reverência formal.

    — Se isso respondeu, retiro-me. Por favor, descanse bem.

    — Ah… sim… descanse também…

    Quando ela partiu, Armin, que estava só rolando os olhos, soltou o ar que prendia.

    — …Eu, eu também vou descansar então.

    — Vá…

    Meu benfeitor podia ser, para alguém, um carrasco.

    Um pequeno gesto, um grande impacto!

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