Índice de Capítulo

    O brado estrondoso ecoou pela cidade adormecida. Claro, um único grito não chegaria aos ouvidos do sujeito enfiado lá no alto da torre, trancado em algum canto do quarto. Mas…

    Se uma vez não funciona, então duas. Três, quatro, cinco, seis.

    A vida de um Barbarian me ensinou que, se você continuar batendo, até o aço acaba cedendo. Se eu continuar gritando, uma hora ele vai aparecer. Com toda essa algazarra aqui fora, como aquilo não chegaria aos ouvidos dele? Com esse pensamento, puxei força mais uma vez desde o fundo do abdômen.

    — …O que está fazendo aqui?

    “Hm…?”

    Virei a cabeça ao ouvir a voz atrás de mim e vi o GM com o cenho franzido. Olhei para ele e perguntei:

    — O que você está fazendo aqui?

    — Esse lhe parece o jeito certo de começar uma conversa…?

    Ah… é, verdade. Fiquei tão surpreso que as palavras escaparam tortas.

    — …Por que você está aqui?

    — Estava fora por um momento e estou voltando agora…

    — …Você?

    Perguntei de novo depois de uma breve pausa, e o GM ficou em silêncio. Parecia ter algo que queria dizer, mas se conteve, como se fosse só acabar se estressando.

    — Haa… Então por que veio me procurar?

    — Espera um instante. — Interrompi suas palavras e encarei com seriedade. — Como sabia que eu vim te procurar?

    — …?

    — Responda, Yurven Havellion. Esteve me seguindo até agora?

    — …Com você gritando desse jeito, como eu não saberia?

    — Oh, também é verdade.

    Ele soltou um longo suspiro ao responder, e eu assenti sem discutir, como se tivesse compreendido. Um tipo de conversa fiada ao estilo Bárbaro: Se você se fingir de idiota, o outro acaba baixando um pouco a guarda. Exatamente assim.

    — Ha… Então por que estava berrando daquele jeito?

    — Vim te encontrar, mas disseram que alguém sem convite não pode entrar, então eu chamei!

    Sabe como era quando éramos crianças? A gente aparecia na porta da casa do amigo sem avisar e gritava até ele sair. Quando não existia celular, todo mundo fazia isso. Então, usar o mesmo método neste mundo de fantasia não é nada estranho…

    — Se este é o caso, bastava pedir aos guardas para me notificar…

    Ah, também tinha esse método. Assenti outra vez, como se tivesse aprendido algo importante, e ele balançou a cabeça exausto.

    — …Vamos mudar de lugar primeiro.

    — Ah, isso é bom.

    — Vamos para um local um pouco mais afastado, tudo bem? Já que houve certa comoção aqui…

    Segui o GM até uma taverna a uns cinco minutos dali. Talvez por ser perto da Torre Mágica, o interior era luxuoso e havia salas reservadas onde se podia conversar em silêncio. A conversa séria só começou depois que a bebida e alguns petiscos chegaram e, surpreendentemente, foi o GM quem falou primeiro.

    — Como imaginei… foi por causa disso que veio, não foi?

    — …Hã?

    — Não foi por causa do Primeiro subsolo?

    Fiquei sinceramente surpreso com aquelas palavras. Como diabos ele sabia disso? A história de perseguição era só brincadeira, mas será que ele realmente estava investigando meus passos? Mesmo assim, a respeito do Primeiro Subsolo, pouquíssima gente sabia.

    Mas eu não neguei.

    — Sim, Yurven Havellion — minha voz desceu naturalmente. Meu olhar se fixou nele para captar qualquer mínima reação do corpo, e meus músculos ficaram tensos por reflexo. — Como descobriu?

    Dependendo da resposta, minha postura diante dele mudaria completamente.

    — Obtive a informação de que, entre os elfos, o fato de o Sangue Puro ainda não ter se regenerado está sendo interpretado como prova da sobrevivência da Sangue Puro. E pouco depois de eu receber essa informação, você, Lorde Visconde começou suas atividades externas.

    …Hã?

    — Então, naturalmente, pensei no Primeiro Subsolo. Obviamente, para organizar uma expedição, seria necessário alguém confiável. E imaginei que talvez você viesse me procurar…

    Fiquei sem reação diante da lógica impecável do GM. Tudo o que ele disse estava correto. Exceto por um único ponto.

    — …Tem certeza?

    — Perdão?

    — Que os elfos acreditam que Erwen ainda está viva. Estou perguntando se isso é certo.

    Ao ouvir minha pergunta, o GM tornou a franzir o cenho, inclinando a cabeça, como se não entendesse por que eu estava fazendo uma piada tão estranha.

    Mas eu estava cem por cento sério. É claro que eu havia pensado no Sangue Puro. Quando eu estava trancado no quarto, Misha foi quem tocou no assunto primeiro. Ela contou que, quando Erwen ficou presa no Primeiro Subsolo, os elfos tinham certeza de que ela estava viva e tentaram montar uma equipe de resgate, e disse que iria verificar pessoalmente. Mas…

    — …Por acaso não sabia?

    — …

    Eu não sabia.

    — Para ser exato, eu só sabia que o Sangue Puro ainda não tinha se regenerado.

    A conversa que tive com Misha naquele dia se resumia exatamente àquilo.

    — É… o Sangue Puro ainda não voltou…!

    — …

    — Mas… disseram que, quando o Sangue Puro some durante um colapso dimensional, leva pelo menos um ano para retornar, então… se algo mudar, avisariam, então é melhor esperar…!

    O caráter especial desse ‘colapso dimensional’ tornava impossível, desta vez, confirmar a sobrevivência através do Sangue Puro. Foi exatamente isso que os elfos disseram. Mas então, o que significava aquilo agora?

    — Está falando do colapso dimensional…? Hm… Tem certeza de que não entendeu algo errado? Pelo que sei, não existe nenhuma particularidade assim ligada ao Sangue Puro…

    — Ouvi essa informação diretamente dos elfos.

    — …Então é realmente estranho. Mesmo quando o Rei dos Elfos Armella morreu no colapso dimensional, há registros de que um novo portador do Sangue Puro surgiu no mês seguinte.

    — …O quê?

    Quando dei um tapa forte na mesa sem perceber, o GM se sobressaltou e franziu o cenho, ainda sem aceitar aquela informação.

    — Não houve algum problema de comunicação? Não imagino que os elfos teriam razão para enganar o Lorde Visconde de propósito…

    — Ah.

    — Pelo seu rosto, parece que essa possibilidade existe de fato, não?

    — …

    Eu não consegui negar. Afinal, carregava pecados demais. Se fosse o chefe dos elfos, alguém que sempre me desprezou e tratava Erwen como filha, seria compreensível que tentasse me prejudicar.

    “Mesmo assim, tem limites para querer ferrar alguém…”

    Quando a verdade veio à tona, uma onda de calor subiu ao peito.

    Ao mesmo tempo, uma euforia e um alívio violentos transbordaram de dentro de mim.

    Krrrr…

    Cerrei o punho com força, esquecendo até a mágoa pelo chefe dos elfos.

    “…Ela esta mesmo viva.”

    Eu não estava errado.


    Um silêncio que se prolongou por alguns instantes. No meio dele, o GM, que bebia a cerveja em goles pequenos, soltou uma risadinha, como se achasse tudo aquilo absurdo.

    — Você é realmente impressionante.

    — …?

    — Eu tinha certeza de que você tinha recobrado o ânimo justamente por ter ouvido essa história… Mas, pelo visto, não sabia de nada.

    Não dava para saber se ele estava me provocando ou elogiando de verdade. Talvez fosse um pouco dos dois. Também não importava.

    Cof…

    Soltei uma tosse seca para mudar o clima.

    O Sangue Puro. E a sobrevivência da Erwen.

    Na verdade, só por ter ouvido essa notícia, eu já não me arrependia de ter encontrado o GM. Mas ainda havia algo que eu precisava fazer. Meu verdadeiro objetivo era outro.

    — De qualquer forma, eu vou voltar ao Primeiro Subsolo.

    — Sim, tomara que volte em segurança…

    — Com você.

    Cortei as palavras dele e disparei direto o assunto principal. O GM soltou um suspiro profundo.

    — Por que essa cara? Você mesmo disse que já esperava isso desde que me viu.

    — O que imaginamos e o que de fato acontece são coisas diferentes, não são?

    Bom, isso é verdade. Até eu despertei de vez hoje quando ouvi a história do Sangue Puro. ‘Ela deve estar viva’ e ‘ela está viva’ são coisas diferentes. E agora que a segunda se confirmou, eu realmente posso avançar sem nada me prendendo.

    — Então, qual é a resposta?

    — Por enquanto, recuso.

    — Por enquanto?

    Não era uma recusa seca; tinha um ‘por enquanto’ na frente. Em outras palavras, significava que ele queria alguma coisa. Lancei um olhar dizendo para falar logo, e o GM soltou outro longo suspiro.

    — É ‘por enquanto’ exatamente no sentido literal. Não é que eu esteja esperando algo em troca. É só que, conhecendo o Visconde Yandel, mesmo que eu recuse, provavelmente dará um jeito de me levar assim mesmo. Como daquela vez em que saímos para além das muralhas.

    — Hã? Naquela vez você também não tinha concordado?

    — D-Do que está falando! Quando foi que eu concordei com aquilo!

    Com as minhas palavras, ele reagiu como alguém com uma ferida cutucada. Poxa, se não, era só dizer que não.

    — Por que está se exaltando assim? Acalme-se. Isso não faz bem para a sua saúde.

    — Como é que sabe…! Sério, ah… deixa. Certo.

    Parecia que ele ainda tinha muita coisa a dizer, mas, no fim, engoliu tudo e fechou a boca. Era o momento perfeito para oferecer a cenoura.

    Dei uma risadinha e falei num tom apaziguador:

    — Não se preocupe de verdade. Não estou pensando em arrastá-lo à força. É uma exploração em que temos de apostar a vida, e nem sabemos ao certo quando vamos conseguir voltar. Nem eu faria uma coisa dessas.

    Mas que diabos era aquilo. Já era a hora de ele dizer alguma coisa, e, ainda assim, só me encarava com um olhar estranho.

    Quando apenas murmurei, ele resmungou:

    — …Se sabe disso tudo, por que agiu daquele jeito naquela ocasião?

    Uh…

    Como não havia motivo para fazer uma declaração que só me prejudicaria, invoquei meu direito de permanecer em silêncio e passei para o próximo assunto.

    — Enfim, acredite ou não, tudo o que acabei de dizer é verdade. Procurei você porque preciso de um mago confiável e competente. Um mago arrastado à força, que só pensa em fugir, não serve para nada.

    — …

    — Portanto, isto é apenas uma proposta. Se quiser pedras de mana, essências, materiais de pesquisa… darei o máximo possível. Mas, se não quiser nada e preferir continuar trancado no seu quarto, não posso fazer nada.

    — …Vou pensar a respeito, por enquanto.

    — ‘Por enquanto’, é…

    Uma escolha de palavras que, inevitavelmente, dá margem a muitas interpretações.

    — Por acaso você gosta de ser arrastado à força?

    — O que…! Claro que não é isso!

    — Se não é, por que esse nervosismo todo?

    Lancei um olhar que sugeria desconfiança, e o GM se apressou em explicar.

    — Eu também tenho minhas circunstâncias. Já estava justamente pensando se deveria voltar a explorar o Labirinto ou não.

    — Então ótimo. Pense seriamente.

    — Certo…

    Com isso, o assunto do recrutamento ficou provisoriamente encerrado. Depois, segurei o sujeito, que já estava prestes a ir embora, e ficamos bebendo cerveja e conversando. Era necessário. Se ele voltasse para o quarto, ninguém saberia quando apareceria de novo. Hoje eu precisava aproveitar ao máximo e criar boa impressão.

    “Eu também queria saber como ele estava ultimamente.”

    Desde o retorno da expedição além das muralhas, não tivemos motivo para nos encontrar. Ele parecia acompanhar minhas notícias pelos outros, mas sobre a história do colapso dimensional e sobre o Primeiro Subsolo ele ainda não sabia muita coisa, então falamos sobre isso enquanto o tempo passava. E então…

    — Ah, já que nos encontramos, pode dar uma olhada nisso?

    Tirei um bilhete do bolso, e ele, como um mago de verdade, reconheceu do que se tratava imediatamente.

    — Coordenadas…?

    Isso mesmo, eram coordenadas. As que recebi de Arta naquela ocasião.

    — Se você conseguir retornar vivo para Rafdonia, vá até as coordenadas que estou lhe dizendo agora. Esconderei algo que poderá lhe ser útil.

    Eu estava sinceramente curioso. O que haveria naquele lugar? Se realmente existisse algo ali, então todas as noções que eu tinha até agora poderiam virar do avesso.

    Uma existência que encontrei dentro do Labirinto. Alguém que, em certo sentido, poderia ser chamado de NPC.

    E se tal existência influenciou o mundo de fora do Labirinto, isso significava algo enorme.

    — Consegue descobrir onde fica?

    — Vou verificar primeiro.

    Ele tirou do espaço dimensional um artefato mágico que parecia uma calculadora. Manipulou o dispositivo com habilidade e…

    — Hã?

    Franziu o cenho e refez os cálculos mais uma vez. Mas o resultado permaneceu exatamente o mesmo.

    — De quem você recebeu essas coordenadas?

    Ele colocou o artefato sobre a mesa com um toque seco e perguntou de repente. Sua reação só fez minha curiosidade crescer.

    — Onde exatamente é isso, para reagir assim?

    — É que…

    E então o GM começou a explicar. Quando terminei de ouvir tudo, mergulhei em reflexão. Minha curiosidade só aumentava… mas como, diabos, eu poderia chegar lá?

    — Interessante.

    Definitivamente, não era um lugar para simplesmente ir e dar uma olhada.

    Um pequeno gesto, um grande impacto!

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