Índice de Capítulo

    Na Ilha do Paraíso, o objetivo dado aos trinta aventureiros que nela pisaram é apenas um.

    Sobrevivência.

    Mesmo sem fazer absolutamente nada, se você conseguir sobreviver por dez dias, a fenda será concluída. Os aventureiros participantes poderão retornar aos seus postos levando consigo suas respectivas recompensas. Contudo, o ponto surpreendente aqui é…

    “Que não existe nada.”

    Nesta ilha onde a ‘sobrevivência’ é o único objetivo, não há monstros ou armadilhas que ameacem a vida dos aventureiros. Para ser rigoroso, não é que eles não existam de todo, mas é mais correto considerar que, na prática, não existem. Afinal, se você não fizer nenhuma idiotice e apenas descansar na ilha, são criaturas com as quais jamais cruzará o caminho. Elas não afetam o status de sobrevivência, por assim dizer.

    Para fazer jus ao nome, a ilha transborda água limpa e frutas deliciosas por todos os lados, então não há com o que se preocupar em relação à fome. Em suma, é uma ilha que poderia ser chamada de paraíso terrestre, onde se pode descansar plenamente por dez dias e voltar com uma recompensa adequada quando chegar a hora…

    “Mas é óbvio que não existiria um lugar assim no Labirinto.”

    Esta ilha está longe de ser um paraíso. Para provar esse fato, nem preciso citar o que vivi durante o jogo. Basta olhar para o que está acontecendo agora, não é?

    O primeiro dia ainda nem terminou.

    Uma morte já ocorreu e, por causa disso, os ‘sobreviventes’ suspeitam uns dos outros e se preparam para se defender. Exatamente assim:

    — Por enquanto, temos quinze suspeitos. O restante de nós pode provar mutuamente que não saiu um passo sequer daqui de perto.

    O homem que estabeleceu para si a posição de vice-líder dos Vigilantes, John Tehan, varreu com um olhar afiado os integrantes do Grupo dos Descolados e do Grupo dos Homens, que haviam saído para explorar. Naturalmente, aqueles que receberam tal olhar não ficariam calados.

    — O mesmo vale para nós! Quando encontramos o corpo deste homem, nós dez estávamos juntos, e ninguém se afastou do grupo até aquele momento.

    — Essa é a versão de vocês. Por favor, entendam que não podemos descartar a possibilidade de que todos os dez tenham combinado uma história — retrucou Tehan.

    — Seguindo essa lógica, o que vocês dizem também é apenas a versão de vocês…

    — O Visconde Yandel também estava aqui conosco. Por acaso você insinua que o Visconde seria cúmplice de tal ato criminoso?

    Diante do argumento de Tehan, que me usou como escudo, o líder do Grupo dos Descolados não conseguiu formular nenhuma contra-argumentação imediata. No entanto, a ausência de uma réplica não significava ausência de autodefesa. Afinal, não dizem que a melhor defesa é o ataque? O líder do Grupo dos Descolados era um aventureiro experiente.

    — Hum, se for assim, seria mais razoável suspeitar deles do que de nós. Afinal, eles são apenas cinco.

    Se não se pode quebrar a flecha, mudar a direção dela é a atitude de um aventureiro astuto.

    — O que quer dizer com isso?! Do nada resolveu cair matando em cima da gente!

    — Não seria muito mais fácil cinco pessoas entrarem em um acordo do que dez que acabaram de se conhecer hoje? Além disso, quase metade do nosso grupo é composto por mulheres.

    — De fato… é um argumento racional — murmurou alguém.

    — Merda! Que conversa fiada é essa?! Qual a diferença entre dez ou cinco pessoas, e o que as mulheres têm a ver com isso?!

    O Grupo dos Homens, caracterizado por suas feições carrancudas, ficou furioso e começou a esbravejar, mas o ímpeto da discussão já havia pendido para o outro lado. Afinal, eles eram a minoria.

    — Os senhores se importariam se verificássemos as bagagens de vocês cinco?

    — Nem ferrando! Encostem a mão e verão só!

    — Por que estão escondendo?

    — Se fossem vocês, abririam tudo mansamente assim?

    — Eu abriria. Especialmente para provar minha inocência.

    — Porra, o que foi que a gente fez para ser suspeito? Vão à merda! Se querem revistar nossos bolsos, revistem os de todo mundo também! Se não for assim, ninguém toca em nada.

    — Como já foi dito, a hora estimada da morte desse sujeito foi há cerca de quatro horas. Acredito que nossa inocência já foi suficientemente provada.

    Após dizer isso, o Grupo dos Homens sacou suas armas, indicando que não havia margem para negociação, e o clima tornou-se insuportavelmente hostil.

    — Calma, calma. Todos, por favor, acalmem-se um pouco.

    Quando a situação chegou a esse ponto, Ivela, que observava tudo em silêncio, interveio.

    — Ao examinar o corpo, notei alguns pontos estranhos. Antes de suspeitarem uns dos outros e sacarem armas, que tal falarmos sobre isso primeiro?

    — O que quer dizer com pontos estranhos…?

    — Primeiro, este homem. Por mais que eu procure, não encontro nada que possa identificá-lo.

    — Isso é porque o assassino…

    — Para começar, por que o assassino o mataria? Se o objetivo fosse o equipamento, não há sinais de que algo tenha sido levado.

    — Ah…

    Em suma, não se tratava de um latrocínio visando equipamentos ou dinheiro. Então, por que este homem morreu?

    — … Talvez o assassino seja alguém que conhece as regras desta ilha — sugeriu alguém em um sussurro, e os olhos dos aventureiros se tornaram afiados.

    Afinal, se fosse alguém matando para aumentar a recompensa da ilha, não se contentaria com apenas uma morte. Todos nós seríamos alvos.

    — Bem, ainda não podemos ter certeza. Afinal, ainda não foi confirmado se este homem era realmente inocente.

    — Hein? O que quer dizer com isso?

    — Talvez este homem tenha tentado atacar o assassino primeiro, e o assassino apenas lutou em legítima defesa.

    — Mas se fosse um caso de legítima defesa, não haveria motivo para esconder, não acha?

    — Creio que a situação de agora pouco explica tudo. Como ele poderia provar a própria inocência?

    Ocultar é mais fácil do que provar. Era um argumento lógico sob vários aspectos e, talvez graças ao conflito que acabara de ocorrer, os outros aventureiros não conseguiram contestar aquele ponto.

    — E a placa de identificação? Por que a levou?

    — Isso… eu também não sei. Contudo, ainda faltam pistas para determinar algo…

    A frase de Ivela, que parecia prestes a dizer que era cedo para conclusões, foi interrompida no meio.

    — Behelaaah!

    É que eu já estava começando a ficar entediado.


    O silêncio caiu repentinamente com o grito súbito. Contudo, ninguém ousou questionar minha ação abrupta.

    — …Parece que o Visconde tem algo a nos dizer.

    Após um breve intervalo, as palavras de Ivela direcionaram todos os olhares para mim. O Grupo dos Homens, sendo a menor minoria, me observava com apreensão. Certamente pensavam que, se eu ficasse contra eles, não haveria saída.

    — Vocês…

    Assim que abri a boca, o foco aumentou tanto que pude sentir todos os ouvidos atentos. Sendo o meu pronunciamento um potencial divisor de águas, todos prenderam a respiração. Senti um pouco de pena. Eu não tinha a intenção de apresentar nenhuma lógica nova ou algo do tipo. Afinal, para que diabos serviria a lógica agora?

    — Por que vocês são tão estúpidos?

    — …O quê?

    — Não basta apenas conferir os pertences de todo mundo?

    — Mas o procedimento razoável seria primeiro verificar os suspeitos…

    Procedimento razoável, uma ova. Isso é coisa de quem não tem força.

    — Você está dizendo que eu sou estúpido agora?

    — Perdão? Não, não foi isso o que eu quis dizer…

    — Como não? Acabei de dizer que isso não é razoável!

    — Bem, eu não quis dizer que o senhor é estúpido, de forma alguma…

    — …E ainda por cima mente?

    Eu simplesmente não podia acreditar. Apenas escórias como saqueadores tentariam enganar um bárbaro. Ah, sim!

    — Então você é o culpado?

    Assim que dei um passo à frente empunhando o martelo, o homem recuou, aterrorizado.

    — O q-que está dizendo! Não sou eu! Eu estive aqui o tempo todo…!

    — Saqueadores estão sempre clamando inocência.

    — …Os pertences! Verifiquem meus pertences! Isso provará minha inocência! Se eu fosse o culpado, não estaria com a placa de identificação?

    — Oh, eu posso fazer isso?

    — Sim! Por favor, verifique… mas abaixe esse martelo primeiro…

    — Hum, se você faz tanta questão. Não vejo por que não.

    E assim, de forma muito pacífica, o primeiro membro para a revista de bens foi definido. Seu nome era Matt Grail. A placa de identificação em seu peito indicava que ele era um aventureiro de quinto nível. Ele voluntariamente colocou tudo o que tinha diante de todos, mas nada de suspeito foi encontrado. E então…

    — Por que está me olhando assim?

    O próximo foi um membro do Grupo dos Descolados com quem troquei olhares por acaso.

    — E-eu não estava olhando de jeito nenhum…

    — Suspeito. Acho que preciso te revistar.

    — …

    — Que cara de insatisfação é essa? Por acaso você é o culpado?

    A partir do segundo, porém, não houve necessidade de erguer o martelo da paz. Graças a Ivela, que entendeu a situação e assumiu a organização.

    — Sei que é desconfortável, mas vamos colaborar. Parece que o Visconde pretende verificar todos. Talvez seja melhor assim; como todos serão revistados, não haverá injustiça.

    — …Está bem. Mas que os demais vigiem uns aos outros atentamente. Alguém pode tentar esconder algo enquanto isso.

    Dali em diante, tudo correu como seda. Cada aventureiro passava pela inspeção um por um, enquanto os outros vigiavam para que ninguém fizesse movimentos suspeitos.

    Segundo, terceiro, quarto…

    As revistas prosseguiram rapidamente.

    — Hum, o que é isso? Você é claramente um homem, por que tem roupas íntimas femininas…?

    — É-É da minha esposa! Não olhem assim! Eu sinto que as coisas correm melhor quando as carrego comigo, só por isso!

    …Um pouco suspeito, mas deixei passar por enquanto. No mundo dos aventureiros, há uma forte tendência a superstições e amuletos. Afinal, mesmo nos tempos modernos, havia muitos atletas com rotinas bizarras por causa de tais crenças…

    — Isto é… um Anel de Vagalumes?

    Durante a sétima revista, eu hesitei por um instante.

    — Sim. Algum problema com ele…?

    — Como se não houvesse. Por segurança, eu ficarei com ele por enquanto.

    — …O quê?

    — …É brincadeira.

    Uau, como um quinto nível possui algo tão valioso? Depois disso, vasculhei a bolsa de forma muito mais minuciosa do que o normal, mas, infelizmente, não havia nada suspeito com o dono do Anel de Vagalumes.

    Tsc.

    Se ele fosse o culpado, eu teria o matado legitimamente e ficado com o anel.

    Oitavo, nono, décimo…

    Conforme as buscas continuavam, eu conseguia ter uma ideia geral das informações dos aventureiros que entraram na Ilha do Paraíso. Dizem que se você vir o quarto de alguém, saberá quem essa pessoa é. É um contexto similar. A mochila de um aventureiro inevitavelmente revela as diversas características daquele indivíduo.

    “Este aqui tem muitas adagas reserva, deve ter alguma habilidade de arremesso… Três poções de grau máximo? Será rico?”

    Quem tem muitas fotos de família preza por ela; ter muito espaço vazio na mochila também é uma informação. Geralmente, saqueadores profissionais que pensam em carregar muitos espólios andam com as mochilas vazias. Por isso reagiram de forma tão sensível ao ato de abrir as malas.

    — Nada de estranho desta vez também.

    Ivela, que auxiliava na busca, comentou com certo desapontamento, mas eu não esperava nada. Eu não acreditava que a placa de identificação ou a arma do crime apareceriam assim.

    “A menos que fosse um idiota, ele já teria se livrado disso.”

    Claro, isso não significava que o que eu estava fazendo era inútil. Meu objetivo era conhecer cada indivíduo através de seus pertences. Como eu já havia identificado alguns tipos suspeitos, a verdadeira dedução começaria após o término das buscas…

    — Oh…?

    Foi durante a décima nona revista.

    — Por que… por que esta pessoa tem duas placas de identificação?

    Pela primeira vez, surgiu alguém com duas identidades. Ao verificar os dados, uma era de fato a dele. O problema era a outra.

    — Altura 1,65m, homem, cabelos castanhos, guerreiro…

    Todos os dados na segunda placa coincidiam com os do falecido.

    — O que… por que isso está aqui…

    Imediatamente, os olhares gélidos dos sobreviventes se voltaram para o dono da mochila.

    John Tehan.

    O homem que tomou a frente da situação, dizendo que aqueles que foram explorar deveriam ser revistados.

    — Seu louco, foi por isso que você nos pressionou daquela forma antes!

    O Grupo dos Homens, que havia passado por apuros, sacou suas armas e o cercou… mas, surpreendentemente, ele não apresentou nenhuma desculpa. Ou melhor, não conseguiu.

    — Argh, ugh…!

    Seu rosto ficou pálido e, em um instante, o corpo de John Tehan derreteu por completo.

    Tshhhhhhhhh…!

    Diante da tragédia repentina, todos os que assistiam perderam a fala.

    — …

    — …

    Sim, esta é a Ilha do Paraíso.

    Um pequeno gesto, um grande impacto!

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