Capítulo 876: Ilha do Paraíso (3/7)
De fato, eu havia refletido sobre isso. O primeiro morto, aquele cujo nome eu desconhecia, bem, agora eu já sabia o nome dele por ter conferido a placa de identificação, mas enfim.
— Talvez este homem tenha tentado atacar o assassino primeiro, e o assassino apenas lutou em legítima defesa.
Eu previ que a hipótese levantada por Ivela anteriormente tinha grandes chances de estar correta. Fazia sentido, não? Uma tragédia causada por uma briga entre dois aventureiros que nada sabiam sobre aquela ilha.
Era algo perfeitamente plausível de acontecer. Ao entrar na fenda, o portal se fecha sem que seus companheiros consigam segui-lo, e você se vê sozinho em um lugar desconhecido. É natural duvidar se o outro é mesmo um humano. E, mesmo sendo, seria impossível confiar. Após descobrir as regras no centro da ilha, o culpado teria escondido o crime por medo de ser responsabilizado pelo assassinato. No entanto…
— Eu estava errado.
A morte de John Tehan prova isso. O culpado está matando pessoas com um propósito claramente malicioso. E mais…
— É correto presumir que esse assassino conhece muito bem esta ilha.
Enquanto eu organizava esses pensamentos, alguém gritou ao olhar para John Tehan, que havia se transformado em uma poça de sangue.
— O Sangue do Rei…! É o Sangue do Rei!
Sangue do Rei. O nome de um veneno usado para suicídio, que dizem ser utilizado principalmente pela Ordem dos Cavaleiros da Rosa ou por grupos secretos da realeza cujos nomes mal conhecemos. O detalhe surpreendente, porém, é que esse veneno não existe. É algo parecido com a Área 51 nos Estados Unidos, onde dizem torturar alienígenas. O medo e a imaginação do público em relação aos grupos secretos da realeza criaram a lenda urbana do Sangue do Rei.
— Sangue do Rei?! Quer dizer que esse sujeito era um lacaio do rei?
— Cuidado com as palavras! Pode haver outros agentes por perto!
Francamente, que bando de aventureiros ignorantes. Aquilo não era nada parecido com o Sangue do Rei. Bem, se tratando da realeza de Rafdonia, imagino que devam possuir algum veneno com uma aura semelhante, mas certamente não seria um que derretesse o corpo e o transformasse em sangue instantaneamente. Afinal, se existisse um veneno tão absurdo, por que usariam para suicídio? Seria usado para assassinatos. E, para começo de conversa…
— Acalmem-se todos! Por que todos pensam que aquele homem se suicidou?
Pois é, nem todos os aventureiros eram idiotas.
— Bem… é porque ele foi acuado como o culpado e não teve escolha a não ser encobrir a verdade com a morte, não?
— Por que um agente secreto da realeza faria isso? Bastaria revelar sua identidade e dizer que o matou por um motivo específico, e nenhum de nós poderia dizer nada!
— Er… mas o Visconde Yandel também está aqui e tal…
— E a expressão que John Tehan fez quando a placa de identificação saiu da mochila? Ninguém viu? Ele parecia alguém que jamais imaginou que aquela situação fosse acontecer!
— Então, o que você quer dizer com isso?
— Eu acredito que isso foi um assassinato! Com certeza esconderam a placa de identificação na mochila de John Tehan para fazer parecer que o assassino havia se suicidado!
— Oh…!
Diante das palavras lógicas do homem, os aventureiros assentiram, achando a teoria plausível.
Bem, eu também não pretendia contestar. Provavelmente era exatamente como aquele homem disse. O problema, contudo…
“Um veneno de alto desempenho a ponto de parecer o lendário Sangue do Rei…”
Quem seria o culpado? Que tipo de item, essência ou magia ele usou para tornar isso possível? Alguns candidatos surgiram em minha mente, mas é cedo demais para determinar exatamente o que foi. Mas uma coisa é certa. Até agora, eu estava apenas curtindo o jogo, achando que não haveria nenhuma situação perigosa para mim.
Ba-dum!
Algo parecia errado. Senti um calafrio.
A morte de John Tehan causou um alvoroço, mas não havia nada que pudesse ser descoberto de imediato. Por isso, a revista das bagagens, que havia sido interrompida, foi retomada. Como esperado, nenhum objeto comprometedor foi encontrado. Se houvesse algo digno de nota, seria apenas um livro que apareceu na mochila de um dos integrantes do Grupo dos Homens.
— Um livro escrito em língua antiga.
Com esse meu comentário, o dono do livro apressou-se em confessar antes mesmo de ser questionado.
— É um livro que encontrei enquanto explorava a ilha. Estava escondido debaixo de uma árvore.
— É mesmo?
…Será que existia um livro assim nesta ilha? Não me lembrava de nada parecido no jogo. Se estava apenas escondido debaixo de uma árvore, a dificuldade de obtenção não devia ser tão alta…
— Por acaso o senhor sabe que tipo de livro é…?
Após o susto inicial de ter o livro revelado, o rosto do homem logo se iluminou com uma intensa expectativa. É, dava para ver que ele era mesmo um aventureiro.
— Vejamos, deixe-me dar uma olhada.
Folheei o livro rapidamente, mas havia muitos trechos danificados onde era impossível verificar o conteúdo. As partes legíveis eram mínimas. Voltei à primeira página e verifiquei rapidamente apenas o que era possível ler.
O livro era o diário de alguém.
Dia 14: Hoje também não houve sinal da equipe de perseguição do Império que vinha nos buscar. Como disse…, eles provavelmente não têm mais forças para isso. Agora podemos viver em paz…
Dia 28: Foi como … disse. A ansiedade desapareceu. Não há mais dor. O rosto de todos está cheio de alegria e felicidade…
Dia 44: Todos concordaram. Isso pode não ter significado nenhum, mas ao mesmo tempo é a coisa mais significativa de todas. Decidimos chamar esta ilha de Paraíso.
Dia …: Desde que Henry e Guile tiveram aquela briga feia, o clima na ilha não está bom. Eles vão conviver para o resto da vida, espero que façam as pazes o quanto antes…
Dia 219: Henry morreu. Ainda não consigo entender. Por que algo assim aconteceu? Pobre Henry. Guile, se eu caçar e matar você, aquele maldito, será que a alma dele encontrará descanso?
Dia …: Enquanto explorava a ilha em busca de Guile, encontrei uma caverna misteriosa. Havia vestígios de Guile na entrada. Como já estava tarde, decidimos vasculhar o interior da caverna todos juntos amanhã de manhã.
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A partir da entrada na caverna, o estrago era tão grande que quase não havia partes legíveis, e isso se estendia até a última página.
[Dia …, is… não é um paraíso…]
Na última página, isso era tudo o que se podia traduzir. Mesmo assim, era um diário bastante interessante.
Quase como um guia.
Este diário, que falava sobre a caverna e a discórdia interna, parecia um recurso narrativo para informar sobre elementos ocultos da Ilha do Paraíso. Sabe como é, em jogos, é comum encontrar diários ou registros que revelam naturalmente a história ou a ambientação. Em Dungeon & Stone, era comum encontrar esse tipo de recurso. O problema, porém…
“É que este livro não existia no jogo.”
Senti um forte déjà vu ao olhar para este diário.
Aquele diário que vi na cabana.
Aquele também era exatamente assim. Pensando bem, além do formato de diário, havia outras semelhanças.
O fato de ser em língua antiga e ter muitas partes danificadas. O fato de eu nunca ter visto aquilo no jogo. O fato de o local pertencer ao Grande Reino dos Demônios do quinto andar.
Claro, também havia diferenças. O diário da cabana esperava pela ‘equipe de resgate do Império’, enquanto este aqui temia a ‘equipe de perseguição do Império’.
“Seria uma história sobre uma ilha para onde desertores fugiram ou algo do tipo?”
Eu estava absorto em pensamentos, franzindo a testa sem perceber, quando fui interrompido.
— Puxa, o que será que está escrito para deixá-lo assim…
As palavras do dono do livro me despertaram do transe.
— Por favor, diga-me! O que diabos está escrito nesse livro?
Ele perguntou como se estivesse morrendo de curiosidade, e eu respondi:
— Não sei.
— Perdão…? Mas o senhor não estava lendo com tanta atenção…?
Sim, estava. Mas seria um saco ter que traduzir tudo. Além disso, o diário em si não continha o tipo de informação que ele esperava.
— Eu dei uma olhada porque disse que ia conferir, mas como vou saber o que diz se está em língua antiga?
— …
— Tente mostrar para um mago. Não para um bárbaro como eu.
Joguei o livro de volta para ele, que o pegou com o rosto bem mais aliviado. Parecia que ele estava com medo de não receber o livro de volta.
“Tsc, o que será que ele pensa do herói Bjorn Yandel?”
— Com licença…
Assim que a revista de bens terminou completamente, uma aventureira se aproximou de mim e, com o rosto levemente corado, perguntou cautelosamente:
— O que o senhor pretende fazer com os equipamentos dos aventureiros mortos?
— Hum?
— É que não parece haver ninguém que possa reivindicar a posse… e eles não têm companheiros por perto.
— Ah.
Em suma, ela queria saber se não deveríamos dividir os pertences do primeiro e do segundo morto entre todos. Do ponto de vista de um homem moderno, era um comentário de psicopata, mas para um aventureiro comum, era um raciocínio padrão. Claro, de acordo com as regras, o correto seria entregar os equipamentos às famílias na cidade e receber a gratificação habitual de cinquenta por cento, mas…
“Quem faria isso no Labirinto?”
Noventa e nove por cento dos aventureiros veem o cadáver de um colega como um baú de tesouro. Até na guilda, se você disser que encontrou um corpo ao ser questionado sobre a origem de um item, eles aceitam sem problemas. Afinal, as ‘regras’ são apenas recomendações vagas. Não há punição por desobedecê-las.
“Parecem um bando de hienas.”
Seria a ganância por uma renda extra? Vi um brilho de cobiça nos olhos dos sobreviventes. Senti uma certa decepção com a profissão de aventureiro, mas decidi pensar que eles estavam apenas sendo fiéis aos seus próprios desejos. Exatamente como eu.
— Eu levarei os pertences deles de volta para a cidade e os entregarei às famílias através da guilda.
— …O quê?
— Algum problema?
Com essa pergunta, os olhares dos aventureiros para mim tornaram-se levemente hostis. Afinal, até um cachorro mostra os dentes se você mexer na comida dele.
— …Se o senhor pretende receber a gratificação, deveria reconhecer a nossa parte nela.
Sem coragem de peitar e perguntar que conversa fiada era aquela, os aventureiros apenas reivindicaram timidamente suas fatias.
— Não há fatias. Não pretendo aceitar a gratificação. Vou entregar tudo à guilda assim que chegar à cidade. Se duvidam, podem conferir com a guilda depois.
— Por que o Visconde decide isso por conta própria? Nós não temos os bolsos cheios como o senhor.
— …Se fazem tanta questão de uma parte, eu pago do meu próprio bolso.
— Oh, então…
— Mas quem aceitar o dinheiro não receberá nenhuma ajuda minha, não importa o que aconteça nesta ilha.
Quando falei de forma curta e grossa, um silêncio constrangedor se instalou por um momento. O silêncio foi quebrado pela mulher que havia falado comigo primeiro.
— …Por que o senhor chega a esse extremo?
Bem. Como eu poderia explicar isso? Era um conceito tão complexo que apenas resumi em uma frase.
— Porque estou com vontade.
Como esperado, eles não entenderam.
Resmungos eram ouvidos de todos os lados.
Diziam que eu certamente pretendia embolsar tudo por trás das costas. Que estava fingindo por causa da reputação. Que, por ter muito dinheiro, falava do alto de minha barriga cheia, e que, se estivessem na minha situação, jamais diriam algo assim.
Bastava aguçar um pouco os ouvidos para escutar as críticas. Não era coragem, estava mais para uma ilusão. Era o clima do momento. Pareciam acreditar que, se falassem escondidos no meio da multidão, seriam perdoados.
“É por isso que gente que não conhece bárbaros é um problema…”
Bastaria pegar um ou dois e dar uns cascudos para que todos se calassem. Eu estava prestes a escolher os “sorteados” quando Ivela se manifestou.
— Ora, na verdade isso não é ótimo? — Ivela interveio primeiro, com um tom alegre que não condizia com o ambiente.
— Ótimo? O que quer dizer com isso?
— Porque o Visconde é esse tipo de pessoa. Por isso mesmo podemos ficar mais tranquilos, não acham? Eu me sinto assim. Mesmo que eu morra, sei que meus pertences voltarão para minha família, e não para as mãos de quem me matou.
— …Bem, visto por esse lado, é verdade.
— Certo, então, Visconde! Posso perguntar o que pretende fazer agora? Já que tomou a frente, certamente deve ter uma opinião brilhante…
Diante da pergunta de Ivela, olhei silenciosamente para ela. Apesar da aparência, ela parecia gostar de se meter onde não era chamada. Bem, para mim é mais fácil se houver alguém para cuidar do trabalho braçal.
— Agora que houve duas mortes, não posso mais apenas observar a situação. Portanto, vou identificar o culpado imediatamente.
— O quê? Por acaso o senhor já sabe quem é o assassino?
— Com certeza.
Assenti sem a menor hesitação, fazendo Ivela arregalar os olhos de surpresa.
— Quem é o culpado?
Antes de responder, soltei um riso nasal e varri os arredores com o olhar. E então…
— O culpado está entre nós.
— Perdão? Ah, sim… claro, ele está aqui, não está?
— Exato. Portanto, Ivela, de agora em diante você controlará o pessoal para que venham à minha frente, um por um, em ordem.
— Hein? Mas o que o senhor pretende fazer…?
— Pegar o culpado.
— …O quê?
— Como acabei de dizer, o culpado está entre nós.
— …?
Ivela inclinou a cabeça, sem entender absolutamente nada, mas eu não me dei ao trabalho de explicar detalhadamente.
Para ela, uma humana e maga, talvez fosse um conceito muito difícil de compreender.
“Por que não entendem algo tão simples?”
O culpado está entre nós. Ou seja, se eu pegar todos, o culpado também será pego. Sim, por isso…
Swish.
Ergui o martelo lentamente e anunciei a todos:
— Nem pensem em fugir. Considerarei culpado aquele que tentar escapar.
O rato já estava na ratoeira.

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