Capítulo 878: Ilha do Paraíso (5/7)
Desfiladeiro dos Fantasmas. Entre as quatro rotas que levam ao sexto andar, esta é a que possui o trajeto mais curto, porém, devido à sua dificuldade extrema, é evitada pela maioria dos aventureiros de nível médio.
— Acampar neste lugar terrível… eu simplesmente não consigo me acostumar.
Jota Jackson, o navegador contratado pelo Visconde Yandel para se juntar a esta expedição, levantou-se de seu saco de dormir tremendo de frio. Não que estivesse realmente gelado, mas arrepios percorriam suas costas toda vez que ouvia os gritos daquelas almas penadas. No entanto, ele não podia demonstrar isso.
“Por que ninguém mais parece se importar…?”
Todos os outros integrantes, exceto ele, agiam como se os gritos das almas não fossem nada. Na verdade, mais do que indiferentes, pareciam relaxados como se estivessem em um piquenique. Por exemplo…
— Oh, esse cheiro…! Carne! É ensopado de carne?!
— Calma, espera um pouco! Ainda tenho que colocar a pimenta e esperar mais quinze minutos.
— Um guerreiro sábio sabe ser paciente!
— Isso é um “entendido”?
— Sim!
Culinária. Eles estavam cozinhando, e comida de verdade! E não era em um espaço fechado como a Torre Celestial do quarto andar, mas bem ali, no topo de um vale totalmente aberto!
Fruuuuuu!
Eles acenderam uma fogueira alta, colocaram um caldeirão enorme por cima e o deixaram fervendo. Sempre que o vento soprava, um aroma delicioso que aguçava o apetite se espalhava e, consequentemente, os monstros começavam a se aproximar. E então…
— Tsc, vocês que só têm alma, o que acham que vão conseguir comer aqui? Sumam daqui agora! Esta é a nossa janta!
— Acha que os monstros vão te escutar? Deixa que eu cuido disso desta vez.
Assim que se aproximavam, os monstros eram pulverizados por magia e diversos ataques à distância.
“São realmente os companheiros daquele Visconde Yandel…”
Era algo extraordinário. Bem, para quem já explorou regiões acima do sétimo andar, o quinto andar provavelmente não representava ameaça alguma.
— Certo, venham todos! Já está pron…
— Behel—laaah!
— Não, você sai daí! Eu vou servir para você!
Enfim, e assim começou a hora da refeição. Para Jackson, era estranho ter uma refeição tão decente em pleno Grande Reino dos Demônios, mas, fora isso, estava maravilhosa. Parecia que, enquanto comia, ele nem ouvia mais os gritos irritantes das almas.
— Está realmente excelente hoje. Sou sempre grato, Senhorita Karlstein.
— Ah, que nada… Quem sabe fazer, faz.
— Caramba! Eu estava com saudade desse ensopado! O clã do Fantasma Dourado é todo estranho e até a comida deles era ruim! Missha, obrigado pela comida, estava ótima de novo!
Missha Karlstein, a aventureira responsável pela cozinha, coçou a bochecha, sem jeito. Contudo, seu rosto ostentava um orgulho impossível de esconder.
“Olhando assim, parece apenas uma mulher comum…”
Mas ele sabia que, se ela quisesse, tiraria sua vida em um segundo. Terminada a refeição, Jackson aproximou-se cautelosamente de Missha para ajudar com a louça.
— Oh? Não precisa fazer isso…
— Tenho que fazer por merecer a comida. Por favor, deixe comigo. Eu faço tudo isso em casa também.
— Ah, é? Então você é um ótimo marido.
— Bem, o defeito é que não passo muito tempo em casa. Ah, mas desta vez eu tirei um descanso bem longo! Haha!
Esse era um dos macetes que ele aprendeu ao ser contratado por diversos grupos: nunca cause má impressão e, se puder ganhar a simpatia deles, ganhe. Assim, eles o protegeriam em momentos de perigo.
— A propósito, já se passaram três dias.
— Sim. Ele disse que levaria dez dias, então deve sair em uma semana.
— A Senhorita Karlstein não fica nem um pouco preocupada?
Jackson aproveitou para puxar conversa e tirar uma dúvida que guardava consigo. E então…
— Hum? Preocupada…?
Por algum motivo, ao ouvir a pergunta, ela parou de lavar a louça e inclinou a cabeça. Sua expressão era como a de quem não tivesse entendido a própria pergunta.
“Será que perguntei algo errado? Tenho certeza de que não foi nada estranho.”
O clima ficou esquisito, mas Jackson insistiu no assunto. Mas o que seria aquilo?
— Sim… é uma fenda de quinto andar, e o Visconde Yandel entrou lá sozinho, não foi?
— Hahahaha!
O terian que estava logo atrás caiu na gargalhada.
— Ora, meu amigo. Você estava guardando essa preocupação aí dentro?
— …?
Como a reação foi totalmente incompreensível, Jackson olhou novamente para Missha, mas a reação dela não foi diferente.
— Haha, o Abman tem razão. Não precisa se afligir, fique tranquilo. Na verdade… se é para se preocupar com alguém, devia ser com os outros aventureiros que entraram com ele…
— O quê?
Jota Jackson continuava sem entender. Era uma fenda de quinto andar. E ele entrou sozinho, sem seus companheiros. Por mais que fosse o Visconde Yandel, não era normal se preocupar ao menos um pouco? Claro, percebendo o clima, ele não externalizou mais suas dúvidas.
— Isso me faz lembrar da época do incidente em Bifron. Naquela vez, Missha, você não ficou morrendo de preocupação?
— Argh… não foi bem assim, nyah.
— Quando ouvimos o que aconteceu lá depois, foi impagável! Disseram que ele virou o chefe ou algo assim.
— Hum, aconteceu algo desse tipo? Gostaria de ouvir os detalhes.
Logo, Armin, que parecia ser o braço direito de Yandel, aproximou-se e entrou na conversa. Abman, aproveitando a deixa, começou a contar histórias antigas de forma barulhenta. Jota Jackson, interessado, sentou-se ao lado para ouvir, mas, por outro lado, sentia uma ponta de estranhamento.
Comiam refeições deliciosas na hora certa. No tempo livre, deitavam e descansavam. Passavam o tempo rindo e conversando. E…
Ninguém se preocupava com o líder.
Como se tivessem feito um pacto para agirem assim.
“Será que ninguém se dá bem com o líder?”
Para ele, aquilo era impossível de compreender. Bem, pelo menos por enquanto.
No. 18: Criador de Fendas. Um item de dois dígitos com a capacidade de abrir uma fenda no andar correspondente ao se inserir pedras de fenda. Pensando sob a premissa de que eles possuem esse objeto, o cenário começa a se desenhar.
Colocar-se no lugar do outro.
Originalmente, em situações assim, é preciso pensar rigorosamente do ponto de vista do adversário.
“Dez pedras de fenda de quinto nível.”
Esse é o custo necessário para abrir uma fenda de quinto andar. Bem, se você inserir dez vezes esse valor, é possível abrir a fenda que desejar, mas…
“Podemos descartar essa possibilidade.”
Por mais que eu pense, não há razão para gastar todo esse custo para especificar a Ilha do Paraíso. A menos que fosse uma fenda única como a Fortaleza das Almas. Sairia mais barato simplesmente abrir a fenda dez vezes. Levaria tempo e esforço, mas, em dez tentativas, é provável que a Ilha do Paraíso aparecesse ao menos uma vez.
Enfim.
“Eles pretendiam limpar uma fenda de quinto andar, mas, por azar, a que abriu foi a Ilha do Paraíso.”
Resumindo, essa é a situação deles. Se eu adicionar mais algumas linhas…
“A Ilha do Paraíso abriu, mas, por azar, Bjorn Yandel entrou junto.”
“Bjorn Yandel disse que o único saqueador bom é o saqueador morto.”
“Eles conseguiram matar um que encontraram antes da reunião no centro, mas há sobreviventes demais.”
“Bjorn Yandel saiu dizendo que usaria um método especial para concluir a fenda antecipadamente.”
“Nesse ritmo, eles terão prejuízo.”
Sim, deve ser por aí. Eles gastaram 10 pedras de fenda de quinto nível para abrir o portal; se tudo acabar assim, o prejuízo será enorme. Considerando o tempo de recarga intrínseco ao Criador de Fendas, a perda é ainda maior.
Portanto…
“Eles precisam fazer alguma jogada.”
Esse é o fluxo natural de pensamento. ‘Hehe, tudo deu errado por causa do Bjorn Yandel, então vou apenas aceitar e amargar o prejuízo.’ Quantos aventureiros teriam essa mentalidade? Cem em cada cem tentariam encontrar uma forma de minimizar a perda.
“E o resultado disso é o que temos agora.”
Dei um riso nasal enquanto varria o pátio vazio com o olhar. Era um riso com um toque de autodepreciação. Provavelmente, eles sabiam que eu estava de tocaia por perto o tempo todo. Eu vigiei apenas os vinte e oito que estavam amarrados no centro; não suspeitei de presenças externas. John Tehan, que escapou forjando um suicídio, deve ter me descoberto na emboscada há muito tempo e discutido com seus comparsas através de algum meio. E então…
Atacar o leste para atingir o oeste.
Enquanto eu estava com a atenção voltada para ele, os demais cúmplices sequestraram os outros aventureiros. O método de sequestro provavelmente foi o Teletransporte em Massa. Mas aqui surge um problema.
“Por que os levaram em vez de matá-los no local?”
Isso também é fácil de entender se pensarmos do ponto de vista deles. Se deixassem cadáveres, seria possível deduzir quem era o culpado através deles. Por isso, resolveram sequestrar todos primeiro para depois ‘descartá-los’ onde não restassem rastros. Bem, como eu conferi as placas de identificação de todos, eu poderia caçar o culpado e exigir o pagamento devido ao retornar à cidade e verificar cada um dos vinte e nove, mas…
“Tenho a sensação de que aquelas placas também eram falsas.”
Eu instintivamente sabia. Se eu não os pegasse aqui e saísse para a cidade, jamais conseguiria capturá-los. Sim, por isso…
— Estão ouvindo?
Caminhei em direção ao cristal central, julgando que, de uma forma ou de outra, eles estariam me observando.
Thud.
O objetivo atual deles é óbvio. Reduzir o número de sobreviventes para cinco ou dez pessoas, esperar o décimo dia para o portal abrir, pegar a recompensa e ir embora.
— Vocês parecem estar confiantes. Acham que, por mais que eu vasculhe esta ilha, não serei capaz de pegá-los.
Claro, não é uma confiança infundada. De fato, áreas como rastreamento e mobilidade são domínios que um bárbaro de escudo não consegue cobrir. Eu poderia correr por dias e dias e nunca os alcançaria.
No entanto…
— Podem tirar o cavalinho da chuva.
Eu posso afirmar com determinação: esse futuro não existe para eles. Afinal, eu não sou um bárbaro comum.
Um Bárbaro Coreano mestre nas artes e nas letras, possuindo o espírito de um gamer que sabia quase tudo sobre Dungeon & Stone.
Esse eu, Bjorn Yandel, declaro:
— Ninguém vai escapar.
Certamente, se estiverem ouvindo isso, as chances de estarem rindo de deboche são altas. Devem achar que é apenas bravata de alguém irritado. Bem, algum deles com bom instinto pode estar sentindo um calafrio agora. Enfim, o importante não é isso.
Swish.
Ergui bem alto o martelo que já havia esmagado inúmeras cabeças inimigas. E então…
Baaang…!
Comecei a golpear o cristal no centro da ilha. Como ele não cedeu de primeira, bati duas, três, quatro vezes…
Bang! Bang! Bang!
Cinco, seis, sete vezes… continuei golpeando o martelo sem parar, a ponto de perder a conta, o que me fez lembrar de quando cavei um túnel sob a Torre dos Magos. Aquela memória me dava convicção.
Bang! Bang! Bang!
Por mais escuro e longo que seja o túnel, ele um dia acaba. E…
Baaang!
No fim, haverá luz.
Zzt…!
Rachaduras surgiram no cristal gigante.
Crash…!
Um pedaço da extremidade se estraçalhou. Avancei para dentro, quebrando o cristal peça por peça com o coração de um devoto seguindo a luz. E, ao final…
Shoooooooo…!
Escondida dentro do cristal sólido, uma pequena massa de luz emanava um brilho intenso.
Crack…!
No momento em que o martelo finalmente atingiu aquela massa de luz:
【O Desejo do Desertor foi destruído.】
Em pouco tempo, o brilho que emanava do cristal desapareceu, e uma escuridão profunda caiu sobre toda a ilha. O que isso significava era muito claro.
【Condição Especial – Caminho do Traidor foi desativada.】
Agora, mesmo que cheguem ao 10º dia, o portal que eles esperavam não aparecerá. Em suma…
— Vejo vocês em breve, seus merdas.
Eles virão até mim por conta própria.
Hehe.
Ah, e claro, trazendo o Criador de Fendas junto.

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