Capítulo 145: O Grande Legado (2/5)
『 Tradutor: MrRody 』
O antigo e maligno deus Karui, ao contrário dos outros três deuses neste mundo, exigia que seus subordinados pagassem um preço imensurável. Ele não concedia generosamente; em vez disso, só realizava desejos desesperados sem fazer distinção entre o bem e o mal. O pagamento oferecido apenas tinha que ser suficiente. Nem mais, nem menos – apenas o certo.
— Eu permitirei.
No momento em que ele finalmente ouviu a resposta que esperava, o braço de uma besta rasgou o próprio espaço para arrancar o braço de Ludwig. Quando ele recuperou a consciência, estava em um lugar que antes só havia visto. Esse era, sem dúvida, o poder de um demônio, especialmente porque sempre havia um preço a pagar.
— Minha… vitória!
Bem no momento em que ele tomou sua decisão, a batalha desesperada estava chegando ao fim. Ludwig estendeu a mão urgentemente, e isso foi suficiente.
— Eu vou aceitar.
Ele nem precisou explicar ao deus maligno o que queria em troca.
— Velho! O que você está fazendo?! — O corpo do Matador de Dragões, que havia empurrado sua espada contra o guerreiro bárbaro, recuou ao ser recebido com forte resistência.
Rrrssh!
Ambos os ouvidos de Ludwig foram arrancados, um sacrifício permanente ao deus maligno que não poderia ser curado com nenhum poder divino ou poção. Uma dor queimava nele que não podia nem ser comparada a estar pegando fogo. No entanto, Ludwig só pensava em uma coisa.
“Sim, aquelas pessoas também estão lutando com uma dor assim.”
— Velho! Me cure! — ordenou o Matador de Dragões, seus olhos emitindo uma luz negra. Contra sua vontade, o corpo de Ludwig se moveu como se estivesse possuído. Mais ainda do que a ameaça ao seu neto, cuja alma Vagos possuía, isso era por causa de um dos poderes sobrenaturais de Vagos, Subordinação. Enquanto aquela habilidade amaldiçoada o amarrasse, Ludwig não podia resistir às ordens.
— Eu vou contar até dez.
No momento em que as enormes garras da besta arrancaram seu outro braço, seu corpo parou de avançar contra sua vontade. Mas ainda não era o suficiente. Ainda havia muitas coisas que ele desejava, e ele tinha muito a oferecer. Pernas, olhos, coração, pulmões – qualquer coisa serviria. Ele daria cada parte do seu corpo miserável, que estava chegando ao seu fim, se pudesse ajudar os jovens heróis em seu caminho. Ele até desistiria da esperança de acabar com sua vida exaustiva e descansar em seus braços.
— Me dê força para matar aquele homem.
Ludwig falou, e o deus maligno respondeu: — Impossível.
Não era uma recusa. Era apenas que, por mais que ele valorizasse sacrifícios voluntários, o pagamento que Ludwig oferecia não era suficiente. No entanto, Ludwig afastou qualquer desapontamento persistente. Isso era diferente da resignação que ele sentia todos os dias há anos. Não foi apenas um segundo atrás que ele desistiu de esperar pelo impossível e decidiu fazer tudo o que pudesse?
A quantidade de liberdade que o deus maligno concedeu a ele foi de apenas dez segundos. Não havia tempo para se afundar em desespero. — Então, deixe-me protegê-los.
Ludwig falou novamente, e o deus maligno riu. — Eu permitirei.
Os braços da besta alcançaram a escuridão, rasgaram seu corpo e o engoliram.
O alívio de escapar de uma situação quase fatal foi momentâneo. Surgiram perguntas. Como o sacerdote de Karui chegou aqui quatro horas depois e por que ele faria algo para prejudicar o Matador de Dragões? Será que isso tudo faz parte de outro plano?
— Velho! O que você está fazendo?! — Pelo olhar no rosto do Matador de Dragões, não parecia que isso era o caso. Simplificando, isso também foi uma surpresa para ele. No entanto, era difícil ver isso como positivo. — Velho! Me cure!
Uma luz negra começou a brilhar nos olhos de Vagos enquanto o sacerdote cambaleava para trás, até soltando sua espada. Era óbvio o que era: Subordinação, a habilidade da essência de terceiro nível que Vagos possuía. Era uma habilidade muito poderosa que permitia ao usuário absorver as almas dos mortos para aumentar seus atributos e, embora houvesses algumas condições de uso, permitia a eles escravizar um alvo se usado em um ser vivo.
Tuff.
Logo, o sacerdote avançou como se estivesse possuído. Mas bem quando tudo parecia ter terminado, seu braço restante foi arrancado enquanto ele aparentemente oferecia um sacrifício a um deus maligno oculto nas sombras.
Tuff.
O sacerdote parou de andar. ‘Aterrorizante’ não era uma palavra forte o suficiente para descrever sua aparência. Parecia que suas duas orelhas e braços tinham sido arrancados por bestas. No entanto, apesar do estado em que ele se encontrava, o sacerdote falou. — Dê-me a força para matar aquele homem.
Só então eu realmente compreendi a situação, com quem esse sacerdote desconhecido estava falando e que tipo de acordo estava sendo feito. Se todas as minhas previsões estivessem corretas, haveria uma maneira para nós sairmos dessa com vida.
— Impossível. — O sacerdote recebeu uma recusa como resposta ao seu pedido. A voz ecoou pelo corredor como se estivesse se dirigindo a todos nós. Houve reações mistas a isso… enquanto nossos corações afundavam, um breve brilho apareceu nos olhos do Matador de Dragões.
E naquele momento… — Então deixe-me protegê-los — o pedido do sacerdote continuou sem o menor indício de hesitação.
Eu ouvi risadas de algum lugar. — Eu permitirei.
O sacerdote caiu no chão. Isso fazia sentido, considerando que as duas pernas que sustentavam seu corpo haviam sido arrancadas. No entanto, o deus maligno era um ser contraditório que oferecia tanto esperança quanto desespero em momentos alternados.
Whooom!
Então, em troca, um portal feito de luz negra se formou no centro do corredor. A cor do brilho era diferente, mas ainda era um portal, o mais alto nível de magia… e um que poderia abrir uma porta para a cidade a partir do labirinto.
Whizz!
Logo, o denso portal dimensional começou a mostrar o que havia do outro lado. Não era a cidade cinzenta familiar de Rafdonia, mas uma fortaleza subterrânea escura e sombria.
— Velho! O que você está fazendo!? Pare agora… — Como se uma rajada invisível de vento o estivesse arrastando, o corpo do Matador de Dragões estava sendo lentamente puxado de volta em direção ao portal. — Você não se importa com o que acontecerá com seu neto!?
O Matador de Dragões gritou de raiva, mas o sacerdote apenas respondeu teimosamente: — Isso é algo que deveria ter sido feito há muito tempo.
— Pooorra! — Talvez Vagos também tenha aceitado que não havia como impedir o plano do sacerdote, porque ele gritou para mim e então desviou seu olhar para algo. Ele estendeu a mão.
Swiii…
A espada longa curva, que havia sido deixada sem dono, arranhou o chão enquanto começava a se mover em direção a ele como se estivesse magnetizada. Era muito claro o que ele estava tentando fazer. Onde quer que ele estivesse indo, ele planejava levar isso com ele.
“Esse maldito com fetiche por espadas.”
Eu forcei minhas pernas vacilantes a se moverem e me joguei para a frente, não em direção ao pedaço de merda sem coração, o Matador de Dragões, mas em direção à espada que estava sendo puxada para ele.
Thud.
Fiquei atordoado com o impacto do meu corpo esfarrapado atingindo o chão, mas mesmo assim estendi a mão e peguei a espada.
Pzzzzzz!
A espada emitiu calor assim que eu a toquei, como se tivesse a marca de seu dono. Graças à Resistência à Dor, a dor era suportável, mas eu podia sentir claramente a dormência tomando conta da minha mão. Tive a sensação de que segurar isso por mais alguns minutos poderia tornar meu braço inutilizável para sempre.
“…Será que esse cara continuou a usar essa espada apesar disso?”
Qualquer pergunta desnecessária que passasse pela minha mente foi imediatamente apagada. Eu não precisava pensar sobre nada disso agora.
— Seu!
Eu tinha que suportar isso, mesmo que precisasse colocar meu peso no chão e cravar meus dentes no piso para que a lâmina que um dia ele poderia apontar para mim não fosse essa. Para que ela não pudesse ferir meus companheiros.
Kak kak kak!
Em um instante, a força do puxão ficou mais forte. Meu corpo começou a escorregar enquanto eu perdia a tração. Nessa velocidade, havia uma boa chance de eu ser sugado para o portal junto com a espada.
“Droga, devo soltar agora?”
Justo quando o pensamento estava surgindo em minha cabeça…
C-Cof!
O desgraçado tossiu sangue e a sensação de resistência desapareceu.
“Sim, isso seria demais para você também.”
Um momento depois, ele me chamou. — Bárbaro… Eu vou te achar de novo. — ele disse com dificuldade. Era uma frase que um vilão sujo diria, algo que até Missha ficaria envergonhada de ouvir. Ele nem disse o que faria depois disso.
Thump!
Meu coração disparou com o aviso. O espeto cravado no ombro dele, seu maxilar meio-esmagado, a energia assassina que fazia minha pele arrepiar, e sua mão direita, que havia passado de vermelha para preta e estava fumegando, tudo me dizia que, se aquele dia chegasse, eu não teria a mesma sorte que tive hoje. Isso era mais claro do que centenas de maldições. Mas e daí?
Grrrp.
O fato de ele ser membro da Orcules, um aventureiro do nono andar com o apelido de Matador de Dragões? O fato de não haver um Guardião do Equilíbrio da próxima vez? Eu já sabia de tudo isso. Sim, eu não poderia derrotar esse homem agora. E se ele tivesse outro truque na manga, eu teria que lutar desesperadamente, como hoje.
Shaaa!
Mas eu sobreviveria porque era isso que eu fazia melhor. Porque era isso que eu vinha fazendo minha vida inteira. Porque era algo que eu tinha que continuar fazendo no futuro. Eu sobreviveria e me tornaria mais forte para que, um dia, quando eu não precisasse mais de um golpe de sorte para vencê-lo, eu o encontrasse.
— Eu vou estar te aguardando, draconato.
Você não é o único que perdeu algo hoje.
Shaaa!
A boca gananciosa do portal engoliu seu corpo e desapareceu. Ao mesmo tempo, uma luz quente começou a permear meu corpo. Não apenas o meu, mas o de todos os outros também.
“Poder divino?”
Eu olhei para minha mão com espanto. Lenta, mas firmemente, a ferida estava curando. E, ao contrário do uso de uma poção, não havia dor, apenas calor.
Swip.
Só então eu recobrei a consciência e olhei para trás. Vi o corpo do sacerdote, que havia sido despedaçado. Poderia ser chamado de corpo agora? Não tinha braços ou pernas. Sangue vermelho-escuro fluía de suas órbitas esvaziadas, e seu nariz estava cortado, fazendo-o parecer um cadáver no campo de batalha. Além disso, as coisas que deveriam estar em seu abdômen, que tinha um corte vertical, haviam desaparecido.
— Por que…? — murmurei involuntariamente. Pelo que diabos esse velho havia se sacrificado tanto, e para completos estranhos como nós?
Então, ouvi um som fraco vindo do sacerdote. — Carta… bolso…
Eu fiquei incrédulo, mas rapidamente me aproximei dele e procurei em sua túnica. Uma carta apareceu, amassada e gasta nos cantos.
— Reatlas…
— Não se preocupe. Descanse. Eu vou garantir que esta carta chegue à Igreja de Reatlas.
— Obrigado… — O sacerdote fechou os olhos. Seu corpo estava coberto de sangue, mas seu rosto enrugado estava limpo e tranquilo. Enquanto eu o observava, parecia que estava em um sonho. Como ele conseguiu falar nesse estado?
Eu não aguentei e decidi perguntar, porque não teria outra chance. — Por que você nos salvou?
Porque era a coisa certa a fazer? Bem, se ele tivesse esses sentimentos, ele teria tido uma chance de ser libertado há muito tempo. Por que hoje? Não podia ter sido apenas coincidência, e eu estava muito curioso sobre a razão por trás disso.
Não houve resposta. Será que ele já estava morto? Quando comecei a me levantar, os lábios do sacerdote se abriram ligeiramente. — Ma… go…
A sentença nunca foi concluída, mas foi suficiente. — Entendi. Obrigado por me contar. — Levantei-me sem arrependimentos. Havia muitas coisas que eu queria perguntar, mas tive a sensação de que o velho já tinha partido.
Parei e absorvi o silêncio distinto e opressivo. Aproveitando o brilho dessa quietude, sussurrei para mim mesmo, “Nós sobrevivemos.”
Hikurod, Missha e Rotmiller haviam sobrevivido.
“Mas eu não posso dizer que cumpri minha promessa assim.”
Eu sorri amargamente enquanto olhava pelo corredor para o corpo do meu companheiro de equipe.
— Você pode… vencer?
— Não se preocupe. Nós definitivamente retornaremos para casa vivos.
Eu disse isso com confiança, mas ele foi quem realmente nos salvou no final. O que tornou possível para todos nós sairmos daqui vivos foi algo que não poderia ser descrito como sorte… era mais próximo de um milagre de um deus.
— Ma… go…
Riol Warb Dwalkie era apenas um mago que lutou até o fim amargo. E este foi o legado que ele nos deixou.

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