Capítulo 19: Deus está morto.

Há horas Marcus se arrasta pelos túneis fúnebres e esquecidos sob a cidade. Esqueletos, restos humanos, o rapaz vê de tudo enquanto pensa o tempo todo que não deve ceder a loucura, porém está difícil, o cheiro, o ambiente, os vermes encostando e se contorcendo em seu braço… Tudo dificulta essa tarefa, mas a esperança é a última que morre, já que ele PRECISA chegar até o final. Se não… o quê? Por algum motivo esqueceu o porquê disso tudo, no entanto, parar não é uma opção.
PORQUE EU NÃO TE AMO MAIS.
As palavras vêm do além, sem uma voz definida e Marcus arregala os olhos como se tivesse sido atingido por um raio. Ele não entende, mas sente. É um tiro forte, ele desiste de si mesmo e lentamente baratas, centopeias e ratos começam a devorar o seu corpo naquele estreito buraco sem fim.
Um mão gentil se estende até o corpo de Marcus encostando levemente na cabeça dela e fazendo todo o mal que é feito contra o homem evaporar.
Sentindo toda a maleza de seu corpo evaporar, Marcus ergue a cabeça para ver o que o ajudou.
— Anika…? — ele diz. O cérebro dele, de alguma forma, sabe que essa não é Anika apesar de ter a aparência da mulher que ama.
“Anika” responde com um sorriso reconfortante e inclina a cabeça para encostar testa a testa com Marcus.
Marcus desperta com um susto e olhando ao redor para tentar se situar e entende onde está. O barulho de motor do carro com o cheiro de óleo causam um sentimento estranho dentro dele. Nostalgia? É, isso traz memórias de tempos mais simples, quando ele e o primo só queriam se divertir e aproveitar a infância.
Marcus sorri levemente, para a confusão de Starboy ao lado dele, que encara-o curioso.
Ao mesmo tempo, Jon dá uma olhadela no retrovisor interno.
— Finalmente acordou, parceiro.
— Foi mal — Marcus começa. — Tá foda descansar ultimamente.
— Eu entendo — responde Jon. — Só não esquece que estamos aqui para a Anika.
— É… Anika. — Marcus se lembra do sonho estranho que acabou de ter. A imagem de “Anika” sorrindo para ele causa uma sensação estranha no estômago do rapaz.
Ele observa através da janela do carro para ver um cenário de caos tomando conta dos Projetos. Sem tetos correndo sem rumo, viciados quebrando janelas de lojas para saquear o mínimo de centavo que conseguirem e gastarem na pedra mais barata que acharem. Olmecas jogando sinais de gangue no ar e espalhando a violência.
A vida nessa cidade é cruel e tudo isso aperta o coração de Marcus. Quando foi que tudo isso começou? Barbárie e violência sempre estiveram presente na sociedade, mas essa segregação e forçando pobres coitados a enfiar o pico no braço pra poder esconder um pouco da dor de ter que morar por essas ruas? Quando isso foi imposto na gente?
— Esse caos… — Jon começa. — Parece o dia que mataram seu primo.
Marcus não responde. Ele abaixa a cabeça e morde os lábios. Na mente dele as lembranças se formam sem que perceba. O primo em seus braços, sangrando pela boca, mas com um sorriso em comum.
PROMETA.
“Prometa.”
Foi a última palavra do primo antes de dar o último respiro e partir. Marcus não respondeu. Não precisava. Aquele momento vai andar consigo até chegar o dia dele morrer.
— Por isso precisamos achar a Anika. — Marcus diz para encerrar a conversa.
BLAM. BLAM. BLAM.
Os vidros do carro são estilhaçados indo até a pele de Marcus, que grita de dor. Jon joga o volante para o lado com força para evitar ser acertado pelos próximos tiros.
— Marcus, ‘cê tá bem?!
Marcus respira rápido com os olhos arregalados.
— Tô — Marcus exclama. — Tira a gente daqui, porra!
Jon pisa fundo no acelerador se afastando de onde foram atacados. O mundo que eles conhecem tá pegando fogo, o coração de Jon se aperta. Julio realmente vai descer até o fundo do poço por conta de alguns homens mortos? Não faz sentido, os Olmecas nunca mostraram força dessa maneira. O que ele quer com isso? E quem atirou neles? Viciados? Olmecas? Ainda há alguns membros das Aves Plumadas pela rua, mas já faz algumas horas que eles atacaram os Projetos. Caralho, a mente de Jon não para de fazer perguntas para si mesmo, tudo fica embolado e embaçado.
Se aproximando dos Prédios Duplos dos Projetos, eles veem uma enorme multidão lamentando pelo que aconteceu. Moradores choram e se abraçam encarando ambos os prédios, ainda em chamas. Com certeza perderam tudo o que tinham, além das coisas suadas que se mataram de trabalhar, algo ainda mais precioso virou cinzas: o próprio lar.
Jon tenta evitar olhar para os rostos, mas são pessoas que conhece basicamente durante toda a sua vida, reduzidos a nada e sem saber se vão ter um teto para dormir. O coração do rapaz se enche de raiva e apenas segue Marcus, que vira a cabeça de um lado pro outro tentando achar Anika, sem sucesso.
Algo porém chama a atenção de Marcus. No meio da multidão algo chama a atenção dele: uma linda mulher brinca. Nos braços dela, um pequeno bebê, que no meio da maré de infelicidade, sorri. Um sorriso inocente. Um sorriso de quem não entende que vive em uma cidade condenada, vai viver uma vida amaldiçoada simplesmente por ter nascido no último andar dessa Torre-Cidade.
O que ele fez para merecer isso? Não adianta rezar. Deus está morto.

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