Se os Olmecas e seus inimigos se juntassem, eles provavelmente me matariam antes do fim desse parágrafo. Parece que toda a cidade tá contra mim.

    A mulher luta para abrir os olhos. Cansaço, medo, arrependimento e o sentimento de estar trilhando um caminho sem volta.Uma batida ecoa pelo carro, ela demora alguns segundos até que identifica o som, um hip hop clássico de Copa City. O lado esquerdo do rosto dela está quente, encostando em algo reconfortante. Ah, sim. O braço de Marcus, ela reconheceria essa sensação em qualquer momento.

    Anika murmura algo para si mesma e então levanta, evitando contato visual com qualquer um dentro do carro.

    — O que aconteceu? — Ela pergunta, já sabendo a resposta. Fitando o cenário dos Projetos pela janela, seu coração aperta vendo tanta desgraça. Pessoas aproveitando o caos para saquear o que dava, os Projetos fudidos, sinais de gangue sendo jogados para o alto por onde passa, cocaína misturada com maconha.

    Marcus fica em silêncio por um tempo ao relembrar o cenário que achou ela. Uma porrada de Olmecas mortos, as mãos dela ensanguentadas.

    — Te achamos presa em escombros. — Marcus diz e engole seco.

    — Eu tava sozinha?

    — Sim.

    Anika fecha os olhos e uma sensação de querer chorar toma conta dela, porém ela segura com todas as forças e apenas se encara no reflexo do espelho. Por dentro, ela sabe a verdade, mesmo que seja dito o contrário e é assim que a cidade opera. Desde pequena, lutou contra essa lógica da violência de Copa City. Ter o sonho tolo de querer ser uma médica? É mais fácil querer ser um bombeiro no inferno.

    Ela recolhe o próprio corpo e se deita sobre o ombro de Marcus.

    — Eu… — Anika começa e busca forças para continuar. Ela respira fundo e então… — Eu matei pessoas. Olmecas.

    Não é uma novidade para Marcus, ele esperava não ter que fazer ela confrontar isso.

    — Todos nós já fizemos isso. — Marcus diz com um tom quase que frio. — É coisa da cidade.

    — É, talvez seja. — Ou talvez não. Ela não confia nessa resposta.

    Pouco tempo todos, o grupo está de volta no esconderijo e reunidos para discutir, com exceção de Anika.

       — Seguinte: nós vamos fuder com o Julio. — Jon joga algumas cartas na mesa. Ao redor dela está Marcus, Starboy e Sheila. — O puto declarou guerra contra a gente e vamos ter que ir pra cima.

    — Eu só não entendi o que porquê dele fazer isso. Não somos tão importantes assim. — Começa Marcus. — Três fudidos contra um império e ele tá com medo?

    — É… — Jon concorda.

    — Vocês têm algo que ele quer. — Sheila fala em um tom seco e objetivo.

    — O quê? — Marcus e Jon indagam juntos e então mostram uma reação de surpresa, de ter entendido.

    Todos se viram e encaram Starboy, que abre um leve sorriso não entendendo o motivo de ter virado o centro das atenções do nada.

    — Mas será mesmo?

    — Nós ferimos e atacamos o pessoal dele — reflete Jon. — Ele sabe que temos uma arma poderosa.

    “Arma?” Marcus franze o cenho e então completa.

    — Isso significa que cada porrada nossa machucou ele. Não podemos parar agora.

    — Tô contigo. Temos que dar uma porrada maior agora.

    — A fortaleza dele no Morro Redrock.  

    Tanto Marcus quanto Jon abrem um sorriso, Starboy copia o que eles estão fazendo. Sheila apenas observa enquanto acende um cigarro e começa a tragar.

    No banheiro do esconderijo, Anika repousa a cabeça na parede enquanto o jato de água intermitente cai na nuca dela. Lentamente, a mulher vira a cabeça para o lado vendo azulejos e fios retorcidos quebrados. Antes, um lugar que servia para as moças que trabalhavam no clube se trocar e se ajeitar para trabalhares, agora é um emaranhado quebrado e nojento. Anika não consegue tirar os olhos desse cenário, com um sentimento sufocante tomando conta de seu peito.

     Tudo morre. Os Olmecas que ela matou iriam morrer algum dia, céus, eles que escolheram essa vida e sabiam do preço. Também, se ela não agisse, o que será que fariam com a mulher e o bebê? Tem gente que merece morrer.

    Ela morde os próprios lábios e o sentimento sufocante cresce em um nível que fica difícil de respirar.

    — Anika?

    A voz do lado de fora é de Marcus.

    — Chega aqui quando terminar.

     Gentilmente ela fecha o chuveiro, se veste e se prepara para abrir a porta do banheiro, mas antes respira fundo. Todo a sujeira ao redor dela parece não importar mais, o banheiro tava destinado a acabar desse jeito a partir do momento que foi construído para ser mais um puteiro de Copa City. Afinal, quem já não matou nessa cidade?

    Anika abre os olhos, decidida a continuar. Com força, ela abre a porta e Marcus tá esperando por ela sentado em uma cadeira.

    — O que foi?

    — Vamos atrás do Julio e acabar com isso de uma vez, fica aqui e—

    — Não. Eu vou com vocês. Já passou da hora desse puto pagar. — Ela diz decidida.

    Marcus se surpreende e por um momento fica assustado, porém uma crise de riso toma conta dele.

    — Então vamos.

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