Lilith deixou a sala, fechando a porta suavemente atrás de si. Conforme caminhava pelos corredores da guilda, sua mente fervilhava de perguntas e incertezas.

    O que eu faço agora?, ela pensou, sentindo o peso da decisão se aproximando, Devo esperar mais um pouco ou ir imediatamente em direção ao mago?

    A curiosidade sobre Vern e a torre do Mago a pressionava, mas algo dentro dela hesitava.

    Você está pronta para partir?, a voz suave de Félix invadiu seus pensamentos, sua presença invisível ainda a acompanhando, como sempre.

    Não… ainda não, respondeu Lilith telepaticamente, sentindo a verdade nas suas palavras. Apesar de ser consumida pela curiosidade, algo dentro dela sabe que se precipitar seria um erro. 

    Félix, como sempre, oferecia uma companhia silenciosa, mas cheia de compreensão. Ele não a pressionou, apenas observando. 

    Talvez seja melhor voltar ao quarto, então, ele sugeriu, e Lilith concordou com um leve aceno, mesmo sabendo que apenas ele a veria.

    Com isso em mente, Lilith começou a caminhar pelas ruas de Novograd em direção à hospedagem. A cidade ao redor estava tranquila, mas havia um detalhe que começou a incomodá-la. Novograd, uma cidade localizada em uma época fria, não deveria estar coberta por neve? Ela olhou para os telhados e para as calçadas. Tudo parecia seco, sem um único floco de neve.

    “Onde está a neve?”, ela se perguntou, seu olhar varrendo o cenário. 

    Só então Lilith percebeu um calor sutil no ar, algo que não faz sentido naquela época do ano. Ela franziu o cenho e, ao passar por uma esquina, sentiu uma onda de calor vinda de uma pedra avermelhada brilhando suavemente em um suporte de ferro ao lado da rua. Aproximando-se para observar melhor, ela viu que a pedra exala um calor constante e intenso, o suficiente para manter o frio do inverno afastado. Olhando ao redor, Lilith percebeu que essas pedras estão espalhadas por toda a cidade, mantendo o ambiente aquecido e a neve longe.

    Agora entendo…, Lilith pensou, sua mente captando o que antes parecia um mistério.

    “Vejo que você está intrigada por elas”, disse uma voz masculina atrás dela.

    Lilith se virou, vendo um homem mais velho, com uma barba grisalha e olhos penetrantes, observando-a com um leve sorriso. Ele parecia ser um morador local, seu manto pesado balançando levemente com o vento ao redor. 

    “Essas pedras mágicas vieram de Vern”, explicou ele, apontando para uma das pedras mágicas ao longo da rua, seu tom sugerindo uma certa familiaridade com elas.

    Lilith observou a pedra por um momento antes de responder, mantendo o tom casual, mas com uma nota de curiosidade.

    “Já estive lá”, respondeu ela, com os olhos ainda fixos no brilho cálido da pedra.

    O homem ergueu uma sobrancelha, impressionado.

    “Interessante. Vern fica bem distante daqui… são poucos os que viajam até lá e voltam com histórias para contar. E menos ainda os que conhecem o segredo destas pedras.” 

    Lilith olhou fixamente para o homem, o brilho das pedras mágicas refletindo em seus olhos. As palavras dele despertaram a curiosidade em sua mente e, de forma direta, ela perguntou.

    “Como assim? O que quer dizer com isso?”

    O homem sorriu levemente, como se estivesse prestes a contar um segredo, mas com a cautela de quem conta rumores perigosos. Ele se aproximou mais da pedra mágica e a observou por um momento, o calor irradiando suavemente enquanto ele escolhia suas próximas palavras com cuidado.

    “Há rumores sobre a origem dessas pedras”, ele começou em voz baixa, quase como se não quisesse que ninguém mais ouvisse, “dizem que essas pedras mágicas não são simples encantamentos. Elas foram criadas a partir de resquícios de dragões. Ossos, escamas ou até o sangue de dragões antigos que morreram há séculos. Vern, sendo uma cidade conhecida por suas práticas misteriosas e arcanas, coleta esses restos, transformando-os nessas pedras que você vê espalhadas por Novograd.”

    Lilith franziu a testa, tentando processar essa nova informação. Ela já sabia que Vern era uma cidade peculiar, mas o que ele estava sugerindo vai além do que ela imaginava.

    “Resquícios de dragões?”, Lilith repetiu com ceticismo, sem desviar o olhar do homem.

    Ele acenou lentamente, mas logo ergueu as mãos em um gesto de concessão.

    “Claro, é apenas um rumor”, ele admitiu, com um leve encolher de ombros, “não há nenhuma prova concreta, apenas histórias passadas de boca em boca pelos mercadores que viajam até Vern. Mas você sabe como são os rumores, especialmente sobre coisas antigas e poderosas como dragões.” 

    Lilith continuou encarando o homem, tentando descobrir se ele sabe mais do que está revelando ou se é apenas mais uma pessoa fascinada pelos mitos e lendas de Vern. Por mais improvável que parecesse, ela já tinha visto coisas demais para descartar a ideia de que esses rumores pudessem ter algum fundo de verdade. Afinal, os dragões eram criaturas poderosas e o poder deles, mesmo em morte, poderia ser aproveitado de maneiras que os mortais sequer imaginavam.

    “E você, o que acha?”, ela perguntou, inclinando a cabeça ligeiramente, “Acredita que esses rumores sejam verdadeiros?”

    O homem sorriu, mas desta vez com um toque de mistério em seus olhos.

    “Quem sabe?”, respondeu ele, enigmático, “Mas uma coisa é certa, essas pedras têm um poder que ninguém consegue negar. Se é magia ancestral ou o legado de dragões, isso é algo que cada um deve decidir por si mesmo.”

    Lilith manteve-se em silêncio por um momento, pensativa.

    “Obrigada pela possível informação”, disse Lilith, mantendo o olhar firme no homem, mas com uma ligeira inclinação de cabeça em sinal de gratidão.

    O homem sorriu novamente, desta vez com um ar de satisfação, como se tivesse cumprido seu papel misterioso naquele breve encontro.

    “De nada, viajante. Cuidado com o que procura”, respondeu ele, suas palavras carregando um tom enigmático enquanto ele se afastava lentamente, desaparecendo nas ruas de Novograd, deixando Lilith sozinha diante da pedra mágica.

    Lilith permaneceu ali por um momento, observando a pedra com mais atenção.

    Dragões… será possível?, ela refletiu, ponderando sobre a veracidade dos rumores. Mesmo que fosse apenas uma história, havia algo de inquietante e fascinante na ideia de artefatos feitos a partir dos restos de criaturas tão poderosas.

    Com um leve suspiro, ela retomou seu caminho, os passos ecoando pelas ruas bem cuidadas da cidade. A presença de Félix é sentida ao seu lado, embora ele continue em silêncio, como se estivesse permitindo que ela ingerisse a informação sem interrupções. Envolta em seus próprios pensamentos, ela caminhou rumo à hospedagem, onde Fenrir a esperava pacientemente.

    Enquanto se aproximava de seu destino, a cidade continuava viva ao seu redor, mas Lilith sentiu como se a paisagem tivesse mudado levemente aos seus olhos. Agora, além de sua missão com o mago, outra curiosidade a assombrava, qual é a verdadeira origem dessas pedras e quão profundo é o segredo que Vern esconde?

    Devo ir a Vern de novo?, ela se perguntou, mas deixou a decisão para depois. Agora, ela precisava de um momento de descanso e reflexão.

    Lilith chegou à hospedagem, seus passos firmes e graciosos ecoando pelo hall de entrada. Ela entrou de maneira formal, com a postura ereta e o rosto oculto pela venda que cobre seus olhos. A atmosfera ali é tranquila, o calor das pedras mágicas de Vern que aquecem a cidade suavemente presente nas paredes e pisos. Assim que ela cruza o umbral, uma recepcionista, jovem e atenta, aproxima-se com um sorriso educado.

    “Posso ajudar em algo?”, perguntou a atendente numa voz suave, quase sussurrada.

    Lilith assentiu, mantendo sua compostura séria, embora seu tom fosse gentil.

    “Onde posso tomar um banho? Preciso me refrescar.”

    A recepcionista, com uma expressão amável, aponta para os fundos do edifício.

    “Nos fundos temos uma banheira privada com água quente. Um dos privilégios da hospedagem. Está sempre pronta para uso. Se quiser, posso lhe mostrar o caminho.”

    Lilith agradeceu com um aceno de cabeça e um leve sorriso, embora discreto. 

    “Agradeço pela informação”, respondeu antes de se dirigir para o quarto.

    Assim que entrou, encontrou Fenrir já acomodado, ocupando boa parte do espaço com seu corpo imponente. O grande lobo prateado ergueu a cabeça ao vê-la, e seus olhos cintilavam com uma mistura de curiosidade e tranquilidade.

    Como está, Fenrir?, perguntou Lilith telepaticamente, com sua voz soando apenas na mente do lobo, que, embora não responda telepaticamente, a entende perfeitamente.

    Estou bem, ele respondeu em sua voz profunda e serena telepaticamente, e você? Como foi a conversa com o mestre da guilda?

    Lilith se aproximou, passando a mão no pelo prateado de Fenrir enquanto suspirava levemente.

    Foi tranquila. Ele me deu algumas informações sobre o mago, mas nada muito concreto. Ainda assim, decidi ir até a torre, respondeu ela, enquanto os pensamentos sobre a Torre do Mago ainda fervilhavam em sua mente.

    Fenrir observa-a atentamente, inclinando ligeiramente a cabeça.

    Entendo. Mas não vejo necessidade de ir com você, ele comentou, sua voz sempre firme.

    Lilith franziu a testa, surpresa com a afirmação. A princípio, não compreendendo porque Fenrir preferiria ficar para trás.

    Ela abriu a boca para questioná-lo, mas logo decidiu aceitar a decisão dele, mesmo sem entender completamente.

    Está certo, respondeu, com uma pitada de confusão, mas ela confia em Fenrir o suficiente para não insistir.

    Lilith, então, começou a arrumar o quarto, organizando seus pertences e preparando-se para o banho. A tranquilidade do momento ajudou a se concentrar nos próximos passos, enquanto ansiava o peso relaxante da água quente da banheira que a esperava. Quando tudo estava pronto, ela saiu do quarto em direção ao banho.

    A mesma recepcionista a esperava no corredor e, com um sorriso acolhedor, guiou até a porta de madeira que leva ao cômodo reservado. Ao abrir a porta, Lilith sentiu o vapor quente que se elevava da água cristalina. A banheira é espaçosa, cercada por uma leve névoa que torna o ambiente ainda mais íntimo e aconchegante.

    “Aqui está. Aproveite seu banho”, disse a recepcionista, afastando-se e deixando Lilith sozinha.

    Ela fechou a porta atrás de si e, com calma, começou a tirar suas roupas, deixando-as ordenadamente dobradas ao lado. Por fim, retirou a venda dos olhos e pegou uma toalha para cobrir o corpo antes de se aproximar da água quente. Quando mergulhou na banheira, a sensação de calor imediatamente relaxou seus músculos tensos. 

    “Isso é perfeito”, sussurrou para si mesma, sentindo o corpo afundar suavemente na água.

    Porém, enquanto relaxava, algo a incomodava. Lilith olhou para onde havia uma cicatriz no seu braço, adquirida há muito tempo, na sua luta contra Lectus, mas, para sua surpresa, o corte desapareceu completamente. A pele está lisa, sem qualquer sinal da antiga marca.

    “Estranho…”, murmurou.

    Ela examinou mais atentamente seus braços e pernas, percebendo algo ainda mais estranho. Seus músculos, desenvolvidos recentemente durante seu treinamento árduo com Fenrir, pareciam ter desaparecido. Seu corpo estava mais suave, menos marcado pelos combates e pelos esforços físicos intensos. É como se estivesse rejuvenescida, mais próxima da forma que tinha quando chegou a este mundo, como se o tempo tivesse retrocedido para ela.

    “Será que isso é parte da minha imortalidade?”, Lilith pensou, intrigada, “Estou… ficando mais jovem?”

    O sistema reaparece.

    ▷ Notificação: Você descobriu uma habilidade que não estava visível… parabéns.

    ▷ Notificação: Body Reset — Descrição: Restaura o corpo físico ao seu estado base. Remove efeitos negativos (como venenos, fadiga, queimaduras, maldições e debuffs), além de restaurar membros perdidos. Pode até criar um novo corpo caso o anterior esteja inutilizável. Ativada junto com a imortalidade.

    ▷ Notificação: Analisando a situação… embora seja uma habilidade que está dentro da própria habilidade Imortalidade, deseja-se deixar de forma separada da imortalidade? Você poderá escolher quando usá la, mas quando a imortalidade for ativada, a habilidade automaticamente será usada.

    ▷ Notificação: [SIM] [NÃO]

    “Sim, deixe separado.”

    ▷ Notificação: [SIM]

    ▷ Notificação: Na sua tela de sistema aparecerá esta habilidade.

    ▷ Nome: Lilith
    ▷ Buffs: Aprimoramento adaptativo (Taxa de x%↑)
    ▷ Habilidades: Imortalidade, Body Reset, Velocidade, Cura, Fogo, Resistência a fogo, Criar e manipulação de raios, Manipulação do Ar, Resistência elemental avançada, Regeneração acelerada
    ▷ Técnicas: Coração Silente, Tempestade Neutra
    ▷ Status: Cansada

    Ela fechou os olhos e permitiu que o calor da água aliviasse o peso de seus pensamentos por mais alguns minutos, até que, finalmente, decidiu encerrar o banho.

    Ao sair, ela se secou com a toalha e se vestiu novamente, colocando a venda de volta nos olhos, como de costume. Ao retornar ao quarto, Fenrir ainda estava lá, observando-a calmamente.

    “Vamos comer algo?”, perguntou ela, agora sentindo fome depois do banho revigorante.

    Fenrir se levantou, sacudindo-se levemente e acompanhou Lilith para o salão de refeições da hospedagem. Eles comeram em silêncio, aproveitando a tranquilidade da noite. Os sabores simples, mas bem preparados, ajudam Lilith a se concentrar no momento, afastando as inquietações que a cercam.

    Após a refeição, os dois retornaram ao quarto.

    Lilith se deitou, exausta, ao lado de Fenrir, que tomou seu lugar habitual no chão. Enquanto o silêncio da noite envolvia a hospedagem, ambos adormeceram.

    Mais tarde naquela noite, uma figura misteriosa entrou na hospedagem, caminhando silenciosamente até o balcão.

    Sem se identificar, ela deixou um pacote marcado com o nome de Lilith. Depois de entregar a encomenda, a figura desapareceu tão rapidamente quanto chegou, deixando apenas o presente e mais uma incógnita para Lilith lidar ao amanhecer.

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