Dentro da mente de Lilith, o ambiente era uma fusão caótica de memórias fragmentadas e energia em turbilhão. Félix, ou melhor, Heri, não conseguiu entrar inteiro, seu corpo translúcido e alaranjado flutuava no espaço, parcialmente formado. Diante dele, uma cena se desenrolava: Lilith estava de joelhos, o rosto erguido em agonia, enquanto uma energia branca serpenteava pelo seu corpo como correntes vivas.

    A poucos metros dela, a deusa Branca estava sentada em uma cadeira ornamentada, as mãos segurando o queixo enquanto seus cotovelos repousavam sobre as coxas. Ela parecia pensativa, com o olhar fixo em Lilith, avaliando a situação.

    “Estou devolvendo as memórias que tirei dela”, declarou a deusa Branca, quase como se falasse consigo mesma.

    Félix observou com atenção, seu olhar passando de Lilith para a deusa e, finalmente, para o Rei Demônio, que estava ao lado, com os braços cruzados, analisando tudo com expressão indecifrável.

    “Se vai fazer isso, por que hesita?”, Félix perguntou, a voz carregando tanto a preocupação quanto a determinação.

    A deusa Branca suspirou profundamente, seus olhos vagando para o lado, onde algo semelhante a uma tela grande estava flutuando na frente deles. Mostrava o exterior: o modo berserk de Lilith em pleno apogeu, devastando tudo em seu caminho, a energia pulsante irradiando destruição.

    “Eu ainda me pergunto se deveria devolver tudo”, ela murmurou, seus olhos retornando para Lilith, agora visivelmente lutando contra a força que percorria seu corpo, “Você viu o que ela se tornou. Quem garante que essas memórias não vão quebrá-la ainda mais?”

    Félix deu um passo à frente, sua forma instável brilhando com intensidade renovada.

    “Se você tem mesmo esse poder divino que tanto gosta de exibir, então deveria saber que segurar o que pertence a ela não vai protegê-la. Ela merece saber quem é, merece a chance de escolher como viver.”

    Por um instante, a deusa o encarou, como se pesasse suas palavras. Então, com um suspiro cansado, ela acenou com a cabeça.

    “Que assim seja.”

    “Espera aí”, interrompeu o Rei Demônio, sua voz grave reverberando no ambiente, “Não faz muito tempo que você estava dizendo que não queria devolver as memórias dela. Agora vai fazer isso? Por quê?”

    A deusa Branca ergueu os olhos para ele, seu olhar sério e inabalável.

    “Porque, como você bem sabe, às vezes a verdade é o único caminho para a redenção. E, se ela não for forte o suficiente para suportar isso… então terá que lidar com as consequências.”

    Ela olhou para Lilith, seus olhos brilhando com uma luz gélida.

    “É provável que ela caia em depressão profunda ao recuperar tudo. Não se iluda achando que estou fazendo isso por bondade.”

    Félix, ou Heri, apertou os punhos, o brilho em seu corpo oscilando.

    “Eu agradeceria se você fizesse isso agora.”

    A deusa Branca fechou os olhos e ergueu uma mão em direção a Lilith. Um raio branco disparou de sua palma, atingindo o corpo de Lilith. A explosão de energia foi tão intensa que a deusa foi arremessada para trás, caindo da cadeira enquanto o Rei Demônio observava com um sorriso torto.

    No centro da explosão, Lilith começou a se contorcer. Félix gritou, sua voz reverberando por todo o espaço.

    “Aiko!”

    O corpo de Lilith se inclinou para frente, suas mãos se apoiando no chão enquanto saía sangue pelos olhos de Lilith.

    “Aiko!”, Heri gritou novamente, desta vez com mais intensidade.

    Ela ergueu a cabeça, os olhos brilhando com uma mistura de dor e clareza. Olhando para suas mãos, percebeu algo: seus braços estavam envoltos em uma fina armadura que parecia mais uma peça de roupa, intricadamente detalhada. Percebendo que voltou ao mundo real, e não estava mais em suas lembranças.

    Quando ela olhou ao redor, atordoada. Sua respiração estava pesada. Foi então que ela viu Félix, mas algo mudou em sua

    percepção.

    “Heri?”, ela sussurrou, sua voz embargada pela emoção.

    Félix, agora visivelmente mais humano, olhou para ela e sorriu levemente.

    “Aiko.”

    Sem pensar, ela se levantou e correu até ele, lançando-se em seus braços. O impacto quase os derrubou, mas ele a segurou firme.

    “Eu sabia que você ia voltar”, Heri murmurou, a voz agora completamente humana, sua aparência tomando forma. Ele era a imagem de um homem forte e imponente, com feições marcantes e um sorriso torto.

    Aiko começou a chorar, lágrimas escorrendo por seu rosto enquanto ela enterrava o rosto em seu peito.

    Enquanto isso, no plano mental, o Rei Demônio sentou-se em uma cadeira que conjurou casualmente, observando a cena com um misto de orgulho e melancolia.

    “No último encontro que tive com ele, Heri falou sobre amor”, a deusa Branca comentou, apoiando-se no ombro do Rei Demônio, claramente exausta.

    Ele deu um sorriso irônico, observando o reencontro dos dois.

    “Sei exatamente como é isso”, respondeu, com um brilho misterioso nos olhos.

    Dentro do espaço paralelo, Aiko sentiu o aperto caloroso de Heri se desfazer por um instante, enquanto o corpo dele se mostrava incompleto, com falhas visíveis que tremulavam como distorções no ar. Pequenas partes de sua forma pareciam desfazer-se e refazer-se, como se fossem meras projeções instáveis.

    “Seu corpo… não está completo”, Aiko murmurou, os olhos arregalados em preocupação enquanto o encarava.

    Heri suspirou, com o semblante tranquilo, embora houvesse um traço de exaustão em seu tom.

    “Foi o preço a se pagar para entrar nesse espaço”, ele tocou o próprio peito, como se conferisse a solidez que restava, “Estar aqui já é um milagre.”

    Antes que Aiko pudesse processar completamente o que ele havia dito, uma descarga elétrica poderosa percorreu seu corpo. Ela soltou um grito de dor, caindo de joelhos enquanto tremores a consumiam. Cada músculo parecia gritar em agonia, seu corpo contorcendo-se sem controle.

    “Aiko!”, Heri tentou alcançá-la, mas uma barreira invisível o impediu, fazendo-o recuar com um rugido de frustração.

    A deusa Branca, que observava de seu lugar confortável, cruzou as pernas e comentou friamente.

    “É o conflito de energias. Ela está usando o sistema e, ao mesmo tempo, tentando empregar sua própria energia. É natural que o corpo dela não suporte.”

    A descarga cessou tão abruptamente quanto começou. Aiko caiu de lado, respirando com dificuldade, o suor escorrendo de sua testa. Depois de alguns momentos, ela conseguiu se erguer lentamente, os olhos determinados apesar da dor evidente.

    “Eu entendi…”, murmurou, sua voz rouca, mas carregada de uma nova força, “Eu fui uma idiota. Burra e péssima… Mas não importa. Mesmo que eu me lembre de todas as dores, das mortes… eu quero viver.”

    O Rei Demônio, sentado em um trono conjurado, levantou uma sobrancelha, intrigado pela determinação súbita de Aiko.

    “Interessante”, ele se inclinou para frente, os dedos entrelaçados diante do queixo, “Mas você sabe que, para viver, precisará de mudanças. O sistema não pode continuar em você como está.”

    Aiko o encarou, firme.

    “Faça o que for necessário.”

    “Isso significa que você pode perder tudo”, o Rei Demônio advertiu, “Poderes, controle…”

    Heri deu um passo à frente, sua voz carregada de preocupação.

    “E a imortalidade dela?”

    O Rei Demônio riu de forma sombria, mas respondeu.

    “Isso é outra história. A imortalidade dela será fundida com a alma. Não será mais um atributo externo, mas algo intrínseco. Assim como os poderes que ela possui.”

    Heri franziu a testa.

    “Que poderes, exatamente?”

    Aiko, ainda de pé, explicou, sua voz ganhando força conforme falava.

    “Somos como alternadores. Convertedores de energia primordial. Cada um de nós tem uma cor específica. A deusa Branca usa o branco. Meu pai, o Rei Demônio, é vermelho. E eu sou… roxo.”

    Ela fez uma pausa, olhando para os próprios braços, onde uma aura tênue de sua cor pulsava suavemente.

    “Essa energia primordial, a verdadeira fonte de tudo…”

    Heri, tentando conectar os pontos, perguntou.

    “E o sistema?”

    O Rei Demônio, sempre com um toque de ironia em sua voz, respondeu.

    “Também é energia primordial.”

    Heri franziu ainda mais a testa, confuso.

    “Se é a mesma energia, por que há conflito?”

    O Rei Demônio deu uma gargalhada profunda, como se achasse a pergunta dele adorável na sua simplicidade.

    “Porque a energia do sistema não passou pelo ‘alternador’ dela. Está fluindo diretamente. É uma energia invasora.”

    Heri passou a mão pelos cabelos, claramente frustrado.

    “Isso é… complexo.”

    “Bem-vindo ao meu mundo”, o Rei Demônio respondeu com um sorriso torto.

    Antes que pudessem continuar, Heri caiu de joelhos, segurando o peito enquanto uma descarga elétrica percorria seu corpo. Ele gritou de dor, mas antes que ela o consumisse por completo, Aiko correu até ele e o envolveu em seus braços.

    “Heri!”

    No momento em que o tocou, a descarga diminuiu significativamente, embora não tivesse cessado completamente. O Rei Demônio observava a cena, impassível, antes de finalmente falar.

    “Ele é um invasor neste espaço. Se quiser que ele sobreviva, você precisa agir.”

    Aiko olhou para ele, desesperada.

    “O que eu devo fazer?”

    O Rei Demônio se levantou de sua cadeira, e se aproximou.

    “Seria melhor que ele fosse suprido por você, e não por uma deusa fraca.

    De repente, uma risada suave ecoou pelo espaço. A deusa Branca levantou-se, os olhos brilhando com diversão.

    “Vamos chamá-la então.”

    Com um gesto da mão, uma nova figura surgiu no espaço. Uma mulher de aparência etérea, seu corpo brilhando intensamente em laranja, manifestou-se. Era a deusa Virelya.

    A deusa Branca explicou rapidamente a situação, seu tom frio e direto, enquanto a deusa Virelya ouvia atentamente.

    Sem hesitação, a deusa Branca avançou, segurando a alma de Heri, que pulsava dentro de sua forma incompleta. A deusa Virelya começou a extrair seu poder dele, retirando lentamente o brilho laranja que o envolvia.

    Aiko, observando a cena, respirou fundo e estendeu as mãos.

    “Agora é minha vez.”

    Ela concentrou toda a sua energia roxa, sentindo-a vibrar em seu corpo como nunca antes. Quando começou a injetar seu poder em Heri, uma conexão quase tangível formou-se entre eles.

    O espaço parecia tremer enquanto a transformação estava em andamento.

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