Cuidado, mas acho que devemos ouvir o que ele tem a dizer, aconselha Félix.

    Decidida, Lilith segue Alaric para dentro da torre, pronta para descobrir os mistérios que a aguardam.

    Ao atravessar a porta da torre, Lilith é envolvida por uma atmosfera acolhedora e peculiar. O interior é bem arrumado, com prateleiras repletas de livros antigos que vão até o teto e recipientes de vidro cheios de ervas e poções que reluzem sob a luz suave de lanternas mágicas. O aroma da comida quente permeia o ar, despertando seu apetite. 

    Alaric sorri ao ver sua reação.

    “Sinta-se à vontade, Lilith. A comida já está pronta e ainda está quente.” 

    Ele se dirige a uma pequena cozinha que se conecta à sala, onde uma mesa rústica está posta com pratos elegantes. Com movimentos ágeis, ele tira um prato do forno, revelando uma refeição composta por pedaços suculentos de carne, vegetais coloridos e uma sopa fumegante que parece reconfortante.

    “Espero que goste”, disse Alaric, servindo generosamente a comida em um prato e colocando-o à sua frente.

    Lilith observa atentamente enquanto ele a serve, notando os detalhes do ambiente. As paredes são adornadas com tapeçarias que retratam antigas batalhas e criaturas míticas, e um grande mapa do mundo está pendurado, com várias marcações. O lugar emana um sentimento de sabedoria e história, fazendo-a se sentir um pouco mais à vontade.

    “A comida é uma mistura de receitas antigas que aprendi ao longo dos anos. Sinta-se à vontade para comer”, ele diz, apontando para um banco ao lado da mesa.

    Lilith se senta, um pouco hesitante, mas o cheiro da comida é irresistível. Ela pega os talheres e, assim que começa a comer, percebe que o sabor é excepcional, combinando perfeitamente especiarias e ingredientes frescos. Cada garfada a faz relaxar um pouco mais, dissipando a tensão que vinha carregando desde sua partida de Novograd.

    Alaric observa enquanto ela se serve, seu olhar tranquilo e acolhedor. 

    “Aproveite. Há muito a discutir, mas a comida é uma boa maneira de começar nossa conversa.”

    Lilith concorda com um aceno, absorvendo o calor do ambiente e a hospitalidade inesperada do mago. À medida que saboreia a refeição, sua mente começa a se preparar para as perguntas que espera fazer, sabendo que o tempo que passaria ali seria crucial para entender o que precisa saber sobre seu futuro e o misterioso mago que a aguardava.

    Enquanto Lilith se serve, o ambiente confortável da torre parece aliviar um pouco sua guarda natural, embora ainda mantenha a vigilância. Alaric observa cada movimento dela com um olhar curioso, mas acolhedor. Ele coloca o cotovelo na mesa e apoia o queixo sobre a mão, exibindo um sorriso leve, como se estivesse à vontade para responder qualquer questão que Lilith pudesse ter.

    “Eu imagino que você tenha muitas perguntas”, diz Alaric, sua voz baixa e tranquila, “Estou disposto a responder o que estiver ao meu alcance.”

    Lilith coloca os talheres no prato e olha diretamente para ele, suas dúvidas se formam claramente em sua mente. Ela hesita por um momento, sabendo que cada pergunta que fizer pode revelar mais sobre a natureza de suas próprias buscas e incertezas. Félix permanece em silêncio ao seu lado, invisível como sempre, mas Lilith sente sua presença tranquilizadora enquanto organiza seus pensamentos.

    “Vi seu nome num livro numa biblioteca em outra cidade”, começa Lilith, sua voz firme, mas controlada, “O livro dizia que você é um mago poderoso, talvez o mais antigo que ainda caminha por este mundo. E também encontrei um templo de uma ordem de magos muito antiga.”

    Alaric ouve atentamente, sem interromper. Seu sorriso se torna um pouco mais intrigado à menção da ordem.

    “Esse templo tinha um artefato”, continua Lilith, seus olhos fixos no rosto de Alaric, tentando ler suas reações, “Eu o entreguei à guilda, mas aquilo era mais do que um simples objeto, não era?” 

    Alaric inclina a cabeça, os olhos brilhando com um leve interesse, mas ainda mantendo seu ar enigmático. Ele não responde de imediato, permitindo que Lilith continue com sua lista de questões, como se soubesse que havia mais a ser dito.

    “E quanto aos dragões”, diz Lilith, agora inclinando-se um pouco para frente, sua voz carregada de curiosidade, “Eu quero saber de tudo. Existem tantos rumores, tantas histórias. São apenas mitos ou ainda caminham entre nós?”

    Ela faz uma pausa, esperando alguma resposta, mas Alaric apenas continua observando, como se estivesse pesando suas palavras. Lilith, sem deixar de notar seu silêncio, aproveita a oportunidade para tocar no último ponto que a incomodava.

    “E a igreja… o que você sabe sobre eles? Eles parecem estar envolvidos em algo grande, eu preciso saber o que está acontecendo nos bastidores.”

    O silêncio que se segue é denso, e Lilith sente que Alaric está processando cuidadosamente cada questão, medindo suas respostas com o peso da experiência de séculos. Embora pareça disposto a responder, ela sente que suas respostas podem revelar muito mais do que esperava, e cada revelação poderá levar a caminhos perigosos e desconhecidos.

    Ela aguarda, sentindo uma leve tensão no ar, esperando que Alaric finalmente quebre o silêncio e a ajude a desvendar os mistérios que a cercam desde que começou sua jornada.

    Alaric sorri suavemente, seus olhos brilhando com um misto de nostalgia e mistério enquanto começa a responder às perguntas de Lilith. Ele repousa as mãos sobre a mesa e se inclina levemente para frente, a voz ganhando um tom alegre.

    “Muito antes de seu tempo, Lilith, havia dois dragões que decidiram morar em uma cidade não muito distante daqui. Um dragão de fogo e outro de gelo, criaturas colossais, poderosas. Mas, ao contrário da maioria das lendas, eles não traziam destruição. Eles encontraram um equilíbrio entre si e com o mundo ao redor. Esses dragões decidiram repousar sob o solo, ocultos dos olhos mortais”, Alaric faz uma pausa, como se revivesse as imagens em sua mente.

    Lilith ouve com atenção, sentindo que a história vai além de um simples conto. 

    “A cidade”, continua ele, “cresceu sobre os dragões adormecidos, sem saber de sua presença. E acima deles, foi erguida uma igreja. Essa igreja, sem saber, começou a cultuar esses dragões como divindades, acreditando que eles eram a fonte de bênçãos. O clima sempre perfeito, as colheitas abundantes, os rios cheios e as terras férteis. Eles acreditavam que os “deuses” abençoaram a cidade, mas, na verdade, era o poder combinado dos dragões que mantinha esse equilíbrio. E assim, a cidade prosperava”, Alaric sorri ligeiramente, como se estivesse revelando um segredo bem guardado.

    Lilith abre a boca para perguntar mais, mas Alaric ergue um dedo, como se soubesse que havia mais a ser dito. Ele se ajeita na cadeira, os olhos fixos no teto por um momento, como se estivesse reorganizando suas memórias.

    “Isso me leva a outra história”, ele começa, a voz mergulhando em um tom mais sombrio, “Havia um tempo em que um grupo de magos muito antigo fazia parte dessa igreja. Eles não apenas cultuavam, mas tinham descoberto a existência dos dragões. E mais do que isso, eles aprenderam a controlá-los… pelo menos, um pouco.”

    Lilith franze a testa, intrigada.

    “Esses magos possuíam dois artefatos”, explica Alaric, estendendo a mão como se estivesse segurando um deles em sua palma, “Artefatos poderosos que, quando usados juntos, poderiam influenciar os dragões, direcionar seus poderes, controlar sua influência. A cidade prosperou, os magos mantinham os dragões sob controle, e tudo parecia em equilíbrio.”

    Ele faz uma pausa dramática, os olhos brilhando com uma intensidade silenciosa.

    “Mas como sempre acontece em histórias de poder, algo terrível ocorreu. Um demônio…”, Alaric pronuncia a palavra com uma gravidade que faz o ar na sala parecer mais denso, “… atacou. Esse demônio, faminto por poder, confrontou os magos, desejando os artefatos para si. O caos se instaurou. A maioria dos magos foi exterminada em uma única noite de destruição. No entanto, um único mago sobreviveu ao massacre. Ele fugiu, levando consigo apenas uma parte dos artefatos.”

    Lilith sente o peso da revelação, mas permanece em silêncio, esperando por mais.

    “Esse mago, sabendo que não poderia sobreviver ao demônio por muito tempo, escondeu o artefato em algum lugar no mundo, longe de mãos gananciosas”, continua Alaric, “Mas o demônio não se contentou em apenas destruir. Ele lançou uma maldição sobre aquele mago, condenando-o a envelhecer rapidamente, a sentir sua vida esvaindo-se como areia numa ampulheta.”

    Lilith franze o cenho, tentando imaginar a terrível sensação de tal maldição.

    “No entanto”, diz Alaric, com um brilho enigmático no olhar, “esse mago não aceitou seu destino tão facilmente. Ele encontrou um meio de retardar o efeito da maldição, de prolongar sua vida. Não se sabe exatamente como, mas ele continuou a vagar por muito tempo. Há quem diga que ele ainda está vivo em algum lugar, sempre à procura de respostas, assim como você, Lilith. Mas o artefato… continua perdido.”

    Alaric se recosta na cadeira, observando Lilith com interesse, como se esperando que ela conectasse os pontos. Ela fica em silêncio por um momento, assimilando as informações. As histórias sobre os dragões e os magos agora parecem tecer uma teia mais complexa do que ela imaginava, e a presença dos artefatos perdidos acrescenta mais mistério à equação. 

    Mas há uma pergunta que ainda lateja em sua mente, algo que ela não pode deixar de considerar. Félix permanece silencioso, mas Lilith sente que ele também está processando cada pedaço dessa nova informação.

    Finalmente, Lilith quebra o silêncio, a voz baixa, mas determinada.

    “E esse mago, você sabe o que ele fez para evitar a maldição?”

    O ambiente parece ficar mais denso por um momento, enquanto Alaric considera a pergunta. Ele entrelaça os dedos sobre a mesa, seu olhar se perde por um instante antes de responder.

    “Infelizmente, não tenho todas as respostas”, ele responde calmamente, “Eu sei apenas até esse ponto da história. O que aconteceu depois se perdeu no tempo, assim como muitos segredos dessa antiga ordem de magos.”

    Ele faz uma pausa, observando Lilith com uma expressão levemente inquisitiva.

    “Mas diga, Lilith… há algo mais que deseja perguntar?”

    Lilith reflete por um momento, sua mente fervilhando de pensamentos. Ela ainda tem muitas perguntas, mas uma delas, em particular, a consome. Ela olha para Alaric e, sem hesitar, responde:

    “Eu desejo aprender mais sobre magia.”

    Alaric sorri, um sorriso acolhedor e quase paternal. Ele se recosta na cadeira e assente com a cabeça.

    “Isso posso ajudar”, ele diz com um tom calmo, porém firme, “Há muito que você pode aprender, e terei prazer em guiá-la no que estiver ao meu alcance.”

    Ele então aponta para o corredor com um gesto suave.

    “Há um quarto vazio no andar de cima. Você pode usá-lo enquanto estiver aqui. Descanse. Amanhã começaremos com o básico. A magia exige não apenas conhecimento, mas equilíbrio, foco e compreensão das energias ao seu redor.”

    Lilith agradece com um aceno e termina de comer sua refeição. Sente-se mais leve, como se as peças de um quebra-cabeça começassem a se encaixar lentamente em sua mente. Quando se levanta da mesa, Alaric a observa por um momento, como se estivesse avaliando algo mais profundo nela.

    Ela caminha pelos corredores da torre até o quarto vazio que Alaric havia mencionado. A pequena cama de madeira parece confortável, e o ambiente é acolhedor, com luz suave vinda de uma vela sobre a mesa. Lilith remove seu manto e se deita, ainda vestida com seu uniforme. O corpo de guerreira já acostumado ao cansaço se ajusta rapidamente à maciez da cama.

    Assim que fecha os olhos, a voz familiar de Félix soa em sua mente.

    Lilith, você também acha que esse mago da história pode ser Alaric?

    Ela pensa por um momento antes de responder telepaticamente, tentando ligar as pontas soltas. A história que ele contou e sua presença enigmática indicam que há mais nele do que aparenta. Finalmente, ela responde com firmeza.

    Sim, também acho. A maneira como ele contou a história, os detalhes… parece que ele sabe mais do que está disposto a dizer. Talvez ele seja o último mago sobrevivente da ordem.

    Félix permanece em silêncio por um momento, refletindo junto com Lilith. Mas então, Lilith muda de assunto, ainda mais fascinada pelo que havia aprendido mais cedo.

    A história de Vern é realmente fascinante, comenta ela, seus pensamentos voando de volta para as pedras mágicas que controlavam o clima, Agora eu entendo por que aquelas pedras estavam me intrigando tanto. Faz sentido que elas venham de dragões, mesmo que o rumor pareça absurdo. As pedras que vi em Novograd… isso também pode ser verdade.

    Enquanto as palavras ecoam em sua mente, Lilith sente o cansaço do dia tomando conta de seu corpo. A conexão telepática entre ela e Félix começa a diminuir, e ela decide que é hora de fechar os olhos, permitindo que o sono a domine enquanto Félix permanece em alerta, vigiando como sempre.

    Enquanto Lilith adormece, a cena muda para o andar de baixo, onde Alaric se encontra em seu próprio espaço. Ele se senta em sua poltrona, observando o fogo que dança na lareira, as chamas refletindo em seus olhos pensativos. A quietude da torre é interrompida apenas pelo crepitar da madeira. Alaric não está realmente relaxado, mas concentrado. Em sua mente, uma conversa silenciosa acontece consigo mesmo, seu pensamento é focado em algo mais profundo do que a tranquilidade do momento aparenta.

    “Está tudo correndo conforme o planejado…”, ele reflete, cruzando as mãos sobre o colo, “Preciso de mais tempo. Esse ‘bolo’ está quase pronto, e quando finalmente estiver…”

    Ele faz uma pausa, um leve sorriso surgindo em seus lábios, embora sua expressão mantenha um mistério insondável.

    “Saborearei cada parte dele”, ele completa, mas com uma voz diferente.

    Ele tosse.

    “Se acalma ai…”

    Ele levanta-se lentamente, seus olhos varrendo o ambiente da sala como se buscasse alguma confirmação invisível. Ele havia contado a história dos dragões e dos magos, revelado fragmentos do passado que conectam Lilith a algo maior, e ainda que não tivesse dado todas as respostas, plantou as sementes da dúvida e curiosidade nela.

    Alaric volta a se sentar, olhando para o alto da torre, como se pudesse ver Lilith repousando acima dele.

    “Ela ainda não sabe o que a aguarda”, murmura ele para si mesmo, pensativo, “Mas em breve… em breve saberá.”

    Ele fecha os olhos por um momento, concentrando-se no silêncio ao redor, deixando que suas reflexões se acalmem.

    Enquanto isso, no quarto de Lilith, o sono dela é profundo e tranquilo, mas seus pensamentos ainda vagam pelas histórias que ouviu. A conexão com Félix se mantém em segundo plano, como um sussurro suave na mente dela. Embora tenha aceitado as palavras de Alaric e sua promessa de ensiná-la mais sobre magia, uma sensação de inquietação permanece em sua alma. Algo no modo como ele falava sobre o passado, a igreja e os dragões a deixou intrigada.

    Ela também sente que há muito mais a ser revelado sobre aquele homem misterioso que agora a hospeda em sua torre. Mesmo que seus planos ainda sejam incertos, Lilith sabe que está num ponto de inflexão. Algo grande está para acontecer.

    Mas, por agora, ela se permite descansar. Amanhã será um novo dia, cheio de novas lições, desafios e talvez mais respostas para as muitas perguntas que ela guarda dentro de si.

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