O corpo de Lilith começou a se regenerar em um local inesperado. Seu coração, suas veias, ossos e músculos se reformaram, pedaço por pedaço, enquanto o vento da alta altitude a cercava. Quando ela finalmente recobrou a consciência, tudo à sua volta parecia diferente. Seus olhos se abriram para um céu claro e sem nuvens, mas logo percebeu que estava a uma altura inacreditável, tão alta que as nuvens ficavam bem abaixo de seus pés. O pânico a atingiu com força, seu corpo tremeu instintivamente ao perceber a queda iminente. A sensação de vazio, de estar tão distante da terra, a deixando atordoada.

    Antes que pudesse sequer gritar ou pensar em uma solução, uma notificação fria e precisa ecoou em sua mente.

    ▷ Erro

    ▷ Bem-vinda de volta, Lilith.

    Ainda ofegante e confusa, Lilith tentou se mover, mas sua mente continuou em caos. Onde estou?, ela perguntou, observando o horizonte vasto e sem fim. Seu corpo estremeceu, e o pânico de cair era iminente.

    ▷ Calma, Lilith. Não se mova abruptamente. Fique de barriga para baixo e estique as pernas e os braços.

    A voz do sistema é fria, mecânica, mas traz consigo uma sensação de controle. Tremendo, Lilith tentou seguir as instruções. Devagar, ela se virou, com o vento assobiando em seus ouvidos, até que se colocou de barriga para baixo. Seus braços e pernas se esticam como asas, e a sensação de queda iminente diminuiu, mas seu coração ainda dispara com a vertigem da altura.

    ▷ O sistema deve ter lhe explicado sobre como o Body Reset funciona, ela é em conjunto com sua habilidade de imortalidade. Seu corpo é restaurado à configuração original no momento em que você foi registrada neste mundo. Isso inclui regeneração total das funções corporais, músculos, ossos e órgãos, com uma perfeita reconstrução molecular).

    As palavras do sistema soaram de maneira calma, quase como se fosse uma explicação rotineira. Mas para Lilith, agora compreendia porque ela ficava mais jovem e sem cicatrizes a cada ressurreição.

    ▷ Sua regeneração ocorreu no céu por conta do caos em terra. Considerando que ainda está em batalha, foi considerado apropriado revivê-la “perto” da área.

    Lilith processou essa explicação, ainda desconfortável com a altura, mas se forçando a permanecer calma. Então, um pensamento sombrio surgiu em sua mente.

    “O demônio… ele ainda está vivo?”, sua voz carregava preocupação e urgência.

    ▷ Sim. Sua armadura foi destruída, exceto por duas áreas: o peito e as costas. A pele do demônio resistiu à explosão, mas ele está severamente queimado e com danos internos.

    Lilith balançou a cabeça, achando curioso que apenas essas áreas tenham resistido. O sistema pareceu detectar seu ceticismo e complementou:

    ▷ Sim, é bem específico. Sua proteção é concentrada em pontos vitais, o que sugere um foco estratégico em evitar danos letais.

    Olhando para baixo, para onde a terra ainda queimava e fumaçava devido à explosão, Lilith sabia que precisava agir rápido, mas estava sem ideias. Então, num impulso, ela perguntou:

    “E agora? O que faço?”

    ▷ Recomendo que você se jogue diretamente sobre ele em alta velocidade. Sua posição deve ser reta, com as pernas juntas e esticadas, e os pés apontados diretamente para o alvo.

    O choque e a incredulidade tomaram conta de Lilith. Ela quase riu, mesmo que nervosamente.

    “Isso não seria suicídio?”

    ▷ Sim, o impacto resultaria em desmembramento do seu corpo… porcentagem altíssima de morte.

    A resposta direta do sistema a fez engolir em seco, mas antes que pudesse protestar, ele continuou:

    ▷ No entanto, sua habilidade de imortalidade combinada com o Body Reset permitirá que você reviva após o impacto. Não há necessidade de se preocupar com a morte durante esta batalha. Use sua katana, sua arma de longo alcance, e transforme-a em um eletroímã para a batalha.

    Lilith ficou em silêncio por um momento, processando o plano. Jogar-se em alta velocidade sobre um demônio com a chance de morrer apenas para ser revivida logo em seguida… Era insano. Mas o sistema estava certo. Naquele momento, ela não poderia se dar ao luxo de temer a morte, não quando a luta ainda não havia terminado.

    “Aceito. Mas…”, ela hesitou por um momento, “não quero estar consciente durante o impacto. Que eu desperte somente após a regeneração.”

    O sistema fez uma pausa calculada, quase como se estivesse considerando as instruções.

    ▷ Entendido.

    Sentindo que não havia mais o que discutir, Lilith respirou fundo. Ela se colocou em pé no ar, um tanto desajeitada, enquanto o sistema ajustava seu corpo como se fosse uma máquina de combate. Suas pernas se juntaram, os pés colados e firmemente esticados. Suas mãos se posicionaram nas laterais, como se fossem flaps de uma nave, equilibrando seu corpo para o mergulho mortal.

    O som do vento aumentou, o ar ao redor dela se intensificava à medida que começou a descer. Em seu campo de visão, a superfície do campo de batalha se aproximava rapidamente, e, embora tenha pedido para não estar consciente no impacto, sua mente ainda processava a sensação de cair.

    O coração de Lilith acelerou, mas ela tentou acalmar sua respiração. Não era o fim. Era apenas mais um passo em sua luta pela sobrevivência. O sistema garantiria que ela voltasse… eventualmente.

    Agora, tudo o que restava era confiar na queda.

    O som de sua descida cresceu cada vez mais alto, e a imagem do demônio, ainda queimado e ferido, se aproximou rapidamente.

    No campo de batalha, o demônio se manteve de pé, porém claramente afetado pela explosão massiva que quase o desintegrou. Sua respiração era rápida, pesada, e cada inspiração trazia consigo um misto de dor e confusão. Ele ainda tentava processar o que acabou de acontecer, seus olhos vasculhando o local em busca de respostas. A destruição à sua volta, o cheiro de enxofre no ar e a paisagem devastada por quilômetros o deixaram alerta, mas algo o intrigava ainda mais. Ele percebeu que, apesar de tudo, a sensação de vitória não estava presente.

    Algo faltava. Ele deveria ter sentido a energia de Lilith se dissipar, o que indicaria sua morte. Mas, estranhamente, essa sensação não veio. Não havia nenhum sinal de que a alma dela tivesse partido, e a conexão que ele esperava não se formou. O demônio, surpreso, abaixou o olhar para a própria mão, que ainda carregava marcas da batalha. As queimaduras são severas, algumas áreas da pele praticamente derretidas, expondo os ossos em carne viva. Ele analisou a mão mais afetada, o lugar onde o poder de Lilith o atingiu diretamente, e percebeu que as queimaduras são de terceiro grau em algumas partes.

    Seus olhos então se estreitaram. Lilith ainda estava viva.

    Como isso é possível?, ele pensou, tentando se concentrar. A batalha foi devastadora para ambos, e ele sabia o quanto aquele golpe havia lhe custado. No entanto, havia uma sensação no ar, algo que ele não conseguia identificar com precisão, mas que sabia estar vindo de algum lugar acima. Ele ergueu a cabeça, seus olhos penetrando a escuridão da noite, varrendo o céu em busca de respostas.

    E então ele sentiu. Uma presença vaga, imprecisa, como uma sombra dançando entre as estrelas. Algo se aproximava rapidamente, mas a velocidade e a falta de clareza dificultavam a análise. No entanto, antes que ele pudesse formular um pensamento claro, a pancada é instantânea.

    Um impacto brutal atingiu seu peito com uma força avassaladora, jogando-o violentamente ao chão. O golpe foi tão intenso que ele mal teve tempo de registrar o que aconteceu. Ele caiu com força, e o mundo ao seu redor escureceu momentaneamente. Seu corpo ficou paralisado no solo, o impacto reverberando em cada fibra de seu ser. Suas costelas se partiram, seu coração parou de bater por um segundo, e a armadura que protegia seu corpo até então se desintegrou completamente, exceto por alguns pedaços insignificantes em seu peito e costas. Ele sentiu o vazio em seu peito, a ausência de vida.

    O que o atingiu?

    O demônio, atordoado, tentou se mover, mas seu corpo se recusava a obedecer. Seu coração, antes tão poderoso, parecia ter parado. Ele estava ali, imóvel, sem força, sem defesa. O mundo ao seu redor girou em câmera lenta enquanto ele lutava para recuperar o controle de suas funções vitais. No entanto, a sensação de morte iminente pairava sobre ele.

    E então, ele percebeu Lilith.

    Fragmentos de seu corpo, dispersos após o impacto, começaram a se recompor à sua volta. Partes quebradas de carne e osso lentamente se reconstruíam, como se a gravidade os atraísse de volta uns aos outros. A regeneração aconteceu diante dos olhos do demônio, que mal conseguia acreditar no que vê. Lilith, que segundos atrás estava em pedaços, agora se ergueu novamente, inteira, revigorada.

    O silêncio que se seguiu estava carregado de tensão. Lilith, ainda recuperando a consciência total, soltou um suspiro confuso. Ela olhou para seu corpo, verificando se estava inteira, e murmurou com incredulidade:

    “Mas que porra…”

    O sistema respondeu imediatamente, sua voz impessoal e mecânica ecoando na mente de Lilith:

    ▷ Como solicitado, sua consciência foi desativada dois segundos antes do impacto. O processo de regeneração começou automaticamente após sua morte temporária.

    Lilith esfregou a testa, ainda tentando processar o que aconteceu. Ela havia sentido o vazio por um instante, mas a transição foi tão rápida que quase não pareceu real.

    “Sim… eu percebi”, ela respondeu, ainda surpresa com a precisão fria do sistema.

    Ela olhou para o demônio à sua frente, caído, com sua armadura em pedaços e seu corpo em chamas com queimaduras severas. Mesmo assim, algo ainda a preocupava.

    Lilith encarou o demônio caído no chão, e por um momento, a cena foi de pura incredulidade. Ela mesma ainda estava se recuperando da sensação surreal de ter sido destruída e reconstruída, mas a visão do inimigo ferido e impotente diante dela a trouxe de volta à realidade. O demônio, antes invencível, agora parecia vulnerável, suas forças dilapidadas pela batalha. No entanto, o que mais a surpreendia era sua própria condição: de pé, viva, com sua energia ainda pulsando.

    Enquanto observava o demônio, a venda que cobria parte de seu rosto deslizou lentamente, caindo no chão. Seus olhos, antes ocultos, agora brilhavam em um tom intenso de laranja. Lilith deu um sorriso, um misto de triunfo e desafio.

    “E pensar que você, um dos grandes generais do Rei Demônio, está perdendo para uma jovem garota”, ela provocou, sua voz carregada de uma confiança renovada.

    O demônio a encarava, incrédulo. Seus olhos se estreitam em desconfiança, e a dor em seu corpo não diminuiu sua confusão. Ele lutou com toda a sua força, a destruiu, e ainda assim, ali estava ela, em pé, mais forte do que nunca. Ele forçou suas palavras, lutando contra a exaustão.

    “Como… como você ainda está viva?”, a voz do demônio era rouca e incrédula. Para ele, a morte dela deveria ter sido definitiva.

    Lilith riu, uma risada fria e cortante.

    “Imortalidade”, respondeu ela, de forma direta, como se fosse a coisa mais natural do mundo, “algo que você não pode entender.”

    Por um instante, a tensão no ar pareceu mudar. Fenrir, em Novograd, sentiu algo estranho. Algo perturbador. Sua ligação com Lilith, forjada por um vínculo profundo, o alerta de que algo estava terrivelmente errado. Ele sentiu o fio negro, uma conexão obscura que só poderia vir de uma entidade muito maior: o Rei Demônio. O fio estava emanando poder, uma energia perigosa e incontrolável que estava fluindo de Lilith. Ele sabia que algo a estava consumindo.

    “Isso não é bom”, murmurou Fenrir, sentindo a ameaça crescente. Ele percebeu que a cidade de Novograd ainda estava em caos por conta da explosão que Lilith causou, as ruas cheias de confusão e medo. Mas ele não podia se deter por isso. Algo maior estava em jogo, e ele devia chegar até ela antes que seja tarde demais.

    No campo de batalha, o demônio, ainda caído, observava Lilith com atenção. Ele percebeu que algo mudou nela. Seus olhos, antes brilhando em laranja, agora começaram a ganhar um tom de vermelho profundo, como brasas prestes a se incendiar. Ele sentiu a presença de seu mestre, o Rei Demônio, como uma sombra no ar ao redor deles.

    “Entendo agora…”, murmurou o demônio, seus olhos se fixaram nos de Lilith, “O mestre também a está observando… pera… você só pode ter sangue demoníaco dentro de você, e o mais puro da realeza, não me diga que…”

    Esse pensamento o fez estremecer. Se o Rei Demônio está interessado nela, então a situação pode ser muito mais complexa do que ele imaginava. E isso o fez hesitar.

    Enquanto isso, Fenrir correu em direção a Lilith, sua mente preocupada com o que ele sentia. A energia demoníaca emanava dela de forma errática, e ele sabia que o fio negro pode significar uma ligação perigosa, talvez algo que Lilith não estava ciente. Ele acelerou seu passo, ignorando a destruição à sua volta. As paredes da cidade estão rachadas, e a população ainda tentava entender o que aconteceu. Mas Fenrir não teve tempo para isso. Ele precisava chegar a Lilith.

    De volta ao campo de batalha, Lilith encarou o demônio, que ainda lutava para se recompor. Ela levantou uma mão, seu corpo irradiando poder enquanto caminhava lentamente em sua direção.

    “Parece que você ainda não apanhou o suficiente”, ela disse, com um sorriso perverso, “vamos curar essas suas feridas, só um pouco, para que você ainda consiga ficar de pé.”

    O demônio, perplexo, sentiu seu coração voltar a bater, um ritmo pesado e doloroso, mas, ainda assim, vida. Ele se esforçou para se levantar, os músculos queimando com esforço, e encarou Lilith com raiva renovada.

    “Você é fraca!”, ele rosnou, seu ódio fervilhando, “eu vou acabar com você, garota.”

    Lilith ergueu uma sobrancelha, ainda sorrindo.

    “Tu e mais quantos?”, retrucou ela, com uma confiança que fez o demônio tremer. Seu sorriso, irônico e desafiador, foi o suficiente para desarmá-lo por um segundo.

    O demônio deu um passo atrás, espantado com a ousadia dela. Apesar de seu corpo estar curado o suficiente para continuar a luta, ele sentiu que algo nela mudou. A energia que emanava de Lilith era caótica, perigosa. Ele percebeu que, mesmo enfraquecido, estava diante de uma inimiga que não conhece limites, e isso o assustava.

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