A floresta se aproximava com densidade sombria, seus galhos altos filtrando a luz do céu demoníaco como dedos entrelaçados. O dragão, Darkborn, sentia a mudança no ar. A cidade de Vern estava próxima demais, e com ela, a chance de ser descoberto. Seus olhos brilharam por um momento e, logo após um leve rugido abafado, seu corpo colossal começou a encolher. As escamas se recolhiam em si mesmas, as asas se fundiam ao longo da coluna até desaparecerem completamente, e sua forma tornou-se humana com uma suavidade quase elegante.

    “Não podemos arriscar. Ainda não”, murmurou ele, olhando em volta antes de caminhar para um ponto mais discreto na floresta, sob um salgueiro de folhas negras.

    Aiko desceu de seu ombro sem dizer nada, seus olhos pretos atentos, escaneando o lugar com cautela. Darkborn estendeu a mão e colocou em seu pescoço um colar de pedra preta, com uma aparência vítrea e viva, como se pulsasse de leve.

    “Se algo acontecer, toque essa pedra. Você saberá como.”

    Aiko olhou o colar, depois para ele, e assentiu com seriedade. Darkborn a observou por um instante, como se pudesse prever os perigos que ainda viriam, e sem dizer mais nada, desapareceu por entre as sombras da floresta.

    Sozinha agora, Aiko caminhou até alcançar os portões de Vern. O clima era agradavelmente ameno, algo incomum em outras regiões, o que só reforçava as suspeitas sobre os dragões de fogo e gelo que protegiam aquele equilíbrio. Ela passou pelos portões sem ser detida, sua aparência não chamava atenção, e seus chifres, escondidos por magia, não mostrava sua herança demoníaca.

    A cidade era bela.

    Seria este o lugar onde o Herói se esconde?, pensou ela.

    Ela seguiu seu instinto até uma construção maior, antiga, marcada com símbolos sagrados, uma igreja. Ao cruzar os portões de madeira trabalhados, sentiu algo estranho no ar. Havia um sutil tremor mágico, como se o ar fosse feito de vidro prestes a se estilhaçar. No altar, um círculo mágico estava estampado no chão, incandescente, girando em silêncio como uma roda enterrada.

    Aiko franziu a testa. O círculo brilhava com um brilho etéreo púrpura e dourado, mas o mais estranho era que ninguém parecia notar. Fieis caminhavam normalmente pela igreja, rezavam, limpavam bancos, e ninguém reagia ao espetáculo místico à frente.

    Ela se aproximou de uma mulher idosa com um livro sagrado nas mãos.

    “Você está vendo aquilo?”

    A mulher olhou em sua direção, depois para o altar, e franziu as sobrancelhas.

    “Vendo o quê, querida?”

    Aiko não respondeu. Deu mais alguns passos até o centro do círculo. Assim que sua bota tocou o limite do símbolo arcano, o chão brilhou com força e um redemoinho de vento se ergueu.

    “O quê…?”, sussurrou ela antes de desaparecer.

    A mulher gritou, soltando o livro e cambaleando para trás. Fieis começaram a se aglomerar, murmurando e se ajoelhando em pânico, sem entender o que acabara de acontecer.

    Enquanto isso, Aiko abriu os olhos. O ar era mais pesado. O teto agora era rochoso, coberto de cristais opacos. Ela estava numa caverna profunda, envolta em silêncio e escuridão. O único som era o eco de suas próprias respirações.

    Decidiu avançar, guiada apenas por sua determinação.

    O corredor rochoso levava a uma vasta câmara. A escuridão ali era quase sólida. E então, do nada, dois pares de olhos se acenderam na escuridão. Um par era rubro, como brasas em erupção. O outro, azul como o coração do inverno.

    Eles a encararam.

    Rugidos surgiram da escuridão, abafados e reverberantes, como trovões longínquos. Aiko deu um passo para trás, sentindo o medo escalar por sua espinha. O colar no pescoço começou a brilhar, uma luz roxa suave que se espalhou rapidamente.

    A luz não apenas revelou sua presença, mas também iluminou os donos daqueles olhos. Dois dragões colossais, erguiam a cabeça e recuavam, como se temessem a luz do colar. Tochas nas paredes da caverna se acenderam uma a uma, revelando inscrições antigas, símbolos esquecidos, e a real proporção daqueles seres. Eram titânicos.

    Mas antes que ela pudesse reagir, um som de passos se aproximou por trás.

    Ela girou, instintivamente levando a mão ao punho da espada. E então, surgiu uma figura: um homem alto, envolto em uma armadura branca como marfim, reluzente, e portando uma espada elegante e antiga, cuja lâmina parecia feita de cristal.

    Seus olhos brilharam com uma calma cortante.

    “O que você faz aqui?”, perguntou ele, com voz suave, mas firme.

    Aiko encarava aquele homem com a mesma firmeza com que ele a observava. Havia algo de errado… muito errado. A postura nobre, o brilho da armadura, o modo como ele se apresentava, tudo era teatral demais, impecável demais. E isso a incomodava.

    Ela deu um passo à frente, mantendo a mão ainda próxima do punho da espada embainhada na cintura.

    “Quem é você?”, perguntou com a voz baixa, mas firme.

    O homem sorriu, um daqueles sorrisos treinados, suaves e calculados.

    “Meu nome é Zandor. Sou o Herói. Aquele que veio trazer a paz para este mundo.”

    Aiko cerrou os olhos. Seus pensamentos se tornaram um redemoinho silencioso.

    Como você é falso…

    Ele olhou para os dragões, agora parcialmente iluminados pelas tochas e pela luz que emanava da pedra do colar de Aiko.

    “Impressionante…”, murmurou, “Você encontrou as lendas vivas. Os dragões gêmeos… fogo e gelo. Eu não esperava por isso.”

    Virou-se para ela novamente, seus olhos claros faiscando com um brilho de admiração forçada.

    “Eu a segui até aqui. Quando você desapareceu daquele círculo, o fluxo mágico reagiu com força. Estava prestes a fechar, mas entrei a tempo. Vim para resgatá-la.”

    Aiko manteve a expressão neutra, mas por dentro, só pensava no quanto aquilo tudo parecia ensaiado. Um verdadeiro Herói não se anunciaria assim. Não olharia para ela com aquele ar de condescendência, como se estivesse lidando com uma civil inocente. Ele sequer a reconhecia. Ou fingia não reconhecer.

    Ela então ergueu a mão e puxou do bolso interior da capa seu cartão da guilda.

    “Meu nome é Lilith”, disse ela, adotando seu nome de aventureira.

    Entregou o cartão. Zandor o tomou com uma sobrancelha erguida e analisou os dados mágicos que se projetaram no ar.

    “Rank A…”, leu, em tom surpreso, “isso explica muita coisa. Deve ser por isso que conseguiu ver aquele círculo mágico. Poucos têm sensibilidade suficiente para notar uma magia tão antiga.”

    Aiko assentiu, recolhendo o cartão.

    “Sim. Mas eu não sabia que ele me traria até… eles”, disse, desviando o olhar para os dois dragões gigantescos, que agora apenas observavam, silenciosos, como se entendessem cada palavra dita.

    Zandor pareceu relaxar, como se acreditasse que o controle da situação estivesse em suas mãos.

    “E agora que estamos aqui… temos uma chance rara nas mãos. Esses dragões… talvez, com sua ajuda, possamos selá-los novamente. Antes que se tornem um perigo.”

    Aiko manteve o olhar firme, sem responder imediatamente.

    Dentro de si, Heri e Lilith, pulsavam como se sentissem o peso daquela mentira disfarçada de justiça.

    Ele devolve o cartão. Ela pensa, ele quer matá-los. Aiko sentiu isso no fundo da alma. Algo em seu peito apertou. Ela não queria que aquelas criaturas fossem destruídas. O reino inteiro vivia sob um clima equilibrado graças a eles. Eles eram mais que lendas: eram parte do equilíbrio natural do mundo.

    E foi nesse momento que o cordão em seu pescoço, o que Darkborn lhe deu, começou a pulsar, emitindo uma luz roxa fraca, como se sussurrasse para ela: Mantenha-se firme.

    Zandor ergueu sua espada brilhante, preparado para atacar. Mas, num piscar de olhos, o mundo explodiu em caos. Uma sombra colossal rasgou o céu acima deles na cidade.

    Ninguém viu. Ninguém ouviu. Ninguém poderia entender.

    Darkborn, o dragão ancestral da escuridão, avançava numa velocidade absurda, um borrão de trevas invisível ao olhar humano. Sua forma colossal encolhera até o limite, permitindo que viajasse como um cometa silencioso.

    Num único impulso, Darkborn rompeu o céu e atravessou os telhados, mergulhando diretamente na igreja onde o portal permanecia aberto.

    A estrutura tremeu violentamente, pedaços de pedra e vidro caindo como chuva. Fiéis gritavam em choque, mas não conseguiam enxergar o que acontecia: era como se uma força invisível estivesse rasgando o templo sagrado.

    Darkborn entrou no círculo mágico num instante, invadindo a caverna onde Aiko e Zandor estavam. O chão tremeu. As tochas das paredes foram apagadas pelo impacto do ar.

    “O quê?!”, exclamou Zandor, se virando para a força colossal que surgia atrás deles.

    Antes que pudessem reagir, garras invisíveis agarraram ambos.

    Aiko sentiu seu corpo sendo içado como uma folha ao vento. Em menos de um segundo, ela, o herói e parte do chão da caverna foram arrancados do lugar e lançados de volta à realidade.

    Com um rugido abafado, o dragão atravessou o portal novamente, levando tudo com ele. Atravessaram o véu mágico, explodindo dentro da igreja em ruínas.

    As paredes da antiga construção colapsaram sob o impacto. O altar principal desabou, estilhaçando os vitrais em milhares de fragmentos coloridos que voaram como estrelas morrendo.

    Aiko e Zandor foram arremessados violentamente ao chão, rolando entre entulhos e poeira.

    O portal, agora instável e pulsante, foi arrancado pelas garras de Darkborn e atirado para longe, voando como uma pedra incandescente no céu.

    Instantes depois, uma enorme explosão de luz surgiu em outro ponto da cidade, onde o portal caiu.

    A igreja, outra hora símbolo de fé e proteção, agora era apenas um escombro fumegante.

    Aiko tossiu, tentando recuperar o fôlego, seus olhos ajustando-se à nova realidade.

    Do meio da poeira e destroços, uma figura caminhou. Darkborn, ainda na forma de um homem alto e imponente, envolto em um manto negro espesso que escondia qualquer traço de sua natureza dracônica. Seu rosto permanecia encoberto pelo capuz. Apenas sua presença parecia pressionar o ar ao redor.

    O herói, atordoado, ergueu os olhos para ele.

    “Quem é você?!”, exclamou Zandor, cambaleando para se pôr de pé, “O círculo mágico… onde está?”

    Darkborn cruzou os braços, sua voz saindo como um trovão contido.

    “O portal se fechou.”

    “Fechou?! Como?”, insistiu o herói, olhos arregalados.

    Darkborn inclinou a cabeça.

    “Não sei. Foi espontâneo. Talvez pela instabilidade da magia. Talvez… porque não era para vocês estarem lá.”

    Aiko sentiu a mentira elegante nas palavras dele. Zandor, por outro lado, pareceu engolir a explicação sem questionar.

    “Você viu para onde foi?”, o herói perguntou, ainda buscando respostas.

    Darkborn apenas balançou a cabeça lentamente.

    “Está perdido em algum lugar da cidade. Talvez nunca mais apareça.”

    O herói rangeu os dentes, frustrado, mas não podia fazer nada.

    O estranho encapuzado deu um passo para trás.

    “Vocês dois tiveram sorte. Invadir terras antigas traz consequências.”

    E sem dizer mais uma palavra, Darkborn virou-se e desapareceu pelas sombras da cidade, seus passos silenciosos como a própria morte.

    O vento soprou, levando consigo a poeira da destruição. Aiko permaneceu ajoelhada entre os escombros, observando a figura se afastar até sumir. Seu coração ainda martelava no peito. Ela sabia. Sabia que aquele estranho era seu aliado. E sabia, mais ainda, que o verdadeiro perigo estava ao seu lado: o herói.

    Zandor se aproximou, limpando a poeira da armadura.

    “Está tudo bem?”, perguntou, com a mesma expressão preocupada de antes.

    Aiko olhou para ele, seus olhos negros analisando cada palavra, cada movimento.

    Como você é falso…

    Ela respirou fundo, reunindo forças para sustentar a fachada. Ainda não era hora de revelar o que sabia. Ainda não.

    Ao redor deles, Vern acordava para o caos: as ruínas da igreja, o clarão distante da explosão do portal, e dois aventureiros no meio da destruição, cercados pelo nascer de um novo dia.

    Mas o verdadeiro conflito, estava apenas começando.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota