Capítulo 55: Z
O primeiro som foi um bip.
Ritmo constante. Regular demais para ser natural. Artificial demais para ser ignorado.
Depois veio o peso.
Não dor. Peso.
Como se o corpo estivesse ali, mas não tivesse sido usado por muito tempo. Como se cada músculo precisasse lembrar o que era existir.
Aiko tentou abrir os olhos.
Falhou.
Estou… viva?
O pensamento surgiu sem emoção, como um dado jogado no vazio.
Ela tentou novamente.
Desta vez, os olhos obedeceram.
A luz foi a primeira coisa que doeu.
Branca. Crua. Parada.
Ela piscou várias vezes, sentindo os olhos arderem, lacrimejarem. O mundo parecia borrado, como se estivesse sendo visto através de água parada.
O teto entrou em foco aos poucos.
Cimento.
Cinza claro, com pequenas rachaduras irregulares, mal disfarçadas por uma camada de tinta barata. Uma lâmpada fluorescente vibrava levemente, produzindo um zumbido quase imperceptível.
Isso não é o vazio.
Ela respirou fundo.
O ar tinha cheiro.
Álcool. Remédio. Algo metálico.
Hospital.
O coração acelerou de forma automática, como se o corpo estivesse reagindo antes da mente.
Ela tentou se mover.
O corpo respondeu com atraso, pesado, mas respondeu.
Os dedos da mão direita se mexeram lentamente. Depois os da esquerda.
Nada de armadura.
Nada de mana correndo sob a pele.
Nada de dor lancinante, nada de energia esmagadora.
Apenas fraqueza.
Ela virou a cabeça com esforço.
A visão ainda estava turva, mas havia uma forma ali.
Uma cadeira.
Alguém sentado nela.
Aiko forçou os olhos.
O mundo pareceu se ajustar de repente, como se algo tivesse encaixado no lugar certo.
Era Heri.
Ele estava inclinado para frente, os braços apoiados nos próprios joelhos. Um dos braços estava completamente engessado, do ombro até o pulso. O outro tinha curativos grossos, manchados de um leve tom amarelado. Havia faixas envolvendo parte do tronco, visíveis sob a roupa hospitalar.
O rosto estava pálido.
Cansado.
Havia marcas de noites mal dormidas sob os olhos fechados.
Heri…
O peito de Aiko apertou de uma forma estranha.
Não dor.
Reconhecimento.
Ela tentou falar.
A garganta queimou.
Nenhum som saiu.
Ela engoliu em seco, sentindo a boca absurdamente seca.
Tentou outra vez.
“Heri…”
A voz saiu fraca, quase inexistente, mas suficiente.
O corpo dele se mexeu de imediato.
Ele ergueu a cabeça rápido demais, como alguém que não estava realmente dormindo, apenas esperando.
Os olhos dele se abriram.
Por um segundo, ele não disse nada.
Apenas olhou.
Os olhos arregalaram lentamente, como se estivesse com medo de piscar e aquilo desaparecer.
“Aiko?”
Ela tentou sorrir.
Não conseguiu.
Mas assentiu levemente com a cabeça.
O alívio que atravessou o rosto dele foi imediato e quase doloroso de se ver.
Ele respirou fundo, passando a mão livre pelo rosto, como se estivesse tentando se recompor.
“Você… acordou.”
“Parece… que sim.”
Aiko sentiu a própria voz estranha. Rouca. Desacostumada.
Ele se levantou com cuidado, como se cada movimento ainda custasse algo. Aproximou a cadeira da cama, sentando-se mais perto.
“Você ficou inconsciente por um bom tempo.”
“Quanto… tempo?”
Ele hesitou por um instante.
“Algumas semanas.”
O coração dela deu um salto.
Semanas.
Ela fechou os olhos por um momento.
Imagens desconexas tentaram emergir.
Luz branca.
O nada.
Cores nas bordas de algo humano.
Uma voz calma demais.
Ela abriu os olhos novamente.
O teto continuava lá.
O bip continuava.
Nada havia desaparecido.
Ela virou o rosto um pouco mais para encarar Heri de frente.
“Você se lembra de algo, Aiko?”
A pergunta veio com cuidado excessivo, como se ele estivesse pisando em terreno instável.
Ela respirou fundo.
“Lembro… fragmentos.”
Ele não interrompeu.
“Nós estávamos num mundo desconhecido… tudo parecia quebrado. Existência… pilares… imortalidade… divindades…”
A mão dela apertou o lençol sem perceber.
“Eu lembro… de você… de Lilith…”
Aiko engoliu em seco.
“Filha do Rei Demônio…”
O ar no quarto pareceu ficar mais pesado.
Heri soltou o ar lentamente.
“Não precisa dizer mais nada.”
Ela franziu levemente a testa.
“Nada foi um sonho.”
Ela sentiu um arrepio percorrer a espinha.
“Eu lembro de tudo.”
O olhar dele ficou distante por um instante, mas não vazio.
“Até da minha morte pelo herói.”
O silêncio caiu como um peso físico.
Aiko sentiu o peito apertar.
“Então… você também…”
“Sim.”
Ele assentiu lentamente.
“Eu senti quando tudo acabou.”
Ela fechou os olhos.
Então o mundo acabou mesmo.
“E mesmo assim…” ela murmurou. “Estamos aqui.”
Heri apoiou as costas na cadeira, olhando para o teto por um momento.
“Eu acordei antes de você.”
“E o mundo?”
Ele voltou o olhar para ela.
“Continua.”
A palavra pareceu errada.
“Como?”
“Não do mesmo jeito.”
Ele respirou fundo.
“É como se… algo tivesse sido reescrito. Não apagado. Ajustado.”
Aiko ficou em silêncio.
Deus.
A imagem voltou com nitidez desconfortável.
“Eu me encontrei com Ele.”
Heri não pareceu surpreso.
“Eu sei.”
Ela virou o rosto rapidamente para ele.
“Como você sabe?”
“Porque eu também senti.”
Ele fechou os olhos por um instante.
“Não vi. Não ouvi. Mas soube.”
Ela sentiu um frio estranho.
“Então… tudo aquilo…”
“Foi real.”
O bip da máquina parecia alto demais agora.
Aiko tentou se sentar.
O corpo reclamou, mas obedeceu parcialmente.
Heri se levantou de imediato para ajudá-la, apoiando-a com cuidado.
Ela respirou fundo, sentindo a cabeça girar levemente.
“Onde estamos?”
“Um hospital comum.”
“Que mundo é este?”
Ele sorriu de canto.
“O mesmo. Mas não.”
Ela soltou uma leve risada sem humor.
“Você sempre foi péssimo explicando.”
“Eu sei.”
Ele ficou sério novamente.
“Lilith…”
O nome caiu entre eles como algo proibido.
Aiko sentiu os olhos arderem.
“Ela… não está aqui.”
“Não.”
Heri abaixou o olhar.
“Mas… algo dela ficou.”
Aiko levou a mão ao próprio peito instintivamente.
Sentiu algo.
Muito fraco.
Quase inexistente.
Mas presente.
“E o herói?”
Heri fechou os punhos.
“Não existe mais.”
“Nem como memória?”
“Nem como conceito.”
Aiko respirou fundo.
Então nós nos destruímos.
“E Deus?”
“Não interfere.”
“Claro.”
Ela se encostou no travesseiro, olhando novamente para o teto.
“Então o fim não foi o fim.”
“Não.”
“Foi um ponto.”
Heri assentiu.
“Um Z.”
Ela fechou os olhos.
O cansaço veio pesado, mas diferente.
Não era desespero.
Era… esgotamento.
“Heri.”
“Sim?”
“Se tudo acabou… por que dói tanto lembrar?”
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
“Porque acabou de verdade.”
Ela deixou uma lágrima escorrer.
Sem soluçar.
Sem som.
“Fica aqui.”
Ele puxou a cadeira ainda mais para perto.
“Eu não vou a lugar nenhum.”
O bip continuou.
O teto continuou.
O mundo, de alguma forma, continuou.
E pela primeira vez desde o fim de tudo…
Aiko adormeceu sem lutar.
*
*
*
O tempo passou.
Não como uma batalha, nem como um colapso, mas como algo silencioso, quase respeitoso. Dias viraram meses. Meses viraram anos.
Aiko terminou a faculdade de Física.
Heri esteve lá em todos os dias importantes.
Alguns ainda carregavam cicatrizes que não apareciam em exames. Outras, o tempo conseguiu suavizar. Eles nunca falaram muito sobre o que aconteceu. Não porque esqueceram, mas porque algumas memórias não precisam ser ditas para continuarem existindo.
Eles se casaram em uma cerimônia simples.
Poucas pessoas. Nenhum discurso longo. Nenhuma promessa grandiosa sobre o futuro. Apenas a decisão silenciosa de continuar juntos em um mundo que já havia acabado uma vez.
Aiko sorriu de verdade naquele dia.
Não como alguém que venceu, mas como alguém que aceitou.
Kali nasceu em uma manhã chuvosa.
Aiko chorou ao segurá-la pela primeira vez, sentindo um peso diferente daquele que carregara no passado.
Esse peso não destruía.
Sustentava.
Kali cresceu curiosa demais para o próprio bem. Fazia perguntas estranhas. Observava as pessoas como se tentasse entendê-las além do que diziam. Às vezes encarava o nada por tempo demais, como se estivesse ouvindo algo que ninguém mais escutava.
Aiko percebia.
Heri também.
Mas nunca disseram nada.
Eles sabiam que era a reencarnação de Lilith.
Ela nunca teve medo.
Kali estava sentada no chão da sala, brincando sozinha.
A perspectiva de visão muda para Deus.
“Parece que tudo está correndo bem.”
Ele dá uma risadinha.
FIM

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