Narrado por: Intérprete do Vazio.

    Enquanto Luísa deixava a biblioteca e retornava ao seu corpo, na capital de Whateria um bizarro evento estava prestes a acontecer.

    Whateria divergia de Camelot em vários aspectos. Enquanto o segundo era um reino construído e herdado por guerreiros, com forte tradição militar, o primeiro floresceu como uma terra de pensadores e comerciantes. 

    Não é exagero alegar que quase todo garoto ali nascido tentaria, cedo ou tarde, alistar-se na infantaria.

    Camelot era um território de muitas regras e costumes conservadores; um local onde valia o código e a honra.

    Whateria, por outro lado, era um reino onde conhecimento e talento se convertiam em status e poder.

    Uma terra de pessoas hedonistas e egocêntricas.

    Portanto, não era surpresa o mercado de escravos ter florescido ali.

    Sim, Whateria era uma sociedade escravagista.

    Uma dessas escravas era uma garotinha de sete anos chamada Alice.

    A garota havia nascido escrava, fruto do amor de dois amantes que caíram em dívidas quando ainda estava no ventre. 

    O pouco que ouvira das conversas entre outros escravos constituía todo o conhecimento sobre os pais concedido a ela pelo mundo, em um quase gesto de pena.

    Era dada como amaldiçoada por seus semelhantes e antigos mestres, pois a desgraça acometera todos os seus compradores.

    Ainda assim, muitos ousaram adquiri-la.

    Mesmo tão jovem, já havia visto e sofrido muito.

    Era mais um dia no qual Alice permanecia confinada à pequena cela, esperando um novo comprador. Para ela, era algo bom. O velho mercador costumava a tratar com menos rigor em comparação com seus antigos mestres. Afinal, a essa altura, ele já acumulara uma pequena fortuna às custas dela.

    Como a maldição jamais o atingira, sem dúvida a via como um excelente investimento.

    Uff… — suspirou.

    Estava entediada por passar o dia todo sem fazer nada.

    Ela apoiou as mãos na barra de metal e forçou a cabeça para fora, de modo a observar o céu pela pequena janela no canto da sala.

    Voar livre como um pássaro. Sempre sonhara com a ideia.

    A conversa nas outras celas cessou com o barulho de uma explosão.

    Urros de dor do mercador puderam ser ouvidos logo em seguida.

    Alice recuou alguns passos, para longe das grades.

    Estava tensa.

    Todos estavam.

    Os gritos persistiram por mais alguns segundos. Então, as coleiras de ferro caíram, de uma só vez, do pescoço de cada escravo.

    O mercador estava morto.

    Pânico instalou-se no recinto.

    Alguns escravos tentavam arrombar as celas a todo custo, enquanto outros se encolhiam à espera do pior.

    A garota tentou se acalmar e procurar uma forma de escapar.

    Não morreria ali. Não daquela forma. Não depois de se agarrar tão veementemente à vida por tanto tempo.

    Ao olhar para baixo, viu o pino de ferro da coleira caído, inerte, sobre o chão frio.

    Valia a pena tentar. Já observara mais de um arrombamento; entendia o suficiente para reproduzir o processo.

    Precisava agir com rapidez, antes dos invasores tomarem conta do mercado.

    Não hesitou.

    Gastou meros segundos para desbloquear a porta.

    Outros tentaram replicar o processo após observá-la, mas sem sucesso.

    Alice não perdeu tempo e começou a correr em direção à porta dos fundos. Para seu azar, um dos invasores — coberto por um manto negro — a viu e iniciou perseguição.

    Ela até conseguiu cruzar a porta que levava aos becos, mas parecia ser sua vez de sofrer os efeitos da própria maldição.

    Correu desesperada, na tentativa de despistar seu perseguidor, até dar de cara com uma parede.

    Não era uma parede. Na verdade, tratava-se de uma pessoa.

    Alguém que ela conhecia.

    Era um de seus antigos donos. Caíra em desgraça após uma sequência de investimentos fracassados em alquimistas duvidosos, com produtos ainda mais estranhos que os próprios.

    Não demorou sequer um segundo para reconhecê-la. 

    Ele a puxou pelos cabelos antes que pudesse escapar.

    — Você — gritou. — Sua pirralha desgraçada!

    Alice não pode evitar o berro de surpresa e dor.

    — Foi por sua causa… Por sua causa perdi minha fortuna!

    Sem qualquer piedade, ele a ergueu e acertou-lhe um soco, bem no rosto.

    Foi arremessada para longe, com dentes quebrados e o nariz sangrando. O choque foi tão forte que a impediu de gritar.

    Atraído pelo barulho, o perseguidor chegou ao local e se deparou com a cena. Sem pensar muito, correu para impedir o agressor. Porém, o homem já havia ultrapassado o limite da loucura e entrado em frenesi.

    Mesmo após receber um golpe, o agressor avançou em vez de recuar e começou a socar repetidamente seu oponente repentino, até seu rosto se tornar uma massa disforme e ensanguentada. 

    O homem levantou-se devagar.

    Olhou novamente para a garota.

    E encarou-a com um olhar ensandecido.

    Então correu em sua direção e a chutou no estômago.

    Recuso-me a narrar, cena por cena, os acontecimentos a partir desse ponto. Ainda assim, discorrerei sobre o resultado de tamanha crueldade.

    Alice tinha vários ossos quebrados, fraturas expostas e inúmeros hematomas; sangue escorria de cada canto de seu corpo.

    Em determinado momento, desistira de tentar sobreviver. Apenas queria que aquilo acabasse logo. Ao menos assim, a dor cessaria. 

    Mas, fosse ela uma garota amaldiçoada ou não, as súplicas de sua mente não seriam atendidas.

    Eu não saberia dizer qual destino estivera reservado para aquela garota originalmente.

    Mas de uma coisa sabia.

    Poucos instantes antes, uma garota chutara o destino com suficiente força — metaforicamente — para fazê-lo sair dos trilhos.

    A mente de Alice desejava a morte.

    Mas seu coração ansiava por bater.

    No pequeno músculo pulsante, uma veia cor-de-rosa surgiu e tingiu no mesmo tom o sangue derramado. 

    O homem, assustado, recuou.

    já era tarde.

    Ela olhou para ele, com os olhos alternando entre uma miríade de cores.

    Então, o agressor, que perdera a cabeça de forma figurada, subitamente a perdeu de forma literal.

    Foi a primeira das estranhezas.

    E não parou por ali.

    O coração de Alice começou a pulsar no ritmo de um ponteiro.

    Tic… Tac… Tic… Tac…

    O beco começou a deformar.

    As folhas das árvores mais à frente mudaram de cor.

    E, pelo canto do olho, ela pôde ver algo estranho.

    Um coelho de relógio gritava exasperado:

    — Estou atrasado! Céus, estou atrasado!

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