No meio do caos interminável do subsolo, o Caçador de Ossos revelou suas verdadeiras intenções. Jasper se debatia, tentando se libertar, mas o aperto em torno de seu crânio se intensificava na mesma medida.

    Ao encarar os dois servos feridos da Igreja Amaldiçoada, um sorriso torto se formou na face óssea do ciclope.

    — Parece que, sem uma nave gigante para fazer o trabalho sujo, vocês não são muita coisa — zombou, inclinando levemente a cabeça e observando-os em silêncio antes de avançar um passo. — Mas não se preocupem, não sou do tipo que bate em cachorro morto.

    Zath estreitou os olhos em alerta enquanto lutava para se pôr de pé, agarrando-se ao pouco de dignidade que ainda lhe restava.

    — Diga seus termos de uma vez, Caçador de Ossos — rosnou, entre dor e raiva, empurrando de volta um pedaço de intestino que vazava pelo buraco em seu abdômen. — Ugh…

    Sabia que, nas condições em que se encontravam, não havia negociação de verdade; o simples fato de ainda estarem vivos era puro capricho do Caçador.

    — Direto ao ponto, então. Beleza… tudo o que eu quero é uma ajudinha com aquilo — disse, apontando para a Anciã Narhma, que continuava sua onda de destruição. — Tenho certeza de que alguns tiros de canhão vão cansar essa coisa, e depois eu termino o trabalho… de algum jeito. Hahaha.

    Erguendo o Vulto Negro, que não demonstrava resistência alguma com seu corpo inerte, o Desperto continuou suas exigências.

    — Eu não ligo para o porquê de vocês quererem esse moleque, mas, além de uma boa grana, quero que façam a Igreja Amaldiçoada parar de me considerar um traidor procurado… quer dizer, tirem só a parte do “procurado”. Ir embora daquela merda foi a melhor coisa que já fiz.

    Um dos principais dogmas da Igreja era o de que todos que não pertenciam à organização eram considerados hereges e inimigos, pois não seguiam nenhum dos Mandamentos que regem cada Amaldiçoado.

    Algo que, para eles, ia contra a própria natureza Undead.

    O comandante cerrou os punhos. Ele se concentrava nas emoções mais intensas que sentia naquele momento: dor, ódio, desespero…

    Mesmo assim, estendeu a mão, firme o bastante para não demonstrar hesitação; a preocupação de que algo pior acontecesse com seus companheiros superava qualquer dúvida.

    — Temos um acordo… — falou Zath, com a voz baixa, mas carregada de tensão. — Boa escolha. Pelo visto, a surra que você levou daquele defunto não danificou seu cérebro como fez com o resto — provocou, erguendo seus dedos ossudos para apertar a mão do Polvo Tempestuoso.

    Quando ambos estavam prestes a concluir o gesto que selaria aquele contrato, uma pressão fria e absoluta os congelou no lugar; seus instintos não mentiam, era intenção assassina.

    — Ei, Caçador… — murmurou o Vulto Negro, o fulgor carmesim ainda vívido em seu olhar. — Por acaso ainda se lembra de como a nossa última batalha acabou?

    Percebendo as intenções do garoto, o Desperto tentou recuar, sem se importar com a negociação anterior, mas era inútil naquela distância.

    Jasper havia passado todo aquele tempo focado apenas em seu Sentido do Vento, puxando aos poucos todo o ar ao seu alcance para um único ponto.

    Agora era a hora de liberar toda aquela pressão acumulada de uma vez.

    A expansão da barreira giratória atingiu o Caçador em cheio; dessa vez, sua armadura cedeu, rasgada por inúmeros cortes invisíveis que expuseram seus músculos dilacerados.

    — Turbilhão Cortante… — suspirou, ao enfim se libertar das garras do Undead, sua voz ecoando em meio a um redemoinho de lâminas de vento.

    Aproveitando a brecha, Jasper correu até sua espada, caída a poucos metros dali, empunhando-a às pressas, expectante pela continuação do conflito.

    Porém, sua determinação vacilou quando notou a aproximação lenta do Lobo Negro, que permanecera imóvel desde o início do conflito.

    Ambos se encararam em silêncio por um instante.

    — Pelo visto nem você está do meu lado… — lamentou, sentindo que tudo o que fez até aquele ponto foi em vão.

    Os segmentos da couraça de Kaern brilhavam em um roxo profundo, como se ele estivesse atento e pensativo.

    Enquanto isso, o Vulto Negro dissipava a raiva infiltrada em seus nervos, substituindo-a por uma lógica fria e racional.

    Certo… eu não posso mais hesitar se quiser sobreviver. Preciso focar apenas em mim; senão, vou continuar sendo usado como uma ferramenta por esses monstros.

    Saindo da nuvem de poeira formada pela rajada anterior, a figura ensanguentada do ciclope ósseo surgia, exalando radiação.

    Suas feridas estavam intoxicadas por Mana, o que dificultava o processo de regeneração, obrigando-o a gastar quase o dobro de Miasma para se recompor.

    — Tsc… você tinha que complicar as coisas, não é? — resmungou, sem parecer realmente irritado. — Essa tal Sincronização fez você ficar bem mais forte, isso é bom. Quer dizer que não preciso mais me segurar.

    — Cale-se — interrompeu, posicionando sua lâmina negra à frente do corpo. — Vamos terminar logo com isso.

    Do outro lado, o som de vidro se quebrando reverberou; era uma parede de gelo, conjurada por um dos tentáculos de Zath para protegê-lo.

    Apesar de limitados, cada um de seus apêndices tinha “consciência”, agindo por conta própria quando o cérebro principal não conseguia reagir.

    — Sem o Vulto Negro… você não recebe nada. Nem perdão, nem pagamento, só fanáticos caçando você até o fim dos tempos — declarou, ciente de que aquela era sua última chance de capturar o alvo com a ajuda do Caçador.

    O Undead coberto de ossos limpou com o polegar o sangue escuro que escorria de sua mandíbula, tão tranquilo quanto alguém em um passeio no parque.

    — Relaxa, eu sei muito bem o valor da mercadoria. Agora, se não quiser que eu termine de arrancar suas tripas, pare de falar o óbvio e me ajude.

    Entre promessas quebradas, alianças frágeis e intenções ocultas, aquilo não era um acordo, era apenas o intervalo antes de uma ruptura inevitável.

    Pressentindo o que estava por vir, Jasper apertou o cabo de sua lâmina, nervoso, mas determinado.

    A atmosfera ao seu redor reagiu como uma extensão do próprio corpo, pronta para se mover ao menor sinal de perigo.

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