Capítulo 2 - Cicatrizes forjadas
Informado o destino da caixa para Samir, Akemi avançou pelo corredor até a área central da usina, uma redoma acinzentada repleta de máquinas barulhentas, tubulações e vapor no ambiente. Funcionários com capacetes amarelos e volumosos uniformes brancos trabalhavam em meio àquela paisagem industrial, mas alguns se destacavam.
À esquerda, um funcionário levitava peças de metal com um controle aparentemente magnético. Ele as movimentava no espaço com gestos leves e encaixava-as em uma grande máquina de prensagem, eliminando o trabalho físico que seria necessário em um processo manual.
Caminhando, Akemi observava com interesse. “O vovô já me disse que alguns áuricos possuem formas distintas de utilizarem suas habilidades. Aquele operário deve ser um dobrador, famoso por manipular elementos existentes à sua volta. Interessante.”
Adiante, uma funcionária sem luvas comandava a água que escapava de uma tubulação ligada a um condensador a vapor1, atraindo o fluxo líquido para a ponta dos dedos e o convertendo no vapor que escapava pela palma das mãos e seguia direto ao equipamento, mantendo o ciclo repetitivo.
“Uma retratora. Capta elementos externos, armazena, e reaproveita depois. Uma técnica elegante e refinada. Gostei.”
Outro operário, cercado por uma névoa fina, estava focado no resfriamento de uma máquina superaquecida. Com sua mão estendida, ele liberava brisas geladas que envolviam a estrutura metálica, dissipando o calor gradualmente.
“Um clássico emanador. Deve ser muito legal usar suas habilidades a partir do nada e sem preço algum. Mas sabe, esses poderes, mesmo tão práticos aqui, seriam devastadores na guerra. Sei que são riscos diferentes, contudo, será que todos esses operários preferem essa usina barulhenta do que ser um shihai?”
Atravessada a redoma, Akemi encontrou-se uma entrada para outro corredor, onde a sala 114 situava-se na quinta porta à esquerda. Conforme se aproximava, encontrou a porta de aço trancada, exatamente como esperado. A chave foi tirada do bolso e inserida na fechadura, o metal raspou contra metal antes do giro com um clique satisfatório.
A respiração suspensa no breve clima de mistério.
“Sala 114… bem, Samir disse que é só um depósito. Vou pegar o capacitor e sair logo.” Decidido, ele empurrou a porta suavemente, e quando adentrou no escuro espaço desconhecido, tateou as paredes à esquerda na busca de um interruptor.
Quando a luz amarelada foi acionada, o ambiente se transformou instantaneamente. O que antes era escuro, revelou um verdadeiro laboratório de inovações.
Máquinas e dispositivos peculiares se espalhavam pelo espaço, cada um em um estágio diferente de desenvolvimento, à espera da concretização das ideias registradas nos esboços e diagramas técnicos que cobriam as paredes e mesas.
“Uau! Então esta é a sala de protótipos! Samir disse que era um depósito, mas é bem mais do que isso.
O caminho pelas mesas de trabalho aumentava a admiração e a cautela.
“Resistores de alta capacidade, transformadores com bobinas, isoladores cerâmicos, circuitos integrados…! São projetos de ponta! Se metade dessas ideias funcionar, a usina pode dobrar a eficiência energética.”
Apesar das tantas novidades em volta, no meio da sala, uma grande máquina semelhante a um motor tomou o foco.
“Hãããn! Uma turbina a gás! Calma, mas isso deve ter quase dez vezes o meu tamanho!”
Feita de um metal brilhante que captava a luz dourada das lâmpadas no teto, a turbina era rodeada por uma série de tubos e canos que transportavam combustível e oxigênio até a câmara de combustão. Uma grande ventoinha na retaguarda girava vagarosamente, hipnótica em seu movimento silencioso. Na lateral, havia um painel ativo, cheio de botões e pequenas telas com gráficos e números oscilando em tempo real.
Akemi se aproximou com cuidado, analisando cada detalhe da máquina. “Os indicadores de pressão estão todos estáveis, a temperatura da câmara está dentro dos parâmetros normais… e a rotação do eixo está… consistente. Quem quer que estivesse mexendo nisso, sabia o que fazia.”
Ele observou os medidores com mais atenção. “Espera… esse dado aqui. A eficiência de conversão está acima de 60%? Isso é absurdamente alto para uma turbina desse porte!” Uma sensação estranha tomou conta do jovem: a curiosidade e uma pontada de culpa por sua presença naquele lugar lhe deixavam ansioso.
Era necessário concentração.
“Enfim! Vim aqui fazer o quê mesmo? Ah, o capacitor!”
Algo brilhante em uma mesa circular próxima chamou a atenção. Ali estava o capacitor vermelho, misturado entre outros capacitores verdes e azuis.
“É, realmente Samir teria problemas…” Akemi avançou com o objetivo claro em mente. “Até que não foi tão difícil te achar.”
Ele estendeu a mão para que agarrasse o capacitor específico, seus dedos já quase tocavam a superfície metálica do componente.
No entanto…
CABRUUUUM!!!
Um estridente trovão retumbou, e um possível curto-circuito provocado por um raio nas proximidades deixou a sala piscando em vermelho intenso.
Os alarmes soavam tão alto que quase se tornavam físicos, uma onda de som que tanto advertia quanto desafiava, causando saltos no coração de Akemi.
“E-essa não!” Ele rapidamente notou a turbina emitindo um chiado agudo e ameaçador. “O que… o que tá acontecendo!?”
Os medidores elétricos se descontrolavam e a temperatura subia rapidamente.
“Droga! O raio deve ter causado um pico de voltagem no sistema!”
O capacitor foi largado e a atenção voltou ao painel.
“Os disjuntores deveriam ter acionado… por que a máquina ainda está ligada!?”
O medo tomava conta, mas algo forte pulsava.
“Eu… eu tenho que fazer alguma coisa! Preciso chamar alguém…! Mas, pode ser tarde demais, se essa turbina explodir, pode gerar estragos maiores… Não tem jeito, tenho que agir agora!”
Passando os olhos pelos painéis, uma solução foi encontrada.
“A alavanca mestra!”
Sem receio, mãos se firmaram na alavanca.
“Se eu desligar o fornecimento de combustível, a turbina vai desacelerar e… e…”
Contudo, nada era tão simples quanto parecia. Uma recente conversa ecoou em uma mente preocupada.
“Você não tem resistência…”
“Seu corpo não é adequado…”
“Prometa que não fará besteira…”
“Não posso te perder…”
Akemi paralisou, seus olhos se esvaziaram. “Eu deveria mesmo… fazer isso?”
Mas antes que pudesse puxá-la…
— AKEMI?!
A porta da sala se escancarou e revelou Isao acompanhado de dois operários logo atrás.
— O QUE ESTÁ FAZENDO AQUI!? — berrou o idoso, pálido, temendo o neto parado diante da turbina descontrolada.
Os operários tentaram uma aproximação, mas o velho abriu os braços e bloqueou a passagem.
— PAREM! SOMENTE EU POSSO OPERAR AQUELA MÁQUINA! — Isao avançou pela sala, vidrado no neto. — SAIA DAÍ! SAIA AGORA!
Akemi deu um passo atrás, mas não se afastou completamente da alavanca. — Essa máquina ela é sua!?
O avô colocou-se à frente do protótipo. — ISSO NÃO IMPORTA AGORA! SAI DA FRENTE!
Inúmeras emoções dominaram o rapaz. Dúvida, medo, vergonha. Mas nada superou o desespero para que ajudasse o avô. — Ma-mas eu entendi o que está acontecendo! O raio causou uma sobrecarga no sistema de alimentação! Os disjuntores falharam e a turbina está recebendo mais combustível do que deveria! Se a pressão na câmara de combustão continuar subindo, a estrutura não vai aguentar! Precisamos desligar a turbina pela alavanca mestra se não ela vai explodir!
— Eu sei disso! — Isao lutava contra a exasperação — Agora se afaste e deixe eu trabalhar!
O idoso agarrou a alavanca.
Puxou com força.
Nada.
Mais uma tentativa, as artérias do pescoço tensionavam.
Nada.
— Droga… — resmungou o idoso — tá emperrada!
A apreensão atingiu Akemi. “Não… não pode ser…”
Os medidores continuavam subindo. A temperatura já ultrapassava os 900 graus, e a pressão interna atingia níveis críticos.
— Vovô, ela vai explodir! Precisamos sair daqui!
— NÃO! — Isao puxou a alavanca novamente, avermelhando o rosto com o esforço. — EU CONSIGO! ESTÁ TUDO SOB CONTROLE!
“Sob controle!? Ele está louco!?” Vendo o avô lutando contra a alavanca emperrada, Akemi descontrolou-se. “Ele pode se ferir! Se essa coisa explodir com ele tão perto…”
O chiado da turbina se transformou em um rugido ameaçador. Pequenas faíscas saltavam dos conectores elétricos.
Akemi olhou para os operários paralisados pela ordem, depois, olhou para o avô, que teimosamente continuava buscando o desligamento da máquina.
Repentinamente, uma imagem esbranquiçou sua mente.
Isao. O único que restou. A única família.
“Eu não posso perdê-lo.”
A decisão foi instantânea.
Akemi rapidamente cobriu as mãos calejadas com as suas próprias, e puxou a alavanca com toda a força que tinha.
— AKEMI, NÃO! AFASTE-SE DAQUI! SAIA JÁ!
— EU NÃO VOU TE DEIXAR SOZINHO!
— VOCÊ VAI SE MACHUCAR! — Isao empurrava o neto com o corpo, mas as mãos insistentes permaneciam grudadas na alavanca. — PELO AMOR DOS DEUSES, SAIA!
— VAMOS CONSEGUIR JUNTOS!
O velho largou a alavanca e tentou um empurrão, mas não era o bastante. Restou-lhe suplicos. — Por favor… não posso mais te conter-
CRAC!
A alavanca cedeu.
Por uma fração de segundo, houve alívio.
Mas foi um breve alívio, curto demais para que sequer confortasse seus corações.
Fzzzt-BUUUUUUM!
Um clarão amarelado explodiu da turbina. A descarga elétrica irrompeu dos condutores rompidos, lançando uma serpente de luz pura e devastadora por todas as direções.
Isao foi o primeiro atingido pela eletricidade. Seus olhos se arregalaram, a boca se abriu em um grito silencioso, e a corrente percorreu cada centímetro de seu corpo dos pés a cabeça… entretanto, curiosamente, o cabelo grisalho não ficou em pé, e a pele não revelou os ossos de forma sinistra enquanto a eletricidade atravessava.
“Não consigo a tempo”, relutou o avô, não acreditando no que acontecia diante de si.
Através das fracas mãos que empurravam, a corrente encontrou Akemi.
E a dor… foi indescritível.
Os nervos do garoto arderam em agonia, e como se mil agulhas incandescentes perfurassem a pele ao mesmo tempo, os músculos se contraíram violentamente.
A onda de choque o lançou.
O avô foi arremessado para o lado e caiu no chão.
O neto voou para trás, atravessou o espaço e colidiu contra a parede com força brutal.
Peças da turbina se dispersaram em estilhaços, e o cenário tornou-se mais caótico.
Zonzo, Akemi escutava um zumbido constante em seus ouvidos enquanto dores lancinantes e agudas se alastravam, uma tortura silenciosa que se intensificava. Embora seus olhos estivessem entreabertos, sua mente cedeu ao estado de choque.
Pequenos focos de chamas consumiam suas roupas, reduzindo o tecido a cinzas ardentes que tocavam sua pele. Durante a dor, algo percorria rapidamente as suas veias, uma corrente estranha que o consumia a cada instante.
Repentinamente, a corrente alcançou um pico crítico e desencadeou ondas de eletricidade vindas do jovem, cobrindo-o com uma “chama amarela” e correntes elétricas.
O tinido da eletricidade se entrelaçou ao crepitar das faíscas, e naquele instante, sons de vários passos se aproximaram.
— Argh! Não consigo chegar perto!
— Se afaste! Eu sei o que fazer!
Após ruídos de movimentos, as ondas de eletricidade e as chamas se desvaneceram, deixando a sala de protótipos mergulhada na escuridão.
Ofegante e imóvel, Akemi permanecia deitado, à beira do colapso.
O presságio da morte passou pela sua mente, desesperando-o por ajuda.
Aos poucos, outras conversas abafadas denunciaram a presença de mais pessoas.
— Nossa, está um breu por aqui!
— Precisamos ajudá-los! Venham!
Entre as falas, destacava-se a voz familiar, mas fraca. — A-Akemi…? Pelos deuses… o que… o que eu fiz…?
Os olhos semiabertos do garoto encontraram Isao se arrastando até ele, machucado, mas vivo. Quando chegou perto do cerco de operários indecisos, o idoso tocou gentilmente a lateral do tórax do neto.
As mãos seguras e familiares, mesmo tremendo de exaustão e dor, arrepiaram Akemi, tirando-lhe a árdua sensação de calor. Mas o toque não era suficiente para que silenciasse toda a dor e angústia.
—Ó deuses… snif… meu menino… meu menino… — a voz de Isao era apenas um sussurro embargado. — Eu… eu não conseguirei dessa vez… — Suas mãos somente asseguraram de que o neto estava vivo.
— Diretor, os dois devem ser levados ao hospital imediatamente! — declarou um dos operários.
Vagarosamente, Akemi teve a visão escurecida. Sua consciência se esvaiu, e a última coisa que sentiu foram as mãos trêmulas do avô segurando as suas.
- Um condensador de vapor é um equipamento industrial essencial que resfria o vapor, transformando-o de volta em estado líquido (condensado) através da troca de calor, o que aumenta a eficiência, permite a recuperação de água e energia, e otimiza o desempenho de sistemas de geração de energia, refrigeração e processos industriais diversos, como na produção de alimentos e usinas térmicas, sendo comum os tipos de superfície (água/ar) e evaporativos.[↩]
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