Índice de Capítulo

    Após o anúncio do locutor, a luta teve início.

    Kaiyo assumiu a ofensiva: uma inquieta aura azul o envolveu, e com movimentos suaves, um longo chicote de água escaldante foi criado para o ataque.

    Hikaru, por sua vez, manteve a expressão calma e determinada. Segurando firmemente a empunhadura da katana com a mão canhota e a bainha com a destra, ele demonstrava uma destreza sobrenatural em seus desvios perante cada investida.

    Os pés do prodígio mal tocavam o chão, movendo-se estoicamente em zigue-zague a uma velocidade impressionante. Deixando rastros luminosos para trás, ele desaparecia e reaparecia num piscar de olhos.

    Kaiyo não deu trégua aos próprios ataques e estalou seu chicote na direção do alvo.

    Splash, splash, splash!

    Naquele instante, a luta estava atrativa para Akemi. “Sinto que aquela água pode partir alguém no meio, mas esse garoto com katana é surpreendente!”

    Percebendo a aproximação crescente do rival imparável, Kaiyo intensificou seu chicote escaldante enquanto se afastava com longos saltos para trás. A amplificação da pressão e da temperatura da água gerava uma atmosfera ainda mais densa na arena, onde flutuantes gotículas e o vapor elevavam a tensão do confronto.

    Impassível, Hikaru desviava e avançava com o semblante de um samurai honorário, evitando o choque dos ataques aquáticos por um fio de cabelo.

    A multidão na arquibancada soltava murmúrios sobre a batalha. Akemi e Sho também se interessavam pela luta.

    — O que você está achando, Sho?

    — Acredito que são auras simples, porém, aprimoradas à nível de combate. Queria eu ter essa força.

    — Eles parecem promissores.

    — Concordo, mas só um deles entrará para a ASA.

    — Ei, olha aquilo! — gritou outro jovem aleatório na plateia, apontando para a arena.

    Surpreendentemente, a pele de Hikaru se iluminou em meio aos seus movimentos.

    Suas esquivas se aprimoraram, e seus rastros ficaram brancos, refletindo seu brilho nas gotas de água suspensas no ar.

    — Aquela deve ser a manifestação visual da aura de luz dele, é bem diferente das habituais.

    — Ele está muito mais rápido! — Akemi temia o ponto da batalha, o fundo de sua mente sussurrava: “Isso vai acabar mal, muito mal.”

    Abruptamente, quando alcançou uma proximidade equiparável do adversário, Hikaru desembainhou sua katana com fluidez, revelando todo o esplendor da arma.

    A lâmina cintilou como um intenso raio de sol capturado, banhando a arena por luz pura e ofuscando a visão de todos os espectadores.

    Ktiiin!

    Sob o clarão intenso, o som de uma lâmina cortante ressoou pelo campo de batalha, um eco agudo que trouxe curiosidade aos espectadores.

    Na plateia, homens aborrecidos pela a vista do combate afetada perderam a paciência.

    — Argh! Consigo ver nada! O que está acontecendo!?

    — É! Eu vim para ver sangue!

    Akemi fechou os olhos instintivamente. “Não consigo ver nada! O que aconteceu?”

    Finalmente, a radiância se dissipou.

    Os dois competidores apareceram, porém…

    — Calma… o-onde está a… — Akemi interrompeu o próprio questionamento enquanto via Kaiyo em pé… mas sem cabeça.

    Após segundos, o corpo decapitado ajoelhou-se e sucumbiu no chão.

    A quietude realçou a tensão.

    Um tanto afastado do corpo inerte do rival, Hikaru, ligeiramente encurvado, procurava oxigênio em suas respirações rápidas e profundas. A manifestação da aura caracterizada pelo brilho na pele não aparecia mais.

    Aturdido pela cena pesada, Sho notou algo. — Ele está segurando algo além da espada.

    De repente, o prodígio da luz tomado pela falta de ar ergueu lateralmente o braço direito, revelando um ato protervo.— N-não… — murmurou Akemi, cobrindo a boca enquanto testemunhava Hikaru segurando a cabeça de Kaiyo pelos cabelos; a imagem do sangue escorrendo e os olhos sem vida ainda abertos em uma expressão congelada de surpresa no rosto decepado se gravava de forma traumática em sua mente…

    Cap-11-Scene-1

    Como uma bomba acionada, a arquibancada explodiu em gritos, aplausos e comentários entusiasmados. — WOOAAAAAAAH!!!

    Um idoso entrou em êxtase. — Oh, sim! Era disso que estávamos precisando!

    Outro homem fardado ficou aficionado. — Sangue! Sangue e mais sangue! É assim que são feitos os vencedores! Excelente, garoto!

    Uma mulher, apesar da voz sensual, demonstrou um tom odioso. — Pois bem, não esperava menos de um Sasaki, são um dos únicos que mantêm a honra de Asahi.

    SA-SA-KI! SA-SA-KI! SA-SA-KI! SA-SA-KI…!

    Akemi via as pessoas comemorando, sorrindo, gritando de alegria. Aquilo o destruía. “Eles… eles estão celebrando isso? Uma decapitação? Um assassinato? Como… como podem…”

    Apesar do sobrenome aclamado e a cabeça do oponente em mãos, Hikaru sofria com a pós-dispneia que o atrapalhava no embainhamento da katana. Seus olhos estufados mostravam uma grande exaustão após o golpe derradeiro.

    Todavia, ele recompôs-se, e reencontrado com a seriedade e calmaria, se voltou para o corpo caído do adversário; a gravidade do que fizera sequer abalou suas emoções.

    Com um gesto despreocupado, o espadachim soltou a cabeça de Kaiyo, que rolou largando um rastro de sangue pelo chão da arena.

    A brutalidade, resultante de uma decapitação, encerrou a luta em menos de três minutos.

    Enquanto poucos espectadores se desviavam o rosto, várias pessoas comemoravam e vibravam com a conclusão do embate.

    Por outro lado, Akemi permanecia amedrontado. A realidade das batalhas se mostrou ainda mais cruel. “Deve ser sobre isso que o vovô alertava… Onde eu fui me meter!” O terror se enraizou em seu ser e deixou cicatrizes profundas na mente.

    Era preciso controle acima do medo, mas as tentativas eram inúteis.

    O corpo decapitado de Kaiyo seguia tingindo o chão de vermelho sangue; durante aquilo, Hikaru estava sentado de pernas cruzadas, descansando a katana sobre as coxas.

    Perante os aplausos, um homem encapuzado emergiu misteriosamente de uma entrada situada numa área elevada ao norte da arena, capturando a atenção de todos.

    — Aquele é o Shihai do Tempo — apontou Sho.

    Akemi mal ouvia, seus olhos estavam fixos na cabeça decepada no chão.

    O homem enigmático estendeu os braços e revelou escrituras de brilho prateado nas palmas de suas mãos claras. Instantaneamente, a arena se distorceu e retrocedeu no tempo, levando os jovens combatentes de volta ao átimo em que haviam entrado para a batalha.

    O solo úmido secou, e tudo ficou completamente renovado.

    — Senhoras e senhores! Como esperado, o vencedor é Hikaru Sasaki! O prodígio da aura luminosa é imbatível! Um verdadeiro show de habilidade e destreza. Parabéns pela vaga na Academia Shihai de Asahi! — informou o locutor, feliz com o resultado.

    Os aplausos diminuíram.

    “Ainda há quem continue batendo palmas? Ninguém vê que esse nível de barbaridade é imoral?” Visivelmente perturbado, Akemi se via em outro mundo; não no que ele imaginava. “Era isso que eu queria? Lutar assim? Matar assim? Não está certo, não pode ser assim… É isso que significa ser um shihai?”

    Sho percebeu a aflição do colega. — Você pode se deixar levar pelo medo.

    — Estou… tentando. Mas esse Sasaki… ele não é uma pessoa normal. Aquela frieza no olhar… a forma que segurou a cabeça… isso me dá um baita mal-estar. Apesar do talento de ambos, ver isso ao vivo é completamente diferente do que eu pensava da academia.

    — De onde você veio ninguém o alertou sobre as notícias superficiais do governo?

    — E-eu… — Akemi novamente montou uma resposta estratégica para que não revelasse seu passado confuso — eu cresci de um lugar sem muita escolha, era acreditar naquele mundo ou desistir de tudo e viver no esquecimento. Sei sobre os riscos de um shihai e principalmente dos males da guerra, mas um embate até a morte entre jovens organizado pela ASA? Isso vai além da moralidade que eu pensava existir aqui.

    — Dor e sangue fazem parte da rotina de qualquer que almeja se tornar shihai pela ASA. A mídia suaviza esses detalhes pra tornar as leituras mais leves e esconder certas verdades da comunidade, tudo para atrair jovens desavisados. Mas encare pelo lado positivo! Aqueles dois deram um excelente exemplo do que é um combate de verdade!

    “Um belo exemplo… Então, é assim que vai ser e eu vou ter que lutar. Hmpf, se essas pessoas acham que devo me esforçar pra causar dor a um outro igual, estão muito enganados. Vou mostrar pra eles que estão todos errados.”

    No centro da arena, Hikaru levantou-se, sentindo nada pela vida ceifada.

    Do outro lado estava Kaiyo, confuso, olhando para as mãos na lembrança do que acontecera. Seu corpo voltou à estaca zero do combate, mas as memórias pareciam preservadas até o ponto máximo da luta. Apesar da noção do resultado, nenhum remorso pelo adversário vitorioso foi demonstrado.

    Ambos se curvaram em saudação um ao outro e saíram pelos portões de onde vieram.

    — Eles se lembram do que aconteceu? — perguntou Akemi.

    — Ao que tudo indica, sim, mas desconheço como funciona esse suposto retrocesso do Shihai do Tempo, e para ser honesto, minha curiosidade termina exatamente aí.

    Embora ciente do respeito mútuo entre os dois combatentes, Akemi continuava desorientado. “Esses garotos são psicopatas por se despedirem com tanta naturalidade depois do que protagonizaram. Chego a cogitar fugir daqui, mas para onde? Já assinei o contrato, estou comprometido. Se eu desistir agora, toda a vontade terá sido em vão.”

    Ele percorria os olhos pela arena em busca de algo, qualquer coisa que o distraísse do pânico crescente; contudo, assim que os aplausos cessaram, a parte sul das arquibancadas capturou sua atenção.

    Por lá, várias pessoas estavam sentadas em tronos de madeira com estofados rubros; entretanto, uma garota no meio dos adultos era quem se destacava.

    “Espera… quem é aquela? É tão chamativa…”

    Aquela garota de cabeleira negra lisa, cuja parte interna dos fios tinha um tom vermelho cardeal, possuía olhos que evocavam a beleza e o encanto de uma preciosa pedra de jade.

    A aparência era acentuada por dois acessórios dispostos nas laterais da franja, tratando-se de presilhas moldadas no formato de chamas, ostentando fitas vermelhas que se estendiam até atrás da nuca.

    Além da túnica alaranjada, a base de seu dedo médio da mão esquerda continha um brilho exuberante provavelmente causado por um anel raro.

    “Por que a roupa dela é tão diferente dos de kimono vermelho envolta? Parece até que é de propósito.”

    Cap-11-Scene-2

    — Sho, aquela garota de laranja… você sabe quem é? É alguém importante?

    — Hmmm… — Sho procurava melhor com a ajuda de seus óculos. — Ah! É da Família Miyazaki.

    — Miyazaki!? — Akemi inundou-se de surpresa e admiração, suas preocupações desapareceram momentaneamente. “Os Miyazaki… aqui!?”

    — Sim, aqueles ao redor dela também são da família. Você os conhece?

    — É claro que conheço! A única linhagem consistida somente por shihais ígneos! Eles são reconhecidos por toda Asahi! Vários integrantes participaram da última guerra contra Medved e foram cruciais naquela batalha!

    — Hehee, você estuda bastante sobre as famílias áuricas, hein?

    — Miyazaki Naomi — citou Akemi, carregado de reverência — Ex-Matriarca da Família Miyazaki e Marechala de Campo que criou seu próprio estilo de arte marcial compatível com a condução do fogo. Muitos tentaram replicar, mas só ela conseguiu dominar completamente. Ela incinerava batalhões inteiros sozinha e ainda voltava pra contar história!

    — A garota que você perguntou sobre é uma das principais candidatas a assumir como próxima matriarca da Família Miyazaki. O nome me foge, porém, sei que Naomi é a mãe, e sem dúvida, foi ela quem inspirou sua filha a seguir os mesmos passos de excelência tanto na família como no Exército Asahiano.

    “Uma possível futura matriarca da família ígnea mais influente de Asahi… e ela está aqui, vendo esses combates. Será que… ela também vai lutar?”

    — Já a vi pela praça entre os institutos áuricos, era raramente acompanhada. Muitos a olhavam com respeito e interesse, outros poucos, com inveja, e por mais que eu estivesse de longe, nunca senti uma energia ruim daquela garota.

    — Creio que ela tenha a nossa idade. Talvez esteja aqui para competir, não dá para descartar essa possibilidade. E esse jeito sério… deve ser poderosa. Fico pensando como seria conhecê-la.

    — Acalmou agora, né? O que o rosto bonito de uma garota não faz?

    — Agh-b-bem, não seja por isso… Quero dizer, é sobre a família dela… Você entendeu!

    — Hahaha! Claro, claro.

    Inesperadamente, um novo anúncio chegou. — ATENÇÃO! O segundo combate acontecerá daqui dez minutos. Os competidores são Nihara Miyazaki e Akemi Aburaya. Peço que se preparem para a batalha.arem para a batalha.

    Sabia que Shihais tem um servidor no Discord? Se quiser conhecer, clique no botão abaixo!

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