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    — Primeiramente, Aburaya, não pude deixar de achar intrigante o fato de você ter despertado uma aura após um acidente em uma usina hidrelétrica, mas para que eu possa me informar melhor, diga-me explicitamente o que realmente aconteceu naquela instalação.

    Akemi explicou detalhadamente sobre como foi a sua trajetória até a sala das máquinas, contando inclusive a proibição de seu avô sobre acessar tal área. — … Daí, acabei sendo surpreendido por um estrondo, claramente um raio. A sala começou a piscar em vermelho, e então percebi o estado crítico de um dos protótipos… Achei que poderia fazer algo heroico puxando a alavanca, mas a máquina liberou uma descarga de milhares de volts.

    — Creio que o ponto condutivo naquele ambiente era um jovem bem inocente, ou quem sabe corajoso. Aliás, parece que você sabia muito bem o que estava acontecendo, então, por que agiu daquela forma ao invés de chamar alguém? Insolência? Pressa? Inaceitação? Raiva?

    — Meu avô interveio com a mesma intenção de baixar a alavanca, mas eu jamais o deixaria sozinho e tentei ajudá-lo. Ele tentou me empurrar, me afastar, porém eu não suportaria vê-lo correr aquele risco por mim. Ele sempre me protegeu… e o meu sonho é um dia protegê-lo. Se aquela decisão valeu a pena, só saberei no futuro.

    — Conseguiu ficar consciente na hora pra sentir algo após o choque? 

    — Por segundos, pude ver tudo. O brilho, as correntes elétricas, o calor… tudo isso corria nas minhas veias como se fizessem parte de mim. Depois, a energia dentro de mim simplesmente… explodiu. E a partir dali, só me lembro da sala ficando escura e do socorro de alguns operários.

    O rosto do avô, então, com certeza era uma imagem que não sairia tão fácil daquela cabeça.

    — Uhum. Bom, quanto a esses seus relatos, confirmo novamente que você é um áurico do tipo retrator.

    Akemi sorriu singelo. — Isso já não é mais nenhum segredo. Só que eu gostaria que você me esclarecesse melhor sobre os tipos áuricos, por que eu tenho medo do meu entendimento sobre acabar sendo abstrato.

    — Muito bem, então permita-me elucidar. Existem três principais tipos de áuricos. — Masaru estalou os dedos e gerou três pequenas chamas de formatos diferentes como marcadores didáticos. — São esses os emanadores, os dobradores, e os retratores. Começaremos pelo grupo mais comum entre os áuricos: os emanadores. Esses são aqueles que criam ou geram seus poderes diretamente do próprio corpo. No seu DNA há algo que permite essa manifestação natural da aura. Em contrapartida, por gerarem sua própria aura, eles gastam mais energia.

    — Gastam energia?

    — Nenhum emanador possui um uso totalmente ilimitado de aura, para que possam usar suas habilidades, eles gastam a própria energia do corpo até a exaustão. Alguns têm a energia tão baixa que não passam mais de dois minutos utilizando os poderes, entretanto, existem aqueles tão bem treinados que até parecem ter adquirido uma energia infinita. Esses em questão normalmente são os áuricos mais poderosos do planeta.

    — Pode soar meio contraditório, mas apesar das desvantagens, parece muito vantajoso ser um emanador.

    — E é. Um emanador de aura aquática, até mesmo no deserto, poderá lutar. É um tipo flexível, versátil, mas exige extremo controle e preparo, já que a energia áurica emanada vem toda de si.

    — E os Dobradores?

    — Ah, os Dobradores… — Masaru alegrou-se como se apreciasse um bom vinho antigo. — Estes em si não possuem tantos segredos, somente precisam estar próximos do seu elemento ou terreno correspondente para utilizar suas habilidades áuricas, seja conduzindo, estendendo, ou dobrando. Ou seja, eles controlam o que já existe sem nenhum gasto de vigor áurico.

    — Compreendo. Agora, sobrou os retratores.

    Masaru recolheu as chamas e dirigiu-se para perto da lareira novamente; lá, agachou-se. — Sim, esse é um tipo… peculiar. Retratores são raros. Eles precisam retrair ou contrair seus poderes para utilizá-los — ele estendeu as mãos para perto do calor. — Pense como um elástico: para liberar energia, primeiro precisam puxar para dentro.

    Sorrateiramente, a brasa da lareira era transferida para dentro das palmas do instrutor.

    Akemi observava encantado. — Você é um retrator.

    — Positivo, posso armazenar energia áurica a partir do calor do fogo. Passar um tempo nessa sala aquecida e retrair o seu ambiente é um passatempo que tanto me relaxa quanto fortalece.

    — Retrair… isso parece… complicado.

    — Pode-se dizer que sim. A retração do respectivo elemento é uma exigência fundamental, é nela que se dá a condensação gradual da aura, cuja potência pode ser amplificada no instante da liberação. Trata-se portanto de um ciclo refinado, um vai e vem entre contenção e desfecho. Naturalmente, é um processo mais complicado, tanto no treino quanto na compreensão, mas aqueles que o dominam, transcendem o limite de potência de um poder áurico, tornando-se verdadeiramente formidáveis.

    “Contenção, e desfecho… Recolher… e explodir… foi exatamente o que senti!”

    — Passei por um hospital áurico após o meu acidente, mas fui liberado pelos médicos no mesmo dia em que acordei. Até que me ensinaram algumas coisas lá, porém nada foi o suficiente para que eu entendesse tudo. Mas sinto que aqui posso aprender de verdade!

    Com a seriedade atrás dos óculos, Masaru levantou-se e voltou para perto do garoto. — Instalações áuricas hospitalares não foram criadas para potencializar a aura dos pacientes, e sim, mantê-los saudáveis e prontos para usar suas habilidades novamente. Mas agora que você compreende melhor sobre tipos áuricos, está pronto para entender sobre si mesmo.

    — Minha aura pode ser armazenada com energia elétrica?

    — Seriam necessários equipamentos adequados para sabermos a resposta, e nesta sala, não possuo quase nada que seja útil para nós. Com apenas as suas sensações e os meus olhares, não somos capazes de descobrir suas capacidades com a precisão desejada. Então, para agilizar as nossas pesquisas, serão necessários olhos que enxergam além do físico.

    Repentinamente, uma voz feminina e madura de tendência atrativa chamou a atenção. — Ora ora, parece que os rapazes estão desesperados pelos meus serviços.

    Akemi assustou-se com o comentário repentino, e procurando por todos os lados, não encontrou nada. — O-o-o que é isso!? Tem alguém invisível aqui!?

    — Não sou invisível. Sou apenas além do que você entende por realidade.

    Atraído pela fala que veio justo do canto mais sombrio da sala, o garoto virou o rosto.

    Dali, pôde-se ver.

    A dona por trás da voz misteriosa materializou-se de cima a baixo, surgindo da sombra espessa como se deixasse de ser totalmente parte dela.

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