Capítulo 17 - O poder do alto escalão
— Ééé… oi?
— Por favor, me diga quem você é!
— Não, não, não! — exclamou Miya, fazendo gestos negativos com as mãos enquanto balançava a cabeça. — Você entendeu errado, vamos com calma! O mais importante é que você aceite que te indicarei pra ASA!
— … Pode mesmo fazer isso?
— Sim, mas preciso que você aceite. Não posso recomendar alguém que não esteja interessado na vaga, é contra as regras e poderia me causar um problemão.
— Olha, eu agradeço muito a sua oferta, mas…
— Mas o quê!? — Miya avançou, de mãos na cintura e batendo os pés no chão repetidas vezes enquanto aguardava bravamente pela resposta.
“Caramba! Esse olhar sério me destrói!”
— Eu não sei se devo aceitar. Tenho pouca noção do nível do seu posto, não quero estragar sua reputação e causar mais dores de cabeça a você.
— Não dou a mínima pra como os Miyazaki me vêem, me importo em ter uma boa reputação com o resto do mundo, e pra isso, eu preciso de ti! E você sabe o motivo!
— Olha… eu…
— Você… — Miya aproximou-se ainda mais, quase colando o rosto sério na cara confusa do garoto.
“Certo, acho que vou ter que me acostumar com ela”, Akemi fechou os olhos por conta da pressão. — Eu só aceito por uma condição!
Miya afastou-se calmamente e cruzou os braços. — Qual seria essa condição?
— Acabei de levar o maior choque de realidade da minha vida. Até seu próprio pai sabe que eu não sirvo pra esse lugar, que não sou bem-vindo aqui, e por mais que você também pense parecido comigo em relação à violência, simplesmente não vejo como eu poderia te acompanhar agora.
— E… — A garota levantou uma das sobrancelhas, esperando o resto.
— Diferente de antes, não tenho mais nenhuma expectativa em mim aqui. Mas você parece enxergar algo que eu não consigo ver. Você é uma pessoa legal, e seria muito maldoso da minha parte não te escutar e dar uma chance.
— Tá, mas qual é a condição!?
— Por favor, nunca desista de mim.
— … É só isso?
Akemi coçou a bochecha direita com dois dedos para uma melhor explicação. — Não tenho certeza se sou a pessoa que você procura, mas preciso me reconhecer. Não sei como é viver aqui, mas tenho certeza que na primeira sensação ruim, posso involuntariamente tentar fugir de todas as formas. Por isso, você teria que me segurar e não me deixar desistir, entende? Prometo me esforçar ao máximo pra facilitar o seu trabalho e… ser um… um bom… amigo?
— Hihihi, você é uma figura — com um sorriso descontraído, Miya estendeu o dedo mindinho para Akemi.
— O-o que você tá fazendo?
— É um juramento!
Meio perdido, o rapaz entrelaçou seu mindinho com o da garota. — Um juramento?
Com os dedos unidos, Miya colocou a mão livre no peito e proclamou: — Eu, Hiromi Miyazaki, prometo nunca desistir de você, não importa o quão difícil as coisas possam ficar. Prometo estar ao seu lado, te apoiar, proteger e guiar quando se sentir perdido. Vou fazer de tudo pra garantir que você encontre o seu lugar aqui.
Mesmo receoso, Akemi respirou fundo, sentindo a importância daquele momento. — E-e eu, Akemi Aburaya, prometo me esforçar ao máximo pra não te decepcionar. Vou superar meus medos e inseguranças, e farei o possível pra corresponder a sua confiança em mim. Vou dar o meu melhor pra ser digno dessa oportunidade.
Com os mindinhos ainda unidos, Miya estendeu o dedão para frente.
— O que é isso agora? — perguntou Akemi.
— Pra validar as nossas promessas, temos que unir os dedões!
— Ah, entendi.
Pontas tocadas: juramento selado.
— Pronto, está feito! Agora estaremos sempre juntos nessa, Akemi!
— Beleza, mas… e agora? Na real, a gente nem sabe se essa indicação dará certo. Como quer fazer isso?
— … Eu não sei… — Miya respondeu com um olhar vazio e corpo murchado, mantendo o gesto do juramento concretizado. Entretanto, ela logo reergueu o tronco, transmitindo confiança. — Mas fique tranquilo! Vou encontrar um jeito de-
Woooosshhh!
Sorrateiramente, um som cortante e distorcido do vento ecoou no ar.
A luz do sol sobre os jovens foi obscurecida por uma grande silhueta, criando uma sombra que cobriu ambos completamente.
— Ho ho ho! Parece que temos mais um indicado! — Uma voz forte e inconfundivelmente familiar ressoou pelo pátio.

A surpresa pela nova presença separou os dedos em juramento. Quando levantaram o queixo, os dois jovens reconheceram Jin Ichikawa em descansar.
Akemi sentiu o coração disparando instantaneamente. “Marechal Ichikawa! Ele tá aqui de novo, bem na minha frente!” Sua admiração brilhava enquanto observava cada detalhe daquela figura imponente: a farda impecável, a postura ereta, o semblante que trazia décadas de experiência e glória. — Marechal Ichikawa! — exclamou o rapaz, trêmulo de empolgação. — Não esperava o senhor aqui, de onde voc-
— Jovem Aburaya! Tenho toda essa área na palma da minha mão — declarou Jin, gesticulando amplamente — nada que acontece aqui escapa dos meus olhos, ouvidos, boca, e mãos.
“Ele veio do vento!? Só pode ser isso! Incrível! Incrível demais! É exatamente como nos livros!” Akemi mal segurava a alegria.
Miya, por outro lado, inclinou-se respeitosamente diante do militar. Sua postura era rígida e defensiva demais. — Diretor, com licença, presumo que o senhor tenha ouvido nossas conversas. Se não for incômodo, gostaria de solicitar uma-
— Ho ho ho! Senhorita Miyazaki, eu também estive de olho nele — Jin virou-se para o rapaz, ignorando completamente o pedido da garota — Akemi Aburaya, já vi muitas auras na vida, mas a sua me lembrou uma em específico — rememorando tempos passados, o militar gesticulava dramaticamente — era magnífica, lendária, épica! Definitivamente a aura de um verdadeiro guerreiro destemido e justo, que rasgava exércitos inimigos como um raio infinito. Aquele me inspirava a todo momento…
Akemi ouvia a história como versos de uma canção lendária. “Ele tá falando de alguém com aura elétrica! Alguém que ele conheceu! Quem será?”
Miya deu um passo à frente, hesitante. — Diretor, fala do-
— Inazuma Kurogane!
— Inazuma… Kurogane? — repetiu Akemi.
— Afirmativo! O único shihai de aura elétrica e um dos memoráveis heróis de farda que nos salvaram da… — Inesperadamente, Jin percebeu algo intrigante — um momento… você não o conhece, jovem?
— Desculpe, eu… nunca havia escutado esse nome antes.
O marechal e a garota não esconderam a surpresa em seus rostos — a do militar foi a mais acentuada e genuína.
— Como assim? — indagou Miya, apontando para uma direção — Inazuma Kurogane é aquele na- — Contudo, o diretor a interrompeu novamente, revirando seus olhos de tanta impaciência.
— Ho ho ho! Era de se esperar que fosse assim — o marechal causou estranhamento nos jovens pelo comentário — enfim, Aburaya, entenda que mesmo sem a destreza de um lutador, você não pode apagar a sua vontade de herói. Eu vi e ouvi todas as suas lamentações e sei o que você está pensando. Já vi este filme mais de uma vez.
— O-o que quer dizer? — perguntou Akemi.
O marechal ficou ao lado do rapaz e apontou para a escultura de bronze que decorava a fonte de águas vermelhas no centro do pátio. — Está vendo aquela estátua ali? Aquele é Inazuma Kurogane, um amigo meu de longa data, o homem mais impressionante que pisou nesta terra. Junto a mim, ele fundou a ASA e foi figura crucial para a imagem que esta academia possui. Sem contar suas performances nos campos de batalha. Como eu disse, um líder indomável nas guerras contra Meilí e Medved.
Akemi contemplava a estátua com a reverência renovada. “Então aquela estátua era de um shihai elétrico como eu… alguém que lutou nas guerras… alguém que o Marechal Ichikawa admirava!”
— Onde ele está agora? — perguntou Akemi, ainda maravilhado.
Miya cruzou os braços e relatou cuidadosamente: — Não temos a menor ideia. Desde a Primeira Guerra Sino-Asahiana, ele desapareceu sem deixar rastros. Alguns dizem que morreu, outros acreditam que foi capturado, e há quem afirme que enlouqueceu e fugiu… Por mais que eu nunca tenha o visto, imagino o quão ele era impressionante pelas suas histórias. É uma pena.
— Sim, é realmente uma pena — concordou Jin — além de ter perdido um shihai extraordinário, perdi um amigo. Prometi que manteria seu legado vivo, mas ele não aceitou bem a ideia antes de desaparecer. Mesmo que ele tenha sumido do mapa, sonho em vê-lo em ação novamente de qualquer forma… até tive uma chance, porém falhei miseravelmente — em uma nova determinação, Jin voltou-se para Akemi — mas você, jovem Aburaya! Como portador da aura de eletricidade, pode reviver os momentos de glória do Kurogane. É por isso que, apenas com o voto da Senhorita Miyazaki, eu, como diretor da ASA, te ingressarei na próxima turma de recrutas!
Akemi foi afetado pela motivação, seus olhos lacrimejavam. “Ele acha que eu posso… reviver a glória de um shihai!? Um herói lendário!? Isso é… isso é…”
Miya arregalou os olhos, a surpresa tomou conta por um breve momento antes que ela controlasse a expressão.
Algo naquilo parecia incerto, mas ela não tinha escolha. Era a única chance do ingresso de Akemi na ASA. — Então, vai nos ajudar?
O marechal olhou a garota de cima pra baixo. — Ho ho ho! Isso não seria possível sem você, sua conversa com Akemi foi fundamental. Confesso que ao observar as reações dele durante as lutas, pensei que o perderia… — ele voltou-se para o garoto, apontando diretamente para ele — enfim, jovem. Você aceita a indicação!?
Akemi tinha um turbilhão de informações passando pela cabeça. Miya oferecia uma chance que ele nunca imaginara.
Jin Ichikawa, um dos maiores heróis vivos de Asahi, um dos fundadores da ASA, acreditava que ele reviveria o legado de Inazuma Kurogane, um shihai lendário de aura elétrica cujas histórias provavelmente estavam documentadas em algum lugar que Akemi nunca havia lido.
A atenção de pessoas de um escalão tão elevado o deixava apreensivo e confiante. Era como estar à beira de um precipício, olhando para o abismo, mas com alguém segurando sua mão.
Restavam apenas duas escolhas: a queda ou o sonho.

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