Capítulo 25 - Segredos soterrados
Pelo silêncio e luzes piscando, subentendia-se que aquele lugar estava abandonado; porém, Akemi discordava, pois não afastava a sensação de que estava sendo observado.
Os sopros de vento gelado que passavam, trazendo consigo um odor metálico de ferrugem, davam calafrios nos braços.
“Uuuuh, que frio! Por que eu concordei com isso mesmo? Ah, sim, só pode ser porque sou um idiota!”
— Continue agachado e fique perto de mim. Tem uma porta naquela direção, nós vamos até ela — sussurrou Miya, seguindo próxima à parede pela direita com passos tão cautelosos quanto os de um gato.
— Como se você me deixasse ter outra escolha — Akemi imitou a postura furtiva da companheira, e passando as mãos pela parede, sentiu uma poeira espessa grudando em seus dedos. “Ugh, me pergunto se algum dia alguém já limpou esse lugar.”
Eles avançavam lentamente até a porta de ferro de formato oval, cujas dobradiças enferrujadas remetiam anos de abandono.
“Isso parece até a entrada de um sacrário gigante”, analisou Akemi, agachado atrás de Miya. — O que você acha que tem a-
— Espera! — Miya ligeiramente cobriu a boca do garoto — ouviu isso…?
— É! Você tinha que ter visto! — exclamou uma voz esnobe, escapando através da ventilação mais próxima, no rodapé da parede curva — a filha caçula daquela seorina estava em choque, matei todos! — O orgulho na fala destacou a crueldade.
Os jovens entreolharam-se, refletindo surpresa e estranheza, logo após, aproximaram-se ainda mais da ventilação para que escutassem melhor.
— Senhor, por favor, não trate essas almas como conquistas — retrucou a voz de uma moça, suave e controlada — o objetivo é consolidar o poder de Asahi, não precisamos executar qualquer um que vier pela frente.
— Bah, formalidades! — rebateu o pernóstico — seorinos não passam de camponeses fáceis de manipular. Eles estavam aterrorizados demais pra resistir. Foi divino torturá-los nas chamas da guerra! Estamos há muitos anos nessa, mas sinto como se só estivesse começando!
— A resistência do alvo é pequena, todavia, a atenção que isso atraiu de Meilí é preocupante. Não será nada vantajoso para nós se eles decidirem disputar terras seorinas, ou talvez usarem essa situação como uma ponte para se vingarem da gente.
— Fala do país que nos tornou potência emergente no continente? Até superamos o elemento primário deles, aquelas técnicas chamejantes ridículas não nos incomodam mais.
— Concordo, mas lembre-se: os meilianos ainda possuem relações fortes com Medved.
— Medved?! Haaahahaaa…! Esses aí estão em guerra civil há mais de cinco anos! Têm preocupações muito maiores do que o risco de uma nova derrota. Nosso exército áurico é o melhor de todo o continente, e a expansão de Asahi é inevitável! Vamos intimidar Meilí e sufocar Medved com nosso poderio. São ordens do Imperador Hero: DOMINAREMOS TUDO!
— Que assim seja, senhor…
Com o fim da conversa, Akemi perdidamente buscava o entendimento da situação. “Pensei que as guerras tinham acabado… Não estávamos em paz?” A falta de mais informações disparou seu coração. “Ataques à Seorim? Quem está tendo essa conversa? São militares? Parecem mais psicopatas! O que tá acontecendo…!?”
Por outro lado, Miya exalava uma fúria fervilhante. Os relatos que escutara atingiram-a como um ácido, ardendo seu corpo no mais puro ódio.
— Miya! — Akemi praticamente gritou em voz baixa quando viu a reação da companheira, cutucando-a no braço, sem retorno de atenção — Miya? Tá tudo bem? Responde!
Os olhos verdes da garota brilhavam em laranja: pequenas chamas dançavam em suas íris. Complementando a feição raivosa, dentes flamejantes rangiam de frustração. — Covardes — murmurou a garota, a fervura em sua voz era tão quente quanto suas emoções.
“O-o que essa menina tem em mente!? Assim ela vai acabar entrando lá dentro…! Não, não podemos continuar assim! Ela precisa se tranquilizar!” Akemi sentiu um calor espalhando-se: uma breve degustação do poder latente de uma Miyazaki que precisava de contenção. — Ei, se acalme! Você não pode perder a cabeça aqui!
Escutado o pedido, Miya canalizou a calma perante a raiva e encontrou o foco que precisava.
Mas antes que relaxasse por completo…
Tap… tap… tap…
Sons de passos, lentos e pesados, desciam pelas escadas.
Como se o mundo estivesse em câmera lenta, os jovens viraram a cabeça e espiaram pelo canto dos olhos arregalados. Seus corações batiam juntos, sincronizados pela crescente tensão.
Pequenos fragmentos de uma nova presença foram flagrados: a barra de uma calça branca presa por uma bombacha, balançando calmamente acima de um coturno prateado, completava a base do uniforme de quem descia as escadas.
O solado batendo vagarosamente no ferro das escadas trazia ao presságio uma vinda iminente…
Miya agiu sem que pensasse duas vezes: num movimento rápido e ágil, alcançou a borda da grade próxima no rodapé, e num impulso, puxou-a para cima, tornando a ventilação desprotegida e acessível.
“Mas o qu-” Akemi foi agarrado pelos tornozelos, derrubado no chão como um boneco e puxado para dentro da abertura escura, ficando deitado ao lado de Miya, que velozmente fechou a ventilação.
Esconderijo armado, barulho mínimo.
— O que você tá faze-
Miya cobriu a boca do falante. — Não respire.
Ajeitando os corpos deitados, os jovens roçaram a pele no metal gelado.
Finalmente, a figura que descia as escadas passava, preenchendo o túnel com seu semblante autoritário.
A identidade era inconfundível.
“Não pode ser! O que ele faz aqui!?”
Jin Ichikawa, um nome que Akemi conhecia bem, embora nunca o imaginasse naquele lugar em uma presença tão avassaladora.
Mesmo fora da vista pela ventilação, os passos lentos do diretor seguiam…
Posteriormente, o barulho de uma porta metálica sendo aberta chegou aos ouvidos dos escondidos.
— Marechal Ichikawa, qual o fim da convocação? — perguntou a moça pela chegada de mais um.
— Vim informar sobre a guerra civil de Medved.
— Rá! Tava falando disso agora — disse o esnobe — mas o que uma guerra interna de outro país poderia me interessar?
— Meus infiltrados vasculharam alguns refúgios que foram destruídos, o estrago era grande, e estava cada vez mais difícil achar membros da resistência por entre a neve densa. Era questão de tempo para que os Volks dominassem Medved por completo.
— Claro, entendo… — o vaidoso parecia impaciente — era de se esperar que triviais não tivessem a menor chance contra áuricos. Agora, conte-me o que isso tem a ver com a gente?
— O Czar ressurgiu — afirmou Ichikawa, entoando a pronúncia medvediana como uma execração1.
A informação trouxe uma breve quietude.
Os jovens escondidos tiveram seus olhares esvaziados, como se suas almas tivessem partido diante daquele relato.
— … Hãn!? Hahaaa! Foi mal, meu marechal, isso aí é impossível — zombou o arrogante, mas com a preocupação estampada na voz — ele foi morto há mais de quinze anos, eu mesmo vi com os meus próprios olhos.
— Sei como se sente, eu também estava presente. Conquanto, acharam resquícios recentes da névoa negra em áreas recém-sucumbidas da resistência.
— Você só pode estar de brincadeira, Jin. Deve ser outro alguém com a mesma aura, um herdeiro ou algo do tipo.
— Negativo. É fato que o Czar eliminou todos seus possíveis sucessores. Sabemos o que ele buscava, ter herdeiros apenas o atrasaria. Só existiu uma pessoa com aquela aura, é inegável que ele ainda esteja vivo…
“Czar… vivo? Não, isso só pode ser mentira!” Apavorado, Akemi percebeu que Miya compartilhava do mesmo suor frio gerado pelo nervosismo, mas com um foco intenso na conversa que se desenrolava.
— Senhor, o que faremos então? As missões em Seorim serão cessadas? — questionou a moça, também receosa.
— Negativo. Soube que Meilí planeja disputar territórios seorinos com as nossas tropas, e se eles mantiverem a aliança com Medved em estado estável, teremos grandes problemas novamente.
Bram!
Alguém bateu numa mesa.
— Então ficaremos aqui esperando igual panacas!?
— Guerras territoriais são complexas e dependem de vários fatores. Por enquanto, manteremos as ordens sugeridas pelo império. Mas deixo-os avisados para que possam proteger suas famílias, principalmente a sua.
Vup-wooosh!
Juntamente de chamas ferozes, uma cadeira foi arrastada.
— E-ei! General! P-por favor, sente-se novamente! — solicitou a moça.
— EU SEI MUITO BEM COMO DEFENDER MINHA FAMÍLIA! — Ffu-woosh! Ffu-woosh! O som do fogo manipulado enchia o ambiente, como se alguém estivesse gesticulando em chamas — NÃO SOU COMO O VERME DO MEU IRMÃO! — Ffu-woosh! — EU NUNCA DEIXARIA ALGO ACONTECER COM QUEM AAAMO!!! — Ffu-woooshhh-pow!
“Quebraram uma mesa!?”
— General! Por favor… — implorou a moça, angustiada.
— Eu matava, degolava, esquartejava e queimava qualquer um que pretendesse machucar a minha esposa, independente se ela precisasse de ajuda ou não! É por essas e outras que somos uma família mais forte desde a última troca de mandatária!
— Ho ho ho! Nem você concorda plenamente sobre sua colocação final — rebateu Jin, inicialmente descontraído — então, há mais algo a dizer, Katsuro?
“K-Katsuro…!?” Akemi teve suas reações de surpresa alastradas drasticamente.
— Argh! Me retirarei por agora! Uma perda de tempo vir a esta reunião medíocre! Tenho muitas ordens a dar e muitas táticas a planear! Até uma outra oportunidade!
Braamm!
A porta supostamente foi aberta com um chute, o barulho do impacto ecoou por todo o túnel. Sequencialmente, passos raivosos seguiam rumo à escada…
O garoto de olhos arregalados abriu a mente quando viu a pessoa que passava na sua frente. “É-é… o General Katsuro Miyazaki…”
Com passos de fogo, postura rígida e ombros largos, Katsuro Miyazaki, General de Exército do Quinto Regimento Áurico, extravasava seu nervosismo. Após sua participação em uma conversa que claramente o desagradara, o militar esfregava as mãos pelos cabelos médios penteados para trás. Sua barba grossa, por sua vez, sugeria uma idade próxima dos quarenta e cinco anos.
Uma faixa rubra cruzava diagonalmente seu peito, ostentando três medalhas, enquanto a farda vermelha e preta com botões e detalhes dourados brilhava com a intensidade da aura ígnea. O traje destacava o corpo robusto e definido, juntamente de uma capa negra que, além da cobertura dos ombros onde a patente era exibida, balançava suavemente ao sabor da brisa fria que acessava o corredor. Luvas claras e coturnos brancos conferiam um aspecto heroico em contraste com a personalidade ardente.
“Então era ele por trás desse papo o tempo todo! Como o marido da matriarca pode participar de diálogos assim…!? Miya deve ter uma resposta.” Akemi via o nojo da garota perseguindo o militar que passava. Aparentemente, ela já sabia da identidade de Katsuro desde o começo daquela conversa.
— Perdão pelas ações dele, Marechal Ichikawa.
— Fique tranquila, você é apenas uma mediadora, não deve nada a ele. Vamos, preciso conversar com mais pessoas, ainda estamos no começo do dia.
Como uma maré implacável, as informações pesavam sobre os jovens, que ainda escondidos, captava a enormidade daquela situação, mas era como areia segurada entre os dedos: tudo escapava, pois o buraco parecia mais profundo do que imaginado.
Terminada a conversa, os restantes finalmente passavam rente ao duto de Miya e Akemi.
Andando próxima a Jin, a suposta mediadora foi exteriorizada vestida num hakama branco com um kimono de tecido escuro que refletia a luz piscante, destacando o mon — emblema de família — bordado em seu peito. O curto cabelo castanho-escuro realçava a elegância no olhar centrado; realmente, era uma pessoa culta.
Os jovens aguardaram em silêncio, o tempo arrastou-se até o fim dos passos distantes.
— Vamos — sussurrou Miya, abrindo a grelha da ventilação.
Ambos emergiram do largo duto retangular e sacudiram a poeira de suas roupas acadêmicas pretas.
Naquele momento, o ambiente parecia menos opressivo, mas a urgência da situação não fugia.
— O que foi tudo isso!? — indagou Akemi, afobado apesar da voz baixa.
— Eu sei, é confuso, mas se o governo planeja cometer crimes e fazer coisas horríveis com países vizinhos, temos que impedi-lo.
— Tá louca?! Somos só nós dois contra shihais de grau altíssimo!
Miya colocou uma mão firme nas costas do garoto, repassando coragem através do toque. — Não estaremos sozinhos. Temos aliados, só precisamos encontrá-los.
— Você não entendeu!? Não é só sobre essas invasões, há um perigo ainda maior! O que você acha que pode fazer se o Cza-
Wwoooossssshhh…
Sorrateiramente, depois de uma leve ventania, uma sombra destacou-se na luz falha entre os jovens…
Ninguém moveu um músculo sequer.
Psicologicamente apavorado sob a presença de algo, Akemi tinha seu suor frio como único movimento.
— Huummm, vejo que há jovens aventureiros se intrometendo em assuntos fora da própria capacidade, que imprudência lastimável — a voz familiar modificada pelo tom ameaçador trouxe uma incógnita que enrijeceu os alunos descobertos.
O que aconteceria ali, nenhum deles sabia…do garoto, tentando transmitir coragem através do toque. — Não estaremos sozinhos. Temos aliados, só precisamos encontrá-los.
— Você não entendeu!? Não é só sobre essas invasões, há um perigo ainda maior! O que você acha que pode fazer se o Cza-
Wwoooossssshhh…
Sorrateiramente, depois de uma leve ventania, uma sombra destacava-se na luz falha entre os jovens…
Ninguém movia um músculo sequer.
Psicologicamente apavorado sob a presença de algo, Akemi tinha seu suor frio como único movimento.
— Huummm, vejo que há jovens aventureiros se intrometendo em assuntos fora da própria capacidade, que imprudência lastimável — a voz familiar modificada por um tom ameaçador trazia uma incógnita que enregelava2 os alunos descobertos…

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.