Capítulo 2.1 - A dor do passado
Sob o lençol da cama, uma criança se divertia com as páginas amareladas de um livro antigo. O aroma de papel velho misturado ao leve cheiro de chá que seu avô tomava à noite o preenchia de memórias do passado.
Aquela criança de cabelos castanhos estava completamente envolvida na leitura, o mundo ao redor desapareceu e deu lugar a um refúgio onde só existiam ele e as palavras que devorava com avidez. Aquele era o seu momento de glória, o instante mais esperado do dia; e quem mais estaria tão imerso assim, senão Akemi Aburaya…?
Mesmo pequeno, Akemi segurava um livro grosso demais para suas mãos franzinas, mas a dificuldade em sustentá-lo nunca foi um problema.
Era ali, em sua cama, entre palavras e histórias, que ele encontrava refúgio. Seu pequeno mundo era delimitado pelo livro, enquanto o resto do cômodo se perdia em um brilho intensamente branco.
Akemi lia como quem compreendia o inalcançável, cada página virada era uma nova realidade onde shihais moldavam a história com suas habilidades magníficas sobre guerreiros indomáveis, militares fardados, líderes de clãs poderosos, figuras misteriosas e lendas.
Shihais de todos os tipos cativariam qualquer criança inocente, alguns comandavam as chamas, outros dançavam com a água, e havia aqueles que drobravavm a terra como se fosse argila em suas mãos. Eram mais que humanos; eram mitos vivos, entidades a serem temidas e respeitadas.
— Um dia, serei como eles… — disse o garotinho, sem perceber. Seus dedos passavam páginas, cada toque o aproximava daquela realidade; só que independente das tentativas, a distância era imensurável.
Ele era apenas um trivial sem brilho, alguém fadado a uma vida comum.
Mas… e se não fosse? E se houvesse algo nele que ninguém mais via…?
Inesperadamente, um forte vento soprou, e as folhas do livro e passaram várias e várias páginas, um evento desesperador para quem queria continuar lendo aquela obra.
Akemi lutava para que mantivesse as páginas sob controle, mas estava complicado.
O vento soprava forte, a apreensão de que as folhas se rasgassem aumentava a cada instante.
A sensação de perdição vinha à tona, resistência ou desistência era um dilema cruel para uma cabeça confusa.
Em desespero, Akemi fechou os olhos.
Todavia, quando abriu um pequeno espaço entre as pálpebras, tudo se desfez.
— Akemi! Akemi!
Com os chamados de seu avô, Akemi percebeu-se diante de um extenso muro alaranjado banhado pela luz do dia. À sua frente, uma entrada aberta destacava uma barreira negra e tremulante que ocultava todo o interior da estrutura.
Embora todo aquele cenário distorcido fosse estranho, estava para Akemi que aquela era a sua antiga escola para triviais. — Eu… oi? — O garoto olhou para o lado, mas levantou a cabeça diante do avô.
— Você está atrasado! Entre logo ou vai perder a aula! — A preocupação era evidente no rosto do idoso, que na verdade… parecia menos envelhecido do que se poderia imaginar.
— E… E-escola? Eu não quero ir para a escola. Eu queria… ler.
— Meu neto, eu sei que você não gosta daqui, mas não posso te deixar sozinho em casa e muito menos te levar para o trabalho. Você deve se comportar aqui até que eu volte, certo?
A confusão perturbava, a entrada do lugar onde mais odiava era o seu maior medo, mas por pior que aquilo era, a decepção de alguém que sempre o cuidou com certeza traria um sentimento mais doloroso.
— Eu… eu vou.
Passos lentos avançaram, a barreira preta não intimidava, no entanto, assim que a escuridão reinou, o aroma inconfundível de tinta fresca e papel envelhecido invadiu narinas.
Encostado em uma parede de madeira, Akemi sentiu sua cabeça repousada em meio ao torpor do sono; mas quando sua consciência retornou, um leve movimento do braço bastou para uma cadeira ranger.
Mesmo que tudo estivesse meio distorcido e as cores um tanto erradas, os detalhes daquela antiga sala de aula eram perfeitamente entendidos.
Com a têmpora ainda encostada na parede, sentado na carteira mais próxima da porta, o rapaz sentia sob os dedos a textura áspera da madeira marcada de sulcos deixados por gerações entediadas. Haviam nomes rabiscados, contas mal executadas, mensagens sem sentido, e inclusive, pequenos desenhos tanto queridos quanto depravados. Todos aqueles registros em tinta preta eram vestígios da criatividade mais bela até a mais suja de jovens inspirados, ou quem sabe, revoltados.
Entretanto, algo estava estranho. Tudo estava extremamente isento de vida.
Carteiras alinhadas em fileiras perfeitas alinhavam-se tortuosamente naquela sala de aula tradicional, todas desocupadas. Nenhuma voz era escutada, nenhuma cigarra cantava, nenhum professor rabiscava fórmulas no quadro negro. Por lá, havia apenas Akemi, sua mesa, seus livros e uma sombra de solidão sobre seu ombro.
Mas estranhamente, a solidão era tão rotineira que o isolamento não causava medo.
Aquele lugar já estava tido como real, uma escola onde crianças sem dons extraordinários eram educadas, sem grandes ambições para o futuro, e acima de tudo, alheios à vida de um áurico, uma existência que para eles era a única verdadeiramente digna.
A falta de proatividade em um colégio trivial desencadeava os piores efeitos dos males da solidão, males estes que não eram estranhos para Akemi: sua própria companhia já era o bastante; seus únicos amigos eram pensamentos, vontades, histórias, e a esperança por uma vida emocionante, o que de forma deprimente, era diferente daqueles que nem o conheciam…
A sala continuava vazia, parecia que ninguém nunca chegaria lá, como se a mente por trás da criação daquele cenário fosse incapaz de materializar qualquer rosto ou sequer uma voz, mas que no fundo, apenas trazia um sentimento antigo de conhecer um dotado da aura.
Cabeça na parede, olhos fechados.
Naquele momento, não havia comentários.
A tristeza era forte…
Repentinamente, o som metálico de algo pesado batendo contra o chão ressoou alto demais.
Akemi arregalou os olhos, e num piscar, não estava mais na sala de aula.
O cheiro do ambiente escolar foi substituído por óleo queimado e ferrugem. O calor das lâmpadas industriais queimava acima.
Vozes ásperas e impacientes zuniam. — O que tá esperando, ô estagiário!?
Uma caixa foi empurrada com força contra o peito de Akemi, obrigando-o a segurá-la antes que caísse no chão.
O operário à sua frente, um homem uniformizado, corpulento e coberto de fuligem, torceu o rosto numa careta raivosa. — Anda logo! Se ficar parado aí eu te amasso com uma pedra!
Akemi tremeu os braços sob o peso inesperado, só assim notou que seu corpo estava em uma altura no qual já era acostumado, um fato que o confundiu sobre os arredores.
Obviamente, era a Usina Hidrelétrica de Toryu, um lugar costumeiramente frequentado pelo rapaz trivial, ou melhor dizendo, sentido.
— Para de sonhar acordado! — Outro operário, um homem mais velho e carrancudo, empilhou outra caixa no garoto. — Se não consegue carregar isso, devia ir chorar pra mamãe e o papai!
“Mãe? Pai? Mas… eu… eu não tenho pais…” Akemi baixou a cabeça, os insultos atingiam-o como socos.
Contudo, nada daquilo era novidade. Trabalhar ali nunca foi sobre o bom tratamento pelos superiores, apesar das exceções.
— Menino Aburaya, não fique pensando nesses brutamontes, foque-se no seu trabalho na usina, você é importante para a gente! — exaltou uma voz feminina, o intuito era ajudar.
— Baaahahaaa! Ajudar? Esse rapaz não aguenta uma caixa! Reportarei isso para o avô dele, talvez assim fique apenas encarregado de preencher papeladas e não atrasar o nosso serviço.
— Ei! — chamou uma voz rude, sussurrando — não fale do avô dele, se não fosse pela “inteligência” daquele velho, não estaríamos sendo comandados por um trivial, isso é ridículo, vergonhoso! Maldito Tratado de Evolução Mútua.
O desprezo dos áuricos, a condescendência dos mais humildes… tudo fazia parte do ciclo.
Akemi já ouviu de tudo, ofensas, insultos, crueldades… mas o pior não era escutar, e sim, a impotência de não poder revidar. Para muitos, e principalmente, para ele mesmo, sua funcionalidade não passava de um parafuso solto na engrenagem, ou pior: um parafuso quebrado.
A aceitação da dor do vazio era a única opção…
Enquanto caminhava sem rumo e equilibrava as caixas pesadas nos braços, Akemi deixava sua mente vagar. A ideia de convívio diário com áuricos aumentava cada vez mais a sua vontade por sua chegada ao mundo deles, mas para tal, era preciso ter força para se proteger, mentalidade para se impor, e vontade para evoluir, tudo para não ser apenas um peão movendo cargas por aqueles que “realmente importavam”…
Inesperadamente, Akemi viu-se caminhando pelos mesmos corredores cimentados; a umidade escorrendo das paredes como suores frios impregnando o ar davam uma sensação ruim.
O jovem mal percebeu os barulhos dos operários desaparecerem. As máquinas, antes ruidosas, foram silenciando uma a uma, como se temessem o que viria.
Foi quando ele viu.
A porta.
Número: 114.
A materialização de uma aura sombria exalava pelas frestas; relâmpagos azulados estalavam nas laterais. O chão tremia levemente, o próprio prédio alertava.
Mas não foi isso que congelou o sangue do garoto. Foi um olhar.
No fundo do corredor ao lado, envolto em uma névoa negra que se torcia e se remexia como uma energia espectral, dois olhos verdes encaravam. Eram profundos, míticos, brilhos esmeralda providos de uma entidade à espreita, aguardando… esperando que o jovem entrasse.
Qual o procedimento era uma pergunta que exigia uma resposta imediata.
Porém, nada foi feito.
E então, todo o pesadelo acabou…

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.