Capítulo 51: No início (Parte 1)
28 de setembro de 07 — Atlântis.
No centro do Deserto da Criação, um grande lago de água salgada se estende majestosamente. Nele, se abrigam muitos tipos de animais e até monstros. Porém, o que realmente chama a atenção e dá destaque para o local, é a ilha de Atlântis que se ergue imponente no centro desse lago.
E no alto de uma montanha, bem no centro dessa ilha. Um jardim de margaridas se espalha vividamente pela planície localizada. E em meio as flores que pintam o solo de branco e verde. Uma arvora de tronco e galhos branco, surge de forma retorcida se levantando sobre as pétalas que sacolejam com o vento. E no alto, folhas escarlates se destacam em meio a paisagem. Algumas se desprendem e são levada com o vento para longe. E da arvore, uma voz ecoa pelo ambiente ali perto.
— No início, eu era somente um amontoado de lava pastosa. Borbulhando e flutuando no espaço, ao redor de uma estrela. Certa vez, um meteoro de incríveis proporções, pintado de tantas cores brilhantes, de um jeito que era possível se contar quantas havia. Se chocou comigo. Então, em meio a lava ele se afundou. O impacto acabou arremessando uma pequena porção de lava para o espaço. O que mais tarde veio se tornar a própria lua. — Uma voz feminina, grossa e ao mesmo tempo suave, ecoa pelo ambiente enquanto o vento sutilmente muda de direção.
Então ela continua.
— Após esse acontecimento, eu comecei a pensar, refletir, analisar e até sentir emoções. Me senti feliz por saber que estou viva. Me senti empolgada por estar viva! Porém, comecei a me sentir só, por ser a única. Então eu comecei a pensar em como poderia não me sentir mais assim. Eu precisava de mais vidas como a minha, para compartilhar minha existência. Porém, após milhões de anos de reflexões, eu percebi que a minha própria existência, já foi algo excepcionalmente raro. Ter consciência então, nem dá para mensurar tal raridade. Mesmo assim, eu não queria estar só. — Então o silêncio toma conta do ambiente por um momento enquanto os galhos parecem se mexer com suavidade.
— Em determinado momento, percebi que existia uma razão para eu ser assim. O meteoro. Então mergulhei minha consciência nele, e percebi a verdade que sempre soube. Antes dele, eu era só um amontoado de lava vegetando pelo espaço. Ele me permitiu ter consciência. Devia de ter algo a mais dentro dele. Ao vasculhá-lo, consegui acessar as memórias do próprio meteoro. Ele era um ser consciente que vagava pelo espaço desde o início dos tempos. Mas após tanto viajar e conhecer coisas e acontecimentos inacreditáveis. Ele queria somente parar, ficar em um único lugar e talvez um dia encontrar a solução para sua solidão. A sua consciência evoluída se chocou com a minha vegetativa, e então eu nasci. — Enquanto a voz ecoa, o vento que a pouco mudara de direção, agora se tornou infimamente mais condensado.
— Nesse momento, eu compreendi o que eu sou. E após analisar milhões de vezes suas memórias, eu encontrei planetas que continham vida! Vidas de formas imagináveis, porém, todos eles tinham uma coisa em comum. Uma grande diversidade de elementos naturais, que juntos eram capazes de dar suporte à vida. Eles eram diferentes em vários lugares, mas a base era a mesma. Um elemento sólido, um líquido e um gasoso. Todos combinados e em uma posição nem longe nem perto de uma estrela. Era a combinação ideal para sustentar a vida. — Enquanto a voz narra tal história, fios de cabelos dourados começam serem sacudidos pelo vento.
— Eu já estava em uma posição ideal. Porém estava muito quente, e precisava de um líquido para me resfriar. Foi então que uma parte do meteoro dentro de mim começou a brilhar. Ele soltou um raio de energia que alcançou um imenso cometa de hidrogênio congelado, e o direcionou minha superfície. Após milhares de anos, eu me tornei um misto de terra e oceanos congelados. — O vento agora já se torna perceptível até para os mais desatentos.
— Precisava de algo para combinar com o hidrogênio e o tornar mais equilibrado. Então uma luz branca saiu do meteoro e trouxe uma parte de uma nebulosa que continha oxigênio. E após outros milhões de anos, hidrogênio e oxigênio se combinaram formando a água. E assim me tornei um lugar cheio de terra e oceanos líquidos. — Algumas margaridas parecem querer sair voando para longe.
— Alguns lugares se tornaram congelados por causa do meu formato arredondado. Esses lugares recebem menos luz da estrela o que não os permiti se aquecer o suficiente para descongelar. Outras regiões são mais quentes por conseguirem receber mais desta energia. — A voz volta a parar por alguns segundos enquanto chacoalha seus galhos brancos com cuidado para não derrubar um ovo negro que tem em um ninho. Nesse momento, várias folhas escarlates despencam tortuosamente sobre o campo de margaridas.
— É incrível isso, eu me senti pronta para receber a vida. Mas como? Então nesse momento uma outra coisa dentro de mim, começou a vibrar e a produzir som. Não era o meteoro. Era algo que já estava ali desde sempre. Esse som ressoou por todo meu ser, e acalmou até minha rotação. Não demorou muito e eu me estabilizei. Desde então eu aguardei. Com o tempo, moléculas se aglutinaram e a vida, tão pequena e tão preciosa enfim surgiu. E ao longo dos milênios, ela se desenvolveu das mais diversas formas. Desde pequeninos seres até grandes feras que tremiam o chão por onde passavam. Dividiam a água por onde nadavam. Até no ar ela surgiu imponente.
— A Sylphie consegue voar. Eu também queria voar. — Uma voz mansa e masculina reclama ao ar.
— Ela consegue voar e nadar…. Ela é incrível!! — Uma voz límpida, masculina e empolgada exclama em meio as margaridas.
— Realmente ela é incrível. Foi a primeira de vocês. — A arvore complementa.
— Por que só ela tem dois elementos? — A voz límpida questiona a arvore a encarando.
— Eu também não sei ao certo. Mas acredito que seja devido a fusão dos dois elementos no princípio, o responsável por isso. — A arvore que não tem rosto nem boca. Ecoa as palavras por suas mentes.
— Mãe, continua a história, fala mais sobre as feras gigantes! — A voz límpida exclama novamente.
— Eles eram inteligentes, mas não conscientes. Agiam por instintos, e dominaram esse mundo seja na água, na terra, ou no ar.
Reinavam até que… Um meteoro caiu e extinguiu quase todos.
— AAAA que pena. Queria tanto ter conhecido eles. — A voz antes empolgada agora demonstra sua tristeza.
— Você seria devorado por eles Pietro! — Uma voz feminina levemente rouca e marcante debocha de Pietro.
— Cai dentro Shymphony!! — Pietro reclama com Shymphony enquanto fecha os punhos.
— Pietro… Nem tente… Já se esqueceu da última vez? — A voz mansa tenta soltar palavras ao ar.
— Você também Apollo! Pode cair dentro! Eu treino meu elemento todos os dias. Vocês não têm chance!! — Pietro agora aponta seu punho fechado para Apollo que está deitado em meio as margaridas com os olhos fechados.
— Podem parar vocês. Se querem brigar, ao menos façam longe daqui! — Uma outra voz surge do nada carregada pelo vento que circunda o ambiente. Feminina, forte. Porém, também transparece um toque de gentileza em seu tom.
— Sylphie!!!! — Pietro dá um grito empolgado, se levanta de onde está sentado e corre para abraçá-la. Porém ele a espera terminar de tomar forma.
A água escorre do chão em meio as flores enquanto se mistura num vórtice de ar que aos poucos vai se transformando em um corpo humanoide. Ela não tem uma forma fixa, nem os traços de um corpo feminino, muito menos masculino. E um corpo magro sem cabelo formado de água e ar.
Após Sylphie terminar de tomar forma. Pietro pula nela e dá um abraço, parte de seu corpo afunda no corpo em meio à água. Depois de se soltar, ele repara no grande sorriso, mesmo em corpo que não tem forma. Os olhos azul turquesa o observam com diretamente. Após alguns segundos, a parte molhada do corpo rochoso e marrom de Pietro seca. E plantas começam a nascer nesses locais. Até uma rosa surge na ponta de seu nariz. Sylphie a pega.
— Muito obrigado Pietro. — Então ela sorri lindamente para ele.
Shymphony começa a rir suavemente da cena. Sua pele branca fica levemente corada perto do nariz em ambas as bochechas.
— Amo ver esses lindos fios dourados balançando com minhas brisas. — Sylphie direciona suas palavras para Shymphony enquanto se aproxima e olha diretamente em seus olhos violeta.
Shymphony está sentada de pernas cruzadas, seus olhos se fecham, ao sentir o toque molhado e quente em sua cabeça.
— Bem-vinda Irmã… — Apollo solta essas palavras gentis ao vento enquanto contínua de olhos fechados e deitado entre as margaridas.
— Calmo como sempre. — Sylphie direciona seu olhar para Apollo com um leve sorriso. — Estou de volta irmãozinho. — Após alguns segundos de silêncio. — Continue por favor mãe. Faz tanto tempo que não ouço essa história.
Então Sylphie se senta de pernas cruzadas entre seus irmãos. Pietro rapidamente se senta ao lado dela. Ainda tem algumas plantas crescendo em seu rosto.
— Tudo bem. Como é bom ver todos vocês juntos. — Após mais alguns segundos de silêncio. — Como eu dizia, Sylphie foi a primeira de vocês. Apollo e Pietro vieram a esse mundo depois. Shymphony veio por último. cada um de vocês surgiu a partir de um elemento da natureza, exceto a Sylphie que pelo que já expliquei, veio de dois elementos. Existem inúmeras espécies nesse planeta atualmente. Mas vocês são especiais. Só existem vocês quatro da sua espécie. Os Elementais.
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