Capítulo 28: A mais rara das flores
Sarah observa que existe algo a mais debaixo da coberta que faz volume. Se recusando a acreditar em sua imaginação, se aproxima e começa a levantar um pouco o tecido branco.
Suas pernas tremem enquanto desaba de joelhos.
Seus olhos lacrimejam sem seu consentimento.
Ela tampa a boca com a mão, não porque quer gritar, mas para ter algo que possa morder tão forte que seus dentes rasgam levemente a pele entre o polegar e o indicador da mão direita. E com a outra mão fechada acerta um soco no chão.
A sua frente, agora banhada pela fraca luz, fios dourados reluzem com leveza enquanto vão se espalhando por cima do ombro e caindo pelas costas virada para si. A pele branca estampa manchas roxas e arranhões. Um corpo franzino, que mal é coberto por um pequeno tecido branco e fino se molda com sutileza. Aos poucos o corpo tomba para seu lado, e logo a face de uma menina a encara.
— Hã? Quem é você? — A menina indaga com uma voz fraca e sonolenta.
Sarah não consegue tirar sua mão de sua boca.
— Moça, você está bem? — Indaga novamente a menina.
Sarah retira a mão de sua boca fecha o punho direito e soca no chão enquanto abaixa a cabeça.
— “IMPERDOÁVEL!” — Com os olhos fechados, Sarah se contém para não soltar um grito de fúria.
— Quem é você? — A menina indaga novamente.
Sarah ergue a cabeça enxugando suas lágrimas e olha diretamente nos olhos dela.
— Me chamo Sarah. — Com a voz rouca e falha.
A criança dá um leve sorriso.
— Prazer, Sophie! — Após uma breve pausa para respirar. — Você veio me dar banho? A moça nova disse que seria uma mulher diferente hoje. Mas a água está estranha, não quero tomar banho.
— Não… quero dizer. O que você faz aqui? — Mesmo sabendo a resposta, Sarah se força a perguntar.
— Há… um dia eu estava no parque de diversões com meus pais, quando percebi eu estava segurando a mão de um homem estranho. Tentei me soltar, mas ele me pegou no colo e colocou um pano na minha boca. — Com olhar vago ela continua — Quando acordei estava tudo escuro e apertado. Então eu vim parar aqui, e esses homens vêm e vão embora.
Para surpresa de Sarah a menina tem noção do que se passa.
Após se forçar a se acalmar, Sarah fica em silêncio por alguns segundos.
— Moça, é melhor você se esconder debaixo da cama, sempre que os homens vão embora, alguém vem me perguntar como eu estou e depois trancam a porta. — Sophie explica.
Repentinamente ela escuta um barulho do lado de fora.
— Malditos… — Uma voz masculina vindo de fora.
Rapidamente Sarah se joga ao chão e rola para de baixo da cama.
A porta se abre.
— Tudo bem D trinta e cinco? — Ele Indaga uma voz comum de um homem adulto.
— Sim! — Sophie responde.
Então ele apaga a luz e fecha a porta. Sarah escuta o barulho da fechadura sendo trancada pelo lado de fora, só então se dá conta.
— Eles podiam ao menos apagar as luzes. — O homem se distância murmurando.
Seu olhar agora calmo, encara para a parede debaixo da cama.
— Sophie né?
— Sophie com “p” e não f. — Ela responde já deitada olhando para mesma parede que Sarah.
O ar perece ter ficado mais leve com a última fala. Por um momento o peso que Sarah colocou em seus ombros se esvai e deixa um sorriso no lugar.
— Você está sorrindo né. Todos costumavam sorrir quando eu dizia isso. — Sophie acaricia a parede com a palma da mão em um movimento de cima para baixo. — Posso ver seu sorriso?
Sarah rola para fora, acende a luz novamente e se ajoelha de frente para ela. Então esboça um grande sorriso com os olhos fechados. Sophie contagiada, também abre um grande sorriso após esboçar uma careta de admiração.
— Uau! Que linda! — Com o sorriso diminuindo aos poucos. Sophie se pega fascinada com a beleza de Sarah — Seus cabelos parecem longas pétalas de uma rosa negra.
Por algum motivo, Sarah se aproxima de Sophie e lhe dá um forte abraço. Sem entender nada, porém retribuindo, a menina também fecha os braços. E pela primeira vez em anos, relaxa e começa a chorar enquanto aperta as roupas de Sarah.
— Obrigada, foi a coisa mais gentil que alguém já me disse. — Com lágrimas nos olhos, Sarah agradece a pequena, enquanto aperta mais um pouco o abraço e morde os próprios dentes.
““Até na mais profunda escuridão, se você plantar um sorriso, poderás colher a mais rara das flores.””
Sarah vai andando em direção a pia enquanto pensa em como sair dessa situação, e o que fazer para ajudar Sophie. Escorando sua mão esquerda na parede, se questiona se é possível ajudá-la? Após abrir a torneira e encher a mão com um punhado de água, um forte odor e uma dor tremenda na ferida vem à tona.
Com uma suave expressão de desgosto em sua face, aproxima o rosto da torneira. Após dar uma cheirada mais de perto, percebe que aquilo não é água, o odor lembra algo mais alcoólico.
“Por que será que isso está saindo daqui?” Sarah se indaga enquanto olha para a torneira.
Enquanto isso no pilar central. Interior do 3.º andar.
Um homem loiro de olhos azuis, vestido com calças e camisa social, ambas na cor vermelha. Está olhando para uma tela grande e dividida em várias pequenas. Ele ajeita sua gravata da mesma cor enquanto fixa o olhar especificamente para uma das pequenas telas.
Essa tela assim como as outras, tem um número e uma letra bem pequena em seu canto direito superior. Ao seu redor há outros oito homens em outras oito telas como essa. Porém, há um entre eles que tem sua camisa e calças na cor branca, só a gravata e os sapatos pretos se repetem. O homem loiro em questão, pega seu rádio comunicador e após uma umedecida nos lábios, os põe a se mover.
— D trinca e cinco!
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