Quando Kai voltou a focar a visão para o ambiente ao redor, a cidade já não existia.

    Onde antes havia prédios, ruas e luzes artificiais, estendia-se um campo amplo e silencioso, coberto por um solo cinzento e irregular. Árvores escura de aparência medonha brotavam em intervalos irregulares. Seus troncos eram grossos e ásperos, e os galhos se alongavam sustentando os mesmos casulos que, momentos antes, o manteve em uma prisão orgânica.

    Respirou fundo, sentindo o peito subir e descer de forma regular. Notou que o corpo respondia e isso, de certa maneira, já era um alívio. O ar tinha um cheiro metálico e seco. Não havia vento, mas cada segundo carregava uma expectativa silenciosa, como se algo estivesse prestes a acontecer.

    Isso não faz sentido pensou. O raciocínio voltava lentamente, lutando para processar o impossível. Está realmente acontecendo?

    Um som cortou o silêncio.

    “Creck… Shhrrrrk…”

    Depois outro.

    “Creck… Shhrrrrk…”

    Fissuras se espalharam pelos casulos ao redor, rasgando a membrana com um ruído úmido e tenso. Kai ergueu o olhar a tempo de ver vários deles se abrirem quase ao mesmo tempo. Corpos despencaram do alto, caindo no chão com impactos secos.

    “Ploop.”

    “…Ploop.”

    O som se repetiu dezenas de vezes.

    Kai deu um passo para trás, mais por instinto do que medo. O coração acelerou, mas a mente permaneceu alerta. Eram pessoas. Homens e mulheres. Todos jovens e confusos, erguendo-se do chão com movimentos descoordenados.

    “Me belisquem…” murmurou, a voz rouca, como se estivesse sendo usada pela primeira vez. “Só posso estar sonhando.”

    “Aaai!”

    Uma dor aguda explodiu em seu braço. Kai girou o corpo de imediato, afastando-se alguns passos enquanto levava a mão ao local. Um rapaz estava ao seu lado, ainda com os dedos semicerrados e os olhos arregalados, fixos no cenário à frente.

    Quando foi que ele se aproximou? Kai observou o desconhecido. Não sentiu hostilidade. Apenas choque.

    Mesmo com a dor ainda pulsando, algo se rompeu em sua mente, de forma incômoda.

    Isso dói. refletiu. E não acordei.

    Fechou os olhos por um instante, tentando relembrar o dia. O trabalho, a conversa com Will, o caminho pela rua com Roy, a chegada em casa. Tudo estava completo, linear, sem qualquer lacuna aparente.

    “Suspiro.”

    Então sobram poucas possibilidades. ponderou. E nenhuma delas é boa.

    Eu morri sem perceber, atropelado em algum momento enquanto conduzia Roy considerou. A hipótese surgiu de forma automática em sua lógica fria. Ainda assim, foi descartada no mesmo instante. Não havia buracos na memória, nem lapsos, nem aquela sensação de algo esquecido à margem da consciência. 

    Abriu os olhos, encarando novamente o campo, as árvores de tom escuro, os casulos. Uma segunda explicação se impôs à mente, pesada, inevitável.

    Será que fui abduzido.

    “Me tira daqui…” gritou alguém mais à frente, a voz desorientada. Um jovem segurava a própria cabeça, balançando o corpo para frente e para trás. “Eu vo… eu vo pagar!”

    Kai desviou o olhar por um instante.

    “Coitado.” murmurou, mais para si do que para qualquer outro. Aquele tipo de reação chamaria atenção. E atenção, ali, parecia algo perigoso.

    Avançou com cuidado, desviando de raízes grossas que serpenteavam pelo solo como veias expostas. Algumas apresentavam variações sutis de luminosidade interna, quase imperceptíveis.

    Está absorvendo algo do solo. pensou, agachando-se por um instante.

    Estendeu a mão, tocando o tronco de uma das árvores. A superfície era quente e rígida. Não havia pulsação, apenas leve calor.

    O que é você? A pergunta surgiu automática em sua mente. Algum tipo de organismo vivo?

    Ergueu o olhar e não avistou nenhuma folha. Apenas galhos que se transformavam em casulos, todos idênticos.

    Era perturbador. Ao mesmo tempo, fascinante.

    Levou as mãos juntas, num gesto antigo, quase esquecido.

    Rezo para que isso não seja o inferno. orou.

    Ao baixar os braços, congelou.

    “O que fizeram comigo?” disse, erguendo as mãos à altura do rosto.

    A pele estava mais clara, mais hidratada, sem feridas ou cicatrizes. O corpo estava mais jovem. Muito mais jovem. Virou as mãos de um lado para o outro, observando cada detalhe como se não pertencessem a ele.

    Olhou ao redor com atenção e percebeu que todos pareciam ter por volta da mesma idade, apesar das diferenças de estrutura e de características. O reflexo nos olhos deles confirmou a mesma sensação que tivera.

    Um som estranho ecoou pelo campo.

    “Bla… blabla… blablabla.”

    Kai virou o rosto de imediato. Os outros fizeram o mesmo, girando em direções diferentes, confusos, como se tentassem localizar algo invisível.

    “Seus pequenos… cheirando a recém-nascidos!” A voz vinha de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Era grave, carregada de ironia e algo que soava quase como… diversão?

    “Não adianta ficarem aí me procurando.” A voz continuou, como se emanasse do próprio ar. “Estou bem abaixo de vocês.”

    “E quem prendeu você aí?” Uma jovem perguntou, cruzando os braços de forma instintiva, como se aquilo pudesse oferecer alguma proteção.

    “Etheryum amado, dai-me paciência!” A voz respondeu com um suspiro teatral. “Ninguém me prendeu, minha jovem. Eu sou… ou talvez não seja mais… bem, isso não vem ao caso agora.”

    Houve uma breve pausa. Dramática.

    “Desde o solo abaixo de vocês até a barreira acima, tudo faz parte de mim.”

    Ninguém disse nada, mas se encaravam, como se esperassem que algum deles estivesse aprontando alguma pegadinha.

    “Eu sou a antiga estrela inerte.” A voz ganhou um tom quase teatral, esperando uma reação grandiosa. “Hoikuen!”

    Houve um silêncio pesado que se estendeu. Um sujeito com cara de idiota coçou o nariz, alheio a tudo.

    “Ahem.” 

    Hoikuen pigarreou, constrangido.

    “Pelo visto, não ensinam mais educação!?”

    “Insolência!!!” Alguém gritou em meio à multidão, dando dois passos à frente com uma das mãos apoiadas nas costas, assumindo uma postura de autoridade que o corpo jovem não sustentava. “Eu tenho mais de oitenta anos!”

    Uma gargalhada trovejou pelo campo, vibrando o ar ao redor. Alguns levaram as mãos aos ouvidos, tentando bloquear o som que parecia vir querer estourar seus ouvidos.

    “Talvez sua idade mental carregue alguma experiência, mas o que vejo agora é apenas um jovem.” Hoikuen respondeu, a diversão ainda presente na voz. “Está sendo engraçado ou se fazendo de idiota?”

    O tom mudou. Tornou-se denso, pesado, carregado de algo que não era mais humor.

    “Seu corpo está diferente. Só um idiota não teria percebido. E quanto à idade…” Fez uma breve pausa, deixando o peso das palavras se assentar. “Tenho mais de oitocentos anos. Para mim, vocês não passam de bebês chorões.”

    “Suspiro”

    “Parece que ainda não entenderam.” A voz de Hoikuen perdeu o tom lúdico por completo. “O mundinho pacífico de vocês era apenas uma ilusão. Um resquício de um passado distante, criado pelas minhas queridas companheiras.”

    Uma jovem encarou a árvore escura ao seu lado e, não suportando mais tudo aquilo, saiu correndo.

    “Ei… ei… ei… não adianta fugir.” Hoikuen disse, sem pressa. “Onde quer que vão, verão o mesmo ambiente.” Fez uma breve pausa, como se ponderasse algo. “A não ser que consigam atravessar a barreira acima de vocês.”

    Kai ergueu o olhar.

    Uma cúpula translúcida envolvia todo o planeta como uma bolha gigantesca. Além dessa barreira, pôde ver um fenômeno natural semelhante a uma aurora boreal azul, com tons esverdeados, movendo-se de forma irregular, como chamas sem calor. Belo e aterrorizante ao mesmo tempo.

    É natural? pensou. Ou foi criada?

    “Mas antes que percamos mais tempo, vou deixar bem claro.” A voz de Hoikuen interrompeu seus pensamentos. “Não conseguirão atravessá-la. Nem por um milagre.”

    “Sei que estão confusos e cheios de perguntas.” A entidade continuou, sentindo as oscilações emocionais que emanavam da multidão. “Entretanto, não vou mais aceitar interrupções!”

    A palavra final soou como uma sentença.

    A pressão veio sem aviso.

    O ar pareceu se comprimir. O corpo de Kai ficou pesado, como se alguém tivesse dobrado a gravidade. A mente lutou para formar pensamentos coerentes, cada ideia se desfazendo antes de se completar. Ao redor, alguns caíram de joelhos. Um dos jovens, incapaz de suportar a pressão mental, perdeu o controle do próprio corpo.

    Um líquido quente escorreu entre suas pernas. A vermelhidão tomou-lhe o rosto. Os joelhos cederam, levando-o ao chão sem qualquer resistência.

    Kai cerrou os dentes. Respirou fundo, lutando contra a força invisível. As pernas tremiam, mas não cederam.

    “Não temos muito tempo, então serei breve.” Hoikuen advertiu com seriedade. “E, se alguém me interromper… não me culpe por ser indelicado.”

    A pressão cessou tão rápido quanto veio. Vários caíram para frente, sugando o ar em goladas irregulares.

    “Vocês não estão mortos.” comentou Hoikuen, mesmo sem poder ler suas mentes. “Nem foram abduzidos.”

    Sabia exatamente quais perguntas passavam pela cabeça deles. “Também não foram enviados para outro mundo ou qualquer fantasia do gênero que estejam imaginando.” Para ele, a reação era sempre a mesma, grupo após grupo.

    “Apenas suas mentes viveram naquela ilusão, que chamamos de [SONHO ETERNO].”

    Como esperado, todos prenderam o fôlego. O silêncio se aprofundou. Expressões incrédulas espalharam-se entre os milhares, acompanhadas de olhares tensos, como se aguardassem o que viria a seguir.

    “Já se perguntaram o motivo de haver uma barreira ao nosso redor?”

    Fez uma pausa calculada, esperando a semente da curiosidade crescer na mente de cada um. 

    “Existe algo lá fora que torna a existência humana insustentável sem adaptação. Sua extinção era praticamente inevitável”

    Percebeu que agora todos prestavam atenção até os descrentes.

    “Foi então que o nosso magnífico universo, onisciente e onipresente, permitiu que um caminho se abrisse em meio ao desespero, oferecendo à sua espécie uma esperança.”

    Memórias de um passado distante emergiram uma a uma.

    “Evolui de uma pequena estrela inerte para um grande ecossistema vivo com esse propósito; mas um imprevisto aconteceu. Despertei uma consciência, muitos anos depois.” Sentiu uma grande nostalgia dos velhos tempos.

    “Devem estar se perguntando como isso é possível?!”

    Os jovens empalideceram, tomados pela suspeita de que ele estivesse lendo suas mentes. Se aquilo fosse verdade… um medo frio se espalhou entre eles. Pensamentos apressados surgiram, perguntando-se se seriam punidos, ou até mortos, pelas coisas que haviam pensado sobre ele.

    “Ha… ha… ha. Não se preocupem, não posso ler suas mentes.” Hoikuen explicou, aliviando a tensão apenas em parte. “Mas é mais do que óbvio pelas expressões de vocês o que estavam pensando.”

    Com pressa cortou o papo furado, retomando o assunto principal.

    “Alguns já devem ter imaginado, e a possibilidade que pensaram realmente é verdade. Vocês foram gerados pelas Embryonic Arbo.”

    Não queria acreditar… então é realmente verdade. Kai pensou, ouvindo murmúrios se alastrarem à sua volta.

    “Impossível, é bem provável que você tenha feito isso com…” Um jovem tentou retrucar, mas não chegou a concluir.

    Uma pressão invisível desabou sobre seu corpo no instante seguinte, esmagando-o contra o chão. Não houve tempo para reação. O impacto lhe arrancou o ar dos pulmões, e a consciência se apagou antes que pudesse entender o que havia acontecido.

    Deu sequência como se nada tivesse acontecido.

    “O tempo que passaram em incubação dentro do casulo não foi imposto à força por mim ou qualquer outro, mas é o novo ciclo de desenvolvimento de seus corpos até atingirem a maturidade ideal para, pelo menos, sobreviverem. O que, para vocês…”

    Fez uma pausa, analisando.

    “Equivale a um corpo de dezoito anos.”

    “Deste ponto em diante, o corpo permanece estagnado, sem envelhecer esperando o espírito atingir um certo grau de resistência, e quando os dois estiverem alinhados, sua mente percebera que está presa em uma ilusão, mesmo que de forma inconsciente.”

    Kai levou a mão ao centro do peito. Sentiu algo sólido sob a pele, algo que não deveria estar ali. O peso daquela explicação foi mais importante do que ele imaginava.

    Então aqueles sonhos… nunca foram aleatórios.


    NT: Capítulo 2 revisado. Se gostou, deixe um comentário para incentivar.


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