O formigamento ainda percorria o interior do peito quando Kai abriu os olhos. Era tênue demais para chamar de dor. Más significativo o suficiente para ignorar.

    O que foi isso? perguntou-se, massageando o peito com a palma da mão. Sentiu apenas o batimento regular sob a pele. Nada fora do lugar. E ainda assim…

    Algo havia mudado.

    Bzzzzzzz!

    O zunido rasgou o silêncio das ruínas antes que ele conseguisse organizar o pensamento. Kai girou o corpo por instinto, varrendo o ambiente com o olhar. 

    Bzzzzzzz!

    “Algo entrou por ali”, murmurou, ao notar uma sombra atravessar a fresta na parede.

    No mesmo instante, avistou uma abelha do tamanho de um smartphone; o abdômen listrado por marcas escuras, o ferrão já exposto. Pairava a menos de nove metros, as asas batendo rápido demais para acompanhar com os olhos.

    Esse bicho é rápido demais. Kai pensou, mas não se moveu. O jeito que age é diferente do rato. Se eu tentar o mesmo golpe, vou levar aquele ferrão na cara antes mesmo de chegar perto. Avaliou, sem desviar o olhar da criatura.

    Percorreu os destroços ao redor com o olhar. Uma cadeira antiga estava tombada próxima ao corpo imóvel do rato; faltava um pé, mas o assento ainda estava inteiro. A madeira era grossa e compacta, apesar dos anos impressos na superfície.

    Kai deu dois passos laterais e agarrou a cadeira pelo encosto, erguendo-a à frente do corpo em um único movimento.

    A abelha inclinou o ferrão.

    Thziiik!

    A criatura mergulhou em linha reta, confiante demais. O ferrão atingiu o assento com força suficiente para arrancar um estalo seco da madeira, mas não atravessou. As patas dianteiras raspavam contra a superfície enquanto as asas batiam desesperadas. A abelha ficou presa por uma fração de segundo, mas foi o suficiente para ele agir.

    Não parou para pensar. Largou a cadeira e correu até a barra de ferro; estava onde havia largado. Alcançou-a, virou o corpo e ergueu a arma.

    Não tenho nada contra você. pensou, encarando a criatura se debater. Mas foi você quem me atacou primeiro.

    Avançou.

    Shhrik!

    O primeiro golpe encontrou resistência maior do que esperava. A quitina do abdômen era densa. A barra deslizou de lado no impacto, e o braço de Kai vibrou até o ombro.

    A criatura guinchou, mas ele não prestou atenção. Redirecionou o ângulo e estocou de baixo para cima, aproveitando o vão entre o tórax e o abdômen.

    Dessa vez atravessou.

    Suspirou fundo, baixando a arma devagar. Uma gota de suor escorreu pela têmpora. Estava mais cansado do que imaginava.

    A esfera de energia se formou sobre o cadáver; um brilho lívido que se condensou antes de disparar em sua direção. Kai não se afastou dessa vez. Deixou entrar.

    O formigamento percorreu o interior do peito pela segunda vez. Mais familiar agora.

    “Uuuuuh… não… por favor, não” soou uma voz , baixa, quase sem força.

    Kai se virou rapidamente, lembrando dos dois que haviam ficado na entrada da ruína.

    O rapaz estava exatamente onde havia sido deixado; deitado de costas para a parede, a compressa improvisada na perna tinha escurecido horas atrás. A mão entreaberta já não segurava a da moça. Ela continuava ajoelhada ao lado dele, a cabeça inclinada, os dedos presos aos dele como se pressionar com mais força pudesse mudar alguma coisa.

    Kai ficou parado por alguns segundos.

    Suspiro!

    “Sinto muito!” As palavras saíram sem emoção. Não porque não sentisse nada, mas porque não havia mais nada a fazer ali.

    Desviou o olhar. Empurrou o pensamento para o fundo da mente e fechou os olhos por um instante.

    O que foi aquele sentimento? perguntou-se, relembrando os dois momentos em que as esferas entraram em seu corpo. Achava que era apenas impressão… mas está causando algum efeito. Analisou. Tenho que descobrir o que é isso.  concluiu, não só por uma curiosidade pessoal, sentiu que naquele lugar, ignorar qualquer detalhe podia custar a sua vida.

    Abriu os olhos.

    Ficar parado não vai mudar nada. pensou, passando pela moça sem parar. “Existem muitas coisas estranhas nesse lugar”, disse, sem olhar para trás. “Se não está preparada para enfrentá-las, encontre um canto e fique lá. Eu vou sair para confirmar algo.”

    Ela apenas o olhou se afastar, mas não disse nada.

    A luz da tarde entrava oblíqua entre as copas, projetando sombras longas sobre o gramado revirado. O cheiro de terra úmida misturava-se ao de vegetação esmagada e algo mais metálico, mais pesado.

    Thum!

    Kai parou no mesmo instante ao ouvir um estrondo. A vibração subiu pelo solo, fraca, mas inconfundível. Veio da esquerda, além da linha de ruínas e da floresta.

    Isto foi forte demais para ter sido causado por um dos ratos. Avaliou, estreitando os olhos enquanto encarava a direção do som. Alguém está enfrentando uma criatura desse porte. 

    Eak-eak!

    Desviou o olhar para frente ao ouvir outro som e avistou o próximo alvo. Divagar agora custaria uma oportunidade que não podia desperdiçar.

    Avançou pela lateral das construções. Localizou uma cauda projetada para fora de uma fresta — a criatura de costas para ele, distraída.

    Diminuiu o passo. Posicionou a barra. Desceu o braço.

    O rato reagiu como se sentisse o perigo. Tentou saltar, mas a pata traseira foi esmagada antes que conseguisse. Guinchou, arrastando-se pelo chão. Kai não esperou que se recuperasse. O segundo golpe caiu sobre a cabeça com força total.

    Como ele me percebeu? perguntou-se, enquanto aguardava a esfera se formar. Exatamente como os anteriores. Tem algo nesses ratos que pressente o ataque iminente; o outro também desviou sem estar me olhando. Kai pensou, olhando para a criatura.

    A esfera disparou. Ele fechou os olhos e prestou atenção a cada detalhe desta vez. O formigamento começou no centro do peito e se irradiou para fora.

    Estou sentindo algo que nunca senti antes. analisou, franzindo o cenho. Não é dor. Não é calor. É como se…

    Parou o pensamento. Não havia palavra para aquilo.

    Abriu os olhos devagar, olhando para a própria mão. Não havia nada de diferente na superfície. No entanto, pode sentir que por dentro há algo que não estava lá antes. 

    O que são vocês? perguntou-se, olhando para o cadáver do rato. E o que estão fazendo comigo?

    “Ei! AQUI!”

    O grito veio do centro da clareira.

    A uns vinte metros, um recém-acordado encurralado contra uma coluna de pedra balançava um galho de um lado para o outro diante de um rato mutante que não recuava. O animal estava abaixado, o corpo tenso, preparando o salto.

    “Me ajuda!”

    Kai já estava se movendo antes que ele terminasse o pedido.

    A criatura saltou. Mas a barra de ferro a interceptou no ar, um golpe lateral acertando a cabeça com força suficiente para desviar a trajetória. O animal caiu de lado, contorcendo-se no gramado. Kai deu um passo e finalizou com precisão.

    A esfera se formou e foi absorvida. O formigamento desta vez durou menos tempo que os anteriores.

    Meu corpo está se adaptando ao processo? Preciso de mais dados para ter certeza. pensou.

    O rapaz com o galho encarava-o com os olhos arregalados; o peito subia e descia em ritmo acelerado.

    “Te aconselho a largar isso”, disse Kai, indicando o galho com um movimento de queixo. “Vai achar algo melhor naquelas ruínas.”

    Sua parte ele fez, mas se não quisesse ouvir, era problema dele.

    Virou-se para seguir em frente. Mas, pelo canto do olho, viu que o rapaz o seguia. Não disse nada; não era um problema desde que não atrapalhasse.

    Cinco minutos depois, havia mais quatro pessoas seguindo-o. Um rapaz mais novo apertava um pedaço de madeira com as duas mãos como se fosse seu item mais precioso. Uma garota de cabelos curtos mantinha os olhos fixos na barra de ferro, como se estudasse cada movimento que Kai fazia com ela. Os outros apenas caminhavam com ombros tensos e respiração contida.

    Mais alguns passos antes de se afastar das ruinas, uma jovem surgiu de trás de uma árvore, juntando-se ao grupo sem dizer nada. Todos mantinham uma distância respeitosa; os olhos se revezavam entre o entorno e as costas de Kai, como se temessem perdê-lo de vista.

    Nenhum deles havia dito uma palavra desde que começaram a segui-lo. 

    Bam!

    Shiii!

    Bam!

    Os sons vieram de um corredor à esquerda, onde duas paredes parcialmente de pé formavam um ângulo fechado tomado por sombras e vegetação rasteira. Não eram gritos de pânico. Mas o som de uma luta  ritmada.

    Eu ouvi uma risada ou estou ficando louco? Kai pensou, estreitou os olhos ao notar uma sombra se mover em passos lentos sobre o gramado para fora do corredor. Apertou o ferro na mão, se preparando para o pior.

    Um jovem loiro saiu pelo vão entre as paredes como quem sai de uma reunião que durou mais do que o necessário. Levou a mão ao cabelo, ajeitando uma mecha despenteada, e cantarolava algo baixinho. Sua expressão era a última coisa que eles esperavam ver naquele lugar.

    Foi só depois de sua performance que avistou Kai e o grupo.

    “Ah… Não havia percebido que tinha mais gente por aqui”, disse o loiro, parando por um segundo antes de retomar os movimentos normalmente.

    Kai avaliou o rapaz em silêncio. Respiração completamente regular, sem tremores. Acabara de sair de um espaço fechado com mais de uma criatura; os sons indicavam isso claramente. Cada movimento tinha uma fluidez que não combinava com alguém que havia acabado de lutar pela vida.

    E havia algo mais. Um brilho que envolveu seu  corpo antes de sair das sombras; durou apenas um segundo, mas Kai não deixou passar despercebido.

    Interessante. pensou, sem desviar o olhar do rapaz.

    “Você está bem?” Kai perguntou, mais por educação do que por dúvida.

    “Estou bem!” respondeu o rapaz, esticando o pescoço de um lado para o outro como quem acorda de uma soneca. “Para falar a verdade, nunca estive tão bem em minha vida.”

    Olhou para a barra de ferro na mão de Kai e depois para o grupo atrás dele, com uma curiosidade levemente inconveniente.

    “Você pretende montar um grupo?”

    “Não!” Kai respondeu, sem nem pensar.

    “Hmm.” O loiro inclinou a cabeça, estudando-o com uma curiosidade levemente inconveniente. “Mas eles estão todos olhando como se você fosse o líder… ou há algo muito interessante grudado nas suas costas.”

    Mas o loiro não obteve resposta à sua provocação.

    “Idris!”, disse o rapaz, inclinando-se levemente como quem oferece o nome como uma cortesia menor. “Só para constar, não estou me juntando a nenhum grupo. Mas pelo que vejo, estaremos indo na mesma direção.”

    “Por mim, tudo bem!”, respondeu Kai. Tenho algumas perguntas para as quais talvez você tenha as respostas. pensou, sem dizer em voz alta. 

    “Pode me chamar de Kai.”


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