Capítulo 6 – Plano Secreto
Escondido em seu canto, Roy observou Will se afastar da criatura. Alguns o seguiram até se reunirem ao redor de uma rocha.
Inclinou levemente a cabeça, estreitando os olhos. Ele já tem algum plano? ponderou, reconhecendo aquela atitude de tomar a frente. Os dedos se fecharam com força enquanto cerravam os dentes. Então viu alguns se afastando. Vamos ver o que pretende fazer.
…
“Vê se não morre, garoto”, disse Marcus, sem tirar os olhos da criatura.
Will abriu a boca e a fechou logo em seguida. Não havia muito o que dizer a um homem que parecia mais preparado do que ele, em todos os sentidos.
“Esse nunca foi o plano!” disse, se virando e correndo em direção ao grupo de pessoas.
A moça que estava com eles deu um passo à frente, mas um braço barrou sua passagem. Antes que pudesse expressar sua insatisfação, foi repreendida.
“Você vem comigo!” Marcus ordenou. “Ele esconde muito bem… mas eu vejo o enorme esforço que está fazendo para conter o próprio medo”, comentou, sem desviar o olhar das costas de Will. “E o que ele menos precisa agora é de outro peso para sobrecarregá-lo ainda mais.”
Ela se voltou para a mesma direção em que ele olhava.
Como pode sab… O pensamento nem chegou ao fim quando algo passou por sua mente. “Ei… como assim outro peso?” questionou, se virando com uma cara fechada só para percebê-lo correndo à distância. “Espera… espera por mim!” gritou, correndo atrás.
…
Will correu até se aproximar de um grupo de pessoas que discutia. Dois dos quatro que haviam saído antes estavam ali, tentando persuadi-los.
“Precisamos de ajuda, já falei que temos um plano!” disse o rapaz, insistindo.
“Você viu o tamanho daquela coisa?” comentou alguém do grupo, dando um passo para trás, o rosto pálido. “O que poderíamos fazer contra aquilo?”
Uma garota apertou com força o braço de um jovem que a havia salvado pouco tempo atrás antes de comentar: “Se a gente sair daqui agora… talvez consiga fugir.”
“Fugir! Para onde?” retrucou, logo em seguida, o segundo jovem ali presente que havia participado da breve reunião de Will. “Você já olhou onde estamos?” acrescentou, estendendo a mão e apontando para a floresta ao redor. “Acordem, não se tocaram ainda de que nada mais será como antes!” comentou, como se tais palavras também servissem para si próprio.
O recém-chegado observou em silêncio a discussão por alguns segundos antes de se aproximar.
“Pessoal, eu me chamo Will.” Se apresentou, intervindo antes que a situação fugisse do controle. As vozes diminuíram. Alguns rostos se voltaram para ele. “Eu e os meus dois amigos aqui…” Fez uma breve pausa, apontando para eles.
“Gabriel!” comentou o primeiro.
“Lucas!” disse o segundo logo em seguida.
“… nos reunimos agora há pouco e bolamos um plano! Mas, para que isso funcione, precisamos de mais pessoas.” Seus olhos percorreram todos após explicar de uma forma sutil e, um a um, desviavam seu olhar para o chão. Havia medo e dúvida estampados em seus rostos. Ninguém queria ser o primeiro a dar um passo à frente neste tipo de situação.
Assim não vai funcionar. Will pensou, soltou o ar pelo nariz e balançou a cabeça devagar, perdendo um pouco de sua paciência.
“Que vergonha…”
A frase fez algumas sobrancelhas se franzirem.
Ele cruzou os braços e direcionou o olhar para um pequeno grupo de garotas próximas que havia se unido atrás de uma em específico.
“Onde estão aquelas que vivem dizendo que são melhores do que nós?”
Silêncio.
“Como imaginei… sempre foi da boca para fora?” disse, balançando a cabeça desapontado. “É como dizem, em tempos fáceis qualquer um pode se proclamar um herói.”
Todas se viraram para ele ao mesmo tempo. Os olhares endureceram, e as expressões que surgiram em seus rostos não deixavam dúvida sobre o que pensavam da provocação.
“O que você disse?” perguntou aquela que fazia a frente do grupo de mulheres. “Quem você acha que sou?” disse, encarando-o. “Eu nunca viro as costas para um desafio!”
Todas as outras se posicionaram atrás dela, seguindo seu exemplo. Will ergueu levemente as sobrancelhas, como se estivesse genuinamente surpreso.
“Oh… Parece que este grupo de mulheres tem coragem e o meu respeito.” comentou, fazendo um pequeno gesto com a cabeça. Alguns homens trocaram olhares desconfortáveis. O que não passou despercebido por ele.
“Engraçado…”, comentou, voltando o olhar para o resto do grupo. “Porque até agora só vi mulheres se prontificando a ajudar.”
A líder do grupo feminino sentiu um gosto amargo subir pela garganta no mesmo instante. Só então percebeu que foram enganadas.
O jovem que era segurado com força pelo braço inclinou-se levemente e encostou a testa na cabeça dela.
Por você, Gertrudes, estou disposto a arriscar a minha vida. pensou, percebendo que ela ainda não havia notado que ele era seu marido no [Sonho Eterno].
“Estou disposto a ajudá-lo!” disse, desvinculando-se do braço da mulher antes de dar um passo à frente.
“Obrigado!” disse, fazendo um breve gesto com a cabeça em reconhecimento. “Alguém mais? Ou as mulheres daqui têm mais coragem do que os homens?”
O efeito foi imediato.
Um rapaz alto avançou um passo.
“Eu me chamo Davis. Só para constar, não estou com medo, mas não tenho o costume de seguir qualquer tolo aleatório”, disse, encarando Will nos olhos por um segundo. “Mas acho que esse não é o caso agora.”
Um terceiro soltou um suspiro irritado e passou a mão pelo cabelo.
“Droga… eu sabia que isso ia acabar acontecendo.”
Um a um, começaram a reagir.
Will os observou por um segundo e nenhuma expressão atravessou o rosto. Nenhum alívio ou satisfação. Apenas aquele olhar de quem tentava ver algo à frente do momento atual.
Foi então que, pelo canto dos olhos, captou um movimento do outro lado do campo. Marcus já havia reunido um grupo. Doze pessoas, talvez mais. Moviam-se sem parar ao redor da criatura, circulando, trocando de posição antes que o animal conseguisse definir um deles como alvo fixo. O javali girava o corpo de um lado para o outro, o focinho fungando o ar em rajadas curtas, as presas cortando o vazio sem encontrar nada.
Ele conseguiu entender a essência do plano muito bem! pensou Will, estreitando levemente os olhos.
“Quem não quiser combater, pelo menos procure armas para nós!” Will virou-se para os que hesitavam, a voz cortando o ar sem precisar gritar. “Não fiquem parados!”
Não esperou resposta. Girou o corpo e encarou aqueles que haviam dado um passo à frente.
Alguns já estavam em posse de galhos ou pedras. Um ou outro ainda procurava por algo no chão. A segunda criatura caminhou devagar para fora da mata, como se o campo aberto à sua frente fosse apenas mais uma extensão do seu território. O corpo maciço balançava a cada passada. A crista ao longo da espinha permanecia erguida, como agulhas apontadas para fora.
“Sigam-me”, disse sem cerimônia. Virou-se e correu tentando impedir que as duas criaturas se unissem.
“Escutem!” Will gritou, posicionando-se à frente do grupo enquanto corria. “Aquele animal é grande e forte, mas não é invencível!” comentou, sem diminuir o ritmo.
“Como você sabe!?” Alguém retrucou, com a voz trêmula, encarando a criatura a mais de vinte metros.
“Por que, se ele fosse invencível, não estaria vivendo entre nós!”
…
“O plano é simples!” Marcus gritou, saltando para o lado. “Distraímos e atacamos. Evitem se aproximar da cabeça ou da traseira. Foquem o ataque apenas nas laterais e nas pernas!”
“Falando assim, parece até fácil demais.” O rapaz na lateral do animal disse antes de saltar para frente. Com uma estocada rápida, tentou perfurar a barriga da criatura.
Crac!
Mas o galho improvisado era fino demais. A madeira rachou ao meio no instante do impacto. O rapaz perdeu o equilíbrio e caiu de bruços no chão.
Thum! Thum! Thum!
A criatura, que mal havia sido arranhada, pareceu irritar-se com o incômodo. Começou a sapatear o chão com violência, as patas descendo uma após a outra. O pobre rapaz caído foi pisoteado antes mesmo de conseguir se levantar.
“AGORA!” Marcus gritou, aproveitando aquela fração de segundo em que o javali mutante se distraiu.
Ele e mais três pessoas avançaram pelos lados, atacando com galhos de pontas improvisadas. Ao mesmo tempo, outras cinco começaram a lançar pedras contra o rosto da criatura, tentando atrapalhar sua visão.
Como se tivessem combinado antes, os quatro miraram na parte de trás das juntas das pernas. A região era sensível, e as estacas improvisadas conseguiram perfurar a carne.
SHRIEK!
A dor rasgou seus músculos, e a criatura começou a se debater violentamente, tentando se livrar do ataque. Mas os movimentos agressivos acabaram quebrando as estacas de madeira, que se partiram dentro da carne. Os pedaços ficaram alojados entre músculos e nervos, rasgando ainda mais enquanto o javali se agitava. O corpo maciço cambaleou de um lado para o outro e as pessoas se afastaram rapidamente ao ver a criatura perder o equilíbrio.
CATAPLAM!
O javali grunhiu, debatendo o corpo violentamente no chão. A crista acima de sua cabeça, um moicano de agulhas ósseas que desciam pela espinha, vibrou com o impacto.
Whiss!
“HELENA, CUIDADO!” Marcus gritou ao ver uma das agulhas se desprender da crista do javali.
Ela cortou o ar em linha reta.
Mas foi tarde demais.
“AAAHHH!”
“Vamos! Aproveitem que ele está caído! Deem a volta e ataquem a barriga, mas cuidado com essa crina!” Marcus ordenou, sem deixar o momento atrapalhar suas decisões, antes de correr na direção da jovem.
Ao se aproximar, viu Helena estirada no chão, lágrimas escorrendo pelos olhos ao segurar o choro com uma careta.
Quando ela o percebeu chegar, soltou um comentário entre dentes. “Eu sabia que deveria ter seguido o Will.” A mão dela apertava com força o ombro atravessado pela agulha.
“Nesse estado e ainda tem tempo para piadas?” Marcus comentou, ajoelhando-se ao lado dela. Primeiro conferiu o ferimento e depois para os olhos da jovem.
“Você sabe o que eu preciso faze…”
“Aaaaaaaah!”
Antes mesmo de terminar a frase, puxou a agulha de uma única vez.
“Seu filho da mãe!” gritou Helena, sapateando o chão enquanto tinha seu ombro pressionado contra o chão por Marcus.
Atrás deles, o javali bestial tombou a cabeça contra o chão.
THUM!
O impacto levantou poeira e arrancou pedaços de grama marcados pela violência da luta. A vibração percorreu o solo como um pequeno tremor, fazendo alguns dos jovens recuarem por instinto.
Por um segundo, ninguém se moveu.
Os olhos de todos permaneciam presos naquele corpo gigantesco, coberto por pelos escuros manchados de sangue. A barriga do animal subia e descia cada vez mais devagar, até quase parar… ou talvez foi apenas uma ilusão criada pela tensão.
Um dos rapazes que havia atacado as pernas da criatura ao lado de Marcus deu dois passos à frente, o peito subia e descia em respirações curtas. Seu braço tremia levemente, ainda marcado pelo esforço do combate.
“Ele morreu?” perguntou uma voz desconfiada, vinda de trás.
O rapaz observou, atento a qualquer movimento. Quando o corpo do bestial permaneceu imóvel por alguns segundos, soltou o ar lentamente. “Parece que sim”, respondeu, ainda cauteloso.
“Nós realmente conseguimos…?” murmurou um rapaz, olhando para as próprias mãos sujas de sangue.
“CONSEGUIMOS!” Outro gritou, erguendo o galho improvisado acima da cabeça.
A explosão de vozes veio logo em seguida.
“Ele morreu!”
“Matamos aquela coisa!”
“HAHA! EU SABIA!”
Marcus não participou da comemoração. Apenas observava, ao lado de Helena, enquanto seu grupo celebrava a vitória.
“Deixa eu ver isso.” disse, ajoelhando-se ao lado dela.
Helena respirou fundo, tentando manter a compostura, mas uma careta escapou quando ele afastou sua mão do ferimento.
“S-só um arranhão…” murmurou, tentando minimizar.
Marcus franziu o cenho.
“Arranhão nada”, respondeu, examinando o corte profundo. “Você teve sorte de essa agulha não ter atingido um ponto vital.”
Helena soltou uma pequena risada nervosa.
“Que sorte maravilhosa a minha…”
Ao redor deles, vários jovens começaram a se aproximar, ainda empolgados com a vitória.
“Ei, Marcus… obrigado!” Um deles disse. “Só conseguimos graças a você!”
“A ideia não foi minha.” Marcus respondeu, sem tentar tomar os créditos. “O plano de tudo isso foi do Will…” acrescentou, voltando o olhar para o outro lado do campo, onde a batalha ainda seguia acirrada.
“Eiii garota… você foi muito corajosa!” Alguém comentou, apontando para Helena.
Ela desviou o olhar, constrangida.
…
Enquanto isso, a alguns metros dali, Roy se aproximava em silêncio. Os olhos vidrados permaneciam fixos no corpo gigantesco do javali caído no gramado.
O restante do grupo estava distraído demais comemorando para percebê-lo chegando próximo do animal.
A barriga da criatura se moveu muito pouco, quase imperceptível.
Ainda está vivo… Roy estreitou os olhos.
O animal realmente estava à beira da morte, mas ainda não estava morto.
Idiotas.
Ele começou a caminhar a passos lentos. A grama abafava o som de seus pés enquanto se aproximava. Pegou uma das estacas improvisadas caídas no chão e parou ao lado da cabeça da criatura.
Os olhos do javali se abriram lentamente ao sentir alguém se aproximando, apenas para ver o humano erguer a estaca de madeira manchada de sangue seco.
“Tenho que admitir… você deu trabalho.” Roy disse, encarando os olhos do animal. “Mas agradeço por ter resistido para que eu possa finaliza-lo.” Sua expressão permanecia fria.
Então desceu o braço.
Schunk!
A estaca atravessou o olho do javali e afundou profundamente em seu crânio. As patas se contraíram por um instante, e o corpo sofreu alguns espasmos curtos. Não demorou até que as contrações parassem.
Silêncio…
Ele encarava o corpo imóvel com uma certa expectativa, e não demorou para demonstrar uma reação: seus olhos se arregalaram ao notar um brilho fraco sendo emitido.
Deu um passo para trás.
A energia se reuniu acima do cadáver até formar uma esfera translúcida do tamanho de um punho.
Roy ergueu uma sobrancelha.
Whoosh!
A esfera se fragmentou em várias partes e disparou em várias direções. Os fragmentos voaram diretamente em direção ao grupo de jovens que havia participado da batalha. Um deles atingiu o peito de Marcus, que se assustou, jogando-se para trás. Outro entrou no corpo de Helena, que nem notou a aproximação da esfera.
Cada um deles sentiu um leve calor se espalhar pelo corpo após absorvê-las.
Roy não desviou sua atenção nem por um segundo. Uma das partículas veio em sua direção e atravessou seu peito. Ele nem tentou resistir, como se esperasse esse momento desde o início.
Um formigamento percorreu seu corpo como se um órgão dormente estivesse sendo despertado. Fechou os olhos por um breve instante.
Era como imaginava…
Um sorriso discreto surgiu no canto de sua boca.
Ele abriu os olhos novamente.
Esse mundo vai ser mais divertido do que eu pensei.
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