A transição veio sem mandar recado.

    O corpo de Kai se dissolveu no ar como fumaça levada pelo vento. Não sentiu dor ou qualquer outro sentimento. Apenas um vazio que surgiu de forma súbita, engolindo cada sensação antes que ele pudesse reagir. 

    “Sinto muito, não queria expulsá-los, mas ninguém pode ir contra as regras universais.” Hoikuen disse, após a dispersão dos recém-acordados. Sua voz soou solitária em meio aos campos silenciosos de Embryonic Arbo. 

    Sua consciência se deslocou, atravessando o espaço até se fixar em um ponto distante. Além da barreira. Além do que seus olhos invisíveis poderiam alcançar.

    “Espero que Exilium não seja o fim.” murmurou, deixando as palavras se dissolverem no vazio.

    Em seguida, sua presença se retraiu lentamente, afundando-se nas camadas profundas de Hoikuen, onde o tempo corria de forma diferente. 

    Sua consciência voltou ao estado adormecido.

    ✦ ✦ ✦

    A trezentos e oitenta e quatro mil quilômetros de Hoikuen, um gigantesco fragmento de terra orbitava no vazio do espaço. Era maior do que muitos países inteiros, mas não possuía forma esférica. Suas bordas eram irregulares, abruptas, como se tivessem sido arrancadas à força de algo muito maior.

    Não era um planeta.

    Era uma ilha.

    Ilha Espacial Exilium.

    Em algum ponto da ilha, os recém-acordados começaram a surgir, espalhados sem qualquer padrão visível. Kai sentiu os sentidos retornarem de forma abrupta; logo em seguida, veio a sensação de queda.

    “Plaft!”

    “Aiii!”

    Caiu sentado sobre o solo irregular. A vibração subiu pela coluna, arrancando-lhe um breve arrepio.

    “Qual é o problema desse lugar!?” reclamou, apoiando uma das mãos no gramado enquanto a outra massageava a própria perna. Perguntava-se se aquilo era proposital ou apenas uma coincidência cruel.

    Piscou várias vezes, forçando a visão a se ajustar. O campo cinzento de Hoikuen havia desaparecido. Não havia árvores escuras, nem casulos. Onde estou? pensou, girando a cabeça devagar. O céu acima não era o mesmo. Aquela barreira de energia não estava mais ali.

    Ainda assim, algo parecia… errado.

    Levantou-se com um pequeno esforço, apoiando as mãos no chão.

    Um campo semiaberto se estendia à frente, pontuado por árvores de copas densas e arbustos fechados. A vegetação crescia de forma espontânea, quase agressiva. Mais adiante, estruturas antigas emergiam entre o verde.

    Paredes desmoronadas.

    Colunas partidas ao meio.

    Fragmentos de concreto eram abraçados por raízes grossas que serpenteavam pelo solo e subiam pelas superfícies como veias expostas. As construções pareciam abandonadas havia séculos. Talvez milênios. O tempo deixara marcas profundas nas superfícies rachadas, nas colunas inclinadas, nas paredes que já não sustentavam nada além de sombras.

    Ruínas. concluiu. Mas de quando?

    A natureza reclamara quase tudo.

    Raízes atravessavam concreto. Trepadeiras cobriam inscrições apagadas. O musgo suavizava ângulos que um dia foram precisos. Era como se a civilização que existira ali tivesse sido lentamente engolida, camada por camada, até restar apenas vestígio.

    Um som quebrou o silêncio ao redor.

    “Poof!”

    Virou o rosto de imediato e corpos começaram a surgir do nada, bem próximo, materializando-se no ar antes de despencarem no gramado.

    “Plaft.”

    “Plaft.”

    “Plaft…”

    Alguns caíam de pé e tropeçavam. Outros simplesmente desabavam sentados, tão desorientados quanto ele estivera segundos antes.

    Kai observou por alguns segundos.

    Depois deu alguns passos, afastando-se do meio das pessoas. Não queria ser engolido pelo tumulto que começava a se formar. O olhar voltou-se para as ruínas que haviam capturado sua atenção desde o primeiro instante.

    Foi então que ouviu um som estranho e virou a cabeça no mesmo instante.

    Um jovem emergiu da mata fechada, tropeçando entre galhos e raízes expostas. O corpo balançava de um lado para o outro, quase desabando a cada passada. O rosto estava pálido, drenado de cor, como se tivesse visto algo que a mente ainda lutava para processar. O peito subia e descia de forma irregular, buscando ar que parecia nunca ser suficiente.

    Ao avistar o grupo à frente, congelou por um instante.

    Não houve alívio no olhar. Apenas surpresa. Os olhos arregalados varreram os rostos desconhecidos, se perguntando por que todos estavam parados ali.

    As folhas estremeceram logo depois, “shhhrrr…”, como se algo estivesse atravessando a vegetação em alta velocidade.

    “CORRE! CORRE!” gritou, saindo do torpor ao lembrar-se do motivo que o colocara naquele estado.

    Mas ninguém se moveu. Apenas o encararam enquanto corria em direção ao grupo, curiosos para descobrir o que havia acontecido.

    “FUJAM! FUJAM, MERDA!”

    A voz saiu ainda mais desesperada. Os pés tropeçaram sobre uma raiz, mas ele se recuperou no último instante, forçando as pernas a continuarem. Então, uma criatura do tamanho de um gato irrompeu da mata logo atrás do rapaz.

    “Shrrrak!”

    Era coberta por pelos cinzentos, desgrenhados e sujos de terra. A cabeça era desproporcional ao resto do corpo, alongada demais, com um focinho estreito que terminava em dentes expostos e amarelados, sempre à mostra. Olhos vermelhos sem qualquer traço de consciência.

    “Shhhrk…”

    Era um chiado agudo, visceral, que vibrava no ar como metal sendo arranhado. O ruído parecia fino demais para aquele corpo pequeno, mas carregava uma agressividade crua que arrepiou a pele de quem ouviu. Vários jovens recuaram por puro instinto.

    “AAAHH!!!”

    O silêncio pesado que tomava conta do campo se rompeu de uma só vez. O grito da jovem ecoou como um estopim, e o caos se instalou no instante seguinte.

    Dezenas de jovens dispararam ao mesmo tempo. Sem direção, sem estratégia, apenas uma fuga descontrolada. Empurravam quem estivesse no caminho. Cotovelos abriam espaço à força e quem tropeçava corria o risco de ser pisoteado.

    “Ploft!” Um corpo bateu no chão. “Ei! Espera…” A voz foi engolida pelo tumulto.

    Kai observou a cena diante dele, sentindo seu coração acelerar. Não estava em panico, mas sentiu uma fúria crescente subir pelo peito, aquecendo seu corpo.

    Um jovem empurrou uma garota com tanta força que ela perdeu o equilíbrio e despencou de bruços no chão. Outros pisaram nela sem hesitar, sem sequer olhar para baixo. Mais dois tropeçaram sobre o corpo dela, caindo ao lado.

    Patéticos. Kai pensou.

    Cerrou os punhos e não pensou duas vezes. Correu contra o fluxo de pessoas que fugiam. Ombros chocaram-se contra o dele. “Sai da frente!” gritou, um rapaz que quase o derrubou.  Abriu caminho à força, empurrando quem estava no meio. Até que chegou a garota primeiro. Agarrou-a pelo pulso e a puxou com força, erguendo-a do chão antes que outra pessoa a pisasse.

    Logo ao lado, viu um rapaz de óculos tentando se levantar. O pé estava dobrado em um ângulo estranho.

    “Estão bem?” perguntou, olhando rapidamente entre os dois. A garota abriu a boca, mas não conseguiu formar palavras. Apenas assentiu, tremendo. O rapaz de óculos tentou falar, mas nem sabia o que responder naquele estado.

    “AAAHHH!!!”

    O grito rasgou o ar.

    Kai e os outros viraram-se instintivamente.

    Uma das criaturas havia alcançado uma jovem que tropeçara e ficara para trás, caída no chão. A pequena aberração saltou sobre ela com agilidade brutal.

    “Skreee!”

    As garras cravaram-se nas costas da garota.

    “Rasg!”

    O tecido da roupa se partiu seguido de sua pele. Um som úmido e nauseante acompanhou o movimento, como carne sendo dilacerada à força. A jovem arqueou o corpo, os dedos se enterrando na terra enquanto tentava se arrastar para frente.

    “Riiip.”

    Outras duas criaturas se juntaram. Uma mordeu o pescoço. Outra afundou os dentes no braço estendido. Sangue jorrou sobre o gramado, formando uma poça escura que se espalhou rapidamente.

    Kai sentiu o estômago se contrair, mas a urgência de agir falou mais alto.

    Olhou para o lado. À distância, uma estrutura maior se destacava entre as ruínas menores. Um prédio parcialmente desmoronado, mas com paredes espessas ainda de pé. Parte do teto havia cedido, deixando vigas expostas como ossos à mostra. Trepadeiras cobriam quase toda a fachada, pendendo das janelas vazias.

    Mas havia aberturas.

    “Vamos!” gritou, apoiando o rapaz pelo ombro, sem esperar uma resposta, virou-se de imediato e começou a puxá-los naquela direção.

    O peso do corpo ao lado dificultava a corrida, mas eles não diminuíram o passo nem por um segundo. Os gritos e chiados que vinham de trás só fizeram com que acelerassem ainda mais.

    “Vamos, por aqui!” Kai disse, saindo do meio do grupo e se afastando pela lateral. 

    Desviaram de pedras e destroços que já não tinham forma definida. Saltaram sobre raízes grossas e alcançaram a entrada.

    Era uma abertura irregular no que um dia fora uma parede. Metade dela havia desmoronado, criando uma passagem larga o suficiente para três pessoas passarem lado a lado.

    Kai não hesitou. Entrou, puxando os dois junto com ele. Assim que cruzaram a entrada, jogou-se para o lado, pressionando as costas contra a parede. 

    A garota caiu ao lado dele, ofegante, as mãos apoiadas no chão enquanto tentava recuperar o ar. 

    O rapaz estava com o rosto pálido, as mãos tremiam ao se apoiar na parede mais adiante com uma das pernas levantada.

    O ex funcionário da T-CAM inclinou o rosto lentamente para fora, espiando o campo. As criaturas ainda estavam lá. Mas não os seguiram. Estavam ocupadas perseguindo os outros. Puxou a cabeça de volta, fechando os olhos por um instante, deixando o ar escapar devagar.

    “Ugh…” Um gemido abafado fez com que os dois olhassem assustados para trás.

    “A…” A moça tentou gritar, mas sentiu uma mão tapar sua boca no mesmo instante. Seus olhos se arregalaram.

    Um dos ratos mutantes estava grudado no pescoço do rapaz de óculos. As garras traseiras se fincaram no corpo do pobre rapaz, rasgando. Sangue escorria pela roupa, enquanto ele se convulsionava batendo os braços contra a parede em espasmos involuntários.

    Deve ter entrado pelo outro lado. pensou Kai, ao avistar outra abertura ao fundo do prédio. A passagem era mais estreita, parcialmente encoberta por entulho e trepadeiras. Percorreu o olhar pelo chão, buscando qualquer coisa que pudesse ajudá-lo.

    Destroços.

    Pedaços de concreto espalhados.

    Pedras.

    Gravetos.

    Mas nada que realmente servisse como arma. Ainda assim, agarrou o primeiro objeto ao alcance e o arremessou com toda a força na direção do animal.

    “Whoosh!”

    A criatura saltou para o lado num movimento seco, quase antinatural. O pedaço de concreto passou reto. “Crac!” Espatifou-se contra a parede em lascas irregulares que caíram pelo chão.

    A criatura pousou virando o focinho na direção dele. “Grrrr…” Grunhido baixo, ameaçando com dentes expostos. Mas perdeu o interesse, voltando a atenção para sua presa já capturada.

    Kai sentiu que foi ignorado. Vasculhou outra parte do chão novamente, até encontra uma barra de ferro enferrujada, meio enterrada sob os escombros. Fino, mas sólido. Longo o suficiente para funcionar como uma lança improvisada.

    A criatura percebeu o movimento e se voltou para ele. No entanto, dessa vez viu o humano como uma grande ameaça.

    Kai ouviu o som das patas raspando no chão e soube que o ataque vinha. Girou o corpo no último instante. A criatura já estava no ar, a poucos centímetros dele. A boca escancarada. As garras estendidas. Ele a interceptou antes que alcançasse o próprio pescoço.

    Sem hesitar, aproveitou o impulso do giro. Transferiu o peso do quadril para o braço e balançou a barra de ferro como um taco de basebol acertando a criatura com toda a força.

    “Thum!”

    O corpo do animal se curvou em um “V” antes que fosse arremessado contra a parede e caiu sobre o solo se contorcendo.

    Não hesitou.

    Correu na mesma direção, e avistou o bicho lutando para se levantar. Sem remorso ou um pingo de misericórdia, saltou com um pequeno impulso. “Morra!” exclamou, antes de aproveitar a queda para atravessar a boca do rato em uma estocada de sua lança improvisada.

    “Shhhiiiii…” A criatura soltou um guicho estridente, agudo, antes de parar de se mexer.

    Kai puxou o ferro de volta e respirou fundo.

    “Odeio essas pragas!” murmurou, encarando o pequeno corpo imóvel no chão. “Mas este aqui é maior que uma ratazana.”

    O peito ainda subia e descia levemente alterado. Perdendo o interesse, estava prestes a se virar para verificar o estado do rapaz quando algo chamou sua atenção. O corpo da criatura começou a emitir um leve brilho fazendo se afastar instintivamente.

    E agora… o que é isso? pensou, mantendo os olhos fixos.

    A luz convergiu para um único ponto, formando uma pequena esfera translúcida de energia que flutuava poucos centímetros acima do cadáver. Não conseguiu entender o que estava vendo. 

    “Whoosh!”

    A esfera disparou em sua direção, mas não houve tempo para reagir. Ela atravessou o ar e entrou em seu peito sem qualquer resistência.

    Kai arregalou os olhos, o corpo enrijecendo no mesmo instante, certo de que havia sido atingido por algum tipo de ataque. Levou a mão ao tórax, mas não sentiu nada. Nenhum rasgo na roupa, nenhuma perfuração ou até mesmo dor. Sua respiração retornou devagar, mas o coração continuava acelerado. 

    O que foi que aconteceu? pensou. Quando achava que começava a entender a lógica daquele lugar, algo ainda mais absurdo surgia diante dele.

    No instante seguinte, um formigamento percorreu seu interior, se espalhando por todo o corpo. Era estranho, mas reconfortante ao mesmo tempo. Sentiu que estava melhor do que um minuto atrás, mas era algo tao insignificante que parecia mais uma intuição do que realmente um sentimento.


    NT: Espero que gostemdessa nova versão, que seja uma experiência única. Se gostou, deixe um comentário para incentivar.


    APOIE O PROJETO ETHERYUM

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (13 votos)

    Nota