Índice de Capítulo

    A luz da manhã seguinte entrava pelas janelas, e estas iluminavam partículas de poeira suspensas no ar. Com um sorriso cauteloso, Owen entrou na sala do escritório de Arthur, mas a sua expressão tornou-se séria ao deparar-se com o olhar resoluto do líder.

    — Você me chamou, senhor?

    O homem gestou para a cadeira em frente à sua mesa.

    Enquanto Owen se acomodava, Arthur puxou para o centro da mesa uma pasta azul de capa dura, com o logotipo da agência estampado, para a superfície da mesa.

    — Há quanto tempo está com a gente? Doze anos, não é?

    — Doze anos e, hã, quatro meses.

    — Tempo suficiente para conhecer cada protocolo de segurança. — disse, repousando as mãos sobre a pasta. — E para compreender perfeitamente as consequências de vazar informações confidenciais.

    O sorriso de Owen esmaeceu.

    — O que você está sugerindo?

    — Não estou sugerindo, Owen. Estou afirmando que você foi a fonte do vazamento do relatório de contenção de Krynt Highes. — Seus tamborilaram levemente sobre a capa azul. — E que suas ações têm ligação direta com a morte de Laura Rossi.

    Este ergueu-se bruscamente.

    — Isso é um absurdo! Você tem provas?

    — Temos. — Empurrou a pasta na sua direção. — Só dar uma olhada quando chegar em casa.

    — I-isso é uma armação! 

    — Esta cópia é sua, contém tudo, incluindo as evidências que vinculam você ao caso Rossi. Um e-mail com os documentos digitalizados chegará à sua caixa de entrada em uma hora, junto com sua demissão por justa causa e a notificação do processo judicial que enfrentará.

    Owen recuou um passo, seu rosto perdendo a cor.

    — Você não pode fazer isso… Minha carreira…

    — Você encerrou a carreira de Laura Rossi — interrompeu —, colocou em risco cada agente sob meu comando. A única razão pela qual não está sendo detido agora é porque precisamos mapear todos os seus contatos no governo.

    Arthur levantou-se e caminhou até a porta.

    — Sua bagagem já foi recolhida do alojamento. — A abriu. — Um ônibus o aguarda para levá-lo até sua cidade. Está proibido de retornar a qualquer instalação da agência.

    As palavras soaram neste espaço tal como o encerramento brutal de doze anos de existência, não como uma mera sentença. Owen ficou paralisado, o seu corpo era incapaz de aceitar o que os seus ouvidos escutavam. Os seus olhos, muito abertos, não se desviaram da pasta azul, onde imaginou que estivessem não só as provas, mas também os pedaços despedaçados da sua própria identidade.

    Tudo o que ele construíra estava naquele elemento inanimado. A situação foi reduzida a indícios de infidelidade. 

    Quando finalmente estendeu a mão, os dedos tremiam ligeiramente antes de se fecharem em torno da pasta. O aperto firme contrastava com a palidez cadavérica que lhe tomara o rosto. Aquilo era segurado por ele mais como a própria materialização do seu naufrágio do que como um documento. 

    Pegar na pasta tornou-se um ato de rendição e um amargo reconhecimento de que todas as portas que tanto custara a abrir se fechavam de uma só vez, com um estrondo que apenas ele ouvia.

    — Você vai se arrepender disso — sussurrou, passando por Arthur.

    — Duvido — disse, e fechou a porta.


    A U.E.C. precisava de proteger a sua reputação junto de aliados e rivais. A prisão de Keller significaria exposição pública e levantaria questões sobre as vulnerabilidades internas. 

    A expulsão manteve a questão no âmbito restrito da política institucional, permitindo manter o controle sobre a narrativa.

    Neste tipo de estrutura, o poder não se sustentava apenas na capacidade de agir, mas também na capacidade de decidir que histórias seriam contadas e quais seriam esquecidas.

    Owen sabia disso. Por anos fez parte do grupo responsável por manter aquela máquina funcionando, cumprindo as regras, protegendo informações e limpando a bagunça dos outros.

    A raiva vinha em ondas, mas, em vez de queimar, ela o congelava por dentro. Essa era uma espécie de indignação calada, que se fechava e apodrecia pela raiz. 

    A necessidade de se justificar misturava-se com a descrença de que isso mudaria alguma coisa. Na política interna da U.E.C., a culpa não era necessariamente o resultado de provas irrefutáveis, mas sim de conveniência estratégica.

    A sua queda serviu como moeda de apaziguamento destinada a manter a confiança do corpo diplomático e a estabilizar a situação, sacrificando um nome. 

    Em suma, tornou-se um ponto final conveniente.

    A viagem até Harpers Ferry era longa, mas demoraria ainda mais tempo que isso para se livrar da sensação de que tudo o que tocara nos últimos anos estivesse manchado. Nem pela verdade, pois a política sempre determinou quem poderia continuar e quem deveria ser eliminado.

    Inicialmente, ele acreditava sinceramente na promessa de proteger um pacto político capaz de manter unido um país que se desintegrava devido a rivalidades antigas. Ele trabalhava com dedicação obstinada, acreditando que o distintivo que usava simbolizava mérito conquistado, até ser retirado e esquecido no fundo de uma gaveta num dia qualquer.

    Durante a viagem, a paisagem foi gradualmente mudando para áreas rurais pontuadas pelo balanço rítmico das ruas estreitas de Harpers Ferry, onde vastos campos se estendiam até onde a vista alcançava.

    O veículo atravessou bairros em que o asfalto rachado permitia que pequenas ilhas de ervas daninhas florescessem no meio da estrada. Passou pela Shenandoah Street de onde se via a placa de um barbeiro que piscava intermitentemente e, mais adiante, a loja de instrumentos musicais empoeirada do Roland enchia as montras de guitarras como se fossem relíquias esquecidas.

    O ônibus fez uma curva na Washington Street e prosseguiu em direção à última paragem, junto à praça antiga. Assim que desceu, Owen notou a mudança repentina no ar, que trazia o cheiro de pão fresco. À sua frente, a rua estendia-se em direção à sua casa, através da ponte de ferro construída sobre o rio Potomac.

    Apesar da possibilidade de prosseguir, algo o impediu de o fazer. O seu olhar foi atraído pela fachada estreita da Bluebell & Ivy, uma pequena floricultura situada entre um café e uma livraria de livros usados.

    A vitrine era decorada com lírios brancos de pétalas longas e hortênsias azuis, lembrando um céu de chuva. Entre os arranjos mais distantes, ramos de gérberas laranjas traziam calor ao canto empoeirado. Escapava pela porta entreaberta o som abafado de um rádio antigo com uma melodia lenta de saxofone.

    Ficou imóvel em frente à entrada por um momento, na dúvida se entrar poderia mudar o curso do dia e aliviar o fardo que o acompanhava desde que deixara de acreditar em insígnias e promessas.

    Respirou fundo, levantou o queixo e empurrou a porta devagar ao mesmo tempo que deixava o ar interior envolvê-lo pelo aroma úmido e adocicado composto por uma mistura de terra molhada e folhas cortadas.

    Uma mulher de pele morena clara e cabelos grisalhos presos em um coque solto trabalhava atrás do balcão irradiando um ar de calma sugestivo de muitos anos de experiência. Suas rugas suaves adornavam o rosto como um registro de sorrisos há muito passados e invernos que já se foram. Ela usava um avental de algodão floral, com manchas de pólen um pouco por toda a peça, e suas mãos apresentavam pequenas manchas marrons nas pontas dos dedos.

    Ainda assim, seus movimentos eram ágeis enquanto amarrava um caule de rosa com um fio fino.

    Ela levantou o olhar e o avaliou por trás dos óculos de armação fina. Um leve sorriso desenhou-se em seus lábios ao reconhecer algo em seus olhos — dor, cansaço e uma necessidade que já havia visto passar pela porta muitas vezes.

    — Bom dia, meu filho. Tá procurando alguma coisa pra data especial?

    Owen deu um passo à frente, ajeitando os ombros.

    — Quero um buquê de lírios brancos. É pra minha esposa, Claire.

    — Claire… bonito nome. — Pousou a tesoura sobre o balcão. — Aposto que ela gosta de flores elegantes. Lírios são bons pra dizer o que a gente tem dificuldade de falar.

    Ele desviou o olhar para uma prateleira onde havia pequenos ramos de lavanda pendurados.

    — É… Acho que seja isso.

    A senhora andava entre baldes de água e cestos de flores, escolhendo um a um os lírios mais viçosos ao som do saxofone no rádio entremeado pelo barulho das pétalas roçando em suas mãos.

    — Vai querer que eu amarre com fita branca ou prefere algo mais vivo? 

    — Branca. 

    Com um aceno de cabeça, ela começou a compor o buquê. Com um cuidado que transformava aquele ato simples em algo cerimonioso, foi posicionando cada flor.

    — Isso me lembra meu marido. Trazia um ramo de flores até em terça-feira comum. Dizia que não queria me ver um dia sem sorrir.

    — E funciona? Quer dizer, funcionava?

    — Funciona até agora.

    — Ele parece ter sido um homem especial.

    O sorriso dela se acentuou nos cantos dos lábios, mas seus olhos não saíam do laço que formava.

    — Era. Não esperava aniversário nem data comemorativa pra trazer beleza pra casa. — Ergueu o buquê para examiná-lo contra a luz. — E talvez seja por isso que a saudade não pesa tanto.

    Os dedos da sua mão esquerda acomodaram-se naturalmente à volta dos caules enquanto Owen recebia as flores. A mulher continuava a ajustar alguns galhos, puxando a fita branca até ficar no ponto exato.

    — Já me disseram que é dinheiro jogado fora, gastar com coisa que murcha em uma semana.

    — Tudo murcha um dia, meu querido. A graça está em aproveitar enquanto dura.

    — Nunca fui muito bom nessas coisas…

    A senhora emitiu uma risada suave.

    — Ainda dá tempo de aprender. A vida já tem tristeza que basta, então, se puder acrescentar um pouco de beleza no caminho de alguém… Por que não?

    Seus olhos percorreram as flores mais uma vez, os dedos acariciando inconscientemente a fita.

    — Quanto ficou?

    — Seria cinquenta, mas hoje é dia de simpatia. Fica em trinta.

    Um arqueamento de sobrancelha acompanhou-se de um sorriso parcial no seu rosto.

    — Parece um bom acordo.

    Deixou mala de viagem que segurava com a mão direita no chão para tirar a carteira de couro gasta nas bordas do seu bolso da frente. As notas estavam dobradas uma em cima da outra, de maneira desorganizada. Ele passou o polegar por cima delas, contou devagar e colocou o dinheiro sobre o balcão.

    — Obrigado.

    — Não me agradeça. — Empurrou o valor para gaveta. — Só não esqueça que as flores não são sobre o tempo que duram, são sobre o momento que criam.

    Com o buquê em uma mão e a sua mala de viagem na outra, Owen deixou a loja. O aroma das pétalas combinava-se ao cheiro de pão recém-assado que vinha de uma padaria ao lado, e essa mistura de cheiros lhe trouxe um conforto inexplicável.

    Ela caminhava com a mente dividida entre o peso da lembrança e a leveza daquele instante. Passou por um cruzamento em que o semáforo piscava amarelo e a luz refletiu no celofane do buquê. Um grupo de crianças corria pela calçada, rindo alto, e ele desviou reflexivamente, evitando que as flores fossem tocadas de maneira descuidada pelos cotovelos.

    Conforme avançava, as ruas ficavam mais vazias e as vitrines menos iluminadas, até que restou apenas o ressoar de seus próprios passos e o farfalhar suave das flores roçando no papel.

    Quando virou a última esquina, avistou à distância a fachada da casa que o tempo transformara em algo indefinido entre cinza e azul. Apertou o buquê um pouco mais com a sensação de que a fragilidade das flores poderia servir de âncora para manter algo vivo dentro de si.

    Ao chegar ao portão, ele respirava fundo para encher os pulmões de ar e não deixar que a coragem evaporasse. Empurrou a madeira gasta e ouviu o rangido ecoar pelo quintal. A porta da frente estava fechada. Com o estômago embrulhado pela briga na U.E.C., ele subiu os dois degraus.

    Aquela expulsão não saía de sua cabeça, mas junto vinha a teimosa ideia de que precisava fazer algo melhor do que simplesmente remoer o ocorrido.

    Bateu na porta. 

    Do outro lado ele ouvia vozes. A deleite estranha de ouvir Claire foi imediata, mas com uma ponta de dor.

    — Para de mexer nessas caixas e vai pro quarto!

    O som de passos fracos se afastando pelo corredor confundia-se com o leve estalar da madeira no piso. Após um breve silêncio, durante o qual a casa inteira pareceu prender a respiração, a maçaneta começou a girar devagar.

    Com a abertura da porta, um instante que suspendeu o mundo ao redor se revelou a Claire. Os seus olhos se prenderam à figura à sua frente e o ar parou de fluir naturalmente. O rosto dela se transformou em uma sucessão de nuances por ele reconhecidas como raras ao se deparar com um traço de incredulidade, surpresa muda, a pontada reconfortante de um reencontro marcado por uma alegria que hesitava em se afirmar, receando se ferir ao nascer.

    — Você… voltou? 

    Owen estava no limiar, apoiado fora de posição junto ao buquê que destoava de tudo o que Claire lembrava dele. Aquelas flores, delicadas e vibrantes, causavam um contraste marcante em suas mãos calejadas, mas, mesmo assim, uma estranha coerência se fazia presente naquele gesto.

    Ele avançou um passo, estendendo o buquê com um movimento incerto.

    — Uhm… Imaginei que seria menos sufocante aparecer com isso do que continuar me afundando sozinho.

    Entregando as flores, Owen percebia que o retorno não se resumia à distância física. O sorriso dela começou tímido, rompendo devagar uma barreira que o mesmo temeu não atravessar novamente por anos.

    — Você não costuma trazer flores. 

    — Hoje me pareceu o dia certo para quebrar umas regras.

    O riso baixo que ouviu era o mesmo que ele conhecia muito bem, pois sempre vinha quando o coração dela encontrava-se mais leve. Sem dizer nada, estendeu a mão e tocou suavemente os dedos dele antes de segurar o buquê. O contato foi rápido, porém o calor deixou uma marca nos dois.

    Com o buquê nas mãos, Claire o olhou por alguns segundos, refletindo sobre o significado daquele momento.

    — Elas são lindas, mas… Owen, tá tudo bem?

    Ele respirou fundo.

    — Digamos que… decidiram que não sirvo mais pra nada por lá. Me chutaram.

    O sorriso que ela tinha antes desapareceu, e os seus olhos ficaram mais estreitos com uma confusão de indignação e preocupação.

    — São uns idiotas. Sempre foi você quem manteve aquele lugar de pé quando tudo começava a desmoronar.

    — Pois é… mas agora vão ter que aprender sozinhos. Hoje… eu só precisava estar aqui.

    Por sua vez, Claire inclinou levemente a cabeça para tentar enxergar além das palavras dele. Embora não dissesse, Owen sabia que ela percebia mais do que demonstrava. Sem dizer nada por alguns segundos, ela deu um passo para o lado, abrindo passagem.

    — Bem-vindo de volta, meu amor.

    Assim que atravessou a soleira, o perfume fresco das flores na jarra de vidro fosco, pousada sobre a pequena mesa de canto, entremeou-se ao aroma adocicado do café que vinha da cozinha. O arranjo composto por lírios brancos e ramos de lavanda tinha mais a intenção de marcar presença do que de impressionar, como um gesto íntimo que dispensava formalidade.

    — Tá cheirando bem aqui. — comentou, largando o casaco no encosto da cadeira e a mala de viagem ao lado. 

    — Fiz o melhor café com o que tinha, e você chegou na hora certa. 

    Claire deixou o buquê ao lado da jarra, onde também estava um porta-retratos de madeira escura expunha uma foto em que Owen e Claire posavam diante de um letreiro enferrujado de Route 66, e o sol queimava a estrada infinita atrás deles.

    — Comprou o buquê na loja daquela senhora? Acho que com você ela foi generosa.

    — Deve ter sentido pena quando olhou pra minha cara.

    — E acertou na escolha. — Inclinou-se para cheirar as flores. — Lírios sempre foram meus preferidos. Incrível como você lembra.

    — Lembro de tudo sobre você, Claire. Até daquele seu jeito de fazer café forte o suficiente para acordar os mortos.

    — É o único jeito de te manter acordado depois do jantar — Um sorriso maroto cobriu seus lábios. — Alguém tem que garantir que você não adormeça no sofá outra vez.

    — Talvez eu só precise de uma distração melhor, ou alguém.

    Claire apoiou-se em uma bancada com os quadris e virou-se para ele.

    — E que tipo de distração você tem em mente, sr. Keller?

    — Oh, não sei. — Fez questão de olhar para os lábios dela mais tempo do que o necessário. — Acho que você poderia me surpreender. Sempre foi boa em me manter acordado.

    — Vinte anos de casamento e você ainda acha que vou cair nessa? — O seu olhar passeou pelo rosto de Owen afetuosamente. — A última vez que tentou esse olhar, acabou dormindo no sofá de qualquer jeito.

    — Em minha defesa, você tinha feito aquele jantar de massa. — Fechou a distância ao se aproximar. — E eu estava apenas… recarregando energias.

    — Energias para o quê, exatamente? — Ela não recuou quando suas mãos encontraram sua cintura.

    O seu hálito misturou-se ao dela no momento em que aproximou os lábios para a beijar.

    O beijo tinha o sabor do café e de outras coisas doces, coisas que tinham ficado na boca um do outro depois de anos de manhãs passadas juntos. 

    Quando se afastaram, Claire manteve as mãos nos seus ombros.

    — Acho que suas táticas melhoraram, sr. Keller.

    — Pratiquei mentalmente durante toda a viagem de volta para te ver. — Seus dedos traçaram círculos lentos em suas costas. — Eu acordava no meio da noite esperando te encontrar do meu lado.

    Eles voltaram a andar pelo corredor, onde era possível ver, na parede à esquerda, um mosaico de memórias que incluía uma foto deles sorrindo no topo do mirante de Horseshoe Bend, bem como outra em um dia de neve em Chicago, nos quais eles apareciam com gorros de lã, encostados um no outro. 

    Outra imagem mostrava Claire segurando um mapa amarrotado no meio de um posto de gasolina perdido em algum ponto do Texas; outra mostrava Owen, ainda de barba rala, levantando um peixe recém-pescado no Lago Tahoe. 

    Destacando-se entre elas ficavam uma moldura maior do dia da formatura na Universidade de Georgetown, da qual Claire se formara em Ciências Políticas e Owen, em Criminologia com ênfase em Estudos de Fenômenos Anômalos.

    Os dois vestiam becas pretas alinhadas e seguravam os diplomas nas mãos. Atrás deles, o céu do fim da tarde filtrava um dourado profundo sobre as cúpulas históricas do campus.

    — Esses dias meu irmão Eric entrou em contato comigo. — disse, enquanto mexia na cafeteira. — Ligou pra mim dizendo que tá pensando em vender o barco dele.

    — Finalmente, aquele barco só servia pra beber cerveja e reclamar da vida. E nem pra isso prestava direito.

    — Acho que ele cansou de pagar por um pedaço de ferrugem flutuante. Disse que o motor tá quase morrendo e que só funciona quando quer.

    — Sempre fo…

    De repente, o compasso das unhas batendo no chão ganhou ritmo crescentemente impaciente.

    A curva revelou uma explosão de energia com a aparição do husky, de pelagem densamente branca nas laterais da cabeça e do corpo, com manchas cinzentas distribuídas de maneira única sobre o dorso.

    Ele tinha olhos de um azul tão vivo que lembravam fragmentos de gelo sob o sol de inverno que o fitavam com uma intensidade tão humana.

    O cão avançou com passadas largas de orelhas erguidas e cauda balançando de um lado para o outro. Escapou-lhe do peito um ronco de satisfação precedido por um ganido breve de saudade acumulada.

    Owen se abaixou sem pensar muito, convidando o animal a invadir seu espaço, e foi empurrado por ele, que espalhou o cheiro familiar de terra úmida do seu pêlo limpo.

    — Aí está o meu velho Thor! 

    Afundou a mão no pêlo espesso ao sentir a maciez das camadas internas e o leve calor que subia da pele. Com a cabeça inclinada, o animal esperava o afago atrás das orelhas, fechando os olhos para se entregar àquele reencontro.

    A cauda, incansável, batia no vão do ar em ritmo constante, durante o tempo em que Owen se desconectava do mundo externo até se prender apenas ao som da respiração do cão que jamais o julgaria.

    — Oh, é mesmo! Noah! — chamou Claire. — Vem cá, filho, olha quem chegou.

    Pouco depois, Owen ouviu passos leves no corredor, que ganhou vida com a aproximação de Claire. Logo atrás, veio Noah como uma maré de calor da infância inundando tudo o que encontrava pela frente. 

    Seu cabelo estava desalinhado, o pijama amassado no corpo miúdo e um carrinho quebrado balançava em sua mão. Seus olhos, grandes e despertos, traziam a pureza cristalina da visão sem filtros e, naquele instante, o mundo inteiro era o pai.

    — Papai!

    O husky se afastou quando viu a criança a correr na direção deles. Owen o esperou de braços abertos, e foi um impacto firme, com as mãozinhas se fechando no tecido da jaqueta e o rosto de Noah afundado no peito. 

    Naquele abraço, Keller sentiu um peso leve e, ao mesmo tempo, imenso, nada parecido com um fardo, mas que lembrava a responsabilidade que vinha junto. Depois de acumular tanta dureza nos últimos dias, a pressão interna finalmente cedeu.

    Ele o levantou no ar e o girou até ouvir a risada explodir.

    — Tá mais pesado, rapaz! O que sua mãe anda botando na sua comida? — perguntou, fingindo esforço para sustentá-lo.

    A criança riu-se mais ainda quando o pai o “derrubou” sobre o sofá.

    Keller se jogou ao lado dele de mão estendida para bagunçar o cabelo do menino. Noah contra-atacou com o carrinho na tentativa de acertar o braço do pai, mas acabou preso em um abraço que o envolveu por completo.

    Nenhum dos dois tinha pressa em se soltar, visto que por mais simples que fosse, aquele momento tinha o valor de um juramento sobre o qual, por mais que o mundo lá fora tentasse moldar ou corromper, aquele vínculo jamais se partiria.

    — Sabe de uma coisa? — Owen o encarou de perto. — Você será uma criança mais inteligente que eu, e com certeza vai se dar muito bem!

    Perto deles, Claire observava a cena sabendo que era melhor não interromper. Quando Owen levantou o olhar, houve um instante de cumplicidade não verbal entre os dois.

    Aquele instante transcendia o dia de amanhã e o passado esporádico que se infiltrava pelas frestas da alma. O momento versava sobre a presença real, viva e concreta. Eram três vidas coexistindo na mesma frequência, e o tempo, que em outros contextos era impiedoso, ali se tornava maleável, permitindo que isso acontecesse. 

    Então, Claire respirou fundo e deixou que a cena se imprimisse nela, convencida de que momentos assim, quando bem guardados, tinham o poder de iluminar épocas inteiras de escuridão.

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