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    A plataforma começou a desacelerar. Os sensores recolheram os braços e as luzes piscaram uma vez antes de se apagarem. 

    Nancy voltou para o terminal, puxou os dados em uma tela auxiliar e disse:

    — Se começar a ter lembrança que não encaixa, sonho que parece de outra coisa, ou flash que você jura que viveu, mas não viveu, me chama. Na hora.

    — Lembrança que não é minha? — Franzi a testa. — Tipo déjà vu?

    — Não, déjà vu é o cérebro tropeçando. Isso aqui é outra coisa. É quando as memórias começam a se misturar. Você não sabe mais se foi você que sentiu aquilo… ou a coisa que estava aí dentro.

    — Eu… não entendi. 

    — Significa que as fronteiras ficam borradas. Você acorda com um ódio que não entende ou com uma imagem na cabeça que não sabe de onde veio. E aí complica, já que fica difícil saber quem pensou o quê ou quem quis machucar alguém. 

    — Nossa, que… pacote premium.

    — Haha, é uma merda, não vou dourar. Mas olha o lado bom, você tá estável. Seus sinais estão coerentes. Aqui dentro, isso já é praticamente atestado de saúde exemplar.

    — Percebi que o padrão aqui é bem baixo.

    — Você não faz ideia. — Ela piscou, voltando a mexer no painel. — Metade das pessoas que passam por essa sala saem com mais perguntas do que órgãos intactos.

    O arquivo foi salvo com um clique discreto.

    Nancy olhou pra mim de novo, agora com um sorriso enviesado.

    — Você vai viver. Provavelmente com insônia, umas crises existenciais ocasionais e um temperamento questionável… mas vivo.

    Nancy descruzou as pernas e levantou-se para andar até minha direção.

    — Só um detalhe importante. Se começar a ouvir voz mandando você fazer alguma coisa muito específica… tipo esfolar o Mikael enquanto ele dorme… me chama antes.

    — O-okay…? — Recuei ligeiramente o corpo para me afastar dela. — Isso foi estranhamente específico.

    Mikael, que até então estava em silêncio, soltou um suspiro pelo nariz.

    — Ele vai trabalhar com a gente. 

    A mulher ergueu o olhar e virou o rosto com um giro lento de pescoço.

    — Trabalhar? — repetiu, arrastando a palavra, com uma leve inclinação da cabeça que fazia parecer sarcasmo, embora o sorriso que nasceu nos lábios fosse mais cínico que divertido. — Então é por isso que me trouxe ele aqui antes de explicar a parte difícil.

    Ele respondeu só com um aceno curto, os braços cruzados, o corpo firme contra a parede, sem sombra de arrependimento no rosto.

    Nancy soltou um sopro entre os dentes, ajeitando a faixa do relógio no pulso com um dedo impaciente.

    — Nesse caso… ou a gente arruma reforço, ou aprende a rezar em outro idioma.

    — Vamos improvisar. 

    Ela voltou o olhar pra mim. Nenhuma mudança brusca no rosto, mas o jeito como apertou os lábios antes de sorrir denunciava que ela já pensava em possibilidades demais. 

    — Bem-vindo à equipe, garoto. Só tenta não morrer na primeira semana. Dá trabalho demais preencher papelada de cadáver novo.

    Mikael descruzou os braços e balançou levemente a cabeça, fazendo sinal de saída. Nancy já voltava à cadeira, onde recolocou os óculos e retomou o uso do tablet feito como se nada de estranho tivesse acontecido ali.

    Seguimos para fora e a porta se fechou.

    O gosto amargo em minha boca me dizia exatamente o que estava acontecendo. Não havia compaixão para me salvar. Eu era apenas um instrumento, uma arma para ser usada como eles quisessem. 

    Senti uma forte mistura de traição e repulsa que me deixou furioso. Isso não era liberdade. Era uma prisão definitiva, e eu não conseguia decidir o que era pior: ser um peão no jogo depravado de outra pessoa ou morrer em meus próprios termos.

    — Isso… é sério?

    — O quê? Mas é claro! — Riu-se, esfregando sua mão sobre meus cabelos. — Essas coisas não jogam pelas mesmas regras que a gente. Não seguem lógica, não respeitam fronteira, não ligam pra plano bem feito.

    Ele ergueu o dedo indicador, dando continuidade à explicação.

    — Pensa assim… A gente passou séculos acreditando que tava no topo da cadeia. Tecnologia, exército, política, dinheiro. Aí aparece algo que não precisa de nada disso pra virar o jogo. 

    — Predador? — perguntei.

    — Predador de verdade, que mudam o equilíbrio só por existir.

    Mikael fez um pequeno gesto com a mão, como se estivesse movendo peças invisíveis.

    — E quando algo assim decide que a humanidade é recurso, territóri ou distração… — Deixou a frase morrer no ar. — Eu prefiro não testar até onde isso vai.

    Balancei a cabeça, ainda tentando encaixar aquilo na realidade.

    — Parece absurdo…

    Ele deu de ombros.

    — Absurdo não deixa de ser real só porque incomoda. — O clima ficou menos pesado quando respirou fundo e apontou discretamente para mim. — E é por isso que você entra na equação agora.

    — E-eu? Como?

    — Você já sobreviveu ao contato. — respondeu, como se fosse óbvio. — Isso te dá perspectiva que a gente não tem. Você entende o que tá em jogo de um jeito que relatório nenhum explica.

    Este inclinou levemente a cabeça.

    — Trabalhando com a gente, você ajuda a equilibrar o tabuleiro. E, sinceramente… — O canto da boca dele puxou num quase sorriso — Prefiro ter alguém que já viu o monstro de perto do meu lado do que solto por aí tentando fingir que nada aconteceu.

    Não respondi na hora. A ideia de “equilibrar o tabuleiro” estava além da minha compreensão, vindo de alguém que, poucas horas antes, estava preso a uma cadeira esperando um botão ser pressionado. Ainda assim, segui Mikael para onde quer que ele fosse.

    Pessoas cruzavam por nós com passos rápidos; ninguém me encarava por muito tempo, mas também ninguém fingia que eu não estava ali. 

    Passei por uma sala envidraçada em que dois agentes discutiam diante de um mapa digital projetado na parede. Não se tratava de um mapa comum; sobre ele, havia camadas que piscavam em tons vermelhos e azuis.

    Por um momento, pensei em como as pessoas lá fora seguiam suas rotinas sem imaginar que existia uma infraestrutura inteira dedicada a conter aquilo que não cabia na lógica do noticiário.

    Mikael caminhava sem pressa, mas com um destino certo, cumprimentando algumas pessoas com um aceno rápido. O que havia ali era respeito, não exatamente admiração, mas confiança. Isso me incomodou de um jeito estranho. Se ele tinha todo esse peso, por que hesitou antes? Ou talvez a hesitação fosse justamente o que o tornava diferente dos outros.

    Ao virarmos à direita, o som ficou mais alto. Agora, o impacto era nítido, com o som de socos contra algo denso, estalos de disparos amortecidos e instruções sendo dadas e obedecidas. Uma porta dupla se abriu quando Mikael passou o cartão, revelando um espaço amplo iluminado por lâmpadas industriais, sem sombra alguma onde alguém pudesse se esconder.

    Dentro dali, homens e mulheres treinavam como se o mundo já tivesse acabado. Movimentos precisos, repetidos até o limite, armas desmontadas e remontadas em segundos, simulações projetadas em painéis que reagiam ao mínimo erro.

    Observei um dos agentes errar um movimento e ser imediatamente derrubado no chão por um choque elétrico controlado vindo do painel. Ele levantou de novo sem reclamar, ajustou a postura e tentou outra vez.

    — Você não me trouxe aqui só pra impressionar, trouxe? — perguntei, mantendo os olhos na cena.

    Mikael cruzou os braços, acompanhando meu olhar.

    — Se eu quisesse te impressionar, teria começado pelo setor de tecnologia. Lá tem holograma bonito, tela flutuando, essas coisas.

    — Então isso aqui é o quê?

    — Realidade. — Inclinou a cabeça na direção do grupo que treinava corpo a corpo. — Aqui é onde a gente descobre quem congela quando a coisa sai do controle.

    Um dos instrutores gritou um comando. Dois agentes trocaram golpes rápidos.

    — Eu precisava que você visse isso antes de qualquer discurso motivacional. Não somos heróis. Somos gente treinada pra reduzir dano. Às vezes a gente consegue, mas às vezes… a conta chega.

    — E eu entro onde nessa história?

    Ele me encarou de lado.

    — Você já esteve diante de algo que não faz sentido. A maioria daqui treina pra isso sem nunca ter passado pelo real. 

    — Isso não me torna preparado.

    — Não mesmo, mas te torna honesto.

    Fiquei em silêncio para assistir uma agente desmontar um rifle em tempo quase absurdo.

    — Ainda parece que cê está apostando alto.

    — É, tô. Porque o que enfrentamos não segue padrão fixo. A gente precisa de gente que pense fora da cartilha, que questione ordem quando algo parecer errado. Você já questiona tudo, isso é um começo.

    Soltei um riso curto.

    — Então eu sou o reforço rebelde?

    — Prefiro variável estratégica. — O canto da boca dele se curvou de novo. — Te trouxe aqui pra entender que isso não é teoria. Se você decidir ficar, vai treinar como eles. Vai cair e errar até aprender.

    Mikael fez um gesto amplo com a mão, abrangendo a sala inteira.

    — E quando a próxima criatura aparecer, eu quero alguém ao meu lado que já sabe que monstros existem. Não alguém que ainda precisa ser convencido disso.

    — Beleza… — Respirei fundo. — Então quando a gente começa? Você vai me treinar ou vai jogar um manual na minha mão e torcer pelo melhor?

    Mikael soltou um riso curto pelo nariz.

    — Eu? Não. Sou péssimo ensinando. Tenho a tendência de esperar que a pessoa já saiba metade do que eu não expliquei.

    — Ótimo começo…

    — Mas fiquei tranquilo, eu já falei com alguém que é realmente bom nisso. 

    Ele caminhou alguns passos à frente e bateu palmas uma vez. Aos poucos, os treinos diminuíram de intensidade até virarem olhares atravessados.

    — Pessoal, pausa geral. 

    Alguns agentes baixaram as armas de treino imediatamente. Outros trocaram olhares. Um sujeito mais largo que alto, com fita nos nós dos dedos, nem se deu ao trabalho de disfarçar o desdém.

    — Tá de brincadeira? A gente tá no meio do ciclo.

    — Eu sei contar, assim como também sei que você errou três vezes seguidas o mesmo movimento. A pausa vai te poupar de passar vergonha pela quarta.

    Alguns riram baixo. O tal fechou a cara.

    — Isso aqui virou tour guiado agora?

    — Se fosse isso, eu teria cobrado ingresso e você definitivamente não teria desconto.

    O clima logo ficou mais pesado. Uma agente mais jovem cruzou os braços.

    — Com todo respeito, senhor, a gente tem meta pra cumprir.

    — E vai cumprir. Lá fora. — Apontou o polegar para trás. — Sala liberada. Agora.

    O incômodo silêncio subsequente foi desconfortável. Apesar disso, não se tratava de medo, na verdade, era resistência. 

    Aquele homem bufou.

    — Por causa dele? — Apontou com o queixo na minha direção. — A gente vai parar tudo por causa disso? 

    Antes que eu pudesse reagir, Mikael respondeu:

    — Você quase morreu três meses atrás porque subestimou algo que chamou de “incidente isolado”. Ele não subestimou e sobreviveu, então, sim, por causa disso.

    A sala ficou quieta de vez.

    — E outra coisa — Mikael continuou, sem elevar o tom —, se alguém aqui acha que é insubstituível, eu tenho uma lista de candidatos esperando lá fora que adorariam provar o contrário. Inclusive com mais disciplina.

    Eu ainda estava processando o que tinha acabado de acontecer.

    — Você faz isso parecer fácil demais — falei, olhando para a porta fechada. — Metade deles queria me arrancar a cabeça com os dentes.

    — Querem mesmo. — Mikael deu de ombros. — Mas querem continuar empregados mais do que isso.

    Dei uma uma riso curta, embora nervosa.

    — Certo… hã, então quem é o tal milagre que você arrumou?

    Mikael abriu a boca para responder, mas a porta atrás de nós se abriu de novo.

    — Foi mal, foi mal, sei que tô atrasado! — A voz veio antes da figura atravessar totalmente a porta. 

    Eu virei o rosto.

    Ele era… impossível de ignorar.

    Seus cabelos eram vermelhos como brasa recém-acesa. Os olhos, de um tom intenso demais para parecer natural, combinavam com os fios. A pele levemente bronzeada contrastava com o uniforme padrão da U.E.C., que nele parecia menos militar e mais ajustado ao corpo de alguém que sabia exatamente o que estava fazendo ali.

    — E aí, galera!

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