Capítulo 16 - Monstro em liberdade condicional
Era uma escolha que poderia alterar irrevogavelmente nossos destinos e a direção de nossas próprias responsabilidades.
Mikael, porém, ficou parado, absorvendo a enormidade do que acabara de acontecer.
Seu rosto tenso se transformou em um leve sorriso de relaxamento e alívio, cumprimentando-a com um aceno de cabeça.
A mulher, no entanto, demonstrava outra reação. Seu olhar pousou sobre mim como um bisturi prestes a cortar pelo espaço de um instante, mas foi o suficiente para me despir de qualquer ilusão de alívio. Não havia empatia em sua decisão. Eu não tinha sido poupado, apenas postergado.
— Já podem soltá-lo. — ordenou.
Dois guardas se aproximaram. Um deles parou diante de mim de maneira hesitante. A princípio, achei que ele fosse recusar. Sua mão pairando sobre o bracelete de contenção não se moveu. Era como se tocá-lo fosse o mesmo que tocar uma fera enjaulada, a ponto de arrancar a carne de seus ossos.
Ele me encarou nem como se eu fosse um prisioneiro ou um inimigo, me encarou como se eu fosse algo que não deveria existir. A expressão dele era uma mistura de nojo, medo e desprezo, e aquilo me atingiu com mais força do que qualquer choque que a coleira pudesse me causar.
— Não vai me morder, vai? — murmurou, com um tom cínico disfarçado de piada.
Apertou o mecanismo que destravou os anéis metálicos em meus pulsos. Eles se abriram com um estalo, e o peso se foi, mas a sensação de sufoco permaneceu. A coleira ao redor do meu pescoço era uma lembrança do que eu era para eles e continuava firme.
Friccionei os pulsos, que ardiam com marcas vermelhas profundas, e tentei aliviar a dormência nos dedos. Estava livre. Pelo menos era o que achava. Ao me colocarem de pé e me empurrarem levemente em direção ao corredor, no entanto, percebi que a liberdade era apenas uma confortável ilusão para os outros.
A prisão, por ora, era invisível. Eu ainda a sentia comigo.
Por baixo do peso da coleira, a verdade era insuportável sob qualquer ponto de vista: a eles, eu não era um soldado, nem um jovem em recuperação. Eu era uma aberração tolerada por necessidade. Um experimento ambulante.
Um monstro em liberdade condicional.
— Finalmente… — murmurei.
Em seguida, dois guardas me encaminharam para perto de Mikael.
— Cê quase cagou com tudo, mas valeu.
— Não me agradece ainda. Vem comigo.
A vice-líder me deu um olhar horrível mesmo antes de irmos, então tive que desviar para o outro lado.
— Por um segundo, achei que iam me deixar morrer naquela cadeira. — disse, acompanhando o ritmo dele.
Mikael soltou o ar pelo nariz, quase um riso cansado.
— A Agência só descarta o que não tem mais valor, e você ainda tem.
Aquilo ficou girando na minha cabeça por um instante.
— Valor… É assim que você chama? — Balancei a cabeça. — Então é isso que eu sou agora? Um recurso?
Ele diminuiu um pouco o passo, o suficiente para que eu alcançasse seu lado.
— Aqui dentro, todo mundo é alguma coisa que pode ser usada. Informação. Força. Experiência. — Lançou um olhar rápido na minha direção. — Você não é exceção.
Engoli em seco.
— Reconfortante ouvir isso.
O canto da boca dele se moveu.
— Ser funcional mantém você vivo. Mais do que muitos conseguem.
Ficamos em silêncio por alguns passos.
— E você? — perguntei. — Me salvou porque eu sou útil… ou porque achou que era o certo?
Ele não respondeu na hora, só empurrou uma porta pesada, segurando aberta para eu passar.
— Às vezes, as duas coisas são a mesma coisa.
Passamos por uma interseção de onde partiam duas portas de vidro grosso para salas aparentemente ligadas a laboratórios. Dentro, vi homens e mulheres de jalecos escuros e luvas pretas. Anotavam algo em pranchetas eletrônicas e observavam telas divididas em várias imagens de criaturas. Alguns dos rostos ali me pareceram jovens demais considerando o que estavam lidando.
O olhar de um deles se deteve em nós por um segundo, e tive a impressão de que poderia me reconhecer.
— Aquele é o setor de contenção passiva. — disse Mikael, notando meu olhar. — É onde armazenamos dados de comportamento, padrão de manifestação e estrutura de ruptura. Todos os Mephistos analisados passam primeiro por ali.
Continuei andando ao seu lado, mais devagar do que gostaria. Os passos ecoavam por todo o lugar e, embora o ar estivesse filtrado, tinha cheiro de fio queimado e ferro limpo. Mesmo sendo um lugar feito para conter o caos, nunca deixava a sensação de controle. A temperatura era baixa. Isso não se devia apenas ao termostato.
— E as pessoas que trabalham aqui?
— Treinadas para suportar o que os outros não podem, ou pra ignorar quando não suportam.
— Tem muita diferença?
— Uma linha tênue como quase tudo aqui.
O corredor estreitava um pouco depois da curva, e dois agentes parados ao lado de uma das colunas murmuravam algo entre si. Os dois vestiam o mesmo uniforme funcional, com o emblema da UEC estampado no ombro, mas a forma como um deles se apoiava contra a parede, braços cruzados e um cigarro eletrônico escondido entre os dedos, deixava claro que aquela conversa não tinha nada de oficial.
— Eu tô falando, cara, ela pediu com aquelas palavras mesmo. Só gozo se tu falar comigo em francês no meio da transa. Eu tive que falar bonjour, croissant, Eiffel Tower com um gemido mais feio que eu já ouvi.
O outro soltou uma risada curta e deu uma tragada rápida no cigarro.
— Porra, croissant?
— É, e ela gozou mesmo assim, o que me deixou com mais perguntas do que resposta. Tô com as marcas até agora. — Puxou a gola da camisa para mostrar uma linha vermelha na clavícula. — A mulher é do jurídico, pode acabar com minha vida profissional só com um carimbo. Mas, pra falar a verdade, valeu cada risco de demissão.
Mikael não parou, nem mudou o ritmo do passo. Apenas lançou um olhar seco na direção deles, que foi o suficiente. O da gola ajeitou a postura, soltou o cigarro com certa culpa e os dois se calaram.
Eu só segui ao lado, fingindo que não tinha ouvido nada. Mas era impossível não ouvir. A forma como falavam dela com aquele meio-tom de deboche e admiração doentia me deu vontade de perguntar se aquele tipo de abuso de poder era moeda corrente ali dentro.
— Muito profissional o clima por aqui. — murmurei.
Talvez naquela estrutura, tudo tivesse um custo. Até indignar-se.
— Você já tinha ouvido falar da gente antes de tudo isso? — perguntou de repente.
— Já ouvi falar num jornal que passava meio-dia.
— Espero que não tenha ouvido o mesmo de sempre. Estamos sem tempo pra convencê-los de que a gente não é o vilão da semana.
Subimos uma pequena escada lateral, passamos por um corredor com janelas largas — do outro lado, um pátio interno, vazio, com bancos de concreto e um jardim mal cuidado. Do lado de cá, mais uma fileira de portas fechadas, cada uma com um visor digital exibindo nomes de setores: Contenção, Registros Intermediários e Estabilização Térmica.
— Vocês sempre trabalharam assim… nas sombras? — perguntei, acompanhando ele pelo corredor estreito.
Mikael soltou um meio sorriso de canto.
— Nas sombras soa mais elegante do que realmente é. A verdade é que ninguém quer admitir que a gente existe.
Ele passou o cartão num painel e a porta abriu com um estalo seco.
— A gente aparece na imprensa, dá coletiva, solta nota oficial pra manter a população calma, afinal, somos úteis demais pra fecharem e inconvenientes demais pra defenderem em público. Não pega bem pro governo dizer que tem coisa acontecendo dentro do próprio país que eles não conseguem explicar.
Franzi a testa.
— E o resto das agências? FBI, exército… Esse tipo de gente. Eles sabem?
Ele deu de ombros, continuando em frente.
— Oficialmente, não. Oficialmente, somos só boatos. Teoria de conspiração. O tipo de coisa que o pessoal associa com disco voador e chapéu de papel-alumínio.
Olhou pra mim de lado, com um traço leve de humor.
— Não oficialmente… eles ligam quando a situação foge do controle e ninguém quer assinar o próprio nome no relatório.
— Então vocês são o quê, exatamente?
Ele pensou por um segundo.
— Somos o lugar pra onde mandam os problemas que não podem existir.
Permanecemos de boca fechada por um tempo, até que ele perguntou:
— Já ouviu falar da Área 51?
Assenti, incerto.
— Esquece metade do que contaram, porque aquilo lá é praticamente um ponto turístico perto disso aqui. Pelo menos lá eles fingem que estão estudando luz no céu. A gente lida com coisa que olha de volta.
Descemos uma rampa estreita logo depois do corredor e dobramos à direita, para onde apontava um letreiro na parede com a inscrição “ENFERMAGEM TÉCNICA 3-A”. O painel ao lado exibia parâmetros em tempo real, como pressão atmosférica da sala, temperatura controlada e status dos sensores Mephisto.
Mikael passou o crachá pelo leitor e a porta se abriu com um leve deslocamento de ar, mais silencioso do que se esperaria de um espaço onde supostamente tratavam de corpos danificados.
Em seu interior, tudo era excessivamente limpo, claro e esterilizado até no cheiro. A iluminação era constante, branca e intensa, mais importante para enxergar os defeitos do que para encontrar conforto. Ao fundo, uma mulher, sentada atrás de uma escrivaninha de metal opaco, mexia em um tablet com os óculos caídos no nariz. Seu cabelo era preto e preso em um rabo de cavalo apertado e usava o uniforme da enfermaria.
— Olha só. — disse ela sem tirar os olhos da tela — O menino milagre chegou inteiro.
Mikael deu um passo à frente e indicou com a cabeça que eu entrasse. Fui até o centro da sala, onde uma plataforma metálica me esperava. Atrás de mim, ouvi o clique da prancheta sendo deixada sobre a mesa.
— Krynt, né? — perguntou, levantando os olhos
Assenti.
— Trouxe seu bicho de estimação pra eu dar banho ou é só exame de rotina?
Mikael soltou um suspiro quase imperceptível.
— Segurança, Nancy. Primeira leitura desde que ele acordou. Não sabemos o que ficou depois da possessão. Quero parâmetros antes de tomar qualquer decisão.
— E você achou que seria legal me avisar antes? Ou preferiu deixar como surpresa no fim do plantão?
— Queria dados limpos pra vê o que tá rodando nele em repouso.
Ela largou o tablet de lado e se levantou da cadeira. Era mais baixa do que eu imaginava. Vinha com um sorrisinho leve nos lábios e um olhar que avaliava tudo ao mesmo tempo.
— Você já tá famoso nos corredores.
— Dizem muita coisa sobre mim.
— Isso é verdade.
Ela parou em frente à plataforma e tocou a lateral da estrutura. A base estalou leve, e braços mecânicos se posicionaram. Sensores desceram do teto como ferrões polidos. Ela apontou com o queixo.
— Sobe ali. Fica em pé… e tenta não entrar em pânico. Essa coisa lê padrão energético, atividade neural, temperatura… Um monte de coisa que nem me explicaram direito.
Parei diante da máquina, olhando os cabos que desciam do teto.
— E eu devo confiar nisso por quê?
— Apenas confia. Sou uma Médica de Campo, sei o que tô fazendo. A gente faz o que sempre faz. — Deu um meio sorriso, enquanto ativava o painel. — Eu amo o que faço, mas odeio quando me dão trabalho.
Aproximei-me da plataforma sem apressar os passos. A luz dos sensores acompanhava cada movimento meu, como se já estivesse me registrando.
Toquei a borda da plataforma com os dedos, respirei fundo e subi. A máquina fez um som baixo, ajustando-se ao meu peso. Nancy recuou, ativou a primeira sequência e os braços ao redor começaram a girar devagar.
Mikael cruzou os braços e fixou o olhar no visor.
O escaneamento havia começado. O que realmente interessava, porém, não era o que a máquina mostraria. Eles estavam esperando ver aquilo.
Ao meu redor, braços mecânicos se ativaram, com sensores diferentes em cada um. Um deles projetava um feixe laser que escaneava variações de calor e movimento ao passar lentamente pelo meu corpo; outro exibia uma luz pulsante. Pequenos braços com microagulhas começaram a girar, ainda que não se aproximassem.
Nancy, sentada em uma cadeira, programava tudo pelo painel lateral, com os olhos em um monitor tridimensional do meu corpo em tempo real.
— Frequência beta-alfa está elevada. Padrão atípico para estado consciente, mas dentro dos limites.
Senti uma vibração sob minha pele. A leitura de impulsos elétricos foi ativada por um dos sensores, e o sinal atravessava meu sistema nervoso à medida que mapeava cada extremidade. Um leve zunido se espalhou pelos meus ouvidos. Um segundo depois, o sensor craniano disparou.
— Tálamo com atividade acima do normal… Região límbica também. — Os dedos dela correram pelo painel, ajustando parâmetros. — Isso pode ser só estresse acumulado… ou pode ter outra coisa aí dentro ainda tentando se agarrar.
Um dos braços mecânicos se retraiu, e outro se estendeu com um disco prateado. Comecei a sentir minha pele sendo puxada, com a sensação de que algo estava tentando sair de dentro de mim. Um contorno ao redor, sutil e irregular, feito de energia negativa, flutuou brevemente na tela, não apenas no meu corpo.
Nancy afastou o rosto do visor, os lábios franzidos.
— Ele não tá possuído agora, mas o corpo dele ainda não voltou ao estado original.
Mikael estreitou os olhos.
— Isso quer dizer o quê, exatamente?
Ela afastou uma mecha do rosto com o dorso da mão, sem parar de trabalhar.
— Quando um Mephisto toma alguém, ele não ocupa só espaço físico. Ele altera atividade elétrica, química, até o ritmo em que as células se comunicam. — Tocou na tela, ampliando um gráfico. — No caso dele… isso foi longe demais.
Engoli em seco, sem entender se aquilo era bom ou ruim.
— Ainda tem traços ativos. — continuou. — Pequenos padrões que não desapareceram quando essa coisa deixou o corpo dele.
Mikael apoiou o ombro na parede.
— Tipo uma cicatriz?
Nancy apontou levemente para ele, satisfeita.
— Isso! Mas… — Olhou de volta pra mim. — Pense no cérebro como um circuito. O Mephisto passou energia por você durante tempo suficiente pra deixar caminhos novos. Mesmo sem a fonte, o circuito ainda existe.
Ajustou outro controle e o tom de voz se manteve estranhamente gentil.
— E teve a parada cardíaca. Isso muda tudo. Quando o coração para, o corpo entra num estado de emergência total. Quando volta… ele reconstrói funções do jeito que consegue. Nem sempre do jeito que eram antes.
Mikael franziu a testa.
— Então o organismo dele… se adaptou?
— Adaptou e, ainda por cima, incorporou o que sobrou. — Deu um pequeno sorriso de canto. — O corpo humano é desesperado pra sobreviver. Ele usa qualquer ferramenta disponível, mesmo as erradas.
Olhou direto para Mikael.
— Ainda existe energia residual circulando no sistema nervoso do garoto. Em baixa intensidade, claro, mas estável. Não é o suficiente pra indicar presença ativa, porém também não é algo que desaparece sozinho.
Cruzei os braços, desconfortável.
— Isso me torna perigoso?
— Isso te torna… diferente. — respondeu com honestidade. — Perigo depende de escolha, não de leitura de monitor.
Virada para mim, Nancy mostrou um sorriso duvidoso.
— O que, sinceramente, é o tipo de coisa que deixa minha vida muito mais interessante do que deveria ser.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.