Índice de Capítulo

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    — Caralho, tá realmente intacto.

    Não era exagero. Em volta, Leviathan exibia a ferrugem com orgulho e a miséria sem pudor, mas ali, a biblioteca parecia recém-saída de um sonho meticuloso.

    O bloco ocupava meia quadra, com base octogonal e três andares que subiam em degraus, cada platô coroado por janelas em arco e vitrais limpos demais para aquela vizinhança. A pedra — basalto escuro polido — ainda guardava brilho, e as junções, um rejunte de liga esverdeada, não mostravam a menor rachadura. No beiral, um detalhe que Ana não se lembrava: gárgulas em forma de peixes e aves estranhas que miravam o horizonte, como se vigiassem as nuvens e o que quer que estivesse nelas. Sobre o portal, quase escondida na sombra da moldura, uma inscrição mínima permanecia: Ad astra per scientiam.

    — Para as estrelas através do conhecimento — Ana murmurou, mais para si que para os outros, e a frase assentou nela com um reconhecimento antigo. Tocou a pedra, sentindo a temperatura levemente mais baixa que o ar.

    A porta dupla tinha trilhos embutidos e ferragens em perfeito estado. Bastou um encostar de ombros para ceder um palmo e revelar o saguão: um átrio hexagonal banhado por claraboias e os tão impressionantes corredores radiais com prateleiras móveis. Não havia passado tanto tempo nessa biblioteca quanto gostaria, mas ainda guardava boas lembranças.

    — Caramba… — escapou em tom honesto. — Eu devia ter vindo antes.

    Encostou as duas mãos nas portas para abrir por completo.

    “Vai ser engraçado se ele realmente estiver aqui”, pensou — e teve a resposta antes do segundo passo.

    — Selvagens não têm o direito de ver os meus livros!

    A voz não veio de dentro, mas sim de trás de uma das colunas externas, seguida de risos secos e o som de botas marcando território. Gente surgiu das sombras e dos becos como se a biblioteca fosse uma fogueira e eles, mariposas armadas: lanças curtas, mosquetes consertados com arame, olhos febris que, por incrível que pareça, também machucavam.

    Ana suspirou de leve quando o viu. 

    “A idade não perdoa”, deixou escorregar no pensamento junto de um sorriso melancólico.

    O homem que se destacou do grupo tinha trinta e poucos e o peso de vinte a mais. Tranças longas, mal contidas, batiam na cintura a cada passo. Onde deveria haver um olho esquerdo, havia um monóculo enxertado: múltiplas lentes em aros concêntricos, fixadas na carne por rebites escuros — grotesco, funcional, obcecado. A pele era um pergaminho de cicatrizes em forma de runa; frases cravados a ferro cobrindo braços, peito, clavículas. Havia músculos também, muito mais do que Ana se lembrava.

    Seria possível ver ainda mais se não fossem os dez livros que pendiam em correntes dos ombros, cintura e antebraços com suas páginas assobiando ao vento.

     — Bibliotecário? — Alex prendeu o ar sem querer.

    O olho bom do homem arregalou, e a risada voltou, mais alta. Ele girou sobre o próprio eixo, as correntes cantando com o movimento, e avançou. Todos que estavam com ele avançaram um passo também.

    — Quanto tempo não me chamam assim! — A alegria estourou num segundo, secou no seguinte. O rosto endureceu, o monóculo clicou ao ajustar as lentes. — Quem são vocês?

    Ana levantou a mão, impedindo que qualquer um falasse. Seu olhar cruzou com o de Alex antes de voltar à figura à frente.

    — Realmente não lembra de nós, Brayner? — O sorriso veio com uma polidez cuidadosa, o mais carismático que ela conseguia ser. O mantendo no rosto, deu um passo à frente. 

    O bibliotecário estreitou o olhar, levou a mão ao queixo numa pose estudada, rodeou a dupla bem devagar. Tocou em Alex e recuou o dedo ardido com uma careta curta. Voltou a encarar Ana.

    — Ironia Divina… Ana?

    — Nós mesmo, velho amigo — A rainha caída estendeu a mão.

    Ele quase seguiu o gesto. A mão subiu, a expressão abriu como se realmente estivesse feliz, a memória piscou por trás daqueles olhos cansados. E então a cidade atrás da antiga companheira voltou ao seu foco. Passou por cada rosto do bando atrás dela, pelos dedos firmes nos gatilhos, e até por Niala sobrevoando lá no alto. Por fim, viu as botas sujas de sangue vivo.

    — Achei que eu já tinha deixado claro que não quero mais festivais na minha cidade. — A palma de Brayner bateu na mão de Ana com força.

    — Isso já não é comigo, velho amigo. — Ana manteve a mão erguida, mas também ergueu uma sobrancelha. — Sua cidade?

    —  SIM, MINHA! — berrou de repente o bibliotecário. Os vasos de seu único globo ocular se avermelharam tanto que pareciam prestes a explodir. O monóculo clicou duas vezes. — EU OS SALVEI. EU DEI A VERDADEIRA LIBERDADE PROS QUE QUEREM, E PROTEÇÃO PARA OS QUE BUSCARAM POR MIM.

    — Mas isso aqui tá um inferno… — Alex disse, cruzando os braços.

    — Um inferno? Não, longe disso. Gosta de matar? Que viva uma dura vida no mercado de carne. Quem quer prazer pode caçar facilmente algumas putas em nossos bordéis! Quer venerar a porra de um deus qualquer? Vá espalhar suas loucuras em seu devido canto! — Abriu os braços em um grande gesto, fazendo as correntes voltarem a tintilar. — Quer paz? Sente e leia ao meu lado.

    — Isso é só anarquia disfarçada.

    — Não. — Ele sorriu com a metade que ainda sabia sorrir. — Não, não, não. Pessoas são livros abertos. Lidas direito, ficam felizes. Um caos organizado já não é caos. Anarquia é o que vocês andam vendendo com as suas festas de morte. A baleia sofre, o povo sofre! — O monóculo clicou de novo, dando mais três voltas. Brayner roçou a lombada de um volume preso ao ombro, puxou-o com reverência. — E o povo não quer mais sofrer.

    Ele começou a ler.
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