Capítulo 241 - Spes

O povo da baleia parou.
Olhos antes febris agora se voltavam, um a um, para a pilha de corpos. Ninguém falou ou sequer respirou alto. Apenas ouviram.
Notas.
Simples, espaçadas, mas definitivas como sentenças. Uma melodia que parecia antiga, mas sem lugar em memória alguma. Apesar do silêncio contemplativo, tudo vibrava — poeira, prédios, ossos.
Era como se o mundo estivesse escutando também.
Brayner reagiu primeiro. A coluna enrijeceu. Os dedos tremeram de leve. O monóculo rodou tão rápido que rangeu. Ele fechou os olhos e apertou os dentes.
— Não… — sussurrou, sem direção.
Num gesto brusco, puxou outro livro com força suficiente para rasgar a corrente que o prendia. Os demais volumes voltaram a girar ao seu redor em órbitas irregulares. As runas tatuadas em seu pescoço se acenderam como brasas molhadas.
O grito veio num tom desesperado que todos lembrariam em histórias do futuro. Pelo menos os que ficassem vivos.
— Capítulo sete. Subterfugium!
O som que seguiu foi pura ruptura. Um rugido sem garganta e sem eco algum.
A resposta foi imediata.
Todos os residentes de Leviathan foram lançados para trás ao mesmo tempo, como folhas sacudidas por uma tempestade. Não mana, mas saltos involuntários, pernas traídas pelo próprio corpo. As armas caíram primeiro. Depois os cadáveres que carregavam com cuidado.
Por um momento, o espaço repleto de morte ficou limpo. Puro, até.
Foi ali que surgiram.
Do chão encharcado, lâminas se ergueram em enormes arcos, como pétalas escuras abrindo ao contrário. Afiadas, sujas, pulsando uma mana pútrida que não devia existir.
Os corpos foram dilacerados com força suficiente para gerar uma névoa espessa, flutuando com lentidão desrespeitosa. Um vermelho denso demais para ser só sangue. O tipo de vermelho que mancha até o pensamento.
A música se intensificou — notas graves e arrastadas como lamentos em cavernas. Seguiam-se ecos agudos, melancólicos, como se chorassem. E então, risadas. Todos encaravam a cena, estáticos. As mãos corriam às espadas por instinto, só para recuarem com um arrepio ao notar de onde vinha o som.
Seus mortos — esposas, filhos, amigos, companheiros de briga e de cama — ainda estavam no chão, mas os encaravam de olhos abertos e sorrisos com dentes demais. Não se moviam, não de verdade, apenas riam. Riam. Riam como se assistissem à mais cômica das peças.
— Afastem-se! Saiam de perto disso! — O bibliotecário urrou, virando páginas com dedos ansiosos. Mas nem todos ouviram a tempo.
As lâminas, antes ascendentes, desceram em um novo arco. O corte de cima abriu carne viva e morta em igual medida. No entanto, mal foram vistas, pois o homem coberto pela intensa chama negra roubou toda a atenção.
Caminhava devagar, olhos fechados mas claramente inquietos por baixo das pálpebras. Já não carregava sabres, mas as mãos incandescentes pareciam ainda mais perigosas. Havia serenidade em cada gesto… e o mesmo sorriso grotesco dos cadáveres sobre os quais pisava.
O fogo que emanava de sua pele, mais intenso do que nunca, imitava a fumaça negra que acompanhava os outros que vinham logo atrás. Subia pelas pernas, rodando o torso, envolvendo os ombros. Logo, se infiltrava pelas narinas, se aninhava nas bocas entreabertas. Um a um, os piratas tomados por ela abriram os olhos, suas pupilas negras e corpos estranhamente tortos arrancaram náuseas até dos veteranos.
— Macta… — não passou de um sussurro fundido a melodia fria, mas ecoou alto demais.
Com passos muito mais tortos do que alguém que viveu meses na instabilidade do mar deveria ter, Alex começou a correr. Um vulto tenso e irregular, movido por algo maior que instinto. Ou menor. Uma força primitiva, talvez apenas um reflexo perverso de vontade.
A ordem de Brayner veio ao mesmo tempo.
— Capítulo quatro. Scutum! — As correntes giraram com tanta força que a lombada do livro atingiu seu próprio rosto.
Uma aura opaca se expandiu das páginas abertas, desenhando um campo de contenção ao redor dos seus soldados. Não foi suficiente.
O punho de Alex girou no ar com um estouro seco. A cabeça de uma guerreira virou de lado num ângulo impossível, a expressão congelada em um susto. O escudo de energia retardou o impacto, mas não o impediu, tracejando a parede de pedra com um espirro escarlate.
O cheiro de carne queimada chegou quando Alex já partia para o próximo. Desta vez, a manopla rasgou a mandíbula de um adversário com força bruta. O sangue vaporizou antes de cair.
Os gritos irromperam de toda parte quando os outros chegaram. A música também crescia conforme os piratas empurravam os caídos para o lado e se jogavam na batalha como feras dançantes.
Cortes em curvas impulsivas. Improvisos brutais. Lâminas que pareciam pesar nada.
Um deles cravou a espada no chão, pisou no cabo e usou como trampolim para quebrar a clavícula de um guerreiro com um chute duplo. Outro rodopiou três vezes antes de decepar dois de uma vez só, rindo, rindo, rindo.
As nuvens por onde Leviathan passava tingiam-se de uma cor cada vez mais nojenta.
— Capítulo cinco! Cordis! Capítulo oito! Ratio! Capítulo um! Concordantia!
O monóculo começou a ferver. As runas pulsavam com faíscas enquanto deixavam sua pele cada vez mais envelhecida. Brayner girava em círculos, as correntes se estendendo como serpentes presas aos punhos. As páginas dos livros já não queimavam só nas bordas. Pegavam fogo por dentro. Deixavam rastros dourados no ar, como se cada linha gritasse.
Ao seu redor, a insanidade era bilateral.
Uma briga de cães que não cessou… nem quando ela apareceu atrás dos outros.
Os olhos tão negros quanto os deles. Mas os dedos eram muito mais controlados conforme deixavam rastros viscosos nas cordas do alaúde.
— Vocês não vão… profanar isso aqui!
Ana encarou os berros do líder inimigo, mas não respondeu de volta. Sorriu de forma tímida, depois zombeteira.
— Capítulo nove! Spes!
O urro dele rachou os mosaicos das janelas. Lágrimas desceram por suas bochechas, mas os rostos feridos de seus soldados, por alguma razão, se iluminaram.
— Spes… uma esperança falsa machuca mais do que nenhuma. — Ana enfim falou. Desceu um degrau encarando os livros cada vez menores. — Tá ficando sem capítulos, meu amigo.
Ele cambaleou dois passos e cuspiu sangue negro, as veias do pescoço pulsando como cordas esticadas. Caiu de joelhos.
Os dedos da pirata falharam por um segundo com a cena, antes de recomeçarem em uma nova música, agora mais calma e dolorosa. Uma melodia gentil, porém ainda mais fria.
— Eu os salvei, Ana… EU OS SALVEI!
Os olhos do povo de Leviathan tremeram. Alguns choraram sem saber por quê. Outros riram. Alguns também caíram, tal como seu líder. Aqueles que ainda tentavam lutar tropeçavam nas próprias pernas, os escudos de aura estalaram com pequenas rachaduras. A cada nota, uma nova fissura.
Alex derrubou outro oponente. Ainda ria, mas também compartilhava as lágrimas de quem matava.
— Capítulo nove! Spes! Spes! Spes!
As runas no peito de Brayner brilharam uma última vez, e se queimaram logo em seguida. O campo de batalha pareceu sorrir gentilmente.
Ele, no entanto, tossiu mais sangue em um som pegajoso. Uma a uma, as correntes também cederam, aumentando o fardo sobre seu corpo. Ana avançou alguns metros. Parou de tocar sem aviso.
Seus piratas vomitaram assim que a última nota se desfez no ar. Não estavam melhores que seus oponentes. Talvez, só… mais tristes.
— Acabou, Brayner.
Um som fraco de papel se rasgando escapou das páginas abertas pelo chão. O monóculo grunhiu, quase se desprendendo da carne derretida ao seu redor.
Ele ainda tentava falar. Tentava ler. Mas a boca se abriu sem som.
Ana desceu o último degrau.
Aviões cortaram o céu naquele instante, fazendo seu casaco chicotear furiosamente como uma bandeira no vento.
— Chegaram tarde demais — murmurou para ninguém. — O festival acabou.
Brayner riu.
Baixo. Depois mais alto.
O som, mesmo frágil, incomodava.
— O que foi? Discorda, bibliotecário?
Ele riu mais alto ainda. As mãos trêmulas já mal sustentavam o próprio peso. Ana franziu os lábios. Não gostava do que via. Brayner esticou a mão em direção a um dos livros.
A pirata suspirou e pisou nos dedos dele.
— Já chega.
Ele não ouviu, ou não quis ouvir. Riu com mais força.
O monóculo girou loucamente, e o globo ocular falso que repousava em seu interior — uma esfera cravada de runas minúsculas — rolou até o chão.
Ana se abaixou e o pegou. Girou entre os dedos, inspecionando as ranhuras microscópicas.
— Coisinha curiosa… — Jogou para cima, pegou no ar. Era mais pesado do que parecia. Deu de ombros. Estava pronta para guardá-lo no bolso quando Brayner se jogou para frente com um espasmo animalesco.
Ela quase perdeu o equilíbrio.
— Capítulo… dez… — A voz rouca mal saiu enquanto o homem mordia o livro que mal conseguiu alcançar. — Sacrificium.
A rainha mercenária franziu a sobrancelha, depois arregalou os olhos.
O corpo dele desfez num estalo úmido.
Onde havia Brayner, agora havia apenas uma massa rosada. Viva. Repugnante.
E então… nem isso.
A massa desapareceu.
— Filho da puta…
Ana caiu de joelhos.
Não tinha como ser de outra forma, afinal, usou toda a força que restava para segurar o espinho de carne e osso que atravessou, de forma até que artística, seu olho direito — cravado fundo, na beira de estourar o crânio por completo.
A outra mão, sem tanto sucesso, tateava o peito com urgência, mas era difícil dizer se tentava conter o sangue ou entender o tamanho do buraco deixado pelo segundo projétil orgânico.
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Estou meio sem tempo e não estão saindo resultados bons…

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