Capítulo 238 - Entrada entre restos

— Podem pelo menos soltar as cordas?
— Não. — A resposta de Alex veio sem floreio. Ele puxou e obrigou Duque e Carlos a acelerarem o passo.
Carlos resmungou, mas não testou a sorte. Seguiu no ritmo apressado do pirata.
Ana vinha atrás de braços cruzados. Os olhos não estavam nos dois prisioneiros, nem nos tripulantes que os acompanhavam, confusos o suficiente para manter silêncio, tampouco em Niala que sobrevoava alto, frustrada pela possibilidade de Collectio cair ao perceber que o roubo de mana da embarcação não conseguia, nem de longe, competir com o enorme consumo da baleia.
Olhava as casas.
Diferente do que imaginaram, não estavam vazias. Longe disso. Havia vida por toda parte; não a vida bonita, outra que nasce dos vãos sujos. Rostos fundos, olhos opacos espiando por trás de colunas rachadas. Cortinas improvisadas que se afastavam um dedo e voltavam. Crianças fuçando sacos de lixo com incrível competência de quem sabe separar o que mata do que só adoece. Quando o grupo se aproximava, sumiam como pardais: três passos, um olhar, sumiço.
Uma delas, uma garota de não mais de sete anos e um pouquinho de coragem emprestada da ignorância, não correu. Ficou parada no meio da passagem, só os dedos mexendo, encarando um por um. Ana retribuiu o olhar por um segundo que durou mais que o necessário.
— Pega. — A rainha mercenária bufou e um pedaço de carne seca foi jogado em um arco. Levava no bolso por conveniência, mas não pretendia ficar tempo o suficiente ali para a fome bater de verdade.
— Não alimente eles — Duque disse lá da frente. A resposta foi mais um puxão de Alex, mas Ana levantou uma mão.
— E por quê?
O homem apontou com o queixo. Dos cantos mais escuros, outros olhos brotavam, um a um, como fungos depois da chuva.
— São baratas. Alimenta uma, aparecem as outras.
O ar ficou mais denso. Dois, três passos adiante, a sombra da arcada pareceu encolher. Um adolescente encostou um facão no peito. Uma mulher magra fez um gesto rápido. A cidade, inteira, aproximou-se meio palmo.
Ana respirou fundo e voltou a andar. Deu um passo. O segundo não veio: algo respingou na bota. Sangue. Pouco, mas recente. Virou a cabeça devagar — não sentia perigo ali, não tinha motivos para se apressar. Onde a menina estava, uma poça carmim se alargava obediente. O corpo jazia a um metro e meio, torto de um jeito não muito atrativo. A carne seca, essa, já não se via.
— Eu avisei. — Duque deu de ombros, sem culpa. Carlos baixou o rosto.
Ana apoiou as mãos na cintura. Passou os olhos por tudo com uma visão mais dura.
— Matem todos até acharem a minha carne — disse sem elevar a voz.
Dessa vez, Alex não perguntou o habitual “tem certeza?”. Largou os guardas amarrados e fez um gesto curto para os piratas. O que se seguiu foi o som do aço sendo desembainhado.
“Ele tá se tornando um ótimo líder”, pensou Ana, aprovando com um aceno quase imperceptível, enquanto os passos pesados começavam a entrar nas vielas.
Aproximou-se dos dois e, num puxão seco, estourou as cordas.
— Parece que suas explicações não foram suficientes. Venham comigo.
— Não tem o que explicar. Tá tudo fodido. — Carlos tomou a frente enquanto passava as mãos nos pulsos machucados.
— Já vi cidades fodidas. — Ana retomou o passo. — Cidades fodidas não vão de uma utopia para um inferno em cinco anos. Isso aqui é pior.
— Cinco anos? — Duque ergueu os olhos, espantado. — A senhora já veio aqui antes?
O respeito deslocado do jovem guarda a fez rir de leve.
— Já, sim. Mas isso já não importa. — Manteve o passo firme. — Quero uma explicação decente. E rápida. Não tenho motivos pra manter os dois respirando se continuarem se recusando a falar.
— E desde quando os desgraçados de Mare Euphoria deixam alguém vivo? — O guarda mais velho resmungou baixo, mas não o suficiente para esconder. — Faz um favor pra todo mundo e termina logo com essa palhaçada.
Duque empalideceu, mas engoliu a saliva e acenou em concordância. Resistiu o quanto pôde, no entanto, relutante, começou a falar.
— Não tem muito segredo, moça. A culpa é de vocês. Desde que o Pedro morreu, tudo começou a…
— Pera, pera, pera — A rainha mercenária olhou pra ele. — O Pedro tá morto? O taverneiro?
Carlos fuzilou o companheiro com os olhos, mas Duque continuou.
— Tá sim. Morreu no festival do ano passado. O tiro não tava nem mirando nele, foi puro azar.
— Puta merda… — Ana apertou as bochechas, conteve o sorriso que não combinava com a situação. — Se aquela idiota soubesse disso…
Balançou a cabeça, dispersando os pensamentos inúteis.
— Bom, quem tá no comando hoje em dia?
— Depende. Aqui no Lixão… ninguém de verdade. — Duque olhou em volta, como se o lugar tivesse ouvidos.
— Lixão?
— Foi o nome que mais pegou. Antes era o mercado de carne, mas não sobrou muita carne pra venderem. — Carlos cedeu, a contragosto. — Quando o Pedro caiu, a distribuição de comida caiu também. Muita coisa desceu pra parte baixa da cidade, pouca coisa subiu. Aqui é onde o resto dos outros distritos… fermenta.
Ana estalou os dedos, ouvidos ainda atentos.
— Aqui, se prestar atenção suficiente, tu tá segura. — Carlos suspirou e apontou uma viela que sumia no breu. — Se seguir pro antigo portão da prefeitura, vai trombar com a Confraria do Pulmão Quieto. Mesmo no festival, não recomendo ir lá. Não mexem com quem não mexe com eles.
Ana estalou a língua. O guarda continuou, agora apontando para o mercado central.
— Lá fica a Família. Bom… também não é um lugar legal.
Ana riu de canto.
— Ótimo. E vocês são de onde?
— Ala norte.
— Só “ala norte”? Nenhum nome bizarro e um aviso dramático?
Carlos sorriu de verdade pela primeira vez. Duque, logo ao lado, sorriu junto.
— Não tem muita coisa pra dizer sobre aquela parte. Se quiser atacar, é realmente o melhor lugar. Mas se encostar na biblioteca… você vai morrer
Ana levantou uma sobrancelha e massageou o rosto, mas os dentes apareceram mais uma vez. Os músculos das bochechas já doíam de tanto que estava sorrindo hoje.
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Estou meio sem tempo e não estão saindo resultados bons…

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