Índice de Capítulo

    As harpias subiram aos céus. O coro estridente alcançou os ouvidos de Jonas antes de uma dúzia de silhuetas escuras surgir de entre as densas nuvens, revelando as criaturas aladas que planavam lá. Águias gigantes, do tamanho de pequenos aviões, erguendo suas asas, abrindo os bicos cobreados e reverberando gritos agudos que ardiam-lhe os ouvidos.

    Desciam em espirais sobre as rochas do monte, em mergulhos rasteiros, antes de erguer vôo novamente, aproximando-se cada vez mais de onde o grupo estava escondido, entre arbustos e rochas. Passando por eles e desaparecendo enquanto circundavam a encosta.

    — Que porra é essa, não era para elas estarem no ninho ou em qualquer outro lugar agora? — perguntou Jonas, tapando os ouvidos frente ao som ensurdecedor.

    — Elas deviam, e estavam! É a época de procriação delas, tenho certeza — ressaltou Morda com uma voz incerta.

    — Algo deve ter acontecido no ninho — apontou Leovard, com a espada já desembainhada em sua mão.

    — Será que tem haver com a harpia que vimos mais cedo? — indagou Jonas.

    — Não importa, temos de sair logo desse lugar o quanto antes — alertou Keren, apreensiva.

    Leovard concordou com um lento aceno de cabeça.

    — Temos de nos mover de forma cuidadosa, usando o que estiver ao redor para nos encobrir — instruiu ele. — Jonas, preste atenção à retaguarda, keren, atenção a direita. Morda, a esquerda é sua, queime qualquer harpia que surgir desse lado. Ficarei com a vanguarda, me sigam pisando onde eu pisar, entenderam?

    Um aceno conjunto respondeu a pergunta. Jonas engoliu em seco ao concordar.

    — Então havemos de partir.

    Com passos lentos e cuidadosos, mais do que qualquer outro que Jonas já houvesse dado, eles desceram, usando a sombra dos rochedos e a cobertura dos arbustos espinhentos. Escondendo-se ao menor sinal de aproximação das aves.

    Jonas ouvia cada crocitar próximo e distante, avisando a todos quando elas se aproximavam.

    A partir da terceira vez que isso ocorreu, Leovard passou a ordenar que todos se escondessem quando Jonas o dissesse para fazê-lo, facilitando o deslocamento por entre o labirinto de rochas.

    O caminho que levava ao sopé do monte parecia interminável. Após cada curva, uma nova descida surgia. Suor regava sua testa. A cada passo, ele temia que as harpias ouvissem o esmigalhar de pedregulhos e areia sob seus pés. Ainda que soubesse que as criaturas não tinham uma audição como a sua, ou ao menos, torcia para que não.

    Uma coisa porém só percebeu quando quase topou contra Morda ao se esconderem de uma das aves gigantescas, passando a pouco mais de vinte metros à sua direita.

    A garota não cantava, ou fazia qualquer som que Jonas se acostumou a ouvir vindo dela nos últimos dias.

    Estava muda.

    Leovard olhou para eles e Jonas maneou a cabeça, intuindo que podiam prosseguir.

    Lentamente eles desceram pelo caminho sinuoso e estreito que era a trilha do monte, chegando a um entroncamento entre caminhos, dos quais um levava para o sopé abaixo, enquanto outro seguia para outra parte do monte. Seguiram o que levava para baixo, para a segurança de sua carroça. As aves continuavam a planar acima. Descendo em rasantes mergulhos na planície abaixo e entre os rochedos distantes da encosta. Suas sombras cobrindo os céus, e seus bicos soltando sons estridentes.

    Estão se acalmando, aliviou-se Jonas ao notar os sons diminuindo em intensidade e quantidade. Então ouviu o barulho de passos apressados batendo contra o solo, vindos pelo outro caminho a qual não haviam tomado.

    Jonas olhou para trás e viu uma reconhecível silhueta correndo em sua direção. E sobre ela, grandes asas negras se estendendo, enquanto a harpia se aproximava, estendendo suas enormes garras.

    — Socorro — Erik gritou, saltando aos tropeços pela descida, quase caindo a cada passo. A harpia a poucos metros dele planando um pouco acima das rochas, que ofereciam pouco espaço para sua investida.

    — Puta merda — xingou Jonas, olhando para aquilo.

    — O que ele faz alí? — resmungou Keren em tom incrédulo.

    A Harpia se colocou acima de Erik e tentou apanhá-lo com suas garras. Ele se jogou para a frente, rolando pelo chão para escapar de ser capturado.

    Jonas se preparava para correr em sua direção quando foi segurado por Leovard, que o agarrou por trás de forma relativamente fácil.

    O cento virou o pescoço e gritou, olhando para Morda.

    — Rápido, queime-a.

    A ruiva ergueu seu cajado, que momentos antes havia servido como uma lanterna, e cantarolou rapidamente uma melodia familiar a Jonas. Uma das muitas que ela havia murmurado.

    Uma labareda de meio metro se formou na ponta do cajado, enrolando-se em uma espiral de chamas à frente da maga, que com outro melódico murmúrio, o lançou, como se fosse um disco rodopiante.

    Acertou a cabeça da harpia, quando esta estendia seu longo pescoço contra Erik. Um som de agonia se propagou entre os rochedos, enquanto a grande ave se contorcia. Um cheiro chegou aos seus narizes, como se milhares de fósforos fossem queimados e apagados ao mesmo tempo.

    Erik olhou para a criatura por um instante antes de disparar para longe de seu alcance. Ela não o seguiu, não parecia ser capaz. Batia a cabeça contra as rochas em volta, esfregando nelas a face esfumaçada. Erik se achegou junto a eles.

    — O que fazes aqui, devia estar na carroça, vigiando nossas coisas — rugiu Leovard, dando passos enérgicos em direção ao amigo de Jonas.

    — Tive de fazer algo — explicou-se Erik.

    —  E o que seria? — desejou saber Keren, com um atípico tom cínico em sua voz sempre tão calma. Olhava para os braços do rapaz, que carregava uma bolsa de pano.

    — Eu lanço outro? — Alheia a conversa, Morda perguntou, estendendo o cajado para a grande ave em agonizante confusão a poucos metros de onde estavam.

    — Não, preserve sua mana — ordenou Leovard, e então se voltou mais uma vez para Erik. — Discutiremos isso mais tarde — Girou sobre os calcanhares e mandou que todos corressem.

    Estavam fazendo barulho demais, percebeu Jonas.

    — Não devíamos ser mais silenciosos? — questionou ele.

    — Não precisámos, elas já sabem que estamos aqui — respondeu Keren com voz ofegante.

    E os sons assobiantes que viajaram pelo ar confirmaram isso. Distantes, sim. Porém cada vez mais próximos. E todos os que corriam junto a Jonas pareciam perceber isso.

    O fim da trilha pedregosa estava à vista quando outra harpia surgiu nos céus à frente.

    Todos pararam e Leovard gritou para Morda que apontou seu cajado na direção do grande alvo, porém Jonas ouviu um som na retaguarda do grupo. Como se o ar estivesse sendo rasgado acima deles. Então olhou para cima:

    — Pro chão — gritou, momentos antes de outra Harpia mergulhar sobre eles, levantando uma nuvem de poeira. Conseguiu se jogar para o lado a tempo de escapar do ataque.

    Quando olhou em volta, preocupado com os outros. Viu as garotas caídas a distância, e a harpia sobre Leovard, prendendo-o no chão com suas garras, que afundavam-se contra o casacão acolchoado.

    O cento resistia. Estava com a espada incandescente na mão, desembainhada sabe-se lá quando, estocando a ponta da lâmina contra o ventre do animal, e mantendo o bico afastado de sua cabeça, desferindo cortes a cada vez que a harpia tentava bicá-lo.

    Jonas levantou-se e desembainhou a espada em sua cintura, pronto para ir em seu auxílio. Porém ouvir outra vez o som de ar sendo rasgado o paralisou.

    — Cuidado — Ouviu a voz de uma mulher gritar e virou seu rosto na direção em que sabia vir a Harpia. Que estendia suas garras contra Jonas, aproximando-se cada vez mais.

    Então ele sentiu um corpo bater contra o dele, tirando-o do caminho. A ave bateu contra o solo, arrancando terra do chão pedregoso.

    Jonas caiu no chão ao lado da criatura, com Erik em cima de si.

    — Essa foi perto — disse o amigo, já levantando. Ele não carregava mais a bolsa.

    Estendeu a mão para a harpia, que se recuperava do mergulho falho, e apertou os dentes, como em um grande esforço. Jonas viu a lâmina de ar sair de sua palma aberta e viajar de forma rápida até seu alvo, errando-o de forma milimétrica.

    Plumas voaram quando a harpia foi atingida de raspão na cabeça, arrancando seu topete de penas. Uma linha de poeira surgiu quando a lâmina acertou a rocha repleta de raízes atrás do animal.

    — Porra! — queixou-se Erik.

    Jonas levantou e ouviu uma melodia. Olhou rapidamente para o lado, onde Morda fazia seu cajado brilhar em uma mão, enquanto segurava o que parecia uma fagulha incandescente na outra. Ela então estendeu o braço, como se lançasse algo e a fagulha estendeu-se de sua mão, alongando como uma corda. Morda puxou de volta, e a linha de fogo ricocheteou como um um chicote contra a Harpia que mantinha Leovard preso ao chão.

    A ave grasnou de dor, contorcendo-se enquanto voltava sua atenção para a garota ruiva que a atacava. Isso pareceu dar tempo para Leovard, que num rápido movimento, acertou as pernas da harpia com sua espada incansavelmente, produzindo um chiar e um leve aroma de carne queimando.

    A ave deu um salto para trás e soltou o cento, que rapidamente se recompôs, entrando em uma postura de combate, enquanto Morda continuava a estalar seu chicote de brasas contra a criatura.

    Jonas não viu Keren, mas não teve tempo para pensar nisso.

    — Vocês dois — gritou Leovard sem virar o rosto. — Daremos cabo desta. Mantenham a outra ocupada, e não morram — vociferou, e mesmo que não tenha dito seus nomes, Jonas sabia que se referia a ele e a Erik.

    — Ouviu o homem. Mas então, o que a gente faz? — disse Erik com um sorriso sem graça enquanto assistiam a harpia se aproximar de peito estufado e bico aberto. Jonas estendeu a espada em sua frente.

    — Você é o cara das ideias, não? — brincou, tentando não pensar nas mãos trêmulas.

    Das péssimas ideias, se corrigiu internamente.

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