Índice de Capítulo

    A empunhadura era de couro negro com entalhes metalicos cor de cobre no pumo e no pequeno guarda mão losangular. A lâmina, do tamanho de seu antebraço, tinha um fio curvo como uma vírgula, feito para cortar. Estava posicionada centralmente na mesa, de forma que fosse vista primeiro por quem passasse para atrair a atenção da freguesia. Atraiu a atenção de Jonas, ao menos.

    — Se deseja apenas olhar, pode fazê-lo de longe — grunhiu o vendedor, entre fungadas de seu grande nariz vermelho.

    Jonas levantou a cabeça da coleção de armas espalhadas pela mesa de madeira e tentou encarar os olhos do homem. Embora sua atenção se voltasse para o nojento nariz onde um rastro de ranho escorria por uma de suas fossas bulbosas, sendo puxado de volta para a entrada a cada fungada.

    Olhou novamente para a espada, suspirou e apontou com a mão para outro lugar da mesa.

    — Quero algumas adagas e uma pedra de afiar — disse, afastando os olhos para qualquer direção que não fosse o verde claro escorrendo do vermelho.

    O vendedor fungou mais uma vez e enfiou a mão embaixo da bancada. Pegando a pedra de afiar e a pondo na frente de Jonas.

    — Quantas adagas? — perguntou de forma rude.

    — O Eric disse que era bom comprar quantas, cinco, quatro? — Leandro sugeriu, com uma mão no queixo. Sua tez estava pálida devido aos dias preso à cama, mas estava em pé e andava, finalmente.

    — Vamos comprar quatro, só estamos em quatro mesmo.

    E você não vai caçar por um tempo, refletiu, contando as moedas em sua bolsinha.

    Mas está andando!

    Jonas alegrava-se mentalmente cada vez que pensava nisso. Mesmo que mancasse de uma perna, seu amigo estava andando novamente. Não poderia sentir-se mais grato a Keren por isso.

    Após retornarem das colinas uivantes, a fármo se empenhou em produzir os medicamentos a base das ervas matites colhidas. Produziu uma pomada, a qual passou sobre o ferimento. Limpando-o antes com vinho quente, e o fechando depois com gordura de ovelha. Repetiu o processo por duas semanas, o que fez a perna de Leandro aos poucos retornar ao tamanho e cor normais.

    Porém houve outra aplicação para a ervas. A qual Eric gostava muito de lembrar Leandro.

    Para limpar os resquícios do veneno no sangue, Keren extraia a seiva da planta, misturando-a com outros óleos. Depois, colocava o resultado da mistura em uma bolsa que funcionava como uma espécie de saco de confeitar, despejando o seu conteúdo ao ser apertada. E então, tão naturalmente quanto uma mãe dando de mamar a uma criança de peito, espremia o conteúdo da bolsa dentro do orifício mais vulnerável de Leandro.

    Dizia que desse modo, o medicamento faria efeito mais rapidamente.

    Embora estranho, a eficácia de tal método pareceu ter efeito. Pois Leandro em poucos dias já retornava a si, não tendo mais febre, conversando e voltando a comer sozinho. E três dias depois da toxina ser limpa de seu sangue, Keren disse que ele já poderia andar sem problemas.

    Graça abraçou a mulher ao ouvir isso, e Jonas não conseguiu esconder o sorriso de alegria e alívio. Eric ofereceu algumas moedas de cobre a mais.

    Keren recebeu de forma relutante, tanto o abraço, por conta da insistência de Graça, como também o cobre, pois não desejava falar ou se dirigir a Eric. Deu algumas instruções sobre o que Leandro deveria comer, e sobre seu processo de recuperação muscular, e então partiu, despedindo-se. Não retornando mais nos outros dias.

    Jonas desejava manter o contato com a fármo, pois não desejava que algo como aquilo ocorresse de novo. Ou pelo menos, desejava ter por perto uma pessoa que pudesse curá-los caso precisassem.

    Porém não encontrou mais a mulher. Nem no prédio da guilda, nem no corredor verde onde se encontravam as lojas de ervas e especiarias medicinais.

    Beuha era um resto de cidade um pouco maior do que a favela em que Jonas crescera, mas Keren dera um jeito de desaparecer em meio aos aventureiros e viajantes que infestavam os becos e ruas do lugar.

    Talvez ela não aceitasse ajudá-los novamente por conta do que Eric fizera. Talvez não se importasse com isso e só estivesse focado em seus afazeres, partindo com outro grupo para outra exploração perigosa. Jonas não fazia ideia. Ainda assim, a procurava com o olhar.

    Olhar que repousou sobre um homem de cabelos escuros e rosto jovial e maduro, encarando uma barraca de legumes, com a expressão de uma senhora pensativa sobre suas compras.

    Jonas parou de andar. Seus ouvidos captaram um pouco da negociação entre ele e o vendedor, focando-se nela em meio a tantas outras que se misturavam ao seu redor.

    — Que foi, esqueceu algo? Ah, sim, tínhamos que comprar pão seco, né? Onde mesmo que vende? — tagarelou Leandro, passando a frente de Jonas sem prestar atenção no motivo da parada repentina.

    Sua voz pareceu atrair a atenção de Leovard, que olhou sua direção. Os olhos se arregalaram ao vê-los. As sobrancelhas se contraíram por um momento, e então relaxaram após ele olhar ao redor de Jonas e Leandro. Como se procurando por algo. Ou alguém.

    Despediu-se do vendedor e então caminhou em direção a Jonas, que deu um passo para trás, de forma inconsciente. Voltando o pé ao mesmo lugar logo depois.

    — Leandro — chamou, e o amigo, que se distanciara alguns passos a frente, virou-se em sua direção, confuso.

    Leovard o alcançou, parando as suas costas. Jonas esforçou-se em correr em sua direção, desviando das pessoas que andavam pela rua.

    — Então realmente estás a andar novamente — observou o Cento.

    Leandro se voltou para encará-lo ao mesmo tempo em que Jonas aproximou-se dos dois, pondo um braço a frente de Leandro, como se fosse puxá-lo.

    — Saudações — disse Leovard a ele, de forma respeitosa.

    — Olá — respondeu Jonas.

    — Vejo que a erva matite fez seu efeito. Alegro-me com isso — declarou o cento, com um misto de surpresa e alívio no rosto sorridente.

    Jonas o encarou confuso. A lembrança do cento batendo em Eric retornou a sua mente, assim como a raiva em seu rosto. Jonas não desejava provar dessa raiva, nem provocá-la.

    Não sabia o que Leovard desejava fazer, mas sabia do que ele era capaz em combate. E a espada estava em sua cintura.

    — Como assim, vocês tão falando de quê? — perguntou Leandro a Jonas, aparentemente alheio às suas preocupações.

    — Ah, foi mal, esse é o Leovard. Um cento. Ele nos levou até as colinas uivantes e nos protegeu enquanto pegávamos o teu remédio — explicou Jonas, vendi a compreensão no rosto de Leandro, que começou a agradecer ao cento.

    — Não há motivos para agradecer-me. Fomos realmente bem recompensados. Embora deva admitir meu não desejo retornar àquele lugar.

    As memórias das harpias atacando dos céus vieram sobre Jonas novamente. As garras e os bicos quase dilacerando sua carne. A forma como foram salvos por Leovard e Morda. Então lembrou a visão da garota ruiva caindo no chão, após soltar uma tempestade de fogo, e quase ser morta pelo ataque do monstro. Não fosse por Leovard

    — Sobre isso, eu peço desculpas, de verdade — exclamou Jonas, num tom hesitante. — Não fazia ideia de que Eric faria aquilo.

    O cento sorriu com os cantos dos lábios.

    — Como eu disse, fomos recompensados. Morda gostou bastante daquele ovo — declarou ele.

    — Vocês não venderam? — perguntou Jonas.

    Leovard deu de ombros.

    — Lect bem desejava, porém Morda insistiu para ficar com o ovo. E sendo ela quem mais se esforçou para nos tirar daquele lugar, eu o dei — explicou ele.

    Jonas ficou surpreso, se perguntando o que Morda faria com um ovo de uma águia gigante.

    — Uma vez que esclarecemos esse assunto — continuou Leovard, num tom mais frio —, espero que isso nunca mais se repita. Detesto matar quando não é necessário.

    — Como assim, matar? — perguntou Leandro.

    — Novamente, espero não ser necessário que descubram — disse por fim, e olhou para a cintura de Jonas, onde uma espada curta embainhada estava presa a cintura.

    O sorriso despreocupado sumiu e suas sobrancelhas se franziram.

    — Me diga, garoto. Eu o vi lutar, ainda que um pouco, então te questiono: por que não compra uma arma adequada para o seu estilo de esgrima? Vocês já devem ter muito dinheiro, uma vez que levaram todos aqueles ovos para o Raggin, não?

    — Sim, mas compramos outras coisas que precisávamos além de mais armas — respondeu Jonas.

    — Quanto vocês ganharam mesmo? Eric parece mais contente que o normal, então sempre pensei que fosse muito — perguntou Leandro, franzindo as sobrancelhas.

    Jonas abriu a boca para responder, mas sentiu-se hesitante em revelar a quantidade e público. Nunca pensou que alguns ovos fossem valer tanto.

    Olhou para Leovard, que balançava levemente a cabeça, como se negasse algo, e suspirou forte.

    — Uma vez que é vosso dinheiro e escolha, não direi mais nada. Mas entenda que ter a arma certa nas mãos pode salvar sua vida. Agora, vou indo. Até outra vez — Leovard acenou com a cabeça e deu meia volta, jogando uma moeda prateada para o vendedor de legumes com quem negociava antes e pegando uma saca qualquer de sua barraca.

    — Ele pareceu ser gente fina — disse Leandro, observando o cento se afastar.

    — Sim — concordou Jonas, tentando lembrar do porquê não gostava de Leovard. E recordando apenas do quão rápido eram seus movimentos enquanto lutava.

    Decidiu que Eric estava certo. Era uma burrice discutir com alguém assim por causa de um urso morto.

    Os dois voltaram para o prédio da guilda, entrando no quarto em que estavam hospedados. Graça sentava em uma cadeira ao lado da cama, alimentando seus animais com grãos e frutas.

    O coelho mastigava em sua boca um grão do tamanho de um polegar. E o fanzo roía um pedaço de queça. Uma fruta amarela com formato de oito, o qual tinha um gosto doce levemente parecido com graviola.

    Leandro a cumprimentou, e acariciou os animais, que pareciam gostar dele.

    Eric estava do outro lado, sentado no chão. Olhava para mapas da região, comprados da guilda nos últimos dias.

    Eram em preto e branco, desenhados de forma que o oeste ficava em cima e o leste em baixo, e continham palavras riscadas numa língua daquele mundo, a qual nenhum deles sabia ler.

    Um desperdício de dinheiro, achava Jonas. Mas fora dinheiro retirado da parte de Eric, que já não mais geria completamente a bolsa do grupo.

    Após retornarem das colinas uivantes, os dois atracaram-se numa discussão num beco ao lado do prédio da guilda. Jonas apontou a imensa burrice e egoísmo de Eric ao fazer o que fez. Como também o culpou pelo estado de Leandro, uma vez que nada disso teria acontecido se não tivessem inventado de caçar os coelhos, por insistência dele. Como também sua recusa em oferecer mais dinheiro pela missão das ervas, o que quase fez com que fosse impossível alguém aceitar a missão.

    Esperava que Eric não fosse ter coragem de se defender, porém descobriu-se enganado quando este tentou justificar seus atos, através dos resultados de suas ações.

    Os ovos os deixaram abastados em dinheiro, podendo ficar despreocupados por algum tempo enquanto conseguiam se estabelecer como aventureiros. Que era o único realmente pensando na sobrevivência enquanto Leandro e Jonas tentavam bancar os netos da “vovó”. Que se não fosse por ele, Jonas ainda estaria caçando ratos nalgum lugar entre as ruínas exteriores de Beuha. Que fora ele quem impediu que Jonas avançasse contra um urso, e o salvara duas vezes no mesmo dia. Uma no ataque da criatura, e a outra quando o impediu de brigar contra o grupo de Leovard, após.

    A discussão se arrastou, até que ambos ficaram sem fôlego ou palavras. E terminou quando Jonas soltou um insulto pessoal. O que Eric quase respondeu com as palavras que mais feriam Jonas, mas parou antes de proferir a última.

    Os dois se calaram por um tempo, olhando para os lados e para o chão, então Jonas soltou um baixo e relutante:

    — Desculpa.

    Eric acenou com a cabeça e desculpou-se também. Os dois saíram do beco e voltaram para o prédio da guilda.

    Não mais tocaram no assunto, nem Jonas sentiu qualquer raiva de Eric depois disso.

    Em algum lugar dentro de sua mente, ele sabia que deveria, mas simplesmente não conseguia. Não dele. Não podia sentir raiva do único garoto que nunca se importou que ele fosse filho de uma prostituta.

    Após isso, Eric decidiu repartir o dinheiro na bolsa em cinco partes. Quatro contendo dez por cento das moedas, e a quinta contendo o restante. As quatro menores iriam para cada um dos quatro membros do grupo. E a quinta funcionária como uma espécie de poupança.

    As adagas compradas por Jonas foram com dinheiro da poupança para uso do grupo. As quatro partes menores seriam para uso pessoal de seus donos.

    Jonas gostava de pensar que isso fora uma boa mudança. Para eles e para Eric.

    — Tá planejando o que, agora? — perguntou, se aproximando.

    — No momento, tô tentando entender isso aqui — respondeu ele. Tinha em sua mão esquerda uma das pedras coloridas, a que os comerciantes e aventureiros chamavam de gemas de mana.

    Orland, o cavaleiro que os guiara pela marca cinzenta, tinha pedras parecidas. A que chamou de pedras ignis. No entanto isso aparentemente era apenas uma função que uma gema de mana poderia ter. Jonas já segurara algumas, mas não aguentou mantê-las em sua mão por muito tempo, sentindo a mesma dor de quando tocou aquela espada arcana, no dia em que se fingiram de nobres com as roupas do conde rubro, para enganar os comerciantes.

    — Cara para que tu comprou isso? Nem sabemos ler essa língua — Leandro perguntou, cruzando os braços ao lado de Jonas.

    — Ainda! Ainda não sabemos ler essa língua — disparou Eric em tom de correção.

    — Se você diz — Leandro deu de ombros e se afastou.

    Os quatro repassaram como seria o dia seguinte, e então Jonas e Eric desceram a taverna no térreo para pegar o jantar. Esperando no balcão enquanto os cozinheiros separavam as porções.

    Era uma noite pouco movimentada, com mais da metade das mesas vazias e apenas a conversa ambiente a dar vida ao lugar. Não que Jonas desejasse mais barulhos em seus ouvidos fartos de sons. Mesmo meio vazia, as vozes dos que estavam presentes já eram ruídos demais.

    Sequer as conversas que escutava tinham alguma utilidade.

    A maioria eram de relatos de caçadas, fracassados. A maioria envolvia as palavras “dentes de adaga”, e ataques feitos por esses.

    Jonas ainda lembrava vividamente das criaturas surgindo em meio a neblina naquela noite em que fugiram de escravagistas. Elas os ajudaram, e depois os caçaram, matando os prisioneiros que encontravam. Ainda lembrava os gritos dos que ficaram amarrados às árvores, enquanto grandes lanças os atravessavam.

    Concentrou-se em saber onde esses ataques ocorriam, desejando evitar essas áreas. Tanto, que nem percebeu uma pessoa se aproximar e sentar-se ao lado de Eric no balcão.

    — Então, de fato, vocês aparecem aqui toda noite — comentou uma voz feminina e quase infantil.

    Jonas olhou para o lado, vendo além de Eric, uma cabeleira vermelha, amarrada por uma trança de três dobras. Jonas reconheceu primeiro o cabelo e então o rosto pálido de quem ele se prendia.

    A garota usava um jaquetão marrom, e calças que pareciam feitas de couro remendado por linhas grossas, bem diferente das roupas femininas que usava na viagem.

    Sua expressão, porém, era a mesma. Os olhos vermelhos, vívidos como chamas em seu rosto.

    — Não achei que iria encontrá-los tão rapidamente, mas a sorte talvez ame quem nela acredita — comentou novamente Morda, fazendo sinal para que o atendente lhe desse uma bebida. Que logo apareceu à sua frente.

    — E há quem não acredite em sorte? — perguntou Eric, forçando uma curiosa animosidade.

    — Há sim… um tipo de pessoas em específico — apontou ela, bebendo enquanto falava.

    — Azarados? — arriscou Jonas, falando como se acabasse de estragar alguma piada.

    — Não. Não os azarados. Esses são os que mais crêem na sorte. Tanto que, na verdade, eles acreditam em sorte pois a odeiam — corrigiu Morda. — E é necessário muita força para acreditar em algo a partir do ódio — verteu o restante de sua bebida e estendeu o copo para o atendente do outro lado da bancada. Esperando-o encher.

    — Mas os azarados não deveriam ser os que mais deveriam desejar a sorte? — interrogou Eric.

    — Eles desejam.

    — “Mas a odeiam”.

    — A odeiam porquê a desejam, mas ela não os deseja. Não há nada pior do que amar algo que o rejeita — concluiu Morda, num tom professoral. Estragado pelo sorriso infantil, típico de uma criança orgulhosa da própria inteligência.

    Jonas suspirou.

    Por quê estavam falando sobre isso? Se questionava, quando as travessas com sua comida ficaram prontas, e eles as receberam.

    — Vamos subir, mas a gente se fala outra hora — disse Eric, tomando uma e se levantando da mesa.

    Jonas tomou a outra e fez o mesmo.

    Morda olhou enquanto se retiravam. Seus olhos pareciam mais abertos do que antes. 

    Ela abriu a boca, mas seus lábios vermelhos tremera, parecendo engolir o que iriam falar. Por um momento. Então sorriu de forma tão confiante quanto parecia a princípio e disse:

    — Vejo-os noutro momento então.

    — Até mais — Eric se despediu.

    — Tchau — Jonas respondeu e os dois se afastaram.

    Suspirou, dobrando os lábios enquanto subia as escadas. Na viagem, muito se incomodou com a garota. Palavras, sorrisos, gestos e olhares. Porém, percebeu com um gosto estranho na língua e na garganta, algo que o incomodou mais do que o resto.

    Suas palavras, sorrisos, gestos e olhares, voltaram-se para Eric. Não para ele.

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