O pequeno sino tocou na cozinha, aquela sonoridade que indicava que um novo pedido estava pronto.

    — Dois cheeseburgers com bacon extra e duas batatas grandes saindo.

    A voz grossa e alta vinha do fundo do estabelecimento, a cozinha cujo chão continha marcas de gordura e molhos.

    — Fala só o número do pedido ô imbecil! — disse uma voz mais fina, também da cozinha.

    — Vai se foder!

    Os pedidos eram deixados sobre o balcão, embalados por um saco de papel que desde o momento em que saiu da cozinha, já estava com partes levemente transparentes e meladas.

    — Ooh Giovanni, sabe a Tanisha? — a voz grossa partiu do fundo da cozinha.

    — O que tem? — o homem branco e acima do peso respondeu sem muito interesse.

    Ele parecia mais interessado na tela do seu celular que reproduzia vídeos de diversas mulheres dançando sensualmente.

    — Levei ela pro abate semana passada, pensa em uma vadia safada! Hahaha!

    — Nem fudendo — a voz mais fina ecoou da cozinha, agora mais estridente. — Tu só é papo Latrel, semana retrasada tu disse que comeu a Tamires.

    — Porra, tô te falando neguinho! — a voz mais grossa respondeu indignada. — A piranha mama que é uma beleza.

    — Porra nenhuma! — a voz mais fina respondeu com deboche. — Caralho Giovanni, tu tem que parar de contratar esses pretos mentirosos do caralho!

    — Vai se foder crioulo! Tu devia estar pegando essas piranhas comigo, ao invés disso, só fica comendo viado por aí.

    — É por isso que minha carteira tá sempre cheia, os viados pagam bem pra caralho!

    — Tu é um baitolão! — a voz grossa respondeu antes de cair na gargalhada. — Saindo três números 9!

    O sino ecoou novamente, e diversas e diversas vezes.

    Todos os pedidos não tardavam a sair, e eles continham um papel do destino para onde o pedido iria.

    E o telefone tocava a todo momento, quem o atendia era o homem maduro acima do peso que ficava em frente ao balcão anotando os pedidos e passando-os para a cozinha apenas gritando a ordem.

    — Ooh Giovanni, tu soube que tinha um aprimorado com Los Hermanos? — a voz grossa veio novamente da cozinha. — A parada de gangue tá ficando sinistra, meu irmão!

    — Que hermanos negão!? É Los Santos! — a voz mais fina retrucou.

    — Porra crioulo, tu é muito chato, tanto faz, é tudo Mexicano nessa merda! — a voz mais grossa respondeu.

    — É a mesma coisa que falar que todo negão é africano, seu arrombado!

    — E a gente não veio tudo da África? Porra, então eu tô certo nesse caralho!

    — Esses remédios pra levantar o pau tão te deixando mais retardado!

    — Puta que o pariu! Dá pra fazer o que eu tô pagando vocês pra fazer!? — o homem acima do peso disse sem tirar os olhos do celular, somente levantando a voz. — Chega desse papo de aprimorado!

    Em sua frente ficava um computador onde pedidos feitos online apareciam, mas ele parecia mais focado na tela de seu celular.

    — Relaaaxa, escravidão já passou Giovanni! Saindo um número 4 e um número 6!

    A televisão no canto do pequeno estabelecimento mal podia ser ouvida por conta das conversas, risos, gritos das diversas pessoas que passavam pelo local.

    E diversas pessoas passavam por ali, desde casais indiferentes, amigos distantes, sujeitos vestindo cores como se fossem sua identidade e até mesmo moradores de rua pedindo por algo, mas estes eram rapidamente enxotados pelo homem acima do peso.

    O local contava com quatro pares de mesas e oito cadeiras, mas ninguém se sentava para comer no local, todos apenas passavam, pegavam seus pedidos e logo saíam.

    Tudo era muito rápido, os pedidos entravam e saiam, sempre havia um fluxo de pessoas, seja de clientes ou entregadores que passavam para pegar e entregar pedidos. 

    — Ohh Giovanni, tem como tu liberar um adiantamento, na moral? — o homem negro e grande surgiu da cozinha, limpando as mãos com um guardanapo e depois passando em suas roupas manchadas. — Preciso pagar a pensão do meu filho, cara, minha ex tá bolada e já quer me jogar na justiça!

    — Ihhh vai acabar sendo preso hein! — a voz mais fina partiu da cozinha.

    — Neguinho, dá pra calar a boca! — o homem respondeu olhando para trás, entortando os lábios.

    O homem acima do peso suspirou, olhando para o homem de baixo para cima com uma sobrancelha levantada.

    — Dá essa força aí, Giovanni, na moral!?

    Michael negou com a cabeça, mas logo em seguida consentiu revirando os olhos.

    O homem negro bateu uma palma fazendo um breve movimento dançante antes de colocar o guardanapo no ombro.

    A porta do estabelecimento se abriu, e um jovem o adentrou, vestido com um moletom, calça jeans e tênis. 

    — Tem mais pedidos para mim? — a voz veio seguida de um suspiro, Demian adentrou rapidamente se aproximando do balcão.

    — Tá atrasado… — Giovanni disse olhando para Demian de cima pra baixo. 

    — Desculpa senhor Marino, a corrente da bicicleta caiu e eu quase fui atropelado…

    — Sem desculpinhas — o homem branco disse ao continuar encarando as mulheres dançando no celular. — Todos nós temos que trabalhar duro, desculpas como essa te fazem parecer preguiçoso.

    O homem negro atrás de Giovanni olhou para Demian com um sorriso sarcástico ao alternar o seu olhar entre os dois quando ouviu a fala.

    Demian segurou o riso abaixando a cabeça, algumas mechas caíam sobre seu rosto, o seu cabelo estava majoritariamente preso para trás.

    Uma vinheta começou com uma sonoridade urgente, e imagens coloridas que rapidamente tomaram forma, criando um logo que se assemelhava a um arco-íris partindo do chão para todos os lados.

    — Boa noite, eu sou Marla Jackson e esse é o plantão IBC.

    A bela mulher negra de cabelo afro olhava em direção da câmera que descendia até estar à sua frente.

    — Ih, lá vem merda, certeza que um aprimorado explodiu alguma coisa por aí. — o homem grande disse olhando para a televisão.

    Demian se focou nos pedidos que estavam sendo postos sobre a mesa. Ele observou os endereços escritos, parecendo raciocinar uma rota com a cabeça.

    — Hoje, 18/09/2037 às 20:25 o Defensor dos convergentes Tyx foi autuado e preso por cometer crimes relacionados a fraude, roubo, descumprimento do dever entre outros crimes…

    Uma imagem na tela mostrava Tyx, enquanto um quadro exibia uma filmagem de drone; o exato momento da captura na parte superior de um prédio.

    — Bati na trave! Mas é claro que tem a ver com esses putos. — o homem negro disse olhando para a cozinha. — Ow! JC! Tu não é um aprimorado não, né seu safado!?

    — Porra, se eu fosse, eu não estaria trabalhando aqui e comendo sua mãe nas horas vagas.

    — Neguinho a gente vai cair na porrada se falar da minha mãe de novo!

    Demian parou imediatamente, virando a cabeça para encarar a tela, com os olhos e boca abertos. Toda a comoção pareceu desaparecer, ele apenas conseguia olhar para a televisão

    — Oi! Ei cabeludo!

    Giovanni disse chamando o garoto para perto. Demian se aproximou, tentando se focar nas imagens da tv.

    — Seguinte, você vai entregar mais esses oito pedidos, lembra de não atrasar! —  o homem e fez um sinal para o jovem se retirar. — Vai, vamos! Vai bora!

    — Eu tenho que ir… — Demian respondeu. — Eu preciso resolver algo, você pode me pagar minha diária.

    — Opa, calma aí moleque, ainda são nove e meia, você só sai onze.

    — É uma emergência, senhor Marino, eu preciso ir — Demian respondeu se aproximando do homem.

    — Meu Deus essa sua geração é preguiçosa mesmo hein, hoje em dia, moleque nenhum quer mais trabalhar.

    O homem fez uma expressão de insatisfação, puxando a gaveta de baixo do balcão. Ele pegou algumas cédulas de dólar e as enrolou, entregando para o jovem.

    Demian pegou as notas, abrindo o bolo entregue, olhando para o homem em seguida.

    — Tá faltando metade!

    — Desconto pela falta do dia.

    — Mas eu tô aqui desde às cinco da tarde, falta só uma hora para terminar meu expediente!

    — Uma hora e meia, e não é só seu trabalho, mas o atraso que os clientes vão ter que esperar por você estar saindo antes do combinado.

    Demian torceu a boca, mas apenas abaixou a cabeça e guardou o dinheiro.

    — No momento, o ex Defensor está sob a guarda da Divisão Zero e em breve deverá ser julgado… — a mulher da televisão continuou a mostrar imagens de entrevistas com alguns convergentes.

    Demian rapidamente partiu em direção à saída com bastante pressa, passando correndo pela porta.

    — Todo canto que a gente vai tem sempre algo sobre esses putos — o homem grande disse olhando para a televisão. — E pensar que alguns destes caras podem explodir a gente com um assopro.

    — Negão, dá pra parar de viajar e vir ajudar na porra da cozinha.

    Giovanni apenas olhou para o homem em sua frente com um sorriso após ouvir a voz fina ecoar da cozinha, enfim ele gesticulou com a cabeça naquela direção.

    — Crioulo, vai se ferrar, saindo mais três números 4!

    E a televisão continuou mostrando mais notícias, e novamente o sino soou, e de novo, e de novo e de novo.

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