Capítulo 63
O pequeno sino tocou na cozinha, aquela sonoridade que indicava que um novo pedido estava pronto.
— Dois cheeseburgers com bacon extra e duas batatas grandes saindo.
A voz grossa e alta vinha do fundo do estabelecimento, a cozinha cujo chão continha marcas de gordura e molhos.
— Fala só o número do pedido ô imbecil! — disse uma voz mais fina, também da cozinha.
— Vai se foder!
Os pedidos eram deixados sobre o balcão, embalados por um saco de papel que desde o momento em que saiu da cozinha, já estava com partes levemente transparentes e meladas.
— Ooh Giovanni, sabe a Tanisha? — a voz grossa partiu do fundo da cozinha.
— O que tem? — o homem branco e acima do peso respondeu sem muito interesse.
Ele parecia mais interessado na tela do seu celular que reproduzia vídeos de diversas mulheres dançando sensualmente.
— Levei ela pro abate semana passada, pensa em uma vadia safada! Hahaha!
— Nem fudendo — a voz mais fina ecoou da cozinha, agora mais estridente. — Tu só é papo Latrel, semana retrasada tu disse que comeu a Tamires.
— Porra, tô te falando neguinho! — a voz mais grossa respondeu indignada. — A piranha mama que é uma beleza.
— Porra nenhuma! — a voz mais fina respondeu com deboche. — Caralho Giovanni, tu tem que parar de contratar esses pretos mentirosos do caralho!
— Vai se foder crioulo! Tu devia estar pegando essas piranhas comigo, ao invés disso, só fica comendo viado por aí.
— É por isso que minha carteira tá sempre cheia, os viados pagam bem pra caralho!
— Tu é um baitolão! — a voz grossa respondeu antes de cair na gargalhada. — Saindo três números 9!
O sino ecoou novamente, e diversas e diversas vezes.
Todos os pedidos não tardavam a sair, e eles continham um papel do destino para onde o pedido iria.
E o telefone tocava a todo momento, quem o atendia era o homem maduro acima do peso que ficava em frente ao balcão anotando os pedidos e passando-os para a cozinha apenas gritando a ordem.
— Ooh Giovanni, tu soube que tinha um aprimorado com Los Hermanos? — a voz grossa veio novamente da cozinha. — A parada de gangue tá ficando sinistra, meu irmão!
— Que hermanos negão!? É Los Santos! — a voz mais fina retrucou.
— Porra crioulo, tu é muito chato, tanto faz, é tudo Mexicano nessa merda! — a voz mais grossa respondeu.
— É a mesma coisa que falar que todo negão é africano, seu arrombado!
— E a gente não veio tudo da África? Porra, então eu tô certo nesse caralho!
— Esses remédios pra levantar o pau tão te deixando mais retardado!
— Puta que o pariu! Dá pra fazer o que eu tô pagando vocês pra fazer!? — o homem acima do peso disse sem tirar os olhos do celular, somente levantando a voz. — Chega desse papo de aprimorado!
Em sua frente ficava um computador onde pedidos feitos online apareciam, mas ele parecia mais focado na tela de seu celular.
— Relaaaxa, escravidão já passou Giovanni! Saindo um número 4 e um número 6!
A televisão no canto do pequeno estabelecimento mal podia ser ouvida por conta das conversas, risos, gritos das diversas pessoas que passavam pelo local.
E diversas pessoas passavam por ali, desde casais indiferentes, amigos distantes, sujeitos vestindo cores como se fossem sua identidade e até mesmo moradores de rua pedindo por algo, mas estes eram rapidamente enxotados pelo homem acima do peso.
O local contava com quatro pares de mesas e oito cadeiras, mas ninguém se sentava para comer no local, todos apenas passavam, pegavam seus pedidos e logo saíam.
Tudo era muito rápido, os pedidos entravam e saiam, sempre havia um fluxo de pessoas, seja de clientes ou entregadores que passavam para pegar e entregar pedidos.
— Ohh Giovanni, tem como tu liberar um adiantamento, na moral? — o homem negro e grande surgiu da cozinha, limpando as mãos com um guardanapo e depois passando em suas roupas manchadas. — Preciso pagar a pensão do meu filho, cara, minha ex tá bolada e já quer me jogar na justiça!
— Ihhh vai acabar sendo preso hein! — a voz mais fina partiu da cozinha.
— Neguinho, dá pra calar a boca! — o homem respondeu olhando para trás, entortando os lábios.
O homem acima do peso suspirou, olhando para o homem de baixo para cima com uma sobrancelha levantada.
— Dá essa força aí, Giovanni, na moral!?
Michael negou com a cabeça, mas logo em seguida consentiu revirando os olhos.
O homem negro bateu uma palma fazendo um breve movimento dançante antes de colocar o guardanapo no ombro.
A porta do estabelecimento se abriu, e um jovem o adentrou, vestido com um moletom, calça jeans e tênis.
— Tem mais pedidos para mim? — a voz veio seguida de um suspiro, Demian adentrou rapidamente se aproximando do balcão.
— Tá atrasado… — Giovanni disse olhando para Demian de cima pra baixo.
— Desculpa senhor Marino, a corrente da bicicleta caiu e eu quase fui atropelado…
— Sem desculpinhas — o homem branco disse ao continuar encarando as mulheres dançando no celular. — Todos nós temos que trabalhar duro, desculpas como essa te fazem parecer preguiçoso.
O homem negro atrás de Giovanni olhou para Demian com um sorriso sarcástico ao alternar o seu olhar entre os dois quando ouviu a fala.
Demian segurou o riso abaixando a cabeça, algumas mechas caíam sobre seu rosto, o seu cabelo estava majoritariamente preso para trás.
Uma vinheta começou com uma sonoridade urgente, e imagens coloridas que rapidamente tomaram forma, criando um logo que se assemelhava a um arco-íris partindo do chão para todos os lados.
— Boa noite, eu sou Marla Jackson e esse é o plantão IBC.
A bela mulher negra de cabelo afro olhava em direção da câmera que descendia até estar à sua frente.
— Ih, lá vem merda, certeza que um aprimorado explodiu alguma coisa por aí. — o homem grande disse olhando para a televisão.
Demian se focou nos pedidos que estavam sendo postos sobre a mesa. Ele observou os endereços escritos, parecendo raciocinar uma rota com a cabeça.
— Hoje, 18/09/2037 às 20:25 o Defensor dos convergentes Tyx foi autuado e preso por cometer crimes relacionados a fraude, roubo, descumprimento do dever entre outros crimes…
Uma imagem na tela mostrava Tyx, enquanto um quadro exibia uma filmagem de drone; o exato momento da captura na parte superior de um prédio.
— Bati na trave! Mas é claro que tem a ver com esses putos. — o homem negro disse olhando para a cozinha. — Ow! JC! Tu não é um aprimorado não, né seu safado!?
— Porra, se eu fosse, eu não estaria trabalhando aqui e comendo sua mãe nas horas vagas.
— Neguinho a gente vai cair na porrada se falar da minha mãe de novo!
Demian parou imediatamente, virando a cabeça para encarar a tela, com os olhos e boca abertos. Toda a comoção pareceu desaparecer, ele apenas conseguia olhar para a televisão
— Oi! Ei cabeludo!
Giovanni disse chamando o garoto para perto. Demian se aproximou, tentando se focar nas imagens da tv.
— Seguinte, você vai entregar mais esses oito pedidos, lembra de não atrasar! — o homem e fez um sinal para o jovem se retirar. — Vai, vamos! Vai bora!
— Eu tenho que ir… — Demian respondeu. — Eu preciso resolver algo, você pode me pagar minha diária.
— Opa, calma aí moleque, ainda são nove e meia, você só sai onze.
— É uma emergência, senhor Marino, eu preciso ir — Demian respondeu se aproximando do homem.
— Meu Deus essa sua geração é preguiçosa mesmo hein, hoje em dia, moleque nenhum quer mais trabalhar.
O homem fez uma expressão de insatisfação, puxando a gaveta de baixo do balcão. Ele pegou algumas cédulas de dólar e as enrolou, entregando para o jovem.
Demian pegou as notas, abrindo o bolo entregue, olhando para o homem em seguida.
— Tá faltando metade!
— Desconto pela falta do dia.
— Mas eu tô aqui desde às cinco da tarde, falta só uma hora para terminar meu expediente!
— Uma hora e meia, e não é só seu trabalho, mas o atraso que os clientes vão ter que esperar por você estar saindo antes do combinado.
Demian torceu a boca, mas apenas abaixou a cabeça e guardou o dinheiro.
— No momento, o ex Defensor está sob a guarda da Divisão Zero e em breve deverá ser julgado… — a mulher da televisão continuou a mostrar imagens de entrevistas com alguns convergentes.
Demian rapidamente partiu em direção à saída com bastante pressa, passando correndo pela porta.
— Todo canto que a gente vai tem sempre algo sobre esses putos — o homem grande disse olhando para a televisão. — E pensar que alguns destes caras podem explodir a gente com um assopro.
— Negão, dá pra parar de viajar e vir ajudar na porra da cozinha.
Giovanni apenas olhou para o homem em sua frente com um sorriso após ouvir a voz fina ecoar da cozinha, enfim ele gesticulou com a cabeça naquela direção.
— Crioulo, vai se ferrar, saindo mais três números 4!
E a televisão continuou mostrando mais notícias, e novamente o sino soou, e de novo, e de novo e de novo.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.