Capítulo 12
A entrada do edifício foi como adentrar a crista de uma onda. As paredes eram imensas, a arquitetura era diferente de tudo que o jovem já havia visto, com paredes com pequenos cubos que pareciam se mover e formar figuras nas paredes e símbolos que mudavam constantemente.
Ele encarava tudo impressionado, o local era uma recepção imensa com diversos atendentes e um pequeno público que o encarava. Uma barreira humana foi criada pelos soldados para manter o público afastado, direcionando-o para um caminho com diversos elevadores.
Seu olhar capturava cada elemento ao seu redor: as paredes com estrutura móveis, as diversas câmeras em pontos estratégicos, um grande letreiro escrito ‘Iovem’, painéis com tom amadeirado, os balcões de MDF, os televisores gigantes e os olhares assustados, curiosos e até mesmo odiosos em sua direção.
Ele se distanciou da recepção conforme Fei Hu e Bai Hu o guiavam, encarando os televisores que estavam no caminho, todos estavam sintonizados no mesmo canal mostrando o jornal da manhã.
— Algumas semanas se passaram após o ocorrido em Vale da Liberdade. Estamos falando de Tlamanalli, centro de Nova Atlântida. — Uma mulher loira e de boa aparência apresentava o que parecia ser o jornal local.
“Nova Atlântida? Isso não é na América não é? Como diabos eu vim parar aqui?”
Ele se aproximou de um dos diversos elevadores, com portas prateadas tão limpas que conseguia ver a si mesmo como em um espelho. Entretanto, seus olhos permaneceram focados em uma televisão próxima.
“Eu passei tanto tempo assim desacordado?”
Bai Hu se aproximou do elevador e apertou um dos botões quadrados que acendeu com a luz azul; o indicador ao lado demonstrou que o elevador estava descendo.
— Houve protestos a favor e contra a integração de Humanos Biologicamente Aprimorados no governo por todo o estado após o ocorrido em Vale da Liberdade.
A jornalista apresentava diversas imagens de protestos, com placas contendo textos como: ‘Aprimorados não são humanos!’ e ‘Todas as vidas importam!’.
— A comoção foi grande o suficiente para punir a jovem heroína Chama Escarlate, filha do Defensor Dragão Vermelho. E isso também revisitou as pautas do Tratado de Evelyn, principalmente relacionadas a menores atuando como Convergentes…
“Tratado de Evelyn? Convergentes? Não importa agora; eu preciso saber o que vai acontecer comigo.”
Ele observou a si mesmo, seu rosto de formato oval, o cabelo crespo que já caía sobre sua testa e seus olhos apresentavam uma coloração amarela fosca, com um leve brilho não natural, como a visão de um âmbar antigo mediante uma luz fraca.
“Por que me tiraram da África e me trouxeram para a América? Não faz sentido…”
A porta metálica finalmente se abriu e Fei Hu adentrou o elevador primeiro, posicionando-se ao lado direito, com as costas voltadas para a lateral. Bai Hu, então, fez um gesto sutil com a cabeça, indicando que o jovem o seguisse, e este o fez sem hesitar, avançando para o centro.
O elevador era espaçoso, com paredes de vidro reforçado que refletiam a claridade suave do ambiente. No momento, tudo o que o jovem conseguia ver eram as paredes do térreo, apenas com uma iluminação que partia de cima da porta.
“Isso certamente não é uma base militar, o que poderia ser? Um laboratório?”
O jovem fechou os olhos e entrelaçou os dedos, arqueando visivelmente os lábios. Então, Bai Hu deslizou um cartão sobre o autenticador e digitou na tela ao lado da entrada, selecionando apenas um andar disponível: o octogésimo.
“Se for este o caso, então eles vão tentar fazer experimentos? Injetar…”
No centro, Fei Hu e Bai Hu o observavam friamente, como estátuas que não se moviam nem por um segundo.
“Aquilo vai acontecer de novo…? Não, não…”
Ele encarou seu reflexo; o leve brilho amarelado de seu olhar.
“Eu não quero passar por aquela merda DE NOVO…”
Seus punhos se fecharam novamente e ele respirou fundo.
Quando o elevador passou do décimo andar, a escuridão foi ofuscada pela claridade que atravessou as paredes de vidro. Ele fechou os olhos, mas, cuidadosamente, os abriu e, lentamente, eles se ajustaram à luz, arregalando-se quando finalmente se adaptaram àquela grandiosa visão.
O horizonte estava amarelado pelo sol que brilhava e se erguia. À distância, alguns pássaros voavam pelo céu azul enquanto um enorme veículo metálico, com rotores inclináveis que brilhavam ao sol, passeavam pelo céu azul. Sua parte superior, que lembrava uma cesta de basquete, refletia a luz, e o som suave das turbinas ecoava pela cidade.
Havia prédios que emergiam do chão e outros descendiam nele, como peças que entravam para o subsolo e saiam dele. Alguns eram tão grandes que pareciam tocar os céus, existiam com diversos formatos, mas eram majoritariamente como espelhos gigantes.
O ambiente todo parecia ser refletido, criando a ilusão de uma cidade infinita. As ruas estavam lotadas de pessoas, como pequenas formigas vagando à distância. Diversas linhas de trens passavam entre os prédios, por trilhos que corriam como veias pela cidade.
Já o caminho entre os prédios parecia um trânsito de imigração aviário, mas com um porém, era formado majoritariamente por drones; diversos pequenos e médios objetos voadores voando coordenadamente, carregando logo de marcas de comida, lojas, entre os mais diversificados. A primeira camada, que era mais próxima do chão, era de objetos maiores, a segunda de objetos médios e a terceira que era a mais alta, de pequenos objetos.
Por um momento, o jovem se encontrou boquiaberto; um brilho de contemplação surgiu em seus olhos, refletindo a cidade, e um leve e quase imperceptível sorriso se formou no canto de sua boca.
— Incrível… — sussurrou consigo mesmo, mas rapidamente retornou à realidade.
“Não… Eu não posso perder o foco.”
Ele tornou seu olhar para seu reflexo, encarando o lado direito de seu moletom, em que havia uma identificação.
“Afinal, não sou nada além de um prisioneiro.”
‘HBA-E-0001 – Black’

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