A escuridão, a êxtase em simplesmente se tornar uma casca vazia, não durou muito

    Seus olhos amarelos se abriram, assustados, sua respiração retomada aos poucos ao ainda sentir sua garganta amassada, e logo veio a tosse.

    — Não, você entendeu errado — Maverick disse, agachado bem ao lado de Black. — Só acaba quando eu disser que acabou.

    Black nem sequer tentou se levantar, enquanto o zunido lentamente desapareceu de seus ouvidos e ele não conseguia ver nada além dos vultos e imagens com formas piscantes. O suor escorria por sua testa enquanto seus olhos perdiam o brilho, voltando àquela tonalidade fosca.

    Ele olhou ao redor; armas apontadas em sua direção. Nos olhos, ele conseguia perceber a raiva, mas também medo — as pontas das armas em sua direção, a vontade de atirar deles era algo que ele já havia presenciado antes. 

    — Vê? Você não passa de uma abominação descontrolada, e, no fundo, você sabe disso. 

    Black conseguia apenas ver o vulto que se misturava às formas piscantes em sua visão; a voz do homem velho que parecia como se fosse mais alta que sua própria consciência.

    — Você deve se entregar: diga que você aceita os procedimentos da Divisão Zero… vai fazer um favor a si mesmo e a todos aqui. 

    Black tentou encontrar um apoio com as mãos, mas tudo o que conseguia sentir eram pontas, nada realmente sólido. 

    Ele tentou fechar os olhos, mas as figuras não desapareciam mesmo na escuridão, algumas pareciam com animais, outras não tinham sentido, mas outras pareciam tendões rasgados, ossos quebrados e corpos despedaçados.

    — Imagine quantas pessoas você pode ferir, você nem sequer é capaz de controlar a si mesmo.

    A voz do velho parecia adentrar sua cabeça como uma bala, ele abriu os olhos e todos os vultos armados estavam mais próximos, ocultando a luz e parecendo o cobrir como em uma mortalha de escuridão.

    — Você sabe disso, então diga…

    — Eu… — a voz grave e cansada de Black ecoou através do silêncio profundo. — Eu… 

    — Diga!

    — Eu…

    Black olhou para cima e notou o rosto do velho, como uma visão fantasmagórica e distorcida, alterada pelas formas que desapareceram aos poucos de sua percepção.

    — Vejo que vocês não têm boas maneiras com convidados!

    Uma voz diferente ecoou, de repente todos os vultos se afastaram, o homem velho que estava abaixado em sua frente se levantou. Black conseguiu ver uma figura ocultada pela luz na intercessão no fim do corredor. 

    Sua visão se tornava mais clara e ele conseguia ver um homem que vestia um sobretudo marrom e um chapéu do tipo fedora. Ele vestia uma máscara de metal com um visor preto que lembrava uma máscara carnavalesca, mas em tom cinza.

    — Maverick, poderia me explicar o que exatamente está acontecendo aqui!? — o homem de sobretudo direcionou sua fala para o homem velho e para os soldados enquanto se aproximava com passos rápidos. — E vocês, abaixem essas malditas armas!

    O homem de sobretudo foi ao encontro de Maverick, o homem velho. Seu andar era peculiar, ele abria um pouco as pernas ao caminhar e inclinava levemente o corpo. 

    Os olhares dos soldados buscavam aprovação em Maverick, que apenas acenou positivamente, seguindo o homem mascarado com os olhos.

    — Chama-se protocolo de segurança, Tyx, caso você tenha esquecido. — Maverick encarou a figura de sobretudo passar por ele.

    — O que me lembro é que você tem uma ordem e não está a cumprindo! — Tyx se expressou colocando-se em frente a Maverick. — Sabe que o que fez pode complicar muito a sua carreira, não é?

    — Eu estou cumprindo meu dever! — Maverick respondeu com voz firme. — Tudo o que aconteceu foi que o aprimorado decidiu atacar e lidamos com a ameaça, agora está tudo sob controle!

    Tyx encarou Maverick, em seguida olhando para Black, que estava ajoelhado no chão, ofegante.

    — Então, sargento Maverick, exijo que você cumpra seu dever, já que a situação está sob controle: entregue a guarda do jovem!

    Black estreitou os olhos, alternando o olhar entre Tyx e Maverick. O último não parecia intimidado, mas seu cenho franzido demonstrava insatisfação.

    — Não é assim que funciona — Maverick respondeu com um sorriso tenso. — O aprimorado atacou durante a escolta. Ele deve retornar aos cuidados da Divisão Zero.

    — Você não quer cruzar essa linha… — Tyx inclinou-se, fixando os olhos em Maverick. — Quer mesmo arriscar sua carreira, mostrando que os “Tigres Asiáticos” falharam numa escolta simples?

    — Suas palavras não me afetam, apenas o fato que aquela coisa é uma ameaça! — Maverick franziu o cenho ao olhar em direção de Black.

    — Até onde posso ver, nenhum de seus soldados está ferido; por outro lado, o jovem parece ter sofrido forte agressão física e psicológica — Tyx terminou seu discurso encarando Maverick.

    Este retraiu os lábios, tremendo levemente a pálpebra esquerda ao se aproximar mais dele.

     — Sabe, com as imagens que tenho eu poderia fazer de sua carreira um sonho distante que nunca vai se realizar. 

    — Quer usar câmeras? Vá em frente! — Maverick se aproximou de Tyx. — Desta forma você realmente não terá mais argumentos!

    — De fato, poderei atestar para os órgãos reguladores dos Estados Unidos que a Divisão Zero está se demonstrando incapaz de lidar com Aprimorados conforme o tratado de Evelyn — Tyx respondeu olhando para um objeto oval preso ao teto. — Acredite, poderia fazer isso e ainda conseguir a guarda do garoto, mas vou deixar você apenas cumprir o seu maldito dever!

    — Você tem sorte… se não fosse por conta do Júpiter… as coisas seriam muito diferentes — Maverick sussurrou próximo a Tyx, que manteve a postura sem se deixar abalar. 

    Em seguida, afastou-se dele e ordenou: — Deixem-no ir!

    Todos os soldados se afastaram de Black, posicionando-se nas laterais do corredor. 

    — Tyx, aqui deixo aqui registrado que a escolta foi realizada com sucesso pela Divisão Zero — Maverick declarou, retirando-se do local com os demais soldados, que obedeceram sem questionar. — Vamos!

    Fei Hu e Bai Hu também os seguiram, mas o último se manteve a encarar Black até o momento em que as portas do elevador se fecharam.

    “Quem é esse cara? Por que obedecem a ele?” 

    Black encarou o homem de sobretudo com uma sobrancelha levantada enquanto retomava a postura. 

    Tyx se aproximou dele, oferecendo uma mão para levantar, mas Black ignorou o gesto e se levantou por conta própria.

    — Peço desculpas pelo ocorrido, mas temo que tenhamos assuntos mais urgentes para tratar. — Tyx recolheu sua mão ao ver que o jovem a rejeitou. — Está tudo bem com você?

    — Quem é você? — Black fitou Tyx de cima a baixo enquanto massageava seu pescoço.— Você é um militar?

    — Sou um Defensor, para ser mais exato. Me chamo Tyx, mas creio que você já sabe disso por conta de nosso sargento de cabeça branca.

    Tyx colocou a mão sobre sua máscara, apertando dois mecanismos em ambos os lados dela, retirando-a, revelando seu rosto; ele tinha um bigode ralo, uma riba nasal levemente sobressalente, lábios finos e pele morena.

    — Por que me ajudou? — Black encarou com olhos confusos, limpando o pouco de sangue que estava em seus lábios.

    — Faz parte do meu trabalho garoto. — Tyx limpou a garganta e respondeu com um tom leve. — Você está bem?

    Black não respondeu, desviando o olhar e em seguida encarando com um olhar irritado.

    — Imagino que não. — Tyx disse ao fazer menção de olhar para trás, mas voltando seu olhar para Black. — Sei que é repentino, mas poderia me seguir? Tenho assuntos a tratar com você.

    — E por que eu deveria fazer isso? — Black arqueou as sobrancelhas e fechou os punhos. — Eu não te conheço e não confio em você; por que eu deveria te seguir?

    — Incisivo, eu respeito isso — Tyx manteve um sorriso no rosto, virando-se de costas para Black e se afastando alguns passos dele, parando no meio do corredor. — Escuta, sei que você tem motivos para desconfiar. Porém, você tem apenas duas opções, uma conversa amigável ou mais tempo com aquele velho, e te garanto que eu sou uma companhia bem mais agradável.

    — Então, está dizendo que eu não tenho escolha? — Black questionou contorcendo os lábios.

    — Você tem, mas infelizmente apenas duas. — Tyx disse encarando o jovem.

    Black encarou suas mãos, o leve vermelho de seu sangue se assemelhava ao cor do LED daquela algema, ele sentia-se mais confortável, mas mantinha os braços próximos um do outro como se ainda estivesse preso. 

    “Então eu só tenho uma escolha.”

    — Certo… eu vou com você… — disse Black, levantando a cabeça e fechando os punhos.

    — Perfeito. — Tyx abriu um sorriso de canto de boca. — Então vamos, tenho que apresentar você a algumas pessoas.

    — Ei… Tyx não é? — Black o interrompeu, levantando a cabeça com um olhar inseguro.

    — Sim?

    — Eu ainda sou um prisioneiro? — Black questionou com um olhar incisivo.

    — Você é convidado. — Tyx respondeu. — Nada mais, nada menos.

    Black encarou a figura que seguiu em frente no corredor, então olhou para trás, encarando as lajotas quebradas no chão, se pondo cabisbaixo e seguindo a figura de sobretudo.

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