Capítulo 65
As luzes à distância pareciam interagir com as nuvens, os prédios que partiam do chão pareciam como alfinetes enormes que seriam capazes de furar os céus e os veículos voadores como vagalumes a distância; parecia como um vislumbre de um sonho, como um paraíso distante e inalcançável.
E lá estavam os dois jovens, ambos se limpando da lama que estavam agora pouco cobertos e perto deles, o buraco feito no chão sujo do topo daquela construção.
Karoline suspirava ao ainda tentar limpar a lama de seu cabelo, seus cantos franzidos demonstravam que ela certamente não estava muito feliz.
Demian estava sentado, ainda sujo de lama, mas agora sentado na beirada e olhando para o horizonte.
— Acha que realmente vai ser preso? — a voz de Demian chamou a atenção de Karoline.
A jovem fazia um rabo de cavalo com seu cabelo arruinado, mas em seguida também se sentando ao lado do jovem.
— Eu não sei, eu decidi procurar você assim que soube — a jovem respondeu com um suspiro. — Só não sabia que seria recebida assim…
Demian se manteve calado por um segundo enchendo as bochechas de ar, deixando as pálpebras caídas e finalmente deixando o ar sair.
— É, foi mal…
— O que deu em você? Por que me atacou?
— Eu não sei — disse Demian ao olhar para o chão, o local não era muito alto e ele conseguia ver sua bicicleta. — Acho que fiquei com medo.
Karoline parecia irritada, mas ao ouvir isso ela mudou o semblante, agora ele apenas encarava o horizonte com compreensão.
— Eu sei como é…
Demian grunhiu, não de forma sarcástica, mas de descrença.
— Sua vida é perfeita; você é filha de um Defensor, tem poderes incríveis, tem dinheiro, é bonita e popular — o jovem respondeu quase com um sussurro. — Como você poderia saber?
A jovem parecia tremer, Demian olhou em sua direção, e então viu que ela estava rindo, de forma contida até deixar a gargalhada fluir por todo o seu ser.
Ele encarou com uma sobrancelha levantada: a jovem ria até lágrimas escorrerem por seus olhos.
— É assim que parece do outro lado da vitrine? — questionou a jovem ao limpar as lágrimas de seus olhos. — Nem eu sabia que minha vida era tão boa assim…
— Vai me dizer que é mentira? — Demian perguntou ainda com descrença.
A jovem se manteve olhando em direção às luzes no horizonte, o brilho refletido em seus olhos verdes transmitiam um ar de melancolia.
Ela inicialmente hesitou em responder, mas respirou fundo e deixou escapar um longo suspiro.
— A realidade é que eu me sinto como um extra terrestre.Demian torceu o lábio e inverteu as sobrancelhas.
— O que…?
Karoline sorriu, não olhando em direção do jovem.
— Eu sinto como se eu não pertencesse a lugar algum — ela respondeu balançando os pés e entrelaçando os dedos. — Mas sinto que treinei tanto o jeito que as pessoas agem, que agora eu consigo vestir-me como um ser humano e apenas fingir.
O vento bateu balançando os poucos fios de cabelo da jovem que não estavam cobertos de lama. E o silencioso som da cidade foi ensurdecido por um mero grilo que começou a cantar.
Demian parou de olhar para a garota e também olhou em direção de Tlamanalli.
— Eu vim para Nova Atlântida com a minha mãe — Demian disse ao passar a mão por seu pulso direito, sob sua artéria. — Viemos para cá depois de… muita coisa…
O jovem respondeu com a voz embargada, Karoline olhou em sua direção e notou seu semblante levemente abatido.
— O que importa é que minha mãe só tem a mim, e eu pensei em desistir — os dedos de Demian afundaram sob o seu pulso mas rapidamente foram removidos. — Eu me odiei por isso, por ser fraco quando ela sempre foi forte e fez tudo por mim.
O grilo continuava a cantar e o vento a soprar.
— Quando eu descobri que era um aprimorado, eu não sabia o que fazer — Demian também começou a balançar os pés. — Eu sei como as coisas são, se você não for um filho de um aprimorado, você praticamente não vai mais ver sua família e eu não podia fazer isso com ela…
— Então, Tyx te ajudou com isso?
— Mais que isso, ele me ajudou com um monte de coisas, por isso simplesmente ver ele ser preso e não poder fazer nada… — Demian respondeu fechando os olhos e suspirando.
— Por isso que você não tem um EPIC e eu não achei nada sobre você fora o que Tyx me passou… — Karoline disse para si mesma em realização.
— Eu pedi que eu não fosse integrado de forma oficial — Demian respondeu com um sorriso torto. — Até porque tecnicamente eu nem sou um aprimorado…
Karoline levantou uma sobrancelha, olhando em direção de Demian.
— Como assim?
— Bom, eu não tenho um estigma.
— Você não tem um IVP?
— Nope!
— Mas como isso é possível?
Demian deu de ombros com um sorriso desconcertado.
— E o que exatamente é isso? — Karoline perguntou ao olhar para as veias aparentes em seu braço e a pele ressecada.
— Eu não sei explicar muito bem, só que parece que meu toque é capaz de corroer as coisas — Demian respondeu pegando um pequeno pedregulho. — Quando eu faço isso em objetos, eles viram pó, quando eu faço em seres vivos acontece isso.
O pequeno pedregulho se transformou em poeira em instantes e a poeira esvaiu até desaparecer.
— Então meu braço vai…?
— Não, não! É temporário, geralmente volta ao normal em algumas horas… — Demian respondeu rapidamente balançando as mãos. — Tyx me fez testar diversas vezes nele.
Karoline suspirou em alívio, sorrindo ao colocar a mão sobre o peito.
— Tem certeza que você não é um mutado?
— Tyx testou várias coisas em mim, mas nada funcionou, então ele disse que eu não era um aprimorado.
Karoline apenas acenou a cabeça positivamente, voltando a olhar para a cidade a distância.
— Por que você procurou por mim?
— O que? — Karoline perguntou.
— Você disse que veio direto até mim quando descobriu sobre Tyx — Demian olhou em direção da garota novamente. — Por que?
— Eu não sei — a jovem respondeu olhando para baixo. — Eu realmente não sabia o que fazer, só imaginei que você poderia estar na mesma situação que eu.
— Entendo.
— Eu realmente estou perdida agora, Tyx disse que eu saberia fazer a coisa certa quando a hora chegasse.
Demian silenciou-se por um momento, se colocou de pé e então, com um olhar determinado ele encarou para a cidade.
— Então ele tem um plano, ainda temos como ajudar ele!
— Como? Ele não explicou nada…
— Deve ter a ver com a nossa equipe, o que você sabe?
— Não muito, Tyx já foi condenado, mas…
Demian piscou os olhos e encarou a jovem que estava pensativa.
— Mas?
— Existe o julgamento de Black, e eu fui convocada a comparecer e participar. — a jovem respondeu olhando para Demian.
— Acha que ele estava se referindo a isso?— Talvez — a jovem também se pôs de pé. — mas não saber está me deixando louca.
— Você só precisa confiar em si mesma. — Demian respondeu encarando a garota.
Ela respondeu com um olhar de estranheza.
— Isso é estranho vindo de você…
— Se Tyx disse que você consegue, então eu acredito nele — Demian respondeu com seriedade. — E se ele acredita em você, eu também acredito, nós não podemos decepcionar ele, ele está contando conosco!
A jovem deixou escapar um leve sorriso, passando as mãos no seus shorts para tentar limpá-las.
— Então, estamos juntos nessa? — a jovem perguntou oferecendo uma mão. Demian olhou para a mão, desta vez ele não hesitou e aceitou, apertando a mão.
— É claro, pelo Tyx. — Demian respondeu com um sorriso que logo ficou torto. — Mas isso só depois do pagamento…
— Pagamento? — Karoline perguntou inclinando a cabeça.
— Sim, Tyx me pagava pelo meu tempo — Demian disse coçando atrás de sua cabeça — Você vai me pagar também, não é?
Karoline fechou os olhos e demonstrou um sorriso raivoso e firmou o aperto, o que fez Demian recuar um pouco.
— Tudo bem, eu vou pagar você.
— Então, estamos juntos nessa. — Demian respondeu ao soltar a mão da jovem e balança-lá. — Como você tem um aperto tão firme?
A jovem apenas riu e deu um leve soco no ombro do rapaz.

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