Capítulo 114: Pelo preço certo
Agora que sobrou só os esqueletos jogados ao redor da brasa, cada um, tenta se acomodar de uma forma.
Adão se transforma de deita por cima da túnica. Helvetia não consegue evitar olhar novamente para a armadura dele. Shymphony finca seu escudo bem firme no chão e se senta de costas para ele, sem semblante de paz faz parecer que nunca saiu de Atlântis.
Sarah se senta ali mesmo na terra avermelhada, de pernas cruzadas e apoiando a cabeça na palma de uma mão, tira a adaga da cintura e fica a observando enquanto a movimenta no ar.
Vendo ela fazer isso, Helvetia se senta de frente para ela, mas um pouco distante.
— Ficou com tanto cheiro assim? — Helvetia indaga olhando para adaga.
— Se eu sair por aí com cheiro de peixe, vou virar uma isca. — Sarah responde ainda olhando para a adaga com olhar vago e sereno.
— Bom, vamos esperar ela secar, e descer o rio para encontrar uma passagem mais segura. — Helvetia corre o olhar para esquerda e para cima, e vislumbra a túnica de Sarah pendurada em um galho e banhada pela luz do sol.
Sarah corre o olhar um pouco pelo ambiente, primeiro vê Adão movendo sutilmente as orelhas mesmo de olhos fechados, depois vem Helvetia que está sentada toda largada e olhando para sua adaga, ela nem disfarça, e por fim Shymphony de olhos fechados parece roncar sutilmente, isso tira um sorriso de boca fechada dela que volta a olhara para adaga.
— Eu posso segurar ela? — Helvetia se aproximou um pouco mais sem ser vista.
— Não recomendo. — Sarah agora olha mais diretamente para os olhos alaranjados.
— Porquê? — Helvetia faz um bico com a boca para o lado.
— A última pessoa que tentou empunhar, teve a mão toda queimada. — Ela volta a olhar a adaga balançar sutilmente na palma da mão. — Por algum motivo, eu consigo…
Helvetia encara aquele olhar sereno e distante, e respira fundo.
— Mas se quiser tentar, talvez consiga. — Sarah estende a mão oferecendo aquele metal preto enquanto volta a olhar diretamente.
Sem dizer uma palavra, ela se aproxima um pouco mais para olhar mais de perto. Após analisar cada centímetro em poucos segundos, volta a se afastar.
— Melhor não! Preciso de minhas mãos para ganhar a vida. — Helvetia sorri timidamente vendo ela retornar a adaga para perto.
— Eu estive pesando. — Sarah começa a falar olhando para baixo, mas vai subindo até encontrar os olhos analisadores de Helvetia. — Pollos e Nova são muito bons em fazer armaduras. Mas pelo que disseram, fazer armas não é muito a deles.
— Parando para pensar, não me lembro de armas forjadas por eles. — Então o olhar de Helvetia se abre mais do que costume. — Isso significa que meu mercado tem menos competidores do que imaginava. — Ela coloca a mão na boca enquanto olha para o chão.
— Eles falaram que você é muito habilidosa em fazer armas. — A voz dela soa como uma melodia divina nos ouvidos de Helvetia.
— Eu realmente sou muito boa no que faço. — Agora ela assume uma pose quase de soberba com um sorriso confiante e peito estufado.
— Queria que fizesse uma para mim.
O olhar de Helvetia muda automaticamente ao ouvir. Já começa a olhar o porte físico dela e observar novamente a armadura e a capa preta que se estende por cima dos ombros e cai para trás até o chão.
— Adagas são muito boas para furtividade e execuções limpas. — Helvetia começa a explanar com olhar vago em meio aos detalhes do couro escuro no peitoral de Sarah. — Mas quando se trata de enfrentamentos mais diretos e terrenos mais abertos, o alcance e as possibilidades são bem reduzidos.
— Eu paguei caro por isso. — Sarah termina de falar tirando a bota e desprendendo a armadura de couro da perna esquerda. Então levanta a barra das calças o suficiente para mostrar a cicatriz em sua coxa.
Helvetia repara primeiro em como a perna dela é bem torneada, mesmo estando relaxada.
— Uma facada?
— Uma baita de uma facada. — Sarah até lança um olhar de relance para Shymphony e volta para Helvetia enquanto coça a coxa com as unhas.
— Um ferimento bem fechado como esse, só pode ter sido ele. — Helvetia mais murmura do que fala. Sarah a encara com um sorriso de boca fechada.
— Então, o que me diz? — Sarah até assume um tom mais barganhador.
— Pelo preço certo, tudo se resolve. — Helvetia também assume uma postura mais centrada, e o tom de voz mais controlado.
— E quanto vai custar?
— Primeiro preciso saber qual é a arma que deseja.
Nesse momento sara faz uma expressão de leve surpresa e solta uma bufa de ar e um leve sorriso.
— Verdade! — Ela responde colocando a mão no rosto.
Então ela deixa seu corpo cair um pouco para trás, e apoiando as mãos para trás, começa a encarar as folhas e galhos congelados acima.
— Se eu tivesse visto você lutar, poderia sugerir algo. — Helvetia volta a encarar a adaga agora dormindo ao lado da perna esticada.
Sarah em silêncio, continua olhando para o alto, seu cabelo caído começa a balançar um pouco com uma leve brisa rasteira.
— Até o fim dessa missão eu terei uma ideia melhor. — Helvetia exclama enquanto se levanta.
Enquanto se recompõe e volta a equipar a armadura e a bota, Sarah observa Helvetia ir até onde sua túnica está e começar a tateá-la, e depois tirá-la do galho e voltar com ela em mãos enquanto a cheira de leve.
— Acho que já podemos partir. — Helvetia termina a fala estendendo a mão com a túnica.
— Obrigada! — Sarah sorri gentilmente enquanto a pega. O que faz Helvetia ficar um pouco sem jeito.
— Mas sendo bem sincera. As melhores armas que eu faço, são bem incomuns. — Helvetia vai se virando em direção a fogueira.
Sarah a encara com em silêncio enquanto coloca a túnica.
— Eu costumo usar madeiras de árvores raras, ossos e presas de animais que encontro em minhas jornadas. — Ela se abaixa e começa a pegar os esqueletos do que sobrou dos peixes e jogar em cima da brasa já toda branca.
— Você não faz com metal? — Sarah a indaga se aproximando para ajudá-la.
— Também faço, mas tirando aquele escudo ali, — Ela lança um olhar de relance para Shymphony e volta para brasa. — Os metais que forjam por aí são bem mais fracos que algumas partes de animais selvagens. — Helvetia agora se aproxima do monte de terra ao lado e começa a joga-lo no buraco.
— Acho que já li algo assim. — Sarah vai retirando os galhos fincados e as pedras do entorno.
— No futuro. — Helvetia sussurra para si mesma. — Em seu tempo, tem muitas armas feitas assim?
— Se bem me lembro, não são muitas. As pessoas não costumam sair além da fronteira, então não encontram muitos animais de nível maior que normal.
— Nível?
— Existe a guilda dos caçadores, e eles são responsáveis por classificar animais e monstros. — Sarah explana enquanto joga os galhos em uma moita.
O barulho faz Adão e Shymphony olharem para elas e perceberem o que está na hora de partir.
Infelizmente aquele momento de paz e sucesso chega ao fim.
É hora de voltarem a realidade cruel deste lugar.

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