Capítulo 6.5: Inspiração
Mais cedo na Guilda dos caçadores — Zona 47
Em uma sala no segundo andar, uma mesa retangular feita de carvalho rústico ostenta um tom mais negro que o comum para aquela madeira. Ao seu redor, três homens e três mulheres cobertos por um manto negro, estão sentados e olhando para alguns papéis em suas mãos.
Então um sétimo membro aparece. Um homem coberto por um manto igual ao dos outros, mas o dele exibe um tom mais cinza-escuro. Ele se senta a ponta da mesa e tira o capuz revelando um cabelo tão cinzento quanto seu manto e um tapa-olho feito de couro do lado esquerdo. Então começa a falar.
— Já que estamos todos aqui, vamos começar. Primeiro você Miriane. — A voz dele ecoa suave e serena.
— Boa tarde Mestre Apis! — Primeiro ela encara o olhar negro dele enquanto ele retribui um gesto sutil com a cabeça, então retoma para às duas folhas sobre a mesa. — Esse ano tenho duas indicações para fazer parte do programa de estágio da guilda. O primeiro é um jovem chamado Lonobliqua, ele apresenta um desempenho acima da média nas matérias em geral, e um grande conhecimento sobre venenos. Isso se deve aos pais dele que já são caçadores de nível intermediário.
— Quem são? — Miguel, o professor da escola de Sarah, também está ali. Ele questiona enquanto encara o cabelo castanho-claro dela.
— Lanata e Dirphia.
— Aqueles dois realmente ficaram juntos? — Miguel deixa as palavras escaparem.
— De fato, eles são muito bons com veneno e armadilhas. — Apis fala enquanto olha para alguns detalhes na mesa a frente. — Aprovado.
— O segundo se chama Kandai. — Antes que possa continuar ela é interrompida.
— Esse não é o filho de Jaziel? — Apis a questiona.
— Sim, ele mesmo — Miriane responde já colocando um papel sobre o outro e deixando seu olhar se perder na madeira da mesa a frente.
— Então o filho do líder do clã mais forte enfim cresceu. — Um homem chamado Stuquer, sentado ao lado de Miriane entra na conversa.
— Engano seu, o clã mais forte se chama Górgonas Douradas — Uma mulher chamada Miuri, que está sentada do outro lado de Miriane pontua em um tom mais alto enquanto fecha o punho na frente do rosto.
— Você sabe muito bem que os Grifos do Norte são os maiores. — Stuquer até se vira na cadeira deixando na direção dela já com uma expressão mais séria, seu cabelo cumprindo e loiro sacoleja junto.
Miuri também se vira na direção dele já lançando um olhar cortante. Miriane até se debruça sobre a mesa tentando sair do fogo cruzado.
— Se acalmem por favor! — Apis não vê alternativa a não ser intervir com a voz um pouco mais elevada. — Todos sabemos que os Anhangás do Vale estão no topo.
Essa fala dele iniciou uma discussão fervorosa entre até aqueles que estavam só observando. Apis sorri de forma disfarçado enquanto escuta cada um sobrepor o outro em seus motivos para dizer que seus clãs são os melhores.
Miguel e Miriane se encaram e sorriem em silêncio.
Depois de alguns minutos, todos estão mais calmos e a reunião continua. Outros membros falam e revelam suas indicações, todos eles são meninos.
— Miguel, vejo que você tem três papeis, muito raro sua escola ter mais do que uma indicação. — Apis até levanta um pouco a cabeça para ver se consegue ler algum dos nomes, mas Miguel coloca as folhas em pé e empilhadas para frustrá-lo.
— Esse ano é uma exceção, mas garanto que eles são mais que qualificados. — Miguel começa a falar enquanto observa de canto Apis relaxar os ombros e soltar o ar. — O primeiro se chama Sebastian, ele é o aluno com as segundas melhores notas nas aptidões físicas e combate, seja com armas de fogo ou armas brancas. — Ele pausa a fala e suspira um pouco, então retoma. — Seu pai era um dos caçadores que desapareceram no Deserto da Criação… Segundo relato de um sobrevivente, foram capturados pelos androides.
Nesse momento o olhar de todos fica baixo e longínquo, alguns até mordem os próprios dentes.
— Uma motivação forte e notas exemplares. É promissor. Aprovado. — Apis estica a mão para pegar a folha de Miguel e dar uma olhada mais de perto, depois a junta com as demais que estão empilhadas a sua frente.
— O segundo é uma menina… — Nesse momento, o olhar de todos se volta para ele com atenção. — … se chama Iris. — Os pelos no braço de Apis até se arrepiam ao ouvir esse nome, mas quem ousa falar é um homem sentado ao lado chamado Travis.
— Ela realmente vai seguir esse caminho… — Travis coça a nuca, afogando os dedos em meio aos fios curtos e negros.
— Você tem certeza dessa indicação? — Apis fala com olhar mais sério e encarando Miguel. — Todos nós sabemos onde isso vai acabar.
— Eu me oponho a essa indicação! — Miriane até se levanta enquanto também encara Miguel com seriedade. — Ela vai morrer com certeza!
Miguel respira fundo e olha no fundo dos olhos dela.
— Vocês estão certos em se preocuparem, com certeza aquela menina, um dia vai querer entrar na masmorra do abismo. Mas até ela ter a permissão para isso, vai ter que escalar muito na guilda, até lá, eu mesmo ficarei encarregado de observa-la e treina-la até onde me compete. — Ele termina a fala vendo Miriane voltar a se sentar já um pouco mais calma.
— Mesmo assim, naquele lugar só tem morte… — Ela solta as palavras ao ar já quase como sussurros.
— Sem contar que ela provavelmente passou por um despertar naquele dia. Apresenta a terceira melhor nota geral em aptidão física, e um vasto domínio das mais variadas armas de curto e médio alcance. E já sabe preparar muitas iscas usando plantas. — Ele retoma sua fala olhando para Apis.
— Eu cheguei a encontrar eles algumas vezes, eram uma família bem unida, o pai e a mãe eram bons coletores e vendiam ótimas flores. — A última dos integrantes da mesa, uma mulher que está sentada ao lado de Miguel, fala com a voz baixa e olhando para alguns detalhes na mesa a sua frente. — Ela sempre estava junto deles sorrindo e brincando. — Seu cabelo cinza-escuro está caído para frente e tampa parcialmente seu rosto, mas seus olhos azuis ainda se destacam. — Quando soube daquela tragédia, torci para ela seguir o mesmo caminho dos pais…
— Se for mesmo uma desperta através do trauma, as chances que ela suba de nível na guilda em tempo recorde são bem grandes, sem contar que faz alguns anos já que não temos uma mulher novata na guilda. Ela pode se tornar um exemplo para as novas gerações de meninas. — Apis explana seus pensamentos com o olhar distante e voltado para o teto, então vê Miguel esticar o papel dela para ele pela visão periférica. Após dar uma olhada ele retoma. — Essas notas realmente são boas. Aprovada.
O olhar de todos fica mais neutro depois de toda essa conversa.
— E por último, mais uma menina. — Novamente Miguel volta a chamar a atenção de todos. — Mas esse é um caso peculiar, ela não assinou nenhum dos campos.
Ele solta o ar e sorri de leve, fazendo de certa forma o clima do ambiente até ficar mais leve. Os olhos de Apis até se abrem um pouco mais que o normal.
— O nome dela é Sarah, tem as melhores notas em aptidões físicas. Com armas de fogo, seu score de acerto passa dos setenta porcento. Já com armas brancas seu desempenho é abaixo da média. Mas ela se destaca em um nível que nunca vi antes em combate corpo a corpo, diria que ela é capaz até de derrubar um adulto dependendo da situação. Sem contar as capacidades de observação dela que estão bem acima da média. — Miguel até se perde em pensamentos enquanto estica a mão para entregar a folha dela.
— Realmente é um caso muito raro este aqui. Da até para afirmar que ela é a mais promissora que já vi em todos esses anos de Caçador. — Apis nem consegue tirar o olho do papel enquanto fala. — Infelizmente não posso aprovar alguém que nem se quer nos escolheu. — Ele sorri enquanto lê o que ela escreveu. — Mas, se ela mudar de ideia, as portas da guilda sempre estarão abertas para quem quer se tornar um de nós.
— Posso fazer uma sugestão? — Miguel solta as palavras em direção a ele.
— Fique à vontade!
— Semana que vêm, teremos uma prova prática da nossa disciplina lá na escola, e aqui na guilda ocorrerão algumas avaliações de Neófitos, gostaria que esses nomes que eu indiquei mais outros dois promissores, pudessem acompanhar de longe alguma dessas avaliações. — Miguel explana seus pensamentos ainda olhando diretamente para Apis.
— Se eu não tiver enganado, foi assim que você entrou na guilda certo? — Apis indaga Miriane.
— Sim, estava indecisa, mas após acompanhar uma dessas avaliações eu acabei decidindo entrar para guilda. — Miriane o responde com olhar neutro e ainda pensativa.
— Muito bem! Nada mais justo que você os acompanhar, pode ser? — Apis a indaga e também olha para Miguel.
— Por mim, tudo bem, ela é a mais capacitada de nós para isso. — Miguel responde enquanto observa o cabo da espada dela nas costas da cadeira.
— Tudo bem, assim eu já aproveito para dar uma olhada mais de perto na Iris. Mas já vou avisando. Se eu achar que ela não é qualificada, eu vou entrar com um pedido de exclusão do nome dela do programa de estágio. — Miriane deixa suas palavras no ar, enquanto já vai se levantando. Junto dela os demais também se levantam.
— Bom! Encerramos aqui nossa reunião. Vou repassar os nomes e as situações para a central. Espero que tudo ocorra bem, a guilda está precisando de sangue novo mais do que nunca. — Apis é o primeiro a sair da sala após sua fala. Em silêncio, os demais saem um por um.
Algumas horas depois, em uma sala menor ainda na guilda, Apis está segurando um celular enquanto fala. — Chefe, quero fazer uma indicação para o nosso clã. — Ele fica em silêncio enquanto escuta por alguns segundos e depois retoma. — Eu sei que não estamos aceitando ninguém no momento, mas ela é filha daquele casal que morreu na Masmorra do Abismo. — Volta a só escutar e retoma. — Existe a possibilidade de ser uma desperta, seria uma grande aquisição para o nosso clã, sem contar que já estava nos planos explorar aquela masmorra mesmo. — Mais um pouco de silêncio enquanto lança um olhar longínquo novamente para o papel. — Ok, vou lhe deixar a par da evolução dela. Muito obrigado e boa noite.

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