Índice de Capítulo

    O sangue quente escorre pela perna de Rubi. 

    A garra-cinza que acaba de atacá-la a encara, enquanto flexiona as pernas, preparando-se para um novo ataque. Os sons das passadas pesadas do Senhor das Garras ecoam ao fundo, como um tambor constante vindo da frente. 

    Hora de me mover, pensa a diaba, sentindo-se cercada.

    A succubus desloca-se pelo ar, indo para a esquerda como um movimento veloz de suas asas. A ave próxima, como um gatilho, começa a correr atrás dela na mesma hora.

    Rubi escuta o movimento do pássaro, seguindo-a avidamente com passos ágeis no solo. Isso. Desse jeito mesmo, pensa ela.

    A succubus muda levemente sua trajetória, curvando-se mais à esquerda ainda, tornando seu voo quase circular. 

    A garra-cinza a acompanha, o pescoço esticado para frente, com a imagem da diaba refletindo nas retinas, pouco a pouco aproximando-se. 

    Em poucos segundos, Rubi completa a volta e o pássaro cinzento que a persegue se encaixa perfeitamente entre ela e o Senhor das Garras ao fundo.

    Ainda no ar, a diaba se vira e dispara seu projétil verde, atingindo a garra-cinza praticamente no mesmo instante. 

    Com a atenção totalmente focada em Rubi, a ave nem percebe a flecha acertando-a no meio da testa. A travessia acontece em um instante, passando pela cabeça, cruzando o corpo e saindo pelas plumas da cauda, deixando apenas um rastro verde, similar a uma névoa, para trás. 

    Em um instante, os músculos do pássaro perdem toda a força. O pescoço fica mole e os passos perdem o sincronismo. Os olhos ficam tortos, sem foco, e fecham-se. Os ferimentos acumulados fazem o corpo sucumbir no chão em plena corrida, como se simplesmente desligasse.  

    Diferente da garra-cinza, a flecha continua se movendo pela floresta, indo de encontro ao grande pássaro no fundo, acertando-o na coxa. 

    Assim como antes, o projétil adentra por um lado e sai por outro. A perna fraqueja, cambaleando durante o caminhar, mas, diferente do outro pássaro, o Senhor das Garras não tomba diante do ferimento. 

    Ele para seu avanço e agora seu foco é direcionado totalmente a Rubi. A cauda emplumada brilha sutilmente, com uma luz branca e fraca. 

    Isso não é bom, pensa a diaba, preocupada. 

    Subitamente, a criatura gira o corpo e chicoteia a cauda no ar na direção de Rubi. Um estalo potente ecoa. Dezenas de pedaços das penas se desprendem da ave e vão rapidamente em direção à succubus como uma onda de agulhas reluzentes.

    Rubi, diante de uma nuvem pontiaguda, manobra-se no ar em uma esquiva. As asas rapidamente movem-se para cima, fazendo-a instantaneamente perder altura.

    A grande maioria das penas passa por cima dela, algumas poucas, desgarradas, acertam-na nos ombros e no abdômen, perfurando sua camisa.

    O restante segue até acertar nas árvores ao fundo. 

    Poucos momentos depois, todas elas, inclusive as cravadas na diaba, perdem o brilho e a rigidez, e logo desfragmentam-se em farelos.

    Rubi leva a mão ao abdômen, sentindo a perfuração ardendo. Isso doeu, mas ainda poderia ter sido bem pior, pensa ela. Não é à toa que ele é o líder deles. Pelo menos uma das pequenas caiu nisso.

    O Senhor das Garras volta a caminhar. Com os olhos focados na succubus, dirige-se diretamente a ela. Pouco a pouco, aumentando o ritmo dos seus passos controlados, transformando-os cada vez mais em uma corrida. 

    Considerando que aquela flecha não causou um grande estrago visível, ele deve ter uma quantidade boa de resistência mágica, analisa a diaba. Ainda assim, por aquela reação, dá pra ver que ele sentiu e que não gostou nada. 

    Mais adiante, Byron, de frente a duas garras-cinzas ferozes, percebe a movimentação do grande pássaro. 

    Preciso que ele também mantenha o foco em mim, pensa o demônio. 

    Ao invés de atacar as aves diante dele, Byron abre asas imensas e membranosas, espalhando brasas no ar. 

    No mesmo instante em que o demônio faz menção de alçar voo, as garras-cinzas reagem. 

    Uma estufa o peito e libera o crocitar estridente em sua direção, tentando atordoá-lo, e a outra o ataca com uma patada, com as garras curvadas como uma pinça, prontas para agarrar.

    Apesar de ouvir o grito ecoando fortemente à queima-roupa, Byron não é atordoado. E, antes do demônio começar a voar, ele ainda brande a espada contra a ave que o ataca. As unhas afiadas são refletidas pela espada sem nem mesmo tocá-lo. 

    O tilintar, quase metálico, das garras tocando o metal reverbera e Byron bate as asas, erguendo-se no ar com um lufar de vento poderoso.

    Byron avança na direção do enorme pássaro. “Terá que me derrotar antes de tocá-la com suas garras!”, declara ele. 

    O demônio gira o braço, a arma estendida em um golpe feroz. Apesar do tamanho colossal, o Senhor das Garras interrompe o avanço e salta para o lado, evitando o ataque com uma agilidade surpreendente.

    A criatura, quase com o dobro do tamanho do Behemoth, aterrissa com um baque seco que sacode a terra e, sem hesitar, responde à investida.

    O Senhor das Garras ergue uma das patas e ataca. As unhas, mais semelhantes a estacas, avançam direto contra o peito do demônio.

    Byron tenta se esquivar, mas a patada veloz o atinge. As unhas perfuram o tórax, e a pressão do ataque o joga contra o chão.

    Mesmo ferido, a tenacidade do demônio persiste. Ele curva as pernas para baixo e cai firme, flexionando-as para amortecer o impacto e se manter de pé. 

    Com a mão livre, segura o pé que pressiona as unhas contra seu peito e começa a empurrá-lo para longe. 

    Enquanto ele luta para suportar a dor das feridas e o peso da imensa criatura sobre si, escuta os passos das duas garras-cinzas aproximando-se, vindo pelas costas, correndo sem parar. 

    Apesar do momento difícil, Byron sorri. Isso. Venham. Deixem que eu seja seu alvo, pensa ele, exalando cinzas pelas narinas. 

    O Senhor das Garras sente o calor emanado por Byron e mantém a pressão sobre o diabo, tentando derrubá-lo de vez, mas a obstinação e a força do demônio impedem-no de tombar. 

    Os olhares impetuosos dos dois seres monstruosos se cruzam. Cada um força o próprio corpo até o limite, músculos retesados, empurrando o outro em uma disputa bruta de força.

    De repente, outro projétil verde silva pela floresta, rumando para o grande pássaro. 

    A flecha o acerta diagonalmente pela parte direita das costas, atravessa o corpo e sai silenciosamente pela base do pescoço, desaparecendo em seguida ao cravar-se na terra.

    O Senhor das Garras sente dentro de si. Os olhos arregalam-se com a dor e a surpresa. 

    Naquele momento, os músculos e a concentração do pássaro vacilam e Byron percebe de imediato, sorrindo ainda mais. 

    O demônio arremessa a pata do monstro para trás, livrando-se das garras que o mantinham preso. Byron aproveita a abertura e, como um soldado treinado, ergue a espada e se vira, entrando em prontidão contra as outras aves que vêm ao seu encontro.

    O Senhor das Garras, empurrado, recua um passo.

    Do alto, Rubi os observa, suspirando aliviada. Ele precisa mesmo se arriscar assim o tempo todo?, ela se pergunta. Mas não posso tirar o mérito, agora posso focar totalmente nele.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota